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Li,
no Journal for Advanced Practical Research sobre dois
fascinantes projetos que estão sendo desenvolvidos por
cientistas do M.I.T. Em decorrência dos problemas
ambientais provocados pelo uso da energia os cientistas
têm estado à procura daquilo a que deram o nome de
‘tecnologias suaves’, por oposição às
‘tecnologias duras’. Tecnologias suaves são aquelas
que têm por objetivo produzir energia sem poluir e com
um gasto mínimo ou nulo dos combustíveis. Por exemplo:
a produção de energia por meio de moinhos de vento ou
de energia solar é macia porque nem polui e nem esgota
recursos naturais. Já a produção de energia em usinas
movidas a carvão é dura: esgota as reservas de carvão
e polui. Preocupados com a crescente demanda de energia,
a escassez de recursos e a poluição, os ditos
pesquisadores estão trabalhando no sentido de produzir
artefatos técnicos que não façam uso nem de energia
elétrica comum, nem de pilhas e nem de energia nuclear.
O primeiro projeto contempla a construção de um
pequeno objeto produtor de luz, com essas características
econômicas. Trata-se de um vaso de metal ou vidro, com
boca afunilada como numa garrafa, cheio com querosene,
do qual sai um barbante grosso e que produz luz quando
uma faísca é produzida na ponta do pavio - nome técnico
que se deu ao tal barbante grosso. A faísca, para ser
produzida, dispensa o uso de fósforos. Basta que se
batam duas peças de metal na proximidade da ponta do
pavio. Do choque das duas peças de metal salta uma faísca
que incendeia o pavio, produzindo uma chama amarelada
suave. No momento o pesquisador está lutando com um
problema para o qual ainda não encontrou solução: um
cheiro característico desagradável, resultante da
combustão do querosene. Mas, com os recursos da química,
ele espera poder produzir chamas com os mais variados
perfumes - o que permitirá que o dito artefato venha a
ter o efeito espiritual dos incensos. Esse artefato
dispensa o uso de pilhas e de energia elétrica
tradicional, podendo ser usado em qualquer lugar. O
outro projeto procura produzir um aparelho de som que
funcione sem pilhas e sem eletricidade, bastando, para
isso, o emprego da energia humana e do efeito
armazenador das molas: gira-se uma manivela que aperta
uma mola que faz girar o disco que, tocado por uma
agulha, produz som através de uma corneta metálica.
Com esse artefato é possível ouvir música até no
alto do Himalaia.
Nesse momento espero que o leitor já se tenha dado
conta de que tudo o que eu disse é pura brincadeira.
Cortázar fez coisa semelhante com a história invertida
das invenções. Partindo do avião supersônico em que
as pessoas nada vêem e ficam tolamente assentadas para
chegar mais depressa, Cortázar passa por inumeráveis
avanços intermediários, até chegar ao meio mais
humano, mais saudável e mais ecológico de locomoção,
ainda não descoberto: andar a pé. Claro, isso é pura
brincadeira... Brincadeira, porque nenhum cientista iria
gastar tempo criando o que já foi criado e abandonado,
seja lamparina ou gramofone...
Criar! A criatividade é manifestação de um impulso
que mora na alma humana. É isso que nos distingue dos
animais. Os animais estão felizes no mundo, do jeito
como ele é. Há milhares de anos as abelhas fazem colméias
do mesmo jeito, os pintassilgos cantam o mesmo canto, as
aranhas fazem teias idênticas, os caramujos produzem as
mesmas conchas espiraladas. Não criam nada de novo. Não
precisam. Estão felizes com o que são. O que não
acontece conosco. Somos essencialmente insatisfeitos e
curiosos. Albert Camus disse que somos os únicos
animais que se recusam a ser o que são. A gente quer
mudar tudo. Inventamos jardins, inventamos casas,
inventamos culinária, inventamos música, inventamos
brinquedos, inventamos ferramentas e máquinas. Michelângelo
inventou a Pietà, Rodin inventou o Beijo, Beethoven
inventou a 9ª Sinfonia.
Como é que a criatividade acontece? É preciso, em
primeiro lugar, que haja algo que nos incomode. Por que
é que a ostra faz pérola? Porque, por acidente, um grão
de areia entrou dentro de sua carne mole. O grão de
areia incomoda. Aí, para acabar com o sofrimento, ela
faz uma bolinha bem lisa em torno do grão de areia áspero.
Desta forma ela deixa de sofrer. Aprenda isso: ostra
feliz não faz pérola. Isso vale para nós. As pessoas
felizes nunca criaram nada. Elas não precisam criar.
Elas simplesmente gozam a sua felicidade. Bem disse Octávio
Paz: ‘Coisas e palavras sangram pela mesma ferida.’
Toda criatividade é um sangramento.
Como é que a criatividade se inicia? Já disse:
inicia-se com um sofrimento. O sofrimento nos faz
pensar. Pensamento não é uma coisa. O pensamento se
faz com algo que não existe: idéias. Idéias são
entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro
do corpo onde coisas que não existem, existem. A Pietà,
antes de existir como escultura, existiu como
pensamento, espírito, dentro do corpo do Michelângelo.
O Beijo, antes de existir como objeto de arte, existiu
como espírito, dentro do corpo de Rodin. A 9ª
Sinfonia, antes de existir como peça musical que se
pode ouvir, existiu como espírito, dentro da cabeça de
Beethoven.
O espírito não se conforma em ser sempre espírito.
Que mulher ficaria feliz com a idéia de um filho? Ela não
quer a idéia de um filho, coisa linda. É linda - mas
enquanto espírito, só dá infelicidade. A mulher quer
que a idéia de um filho - sentida por ela como desejo e
nostalgia - se transforme num filho de verdade. Por isso
ela quer ficar grávida. Quando o filho nasce, aí ela
experimenta a felicidade. Uma idéia que deseja se
transformar em coisa tem o nome de ‘sonho’. O sonho
deseja transformar-se em matéria. A espiritualidade do
espírito está precisamente nisso: o desejo e o
trabalho para fazer com que aquilo que existe apenas
dentro da gente (e que, portanto, só pode ser conhecido
pela gente), se transforme numa coisa, que pode então
ser gozada por muitos. A espiritualidade busca comunhão.
Hegel dava a esses objetos, produtos da criatividade, o
nome de ‘objetivações do espírito’. O caminho do
espírito é esse: da espiritualidade pura e individual,
para a coisa, objeto que existe no mundo, para deleite e
uso de muitos. Os objetos, assim, são o espírito
tornado sensível, audível, visível, usável, gozável.
Uma canção só existe quando cantada. Um quadro só
existe quando visto. Uma comida só existe quando
comida. Um brinquedo só existe quando brincado. Um
filho só existe quando parido. O espírito tem
nostalgia pela matéria. Ele deseja fazer amor com a matéria.
E quando espírito e matéria fazem amor, nasce a
beleza. Deus não se contentou em sonhar o Paraíso. Se
o sonho do Paraíso lhe tivesse dado felicidade ele
teria continuado apenas sonhando o Paraíso. Deus não
se contentou em sonhar o homem. Se o sonho do homem lhe
tivesse dado felicidade ele teria continuado sonhando o
homem. Mas ele (ou ela) só se deu por completo quando
se transformou em homem: ‘... e o Verbo (sonho) se fez
carne (corpo)’. O espírito quer descer, mergulhar...
Tão diferente daqueles que pensam que espiritualidade
é o espírito se despegando da matéria, o corpo
morrendo para ser só espírito, sem carne e sem
sentidos, como se o material fosse doença, coisa
inferior. Beethoven por acaso acharia que os
instrumentos da orquestra são coisa inferior? Mas como?
Sem eles a 9ª Sinfonia nunca seria ouvida! Nesse caso
ele ficaria feliz com a sua surdez, porque então a 9ª
Sinfonia permaneceria para sempre espírito puro! Michelângelo
por acaso pensaria que o mármore é coisa inferior? Mas
como? Sem o mármore a Pietà nunca seria vista e amada!
E ele ficaria feliz se não tivesse mãos, porque assim
a Pietà permaneceria para sempre espírito puro! Deus
por acaso acharia que o corpo é coisa inferior? Mas
como? Sem o corpo o Verbo nunca viveria como carne e
ele, Deus, amaria a morte. Porque com a morte o homem
permaneceria para sempre espírito puro...
Espiritual é o jardineiro que planta o jardim, o pintor
que pinta o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o
arquiteto que faz a casa, o casal que gera um filho, o
poeta que escreve o poema, o marceneiro que faz a
cadeira. A criatividade deseja tornar-se sensível. E
quando isso acontece, eis a beleza! (Correio Popular,
Caderno C, 10/09/2000)
Espiritual
é o jardineiro que planta o jardim, o pintor que pinta
o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o arquiteto que
faz a casa, o casal que gera um filho, o poeta que
escreve o poema, o marceneiro que faz a cadeira. A
criatividade deseja tornar-se sensível. E quando isso
acontece, eis a beleza! (Correio Popular, Caderno C,
10/09/2000)
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