Sobre o
cuspe
"Incidentes insignificantes
provocam pensamentos nunca pensados. Eu me preparava para ultrapassar um carro
que ia vagarosamente à minha frente, quando o seu motorista virou o rosto
para o lado esquerdo e cuspiu na estrada, um ato ecologicamente correto. Mas o
seu ato banal provocou o meu pensamento. Por que os homens cospem? É preciso
reconhecer que cuspir não é um ato natural. Gatos, cachorros, macacos e pássaros
não cospem. Todo mundo sabe disso. Na roça, brincando com enigmas, perguntava-se
às crianças: "Por que é que o boi baba?" A resposta certa era: "Porque ele não
sabe cuspir."
"Mas logo me arrependi por estar
perdendo o meu tempo com pensamentos tão bobos. Esqueci-me do cuspe como tema de
pensamento. Aí, acidentalmente, lendo um texto de Manoel de Barros, encontrei
essa afirmação: "Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à
distância, servem para a poesia..."
"Voltei a pensar sobre o cuspe,
agora sem sentir culpa. Lembrei-me da dignidade teológica do cuspe. Relatam
os evangelhos que Jesus, para curar um cego, cuspiu no chão, fez um barrinho de
cuspe e terra, esfregou nos olhos do cego, ordenou que ele fosse se lavar num
tanque sagrado, e o cego voltou a ver! Um conhecido, estudioso de seitas
curiosas, disse-me haver uma "Igreja do Cuspe de Cristo", o que é perfeitamente
compreensível. Pois não há "Igrejas do sangue de Cristo"?
"Houve tempo em que era normal
que houvesse nas salas de visita das casas e nos lugares públicos, especialmente
barbearias, escarradeiras."
"Notei que jogadores de beisebol
cospem para o lado como parte das suas encenações. E vendo a despedida do
Romário na televisão, vi que um jogador também cuspiu para o lado, antes de
bater o escanteio. Imaginei, portanto, que o ato de cuspir ou escarrar,
tem uma função de exibição fálica. Quem cospe está dizendo: "Sou macho..."
Porque toda escarradeira é feminina, um orifício e um espaço vazio.
Enquanto o cuspe é masculino. Não é preciso chamar a atenção do leitor para a
semelhança que existe entre a cusparada e a ejaculação."
Rubem Alves
Correio
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15/05/05