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| Um discreto bater de asas de anjos |
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O
Edmar é um adolescente. Calado. Quase não fala.
Arranjou um emprego como lavador de automóveis num
lava-rápido. Emprego bom para ele porque não é necessário
falar enquanto se lava um carro. Mas de repente, sem
nenhuma explicação, o Edmar passou a se recusar a
trabalhar. Ficava quieto num canto sem dar explicações.
O Edmar, como o Victor, tem Síndrome de Down. A
“Fundação Síndrome de Down”, que havia arranjado
o emprego para o Edmar, foi informada do que estava
acontecendo. Que tristeza! Um bom emprego – e parece
que o Edmar ia jogar tudo fora. O caminho mais fácil
seria simplesmente dizer: “Pena. Fracassamos. Não deu
certo. Pessoas com Síndrome de Down são assim...”
Mas a equipe encarregada da inclusão não aceitou essa
solução. Tinha de haver uma razão para o estranho
comportamento do Edmar. E como ele é calado e não
explica as razões do que faz, uma das pessoas da equipe
se empregou como lavadora de carros, no lava-rápido
onde o Edmar trabalhava. E foi lá, ao lado do Edmar,
que ela descobriu o nó da questão: o Edmar odiava o
“pretinho” – aquele líquido que é usado nos
pneus. Odiava porque o tal líquido grudava na mão, não
havia jeito de lavar, e a mão ficava preta e feia. O
Edmar não gostava que sua mão ficasse preta e feia.
Todos os outros lavadores – sem Síndrome de Down –
sentiam o mesmo que o Edmar sentia - também eles não
gostavam de ver suas mãos pretas e sujas. Não gostavam
mas não reclamavam. A solução? Despedir o Edmar? De
jeito nenhum! A “lavadora” pôs-se a campo, numa
pesquisa: haverá um outro líquido que produza o mesmo
resultado nos pneus e que não seja preto? Descobriu.
Havia. E assim o Edmar voltou a realizar alegremente o
seu trabalho com as mãos brancas. E, graças a ele, e
ao trabalho da “lavadora”, todos os outros puderam
ter mãos limpas ao fim do dia de trabalho. Essa
é uma surpreendente característica daqueles que têm Síndrome
de Down: não aceitam aquilo que contraria o seu desejo
e suas convicções. O Victor desejava coerência. Não
iria engolir o comportamento não civilizado de ninguém.
O Edmar queria ter suas mãos limpas. Não iria fazer
uma coisa que sujasse suas mãos. Quem tem Síndrome de
Down não consegue ser desonesto. Não consegue mentir.
E é por isso que os adultos se sentem embaraçados pelo
seu comportamento. Porque os adultos sabem fazer o jogo
da mentira e do fingimento. Um adulto recebe um presente
de aniversário que julga feio. Aí, com o presente feio
nas mãos, ele olha para o presenteador e diz
sorridente: “Mas que lindo!” Quem me contou foi o
Elba Mantovaneli: ele deu um presente para a Andréa.
Mas aquele presente não era o que ela queria! Ela não
fingiu e nem se atrapalhou. Só disse, com um sorriso:
“Vou dar o seu presente para o Fulano. Ele vai
gostar...” As
crianças normais, na escola, aprendem que elas têm de
engolir jilós, mandioca crua e pedaços de nabo: coisas
que não fazem sentido. Aprendem o que é “dígrafo”,
“próclise”, “ênclise”, “mesóclise”, os
“usos da partícula se”... Você ainda se lembra?
Esqueceu? Mas teve de estudar e responder certo na
prova. Esqueceu, por quê? Porque não fazia sentido. Fazer
sentido: o que é isso? É simples. O corpo – sábio
– carrega duas caixas na inteligência: a caixa de
ferramentas e a caixa de brinquedos. Na caixa de
ferramentas estão coisas que podem ser usadas. Não
todas, evidentemente. Caso contrário a caixa teria o
tamanho de um estádio de futebol. Seria pesada demais
para ser carregada. Se vou cozinhar, na minha caixa de
ferramentas deverão estar coisas necessárias para
cozinhar. Mas não precisarei de machados e guindastes.
Na outra caixa, de brinquedos, estão todas as coisas
que dão prazer: pipas, flautas, estórias, piadas,
jogos, brincadeiras, beijos, caquis... Se a coisa
ensinada nem é ferramenta e nem é brinquedo, o corpo
diz que não serve para nada. Não aprende. Esquece. As
crianças “normais”, havendo compreendido que os
professores e diretores são mais fortes que elas, por
ter o poder de reprovar, submetem-se. Engolem os jilós,
as mandiocas cruas e os pedaços de nabo, porque terão
de devolvê-los nas provas. Mas logo os vomitam pelo
esquecimento. Não foi assim que aconteceu conosco? As
crianças e adolescentes com Síndrome de Down
simplesmente se recusam a aprender. Elas só aprendem
aquilo que é expressão do seu desejo. Entrei numa
sala, na “Fundação Síndrome de Down”. Todos
estavam concentradíssimos equacionando os elementos
necessários para a produção de um cachorro quente.
Certamente estavam planejando alguma festa... Numa folha
estavam listados: salsicha, pão, vinagrete, mostarda...
Entrei no jogo. “Esse cachorro quente de vocês não
é de nada. Está faltando a coisa mais importante!”
Eles me olharam espantados. Teriam se esquecido de algo?
Seu cachorro quente estaria incompleto? Acrescentei:
“Falta a pimenta!” Aí seus rostos se abriram num
sorriso triunfante. Viraram a folha e me mostraram o que
estava escrito na segunda folha: “pimenta”. Aí,
vocês adultos, vão dizer: “Que coisa mais boba
estudar um cachorro quente!” Respondo que bobo mesmo
é estudar dígrafo, usos da partícula se, os afluentes
da margem esquerda do Amazonas e assistir o “Show do
Milhão”. Um cachorro quente, um prato de comida, uma
sopa: que maravilhosos objetos de estudo. Já pensaram
que num cachorro quente se encontra todo um mundo?
Querem que eu explique? Não explicarei. Vocês, que se
dizem normais e inteligentes, que tratem de pensar e
concluir. A
sabedoria das crianças e adolescentes com Síndrome de
Down diz: “Dignas de serem sabidas são aquelas coisas
que fazem sentido, que têm a ver com a minha vida e os
meus desejos!” Mas isso é sabedoria para todo mundo,
sabedoria fundamental que se encontra nas crianças e
que vai sendo progressivamente perdida à medida que
crescemos. E
há o caso delicioso do Nilson que foi eleito “funcionário
do mês” no McDonald’s. E não o foi por condescendência,
colher-de-chá... Foi por mérito. O Nilson é um
elemento conciliador, amigo, que espalha amizade por
onde quer que ande... Todos gostam dele e o querem como
companheiro. É
preciso devolver as pessoas com Síndrome de Down à
vida comum de todos nós. Nós todos habitamos um mesmo
mundo. Somos companheiros. É estúpido e injusto segregá-los
em espaços e situações fechadas. Claro que vocês já
leram a estória da Cinderela – também conhecida como
“Gata Borralheira”. Sua madrasta a havia segregado
no “borralho”. Não podia frequentar a sala. Todas
as estórias são respostas a situações reais. Pois eu
acho que, na vida real, a “Gata Borralheira” era uma
adolescente com Síndrome de Down de quem mãe e irmãs
se envergonhavam. Mas a estória dá uma reviravolta e
mostra que ela tinha uma beleza que a madrasta e irmãs
não possuíam. E eu sugiro que sua beleza está nessa
inteligência infantil, absolutamente honesta,
absolutamente comprometida com o desejo que nós,
adultos, perdemos ao nos submeter ao jogo das
hipocrisias sociais. Quem
quiser saber mais poderá visitar a “Fundação Síndrome
de Down”, em Barão Geraldo. É uma instituição
maravilhosa! E digo que me comovi ao observar o carinho,
inteligência e persistência daqueles que lá
trabalham. E andando pelos seus corredores e salas de
repente senti que havia lágrimas nos meus olhos:
lembrei-me do Guido Ivan de Carvalho que foi um dos seus
idealizadores e construtores, juntamente com a Lenir,
sua esposa. O Guido não está mais lá. Ficou
encantado... Sugeri à Lenir que plantasse, para o
Guido, uma árvore, no jardim da Fundação. Se vocês não
sabem, na estória original da Cinderela não havia Fada
Madrinha. Quem protegia a Cinderela era a sua mãe
morta, que continuava a viver sob a forma de uma árvore... Pensando naquelas crianças e adolescentes lembrei-me de uma afirmação do apóstolo Paulo: “Deus escolheu as coisas tolas desse mundo para confundir os sábios – porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens...” Quem sabe será possível ouvir, naqueles rostos sorridentes, um discreto bater de asas de anjos...
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