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Confesso
a minha impiedade: não consigo amar a Deus. Não
consigo amar nada abstrato. Preciso de um rosto, de uma
voz, de um olhar, de um toque de mão. Amo com os meus
sentidos. Mas Deus, eu nunca vi. Não sei como ele é.
Por isso não consigo amá-lo. Meu mestre Alberto Caeiro
está pior do que eu, pois chega ao ponto de afirmar que
nem mesmo pensar em Deus ele consegue. “Pensar em Deus
é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o
conhecêssemos, por isso se nos não mostrou.“
O amor é o melhor tônico de memória. Quando o nome da
coisa amada é pronunciado, ela logo ressuscita dos
mortos e aparece viva em nossa imaginação. E o corpo
se enche de saudades. A saudade é o sintoma de que uma
coisa amada-perdida saiu do túmulo. Mas o nome de Deus
não faz nada com a minha memória. Não provoca
ressurreições. Não sinto saudade de coisa alguma. O
corpo não se comove.
Gosto do poema de Brecht intitulado Prazeres. Sem rimas
ou métrica, é uma simples enumeração de algumas das
coisas que o faziam feliz... Vidros coloridos de um
vitral.
“A primeira olhada pela janela de manhã.
O velho livro de novo encontrado.
Rostos entusiasmados.
Neve, a mudança das estações.
O jornal.
O cão.
Tomar banho.
Nadar.
Velha música.
Sapato confortável.
Perceber.
Nova música.
Escrever, plantar.
Viajar.
Cantar.
Ser amigo.“
O meu Prazeres seria parecido. “Acordar, pensar na
faca, no queijo e na fome.
Caminhar,
os olhos passeando pelas árvores, pela grama molhada de
chuva, pelos pássaros.
O sol acabado de nascer.
Suco de laranja, café fumegante, pão com manteiga, ovo
quente.
Os pensamentos que me vêm enquanto caminho.
Planejar o meu jardim Zen.
Música.
A Mariana e a Camila.
O outro neto ou neta, ainda sem nome.
Chá gelado com limão.
Memórias.
Livros.
O Calvin.“
Basta escrever o seu “Prazeres“. Quando os olhos
ficam atentos às pequenas alegrias é fácil ser poeta.
Hermann Hesse escreveu um livro intitulado O Jogo das
Contas de Vidro. É a estória de uma ordem monástica
na qual os seus membros, em vez de gastarem o seu tempo
com ladainhas e exercícios semelhantes, se dedicavam a
um jogo que era jogado com contas de vidro coloridas.
Eles sabiam que os deuses preferem a beleza às monótonas
repetições sem sentido. O livro não descreve os
detalhes do jogo. Mas eu sei do que se tratava. Enquanto
escrevo ouço a Sonata n. 27, op. 90, de Beethoven. É
linda. As contas de vidro coloridas de Beethoven, nesta
sonata, são as notas do piano. Vitrais também são
jogos de contas de vidro. Foi na poesia de uma poetisa
minha amiga, ex-aluna, Maria Antônia de Oliveira, que
pela primeira vez vi a vida como um vitral.
“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto,
de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços
ficando buracos,
irreversíveis.
Os cacos se perdem
por aí.
Às vezes eu encontro
cacos de vida
que foram meus,
que foram vivos.
Examino-os atentamente tentando lembrar
de que resto faziam parte.
Já achei caco pequeno e amarelinho
que ressuscitou
de mentira, um velho amigo.
Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens
um beijo antigo.
Houve um caco vermelho
que muito me fez chorar,
sem que eu lembrasse
de onde me pertencera.“
(Ceriguela, p.14)
Esses cacos de vitral, essas contas de vidro coloridas -
isso meu corpo e minha alma amam, para todo sempre. O
amor não se conforma com o veredicto do tempo - os
cacos do cristal se perdendo dentro do mar, as contas de
vidro colorido afundando para sempre no rio do tempo.
Quero que tudo que eu amei e perdi me seja devolvido.
Todas essas coisas moram nesse imenso buraco dolorido da
minha alma que se chama saudade.
Para isso eu preciso de Deus, para me curar da saudade.
Dizem que o remédio está no esquecimento. Mas isso é
o que menos deseja aquele que ama. Conta-se de um homem
que amava apaixonadamente uma mulher que a morte levou.
Desesperado, apelou para os deuses, pedindo que usassem
seu poder para lhe devolver a mulher que tanto amava.
Compadecidos, eles lhe disseram que devolver a sua amada
eles não podiam. Nem eles tinham poder sobre a morte.
Mas poderiam curar o seu sofrimento, fazendo-o
esquecer-se dela. Ao que ele respondeu: “Tudo, menos
isso. Pois é o meu sofrimento o único poder que a mantém
viva, ao meu lado!“
Também eu não quero que os deuses me curem, pelo
esquecimento. Quero antes que eles me devolvam minhas
contas de vidro. E é assim que eu imagino Deus: como um
fino fio de nylon, invisível, que procura minhas contas
de vidro no fundo do rio e as devolve a mim, como um
colar. Não por ele mesmo (sobre quem nada sei), mas por
aquilo que ele faz com minhas contas....
Quero Deus como um artista que cata os cacos do meu
vitral, partido por pedradas ao acaso, e os coloca de
novo na janela da catedral, para que os raios de sol de
novo por eles passem.
O que eu quero é um Deus que jogue o jogo das contas de
vidro, sendo eu uma das contas coloridas do seu jogo...
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
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