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Será
que a loucura pode ser provocada por excesso de lucidez?
Douglas R. Hofstadter, no seu livro Gödel, Escher,
Bach (Prêmio Pulitzer) brinca com a idéia de um
computador cujo hardware não é capaz de suportar o seu
software e se desintegra ao tentar executá-lo. Talvez
que isso não possa acontecer com computadores mas possa
acontecer com seres humanos: a estrutura física
nervosa, não sendo capaz de suportar a riqueza da vida
mental que nela existe, se desintegra como um vaso se
quebra por não conseguir conter a exuberância da
fonte. Nietzsche tornou-se insano no início do ano de
1889, vindo a morrer 11 anos depois, no dia 25 de agosto
de 1900, há cem anos, portanto. Seu corpo foi frágil
demais para conter sua mente imensa.
Nietzsche é o filósofo que mais amo. Dizia ele só
amar os livros escritos com sangue. Seus textos são
escritos com sangue, sangue sob a forma de palavras. Bem
que ele poderia dizer: “Hoc est corpus meum“,
isso é o meu corpo. Por isso eu o leio
antropofagicamente. É impossível lê-lo e continuar o
mesmo. Suas palavras não são para a cabeça; são para
as entranhas. Eu o sinto circulando no meu corpo. E eu
sei que isso é assim porque ao lê-lo me ponho a
sorrir, sou possuído pela alegria, viro criança. O que
está muito de acordo com as suas intenções.
Filósofo? “Sou um discípulo do filósofo Dionísio“,
confessou no prefácio de Ecce Homo. Mas
Dionísio é tudo, menos filósofo. É o deus do vinho,
do êxtase, da música que se apossa do corpo inteiro,
por oposição a Apolo, que se contenta com o olhar
distante. Um professor da universidade de Berlin, após
ler os seus textos, e sem ter entendido coisa alguma,
escreveu-lhe aconselhando-o a tentar um outro estilo:
ninguém leria as coisas que ele escrevia. Mas o seu
estilo, precisamente, é o essencial da sua filosofia.
Nietzsche desejava ser músico. Tentou ser compositor. Não
conseguiu. Incapaz de fazer música com sons, fez música
com palavras. O que se constitui para os filósofos acadêmicos
um problema sem solução, semelhante ao da quadratura
do círculo. Pode-se representar um círculo por meio de
quadrados? Pode-se comunicar a música da prosa
nietzscheana por meio do estilo acadêmico, que só
entende a letra da linguagem, sendo surdo para a sua música?
Filósofo? “Talvez eu seja apenas um bufão“, ele
observou. Ele se sabia um exilado, clandestino:
“Assim, para fora da minha verdade-loucura eu
mergulhei... Que eu seja exilado de toda a verdade!
Somente um tolo! Somente um poeta...“
Sua filosofia nasceu da doença. É ele mesmo quem diz:
“Somente a minha doença me levou à razão.“
Confissão que parece dar razão aos que não conseguem
digeri-lo. E concluem: “Filosofia doente, portanto“.
Errado. Doença, a possibilidade da morte, nos conduz
aos pensamentos essenciais. “Tenho a lucidez de quem
está para morrer“, dizia Fernando Pessoa no
“Tabacaria“. E Nietzsche explica: “Eis como me
aparece agora aquele longo período de doença: como se
eu tivesse redescoberto a vida, inclusive a mim mesmo;
eu provei todas as coisas, as boas e mesmo as pequenas,
de uma forma como os outros não podem facilmente
provar. Transformei, então, a minha vontade de saúde,
minha vontade de viver, numa filosofia.“
Nietzsche declarou que um dos seus grandes prazeres, ao
lado das longas caminhadas, era a música de Schumann.
Schumann era um especialista em miniaturas: “Cenas da
Infância“, “Cenas da Floresta“, “Carnaval“:
colagem de pequenas peças, cada uma completa em si
mesma. Quem não conhece a “Träumerei“? Pois o seu
estilo é igual ao de Schumann. O seu gosto pelos
aforismos e textos curtos são expressão do seu horror
aos sistemas que pretendem abarcar tudo. A busca de um
sistema lhe parecia falta de integridade. Assim falou
Zaratustra bem que poderia ter o título de
“Cenas“, talvez mesmo de “Carnaval“, tendo o
“monstro Dionisíaco chamado Zaratustra“ como bufão
central.
Zaratustra, seu herói, é uma encarnação plástica do
que ele desejava ser. Descendo das montanhas onde
passara dez anos de solidão, Zaratustra se encontra com
um eremita que vivia numa floresta e por quem passara
dez anos antes, quando subia. O eremita se espanta:
“Sim, reconheço Zaratustra“, ele diz. “Seus olhos
são puros, em sua boca não se esconde nenhum desgosto.
E não anda ele como um dançarino? Zaratustra mudou,
Zaratustra se tornou uma criança. Zaratustra ficou
iluminado.“
“Anuncio o ‘Übermensch‘“, ele proclama.
“Super-homem“: traíram os tradutores. Nada mais
distante do espírito de Nietzsche. Um homem “super“
é apenas um homem com suas qualidades hipertrofiadas, a
mesma mediocridade tornada “super“. O “über“,
em Nietzsche, corresponde ao nosso “trans“, como em
transbordar. “As cisternas contém; as fontes
transbordam“, dizia William Blake, o Nietzsche inglês.
Nietzsche não sonhava com tamanhos; sonhava com
metamorfoses: é preciso que as cisternas se transformem
em fontes! A exuberância não pode ser contida. E assim
traduzo eu o “Übermensch“ de Nietzsche como
o “homem transbordante“. E quem é esse “homem
transbordante“ que ele anuncia? Está lá, na sua
curta e poética “fenomenologia do espírito“ a que
ele deu o nome de “metamorfoses do espírito“.
Primeiro momento: o homem é um camelo, animal
reverente, que se ajoelha diante de uma vontade estranha
que coloca cargas em suas costas. Sua palavra: “Obedeço“.
Segundo momento, primeira metamorfose: o camelo se
transforma em leão, o animal de força e vontade, cuja
palavra é “Eu quero“! O leão se defronta com um
dragão que tem o corpo coberto com escamas douradas. Em
cada uma delas está gravado “Tu deves“. O leão
luta com o dragão e o mata. Chega, finalmente, o
terceiro momento, a última metamorfose, o ponto de
chegada: o leão se transforma numa criança. Porque uma
criança é exuberância, transbordamento de vida,
brinquedo que não acaba. Mais tarde ele irá dizer que
“o máximo de maturidade que um homem pode atingir é
quando ele tem a seriedade que têm as crianças quando
brincam“.
Suas cenas, como em Schumann, poderiam ter o nome de
“Cenas da Infância“ – variações musicais sobre
o tema “criança“. O que Nietzsche deseja é nos
seduzir a nos tornar crianças – para brincar com
ele...
(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 08/2000.)

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