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Há
um ditado Zen que diz: “Nunca mostres o teu poema a um
não poeta.“ Você me enviou os seus poemas. Isso quer
dizer que você me considera um poeta. Mas eu mesmo não
sei se sou poeta. Sei que escrevo poeticamente, porque
brinco com imagens, sons e ritmos. Mas um poema nunca me
pediu que o escrevesse. Régis de Moraes, amigo meu
poeta, disse-me que quando há dentro dele um poema para
ser escrito ele se sente como um galinha que tem um ovo
para ser botado. Eu nunca senti isso...
Você me enviou os seus poemas desejando que eu os leia.
Nada mais justo: quem escreve deseja ser lido. Mas mais
do que isso: você deseja que eu goste dos seus poemas.
E que eu diga: “Você é um poeta! Merece ser
publicado!“ Está certo: quem escreve deseja que seus
textos sejam transformados em livro.
Houve uma só vez, em toda a minha vida, em que lutei
para que um livro de poemas fosse publicado. A Maria Antônia
era minha aluna na UNICAMP. Tinha – e ainda tem –
uma carinha de menina travessa. Acho que vai morrer com
ela, a carinha travessa... Me deu um livrinho artesanal,
Fogo-Pagô, com essa dedicatória: “Rubem: eu acho você
engraçado e gosto de você e fico desejando que você
leia esse livro e ache alguma graça nele. 1 abraço.
Maria Antônia. 15.04.82.“ Amanhã completa 20 anos.
Ela não foi a primeira mulher a me achar engraçado.
Quando fui professor visitante no Union Theological
Seminary (New York, 1971) meus alunos começaram a vir
ao meu escritório, na véspera da minha volta ao
Brasil, para se despedirem. Chegou uma jovem, longos
cabelos ruivos, sardenta. Olhou-me nos olhos e disse:
“Sonhei com você...“ Sorri, imaginando o que ela
teria sonhado. “Sonhei que você era um palhaço...“
Aí meu sorriso virou riso: ela havia entendido. Sou
palhaço. E estou em boa companhia: no final de um dos
seus poemas Nietzsche disse que ele era apenas um palhaço,
apenas um poeta... O fato é que o rosto de menina
travessa e o fato de ela me haver achado engraçado me
seduziram.
“Fogo-pagô canta manso e triste
fazendo eco no fundo da gente
encavalando alegria e agonia,
que daí ficam disputando entre si
prá reinarem no peito...“
Foi amor à primeira vista porque o poema dela chamou
pelo nome certo o canto que eu ouvia sempre no meu
peito... Depois ela escreveu outros. Um deles eu batizei
e prefaciei, Ceriguela. Até que, indignado com a
dificuldade que têm os poetas para publicar seus
poemas, batalhei com o pessoal da Papirus e eles também
sentiram o que eu sentia e publicaram o Terra de
formigueiro.
Mas não me julgo em condições de avaliar poemas. Eu não
sou poeta. Assim, faltam-me as credenciais. E o pior:
falta-me tempo. Minha assessora comentou dias atrás
que, se eu fosse ler todos os textos que me são
enviados para serem apreciados eu teria que abandonar
tudo o que faço, deixar de escrever minhas coisas, e
ler sem parar, 24 horas por dia, e ainda assim eu não
daria conta... Razão por que eu nem mais aceito
convites para participar de bancas de tese. O tempo não
dá! O tempo não dá! O Drummond se viu em situação
idêntica e até escreveu um texto bravo com o título
Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz. Não, não
era a paz mundial. Era a paz dele... Ele também não
dava conta. Ele só queria ter tempo para escrever as
coisas dele e ler os livros que quisesse...
Lamento mas minha prioridade de vida é botar os meus
ovos, escrever as coisas que me dóem. Igual a um furúnculo...
Você já teve furúnculo? Incha, fica vermelho, lateja,
dói, forma aquele ponto amarelo de pus. Tem de ser
espremido. Dói para ser espremido. Mas é só através
da dor do espremer que ele pára de doer. Escrever é
assim. Um texto a ser escrito é um furúnculo que dói.
Os seus poemas dóem em você? Ficam atormentando você,
pedindo para ser escritos? Ou são simples coceiras? Só
se meta a ser poeta se seus poemas doerem muito...
Escrever poesia é um ofício terrível. Primeiro porque
há poetas gigantescos como Fernando Pessoa, Hilda
Hilst, Cecília Meireles. Segundo, porque é muito difícil
que as editoras publiquem livros de poemas. Poesia, com
raríssimas exceções, é mau negócio. Dá prejuízo.
Seus poemas nascem de inspiração? Leia atentamente
essa precisa descrição da experiência da inspiração,
feita por Nietzsche e, honestamente, diga se esse é o
seu caso. “Será que alguém, ao final do século
dezenove, tem uma idéia clara daquilo a que os poetas
das eras fortes chamaram pelo nome de inspiração? Se não,
vou descrevê-la. Repentinamente, com certeza e sutileza
indescritíveis, algo se torna visível, audível, algo
que nos sacode em nossas últimas profundezas e nos lança
por terra... A gente não busca; ouve. Não pede ou dá;
aceita. Como um relâmpago, um pensamento se ilumina de
forma irresistível, sem hesitações com respeito à
sua forma. Eu nunca tive qualquer escolha! Tudo acontece
de forma involuntária no mais alto grau, mas como uma
onda enorme de liberdade, um sentimento de algo
absoluto, de poder, de divindade.“ É assim que
acontece com você?
Se é assim que acontece com você, então, vale a pena
prosseguir. Não pelos livros que você venha a
publicar, mas pela simples alegria de... botar o seu
ovo... Mas é preciso honestidade para distinguir entre
furúnculos e coceiras...
O que melhor posso fazer é dar a você, e a todos os
que amam poesia, algumas sugestões.
Leia, em primeiro lugar, o maravilhoso livro de Rainer
Maria Rilke Cartas a um jovem poeta. São cartas de
enorme delicadeza, sensibilidade e honestidade. Rilke as
escreveu a um jovem que lhe enviara poemas de sua
autoria, pedindo que o poeta desse a sua opinião. Que
tempo maravilhoso aquele, quando o tempo andava devagar,
e havia tempo para se escrever longas cartas em papel,
com tinta, caneta, mataborrão, envelope, selo e
caminhadas até o correio... Tempo feliz aquele, quando
a chegada do carteiro era um evento grave, pois se sabia
que cartas eram, sempre, portadoras do essencial.
Leia, depois, o Manoel de Barros, poeta matogrossense...
Livro sobre nada, Livro de pré-coisas, Arranjos para
assobio, O livro das ignorãnças... O Manoel da Barros
é mestre de aforismos, afirmações curtas, marteladas
na cabeça de um prego, que desarrumam o arrumado e
fazem pensar. “Palavra poética tem que chegar ao grau
de brinquedo para ser séria”. “A terapia literária
consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela
expresse nossos mais fundos desejos.“ “Melhor que
nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.“
“Tem mais presença em mim o que me falta.“ “Quem
acumula muita informação perde o condão de
adivinhar.“ “Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao acriançamento das palavras.“ “Deus deu
forma. Os artistas desformam. É preciso desformar o
mundo: Tirar da natureza as naturalidades. Fazer cavalo
verde, por exemplo. Fazer noiva camponesa voar – como
em Chagall...“ E ler, bovinamente, ruminantemente, em
voz alta, os poetas... É preciso ler em voz alta.
Poesia não é pensamento. É música. Você sabe ler?
Claro: eu sei que você sabe ler... Mas não é isso que
estou perguntando. Estou perguntando se, ao ler, suas
palavras fazem música. E os seus poemas? Que música
fazem eles? Leia Alberto Caeiro, Álvaro de Campos,
Fernando Pessoa, Mário Quintana, Adélia Prado, Cecília
Meireles, Hilda Hilst, Chico Buarque, Vinícius...
Para terminar vou transcrever o que Rilke escreveu ao término
de sua primeira carta: “Mas talvez se dê o caso de
ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. Basta
sentir que poderia viver sem escrever para não mais se
ter o direito de fazê-lo...“
(Correio Popular, 14/04/2002)

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