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| "Su cadáver Estaba Leno de Mundo" |
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Tenho de voltar a ele, o conto de Gabriel Garcia Márquez, para mim de todos o mais fantástico. A alma deseja repetir a beleza. É sobre um afogado que o mar depositou na praia de uma aldeia de pescadores. Desconhecido. Morto, ele nada podia dizer, nada podia fazer. Era um vazio imenso. E por isso mesmo, pelo vazio que morava no seu corpo morto, o milagre aconteceu. Os vazios são poderosos. Sem ter o que dizer e o que pensar sobre o afogado, os homens e as mulheres da aldeia colocaram no vazio do seu corpo as suas próprias nostalgias, esquecidas... Termina o conto dizendo que a aldeia nunca mais foi a mesma. Talvez sobre esse afogado se pudesse aplicar o monumental verso de Vallejo: “Seu cadáver estava cheio de mundo”. Mas não é só no corpo de cadáveres que moram mundos. Cecília Meireles, lembrando-se de sua avó ainda viva, escreveu: “Teu corpo era um espelho pensante do universo.” Para ela, lembrar-se de sua avó era lembrar-se dos universos que moravam nela. Eu conheci um homem assim: Wayne Glick. Estivemos juntos por poucas semanas. Mas aquele foi um tempo eterno. Tempo eterno é o tempo que volta sempre. Era outono no estado do Maine, nos Estados Unidos. O Maine fica bem ao norte, de um lado é o Canadá, do outro é o mar. O outono é quando a natureza está se despedindo, preparando-se para o longo sono do inverno. No verão as folhas dos bosques são verdes. No outono as folhas verdes, tocadas pelas primeiras geadas, mudam de cor. Os verdes rareiam. Algumas árvores se incendeiam, vermelhas. Outras ficam de um amarelo vivo brilhante. Uma brisa fria começa a soprar arrepiando a pele. Caem as folhas cobrindo chão. É ocasião da colheita das maçãs. As cores das árvores, o céu azul, o cheiro das maçãs maduras e das folhas já em decomposição: há uma tristeza bonita no ar. O outono é triste. Acho que é porque ele é uma metáfora da vida. A despedida deveria ser assim: uma orgia de beleza. Mas antes que o outono comece nas coisas ele começa em nós. Foi Bernardo Soares quem disse. Robert Frost foi um poeta do outono. Peço perdão pela pobreza dessa tradução que fiz do seu poema “Manhã de Outono”. Sou ruim nas rimas que, para Frost, eram essenciais à poesia. “Poesia sem rimas! Onde está a graça?” Era o que ele sentia. "Oh! Silenciosa e tranquila manhã de outono! Tuas folhas logo logo vão cair. Se amanhã o vento soprar forte, todas juntas vão partir. Piam pássaros na floresta anunciado que amanhã se irão, de repente. Oh! Silenciosa tranqüila manhã de outono, faz as horas passar lentamente. Meu coração compreenderá se o enganares; engana-me com teus falares. Faz o dia parecer menos curto, soltando só uma folha pela manhã. A outra, que só ao meio dia se vá; uma de nossas árvores, outra de acolá. Retarda o sol com suave bruma, encanta os campos com sua verde espuma. Devagar! Devagar! Por amor às uvas amedrontadas, já queimadas de geada: seus bagos poderão gelar. Devagar! Devagar! Por amor às uvas amedrontadas, desamparadas, ao longo da estrada..." Eu estava lá, no Maine, sofrendo da beleza do outono. Fora dar um curso no Bangor Theological Seminary. O frio e a tradição de agricultores levava as pessoas cedo para dentro da casa e para debaixo das cobertas. A cidade, à noite, era um deserto. Do meu apartamento, através das frestas das árvores, eu via as janelas iluminadas das casas. Mas eu estava sozinho. O Wayne e a Bárbara, sua esposa, perceberam a minha tristeza. Chegaram-se. Ficamos amigos. Acolheram-me em sua casa. Wayne era o presidente do seminário. Não, não ficamos amigos. Acho que a gente não fica amigo. A gente se descobre amigo. Aquilo que Fernando Pessoa disse para uma pessoa amada vale também para a amizade: “Tornei a encontra-te quando te achei...” O corpo do Wayne estava cheio de mundos. Ele me conduziu pelos seus caminhos. Introduziu-me à poesia de William Blake. Leu-me os poemas “The little black boy” ( O negrinho ) e “The garden of love” ( O jardim do amor). Falou-me de R.S. Thomas e de Emily Dickinson. Dentro de mim ele encontrou a palavra “saudades”, que incorporou à sua poesia. Numa de suas cartas ele escreveu: “Saudades ( saw-da-gees), longing. The word must be said, held in the mouth like fine wine...” Saudades, nostalgia. A palavra deve ser dita, mantida na boca com um vinho fino... Ele percebeu que “saudades” é onde Deus mora, na presença de uma ausência. O amor mora nas presenças das ausências. “Saudade é o revés do parto, é arrumar o quarto para o filho que já morreu.” Formamos uma confraria secreta de pessoas que escrevem poemas para um Deus de que se tem saudade, ausente. É possível mesmo que tenha morrido, como o filho...Quem ama mais? A mãe que arruma o quarto para o filho que vai voltar ou a mãe que arruma o quarto para o filho que não vai voltar? R.S. Thomas sentia o mesmo. Foi pastor numa pobre e rude comunidade rural da Irlanda durante toda a sua vida. Toda a sua poesia é marcada pela dor do silêncio de Deus. Ele escreveu: “Nenhuma palavra veio ao homem ajoelhado. Ele só ouviu a canção do vento. Ou o barulho seco de asas que não via, não eram anjos, eram morcegos no alto do forro da igreja. Ele não virá mais...” Nesse “ele não virá mais...” está toda a sua dor. E conclui: “o sentido está na espera...” Com Emily Dickinson esse ateísmo místico toma um ar mais alegre: o morcego de R.S.Thomas é substituído por um pássaro. “Alguns guardam o Domingo indo à Igreja - / Eu o guardo ficando em casa - / Tendo um Sabiá como cantor - / E um Pomar por Santuário./ - Alguns guardam o Domingo em vestes brancas - / Mas eu só uso minhas Asas - / E ao invés do repicar dos sinos na Igreja - / nosso pássaro canta na palmeira./ - É Deus que está pregando, pregador admirável - / E o seu sermão é sempre curto. / Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final - / eu o encontro o tempo todo no quintal.” Numa de suas cartas o Wayne me confessou: “Eu gostaria de levar essas nostalgias para além das quatro paredes do meu escritório e partilhá-las com outros. Não posso. Raramente encontro alguém a quem eu desnudaria a minha alma. Para mim, expor as nostalgias do coração em tal contexto seria um sacrilégio...” Ele estava certo. É possível que muitos não me entendam. Aposentarm-se. Mudaram-se para um lugar menos frio. Mas um golpe, acidente, caiu sobre Bárbara. Digo acidente porque golpes como esse não têm sentido. Não se pode perguntar “por que?” – como se tivesse partido de Deus, com um propósito. Mas um Deus ausente nunca dá golpes Por isso é mais fácil amá-lo. Como amar um Deus que fere suas criaturas? Alzheimer. Durante dez anos o Wayne cuidou de sua Bárbara, tão doce. Agora ela partiu. Wayne está sozinho. Era uma tarde de outono. Wayne e Bárbara me levavam a um restaurante, no meio de um bosque, próximo ao parque natural de Acadia. De repente, numa curva do caminho, uma aparição: um veado enorme, galharia imensa. Estava parado no meio da estrada com cabeça levantada, como que num desafio. O Wayne parou o carro e ficamos lá. Após alguns segundo o veado se moveu vagarosamente, entrou no bosque e desapareceu. Escrevi um livro que foi publicado na Inglaterra: The poet, the warrior, the prophet. Na dedicatória escrevi: “Para o Wayne e a Bárbara, com quem vi o veado no crepúsculo de Acádia...” Estou vendo.
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