Ái,
que mau teórico eu sou! Não admira que rigorosos
professores de pós-graduação freqüentemente
repreendam seus orientandos por incluir citações
minhas nos seus projetos de tese! “ Rubem Alves não
é cientista. Ele é um escritor!” Eles
estão cobertos de razão. Não sou cientista.
A ciência pensa através de conceitos abstratos.
Eu penso através de imagens. São imagens que
me fazem pensar. Mais do que isso: é através
das imagens que tento ensinar. E ao convocar minhas idéias
para escrever esse artigo foram imagens que acudiram ao meu
pedido de socorro.
Eu me
vi viajando com meus filhos pequenos de 8 e 6 anos de idade.
Do lado de fora do carro cenários deslumbrantes, uma
festa para os olhos. Eu, pai educador, queria contribuir para
a educação dos sentidos dos meus meninos. Mostrava-lhes
os cenários. Queria que eles aprendessem a alegria
de ver. Mas eles não viam. Não demonstravam
o menor interesse pelas longínquas montanhas que me
tiravam o fôlego. Para me apaziguar e para que eu não
os chateasse mais, talvez dissessem: “Que legal!”
Mas era da boca para fora. Logo voltavam ao seu foco de interesse:
o espaço apertado do banco de trás do carro
onde se encontravam. E ali ficavam absortos, brincando com
seus carrinhos de plástico. Custou-me tempo para compreender
que as crianças vêem com as mãos. O puro
“ver” não lhes é suficiente. O “ver”
só lhes interessa como meio para se tocar um objeto.
Pegar para ver.
É
o tato que dá sentido à vista. O nenezinho vê,
estende seus braços, pega o objeto e o leva à
boca. A boca uma dupla função. Primeira, ela
suga o leite do seio da mãe. Função prática.
O seio como objeto da “caixa de ferramentas”.
Segunda, a boca sente a maciez deliciosa do seio. Prazer tátil.
O seio como objeto da “caixa de brinquedos”. Mesmo
depois que o seio seca, cessando assim sua função
prática de alimentar, a criança quer continuar
a sugar. Por que esse gesto inútil? Porque a sensação
tátil é gostosa. Essa relação
primitiva boca-seio contém toda uma teoria metafísica:
o mundo é comida. Mais do que comida; o mundo é
macio. É por isso que aquele que ama deseja beijar
o seio da mulher amada. Parodiando Santo Agostinho: “O
que é que beijo quando beijo o seio da mulher amada?”
Rilke via, no rosto da amada, estrelas e constelações
tranqüilas. Beijo o seio, sim, mas também uma
outra coisa: um mundo que deve ter a maciez do seio. Os ursinhos
de pelúcia que as crianças abraçam –
e os travesseiros macios e perfumados que abraçamos
– não contém eles uma lição
de metafísica semelhante, uma teoria de como o mundo
deveria ser?
Bachelard
chama a nossa atenção para a “obsessão
ótica” da nossa tradição científica.
A palavras “teoria” vem do Grego “theoria”,
que quer dizer “contemplar”, “olhar”.
Mas, para se ver, é preciso que o objeto esteja distante
dos olhos e, portanto, do corpo. Nossa tradição
separou a visão do toque. As crianças se recusam
a esse corte. Nas lojas de brinquedos os pais conscientes
dizem aos filhos pequenos: “Mãozinha para trás...”
Eles sabem que, nas crianças, a visão quer tocar.
Bachelard nos pergunta, então, se a matéria
não tem uma realidade que só pode ser conhecida
pelo tato. O jeito de cumprimentar, de abraçar, não
dá a conhecer uma pessoa? Aquele “toque”
no braço de Fernando Pessoa ( artigo “ Tato”
) o levou a uma experiência de mundo. É assim
que ele termina o seu poema: “Assim a brisa nos ramos
diz uma imprecisa coisa feliz...” Não é
o toque apenas pelo prazer. É o toque para aprender.
Veja os
livros, por exemplo. Todos sabem que os livros são
para ser lidos. Eles são dados à visão.
Mas antes de gozar a sua leitura, eu gozo um livro como objeto
tatil. Eu o seguro nas minhas mãos, sinto a textura
da capa, das folhas. Nós os conhecemos primeiro com
as mãos. Há livros que pedem para serem acariciados,
alisados. Minha mão alisando um livro: essa experiência
pode provocar meu desejo de lê-lo, ou não.
O tato
contém um saber. Talvez, uma provocação
ao saber. Faz-nos pensar. Teríamos então de
pensar o tato como uma das experiências essenciais que
devem acontecer no espaço escolar. O tato incita a
inteligência. Há muitos pensamentos que brotam
das mãos. Uma mão ferida pensa um martelo. Por
que haveria o cérebro de pensar o martelo se a mão
não estivesse ferida? Uma mão que segura um
cassetete tem, necessariamente, de fazer o cérebro
pensar em golpes, da mesma forma como um revólver não
mão, ainda que sem balas, nos obriga a fazer pontaria.
A ostra constrói a pérola por causa do tato.
O grão de areia a faz sofrer. Seu corpo então
pensa uma coisa lisa que não a faça sofrer...
Nunca
li nada sobre a relação entre o tato e a inteligência.
Essas são minhas primeiras idéias. Não
sei como ligá-las ao espaço escolar. Mas sei
que o espaço escolar deve ser como o seio. Deve dar
leite e deve ser macio. Como o seio da Da. Clotilde...