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Meus
amigos que se reúnem comigo para ler poesia resolveram
que, nesse Natal, só iremos dar brinquedos e só
queremos receber brinquedos. E isso por uma razão teológica.
Todos aprendemos no catecismo que no Natal acontece o
mistério da encarnação: Deus, aquele que enche o
universo, resolveu que o melhor mesmo era tornar-se
criança. E isso para a salvação dos homens. Jesus
nasceu para nos salvar.
Salvar do quê? Aqui começam as discordâncias. Porque
a teologia ortodoxa diz que ele nasceu para nos salvar
do Inferno. Mas você acredita mesmo que Deus é um
torturador que mantém seus desafetos numa câmara de
torturas, por toda a eternidade? E ainda por cima que
ele vê e se alegra com o sofrimento dos infelizes, como
dizia Santo Tomás de Aquino? Você poderia amar um Deus
assim cruel? Quem assim se alegra com o sofrimentos dos
homens não pode ser um Deus de amor. Só pode ser o
Diabo.
Salvar de quê? Responde a Adélia Prado: ‘Meu Deus,
me dá cinco anos, me cura de ser grande!’ Perdição
é ter ficado grande. Quem ficou grande perdeu o rumo,
está na direção errada, cada vez mais longe... Pois
no Natal Deus mostra onde está a salvação: é preciso
voltar a ser criança. As crianças não precisam do
Natal porque elas já são crianças. Somos nós,
adultos, que precisamos ser salvos. O Natal é para nós,
para nos lembrarmos da felicidade perdida. E não existe
remédio mais poderoso para transformar os grandes em
crianças que um brinquedo.
Já contei que minha mãe era pianista. Ela me ensinou o
gosto pela música erudita. Mas não só. Chegou a fazer
parte de uma banda que tinha o nome de ‘Os Tangarás’.
Tangará é um pássaro que nunca vi. O Aurélio me diz
que ele tem também um outro nome: Pássaro Dançador. O
Tangará dança enquanto canta. A tal banda ‘Os Tangarás’
existia para animar festas dançantes. Acho tão
estranho isso, pensar minha mãe que tocava baladas de
Chopin tocando maxixes e chorinhos...
Mas eu me esqueci de contar uma outra coisa sobre a
minha mãe: ela brincava comigo. Mais precisamente:
fazia brinquedos para mim. Fazer brinquedos para os
filhos: arte perdida! Fico a pensar em quem lhe teria
ensinado a arte. De uma coisa estou certo: não foi a
minha avó. Minha avó não gostava de crianças, o que
era o normal, naqueles tempos. Cora Coralina confirma:
‘Criança, no meu tempo de criança,/ não valia mesmo
nada./ A gente grande da casa/ usava e abusava/ de
pretensos direitos de educação./ Por dá-cá-aquela-palha,/
ralhos e beliscões./ Aquela gente antiga,/ passadiça,
era assim: severa, ralhadeira./ Não poupava as crianças...’
Minha avó tinha vocação de cientista, estudava
astronomia, espiava as estrelas com luneta. Acho que
passou a vida amargurada por ter sido obrigada a casar
com um homem que não era nem bonito e nem entendia de
astronomia. Nunca me pegou no colo. Nunca me beijou.
Nunca me contou uma estória. Gostava de me apertar o
braço com força, prá machucar. Assim, não posso
imaginar minha avó ensinando minha mãe a fazer
brinquedos. Toda criança era ‘gata borralheira’:
que tinha de ficar sob o cuidado das pretas cozinheiras,
longe dos adultos, muito importantes.
No sobrado continuaram a viver duas escravas: livres, não
tinham para onde ir. A Dulce, velha de olhos vermelhos,
já estava remando canoa para a ‘terceira margem do
rio’: passava o dia rezando terço com um beiço
dependurado, numa língua que minha mãe não entendia.
Mas a Iaiá gostava da minha mãe. Brincava com ela.
Contava estórias que minha mãe depois me contou. Estórias
de Angola. Acho que foi ela que ensinou minha mãe a
fazer brinquedos.
Minha mãe fazia petecas, obras de arte. E sabem com o
quê? Pois pasmem. Com palha de milho. O milho, mesmo
depois de debulhado, tinha mil serventias. Podia queimar
no fogão de lenha. Dá um fogaréu bonito que apaga
logo, se for deixado só. Como certas pessoas, o milho
precisa de um fogo de fora para queimar. Daí a expressão
‘fogo-de-palha’: entusiasmos ardentes -
especialmente os amorosos - que são de curta duração.
Os sabugos, os meninos brincavam com eles. Viravam
boizinhos que puxavam carrinhos. Cada sabugo tinha um
nome. As palhas de dentro eram alisadas pelos homens com
o canivete e usadas para fazer cigarros de fumo de rolo.
Mas houve alguém, artista desconhecido, que olhou para
as palhas do milho e viu petecas. Era feitas assim.
Primeiro se pegava um cavaco, no monte de lenha cortada,
que fosse quadradinho. Depois se envolvia o dito cavaco
com várias folhas de palha de milho, apertadas,
formando uma almofadinha. A seguir, mais palhas iam
sendo colocadas sobre essa almofadinha, sem enrolar,
deixando as pontas soltas para cima, como se fossem um
pescoço. O pescoço, bem amarrado e aparado, a peteca
estava quase pronta. Faltavam as penas que a gente
procurava no galinheiro. Se não houvesse penas soltas,
pobres galinhas: a gente arrancava as de que se
precisava. São as penas que garantem que a peteca vá
cair do jeito certo. Enfiavam-se as penas na ponta do
pescoço aparado - e eis uma peteca! É uma arte
perdida. Encontrei uma, numa loja de artesanato em
Florianópolis, que comprei. Não é tão perfeita como
aquelas que minha mãe fazia. Olho para a peteca, me
lembro da minha mãe.
Ela fazia também corrupios. Um corrupio se faz assim.
Procura-se um botão bem grande, que tenha pelo menos
dois furos. Várias vezes roubei botões dos paletós do
meu pai. Ele nunca reclamou ou nunca percebeu. Era
distraído, não se importava com um paletó sem botão.
Imagino que os netos do senador Sarney, em virtude do
seu hábito de usar jaquetões, têm a grande felicidade
de dispor de muitos botões a serem roubados. Ele nunca
vai notar. O fato, entretanto, é que as crianças de
hoje não são como as de antigamente. Não se
entusiasmam com botões de paletó. Mas, voltando ao
corrupio. Toma-se o botão. Passa-se um fio de barbante
de 40 centímetros por um dos furos e outro igual pelo
outro. O botão fica no meio. Dão-se nós nas pontas
dos barbantes. Aí, segurando as pontas dos barbantes
amarrados, a gente gira os barbantes no mesmo movimento
de ‘pular corda’. Os barbantes ficam enrolados. Aí
a gente puxa firme os barbantes, no sentido do exterior.
Os barbantes desenrolam e o botão gira. Gira tão rápido
que chega a zunir. O ar, passando pelos furos, assobia.
É terapêutico brincar com corrupio.
Me ensinou também a fazer chapéus de Napoleão e
barquinhos com dobraduras de papel. Chapéu de Napoleão
na cabeça e um pedaço de bambu na mão: eis um
guerreiro! Barquinho de papel na enxurrada: eis o
Soldadinho de Chumbo de uma perna só apaixonado pela
bailarina, do conto de Andersen!
Fico comovido lembrando-me dos brinquedos que minha mãe
fazia. Imagino que Maria também deve ter feito
brinquedos para o menino Jesus. Pena que não haja uma
tela que represente esse momento sublime! Que brinquedos
teria ela feito?
Natal é o tempo do acriançamento. É preciso dar
brinquedos de presente. Sugiro que você pense nos
brinquedos que você sabe ou pode fazer. As Bordadeiras
de Brasília, enquanto papeiam, fazem lindos bordados!
Que tal você começar a fazer bonecas de pano enquanto
vê televisão? Eu mesmo tenho duas, feitas por uma
pobre mulher do nordeste. Armar quebra-cabeças é um ótimo
brinquedo e uma excelente terapia. Contrariamente ao
nome, o quebra-cabeças deveria se chamar
‘conserta-cabeças’. Enquanto se arma o quebra-cabeças,
a cabeça para de pensar aflições. E é um jeito de a
gente estar junto com os filhos. Cada peça que se
encaixa é uma felicidade! E, com isso, sem saber, as
crianças vão desenvolvendo o pensamento lógico. E a
felicidade de empinar pipas? A felicidade começa quanto
a gente faz a pipa. Não me esqueço do que senti
quando, menino de pés descalços, consegui por uma pipa
lá em cima pela primeira vez! Fazer pipas é uma arte.
Empinar pipas é um prazer! Que tal levar seus filhos a
empinar pipas na manhã de Natal? Vá passear na feira
hippie. Lá você encontrará brinquedos artesanais
deliciosos e baratos: a Mancala, jogo africano; piões
de todos os tipos; bibloquês. Confesso um fracasso:
nunca consegui acertar o pino no buraco da bola!
Mas o melhor mesmo seria se você começasse a fazer
brinquedos. Eu fazia brinquedos com caixinhas de fósforo,
carretéis vazios de linha, bambús, talos de aboboreira
(com eles se fazem divertidos instrumentos musicais!),
rolhas, dobraduras de papel. Você poderá até fazer um
rebanho de carneiros usando batatas e palitos.
Você achou tudo isso bobagem? Então, você se parece
com a minha avó. Trate de se salvar. Repita comigo a
reza da Adélia: ‘Meu Deus, me dá cinco anos, me cura
de ser grande...’ (Correio Popular, Caderno C,
17/12/2000.)
Você
achou tudo isso bobagem? Então, você se parece com a
minha avó. Trate de se salvar. Repita comigo a reza da
Adélia: ‘Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser
grande...’ (Correio Popular, Caderno C, 17/12/2000.)

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