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Numa
situação de tédio a gente é capaz
de ler coisas absurdas. Já li bula de remédio
numa viagem de ônibus, sem livros. Pois eu estava na sala
de espera do meu dentista, houve atraso, não por culpa
dele, pilhas da revista “Caras” que eu nunca me
interessara por ler. Havia palavras cruzadas, um bom passa-tempo.
Mas todas já estavam resolvidas. Resolvi, então,
ir vendo. Achei a revista muito interessante, surpreendente,
mesmo. Porque todas elas, sem exceção, tratam
de um único assunto: sorrisos de socialites. Cada revista
é uma variação sobre esse único
tema. Aí propus-me um jogo: contar quantos sorrisos estavam
publicados. Fui rigoroso. Sorrisinho de boca fechada não
vale. Só sorriso mostrando os dentes ( ou gengivas...
Palavra feia essa, gengiva... ). Comecei a contar. No princípio
foi fácil: um, dois, três. Mas quando cheguei aos
cem ficou complicado: cento e sessenta e quatro. Ficou difícil
de falar. Lamentei que o meu instrumental de pesquisa não
me permitisse distinguir sorrisos de dentes naturais dos sorrisos
de dentadura. Futuramente, numa crônica, vou meditar sobre
as dentaduras. Você sabia que, nas primeiras dentaduras,
os dentes eram arrancados dos escravos? Quando o dentista me
chamou eu já havia contado todos os sorrisos dentais
da metade da revista, muito grossa: quinhentos e setenta e cinco.
Abandonei a revista com tristeza. A pergunta continua a me atormentar:
quantos sorrisos? Sugiro que vocês que lêem a “Caras”
façam a mesma brincadeira e me enviem o resultado das
suas pesquisas. Contar sorrisos é uma atividade muito
educativa, informativa. Ao final, vocês também
estarão não sorrindo, mas rindo. Sorrisos fotográficos
têm sempre uma pitada de ridículo, sempre que são
produzidos em massa, por encomenda. E há aquelas caras
que aparecem sempre, portando o mesmo sorriso. O mesmo sorriso
lhes dá uma ilusão de imortalidade.
· "Samuel
Lago" é um homem risonho, afável,
apaixonado pela educação. Escreve deliciosamente.
Recebi dele um livrinho, livrinho mesmo, 7 centímetros
de largura por 10 de comprimento, cheio de aforismos sobre
a educação. Muitos grandes pensadores se deliciavam
com os aforismos. Lembro-me de Lichtenberg (que Nietzsche
e Murilo Mendes muito amavam), Nietzsche, Oscar Wilde. Um
aforismo é um relâmpago: brevíssimo, ilumina
os céus. Por vezes racha rochas. Aqui vão alguns
canapezinhos. “A verdadeira dificuldade não está
em aceitar idéias novas, mas escapar das idéias
antigas” (Keynes). * “Sábio é aquele
que se espanta com tudo” (André Gide). * “Todos
os jogos são educativos, menos os jogos educativos”
(André Lapierre). * “Pensa como pensam os sábios,
mas fala como falam as pessoas simples” (Aristóteles).
“Tudo que se ensina à criança a impede
de inventar ou de descobrir” (Piaget). O aforismo de
André Gide, que afirma que o sábio é
aquele que se espanta com tudo levou-me à sugestão
que, como sempre, não é levada a sério,
de que deveria haver uma nova especialidade na educação:
professores de espanto. E também um outro livro normal,
14 x 21, "Conversas com quem gosta de aprender".
Pelo título vocês já perceberam que nós
gostamos de jogar frescobol... (Editora Lago Ltda., apoio@lago.com.br
· "Flor de
Maravilha" é um livro delicioso, do Flávio
Paiva, publicado pela Cortez. Mistura de música e histórias,
com ilustrações deliciosas, totalmente infantis,
de Dim e Nice Firmeza. A menina do pé pulador, O piolho
ciumento, Cafuné, O susto da sereia dorminhoca, O palhacinho
chorão... Está tudo no livro
· Outro livro, "A
descoberta da escrita", escrito para pessoas recém-alfabetizadas.
É a história de um rapaz analfabeto que queria
aprender a ler. Contém redações premiadas
no Concurso de Alfabetização Solidária:
dez dos alfabetizadores, dez dos alfabetizados. Fundação
Educar DPaschoal, camilab@educar.com.br
· Eu não conhecia
a revista "Bons Fluidos". Pediram-me que
escrevesse uma coluna para ela. Escrevi. Fiquei muito feliz
com o resultado. Lindas, as fotografias. E a revista inteira
comunica um sentimento de... “bons fluidos”...
· Como nascem os livros?
As crianças têm grande curiosidade. Primeiro
elas querem saber quem foi que escreveu. Para elas o autor
é uma entidade misteriosa, mitológica. Aí,
eu acho, elas ficam meio decepcionadas quando se encontram
com o autor, que é uma pessoa igual às outras.
Depois elas querem saber como o livro foi feito. Acho que
essa é uma curiosidade que todos os adultos deveriam
ter. Você sabe como um livro é feito? Confesso
minha ignorância dos detalhes. Pois o Carlos Urbim e
o Artur Sanfelice Nunes produziram um livrinho delicioso para
crianças... e adultos, em que eles contam a história
do nascimento de um livro. Nasce um livro, Sindicato da Indústria
Gráfica no Rio Grande do Sul, sindigraf-rs@sindigraf-rs.com.br
· “Professor,
lá em casa tem um monte de caquinhos iguais a estes
que o senhor está mostrando”. Quem disse
foram alunos da 5ª. Série do Ensino Fundamental
da Escola Básica São Sebastião, em São
Lourenço D’Oeste. O professor era Mauri Luiz
Bessegatto, professor iniciante de história. No dia
seguinte vários alunos levaram para sala um punhado
dos tais “caquinhos”. Eram fragmentos de cerâmica,
materiais líticos, pontas de projéteis... Tudo
está contado no seu livro “O patrimônio
em sala de aula: fragmentos de ações educativas”
(Universidade Federal de Santa Maria, RS). Vale a pena ler!
Vale a pena acreditar nas crianças!
(07/11/2004)
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