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Minhas
netas: no dia 15 o vô vai ficar mais velho. Bobagem,
porque a gente envelhece o tempo todo; o tempo não
para; é como o rio. Só que a gente não percebe. Mas aí
chega um dia que faz a gente parar e prestar atenção:
o dia do aniversário. No dia do aniversário a gente
diz: “Passou mais um ano da minha vida“. É o dia
quando os números mudam. Quando me perguntam: “Qual
é a sua idade?“ - eu respondo: “67“. Mas depois
do dia 15 a resposta será “68“.
Vocês crianças, quando pensam em aniversário, dão
risada e ficam felizes. Aniversário é dia de festa e
presentes. Toda criança quer que o tempo passe depressa
para ficar mais velha, deixar de ser criança e ficar
adulta. Acham que ser criança é coisa ruim, porque
crianças não são donas do seu nariz, não fazem o que
querem. Bom mesmo é ser grande. Os grandes fazem o que
querem e não precisam pedir permissão. Criança é
passarinho sem asas. Adulto é passarinho com asas: voam
bem alto e vão aonde as crianças não podem ir. No dia
do aniversário as crianças olham para frente: imaginam
que está chegando o dia quando elas terão asas e poderão
voar.
Os grandes, no dia do aniversário, olham para trás.
Eles têm saudades do tempo em que eram crianças. É só
depois que a gente deixa de ser criança que a gente
descobre que ser criança é muito bom.
Explico de outro jeito. Imaginem que vocês vão fazer
uma viagem. A felicidade da viagem começa antes da
viagem. A gente examina mapas, lê artigos sobre os
lugares que vão ser visitados, conversa com amigos que
já foram, olha fotografias. E só de imaginar fica
feliz.
Depois de feita a viagem é diferente. A felicidade
ficou para trás. Só resta ver as fotos e conversar...
Criança é quem ainda não viajou e fica feliz
imaginando a viagem. Viagem imaginada é sempre feliz.
Adulto é quem já viajou e fica feliz olhando as fotos
da viagem.
Foi por isso que resolvi mexer numa caixa de fotografias
velhas – fotografias do tempo em que eu era menino.
Foi o tempo mais feliz da minha vida. Caí muitas vezes,
cortei o pé com cacos de vidro (eu andava sempre descalço),
me espetei com espinhos e pregos, cortei a mão com faca
e serrote, fiquei doente, tive dor de dente, me queimei
(eu vivia correndo; entrei correndo na cozinha e dei uma
topada com a cozinheira que carregava uma panela de água
fervente. A panela virou, a água fervente entornou no
meu braço e peito; doeu muito; fiquei todo empolado),
martelei o dedo, fui picado por marimbondos e abelhas,
pus a mão em taturanas, caí de árvores, senti muita
dor. Mas as dores passavam logo. E a alegria voltava.
Fui um menino sempre alegre. Tudo no mundo me encantava.
Menino, eu não imaginava que, um dia, eu seria velho...
Pois esse dia chegou. Meu aniversário me diz que agora
sou velho. Ser velho tem vantagens. Uma delas é ser avô.
Se eu fosse jovem não seria avô, não teria netas. E não
estaria escrevendo agora pensando em vocês – porque
vocês não existiriam. Houve um tempo em que vocês não
existiam. Vocês só existem porque eu deixei de ser
criança e fiquei velho. Vocês são, para mim, um
motivo de alegria.
Acho divertido ver fotografias. Quando eu era menino, no
sobradão do meu avô – um sobradão colonial,
parecido com aqueles sobradões de Ouro Preto e Paraty
– havia um enorme armário amarelo (vejam só, que idéia;
pintar um armário de amarelo!) em cuja gaveta estavam
guardados dois álbuns de fotografias. Eu gostava de ver
aqueles álbuns. As capas eram artísticas. Uma, de
madeira entalhada, a outra, de veludo vermelho e letras
douradas. E havia linguetas rendilhadas de metal para
fechá-los. Dentro, fotografias de homens sérios, de
colarinho duro, gravata borboleta, bigodes engomados
torcidos para cima. As mulheres, todas com birotes, tranças
ou cachos e vestidos rendados até o pescoço, com
camafeus pendurados. Ninguém ria. Todo mundo era sério.
Riso, para eles, era sinal de criancice. Adulto não ri.
E não fotografavam cenários. Só mereciam estar no álbum
os rostos empalhados das pessoas importantes. Mas o
sobradão pegou fogo e as fotos daquelas pessoas sérias
viraram cinza e fumaça. Tudo o que é sério vira cinza
e fumaça... O tempo é rio, o tempo é fogo: assim
dizia um sábio muito antigo chamado Heráclito.
Naquele tempo era complicado tirar um retrato. Não
havia essas câmeras inteligentes que hoje todo mundo
tem e que tiram uma foto bastando, para isso, apertar um
botão. Eram necessários longos preparativos com
equipamentos trambolhosos e explosivos. Mas as
fotografias que estou vendo são de tempos mais
modernos. Ainda não havia fotografias coloridas mas as
pessoas já tinham permissão para sorrir e ser
naturais. Numa dessas fotos eu estou nenê de 4 meses,
de bruços, sobre uma almofada. Dessa almofada eu me
lembro... Não sei porque, mas essa foto me dá uma
pitada de vergonha... Imaginem: eu já fui nenê! Duas
outras, eu deveria ter uns dois anos: numa, concentrado,
olhando um livro. Na outra, segurando uma gaiola vazia.
Depois de adulto voltei à casa onde nasci. Ainda está
lá, conservada e cuidada. Fotografei. E fotografei também
o quarto onde nasci. Como vocês devem saber, naqueles
tempos as crianças nasciam em casa, e quem fazia o
parto era uma mulher prática chamada parteira. Lá,
naquele quarto, câmera fotográfica na mão, eu pensei:
“Foi aqui que entrei no mundo...“ Aí, há um longo
período sem fotografias. Foram os anos quando meu pai,
seu avô, ficou pobre. Fotografia custa dinheiro, é
coisa de rico. Nos anos de pobreza a gente gasta o que
é essencial: comida, roupa, remédio. Uma fotografia
quer dizer: melhorou de vida. Melhoramos de vida.
Mudamos para o Rio de Janeiro. E lá está uma foto
minha: 12 anos, calça curta, assentado numa mureta de
pedra, na Praia Vermelha. Essa praia me traz muitas memórias
gostosas. Era próxima da casa onde eu morava e se
encontra numa baía que tem, à sua esquerda, o morro da
Urca e o Pão de Açúcar. Foi aí que aprendi a nadar.
Aí, no meio das minhas fotos, três outras, dos seus
pais e sua tia. Também eles foram meninos. Numa delas o
Sérgio, seis anos, está empinando uma pipa. Na segunda
o Marcos, dois anos, está soprando uma bolha de sabão.
Na terceira a Raquel – um ano – está dormindo.
No dia do meu aniversário os números vão mudar, como
mudam no rodômetro, aquele aparelhinho no painel do
carro que marca a quilometragem. Está lá “67“ e aí,
de repente, o “7“ dá um pulo e o “8“ aparece no
seu lugar. Esse é um jeito de marcar o tempo, contando
os números.
Jeito bobo. Os números não dizem nada. Há um verso
sagrado que diz: “Ensina-me a contar os nossos dias de
tal maneira que alcancemos corações sábios.“ Muita
gente envelhece sem ficar sábio. O que é um sábio? Sábio
não é quem sabe muito. Sábio é quem come a vida como
se ela fosse um fruto saboroso. O sábio presta atenção
nos prazeres e alegrias de cada momento. E o que dá
prazer e alegria não são coisas grandes, festas com
bolo, bexigas e presentes. O que dá alegria são coisas
pequenas. Por exemplo: brincar com um cachorrinho. Balançar
num balanço. Andar na água fria de um riachinho. Ver
um ipê florido. Ler um livro. Armar um quebra-cabeças.
Ver fotografias antigas.
Não quero presentes comprados. Não preciso de nada. Um
presente que vocês, minhas netas, e os meus filhos, me
poderiam dar é simples: ler as coisas que eu escrevo.
Cada coisa que eu escrevo - quero que cada uma delas
seja gostosa como um morango vermelho... Escrevo para
dar felicidade. Quero que vocês sejam felizes.
APERITIVOS
1. É aniversário do RAFAEL, filho da Tereza e do
Eurico. Ele ainda não havia nascido mas o seu nome já
estava escolhido. Não sei se seus pais sabiam o
significado daquele nome. Mas, na vida, a gente sabe
muitas coisas sem saber. Rafael: esse será o nome dele,
eles disseram. Rafael, segundo os poemas sagrados, é o
nome de um dos sete arcanjos que intercedem pelos homens
diante de Deus. E a maravilhosa missão de Rafael é a
de “curar a terra que foi ferida pelos anjos maus.“
O seu nome significa “Deus cura“. Assim são os
filhos. Todos eles são anjos. E se prestarmos atenção
ao que eles angelicamente dizem com seus brinquedos e
seus risos, é certo que ficaremos curados dessa doença
que se chama ser adulto. Os anjos-crianças nos fazem
voltar a ser criança de novo. Pois o Rafael, filho da
Tereza e do Eurico, anjo com cara de menino e sorriso
brincalhão, fez mais um aniversário. Meu desejo: Que
seja da alegria sempre um aprendiz!. Que não se apaguem
velas! Que se acendam velas!
2. NÚCLEO EDUCACIONAL PÃO DA VIDA: O Centro Corsini
vai inaugurar um projeto educacional dedicado a crianças
e adolescentes vítimas diretas ou indiretas da AIDS.
Com parceria da Editora Globo, será um espaço para
atividades educativas, arte e lazer. Qualquer criança,
vítima direta ou indireta da AIDS, pode participar do
projeto. Dois pintores maravilhosos, amantes das crianças,
estarão lá, expondo seus quadros: Avelino Rodrigues e
Egas Francisco. E haverá venda de produtos artesanais.
O lugar era um velho barracão industrial que foi
totalmente transformado com projeto arquitetônico e
paisagístico de Raquel Nopper Alves, Maura Bresil
Palhares e Enádija de Castilho Barnabé, arquitetas
competentes e de imaginação. VOCÊ PODE AJUDAR! Livros
novos e usados. Brinquedos. Coisas que possam ser usadas
pelas crianças e pelos adolescentes. Dia 20 de
setembro, das 10 às 12 horas. Vá lá! Mude seu
programa. Peça licença ao chefe! Melhor: Leve o seu
chefe! Eu mudei o meu programa. Vou estar lá. Nos
encontraremos! Rua Luis Otávio 2869, ao lado do Centro
Corsini. Informações: 3256-6344
(Correio Popular, Caderno C, 09/09/2001.)

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