|
Quando
escrevo uma crônica a sensação é como se estivesse
patinando: deslizo sobre as palavras. Mas quando vou dar
uma aula sobre um assunto complicado, é como se
estivesse escalando uma montanha: cada passo tem de ser
pensado, cada passo exige esforço. Não estou
patinando. Estou escalando uma montanha chamada
“crime“. E ficaria feliz se você me acompanhasse
vagarosamente, pensando seus pensamentos.
Os crimes são cometidos por causa de um “objeto de
desejo“: maçã vermelha... Como desejo essa maçã!
Se eu a tivesse, se eu a comesse, seria feliz! Mas o
caminho até a árvore onde ela cresce é longo e difícil!
E não há certeza alguma de que, ao final, a colherei.
Não sei se o caminho leva até ela. Se chegar a ela,
talvez será tarde demais! Estarei velho. Quero comê-la
agora!
Mas que coisa estranha! Vejo tantas pessoas ao meu redor
comendo a maçã do meu desejo! E eles não mostram
sinais de esforço e cansaço. Parece que não tiveram
que trilhar o longo caminho para apanhá-la! Pergunto.
Eles me dizem que é fácil. Basta seguir um outro
caminho, diferente daquele que estava à minha frente.
No seu início se encontra uma advertência: “Caminho
proibido“. Então é isso? O caminho permitido é o
caminho apertado e difícil, de resultados incertos. E o
caminho proibido é o caminho fácil e largo, de
resultados imediatos. Somente um tolo entraria pelo
caminho permitido. Para quê, se existe o outro?
Todo crime é cometido para se apossar da “maçã
dourada“. Nos crimes de amor a “maçã dourada“ é
uma pessoa, objeto da paixão. São comoventes.
Comoventes porque neles se revela a tolice do coração.
Quem mata por amor o faz compelido por um surto de
loucura de curta duração chamado “paixão“. Mas o
apaixonado não sabe disto. Os apaixonados, sem exceção,
têm certeza sobre o seu amor e acreditam que ele será
eterno. São uns tolos. Se tivessem lido poesia seriam
mais sábios. O Vinícius sabia: “Que não seja
eterno, posto que é chama, mas que seja infinito
enquanto dure.“ Infinito enquanto dure... O
“enquanto“ já anuncia que o infinito não será
eterno. Todas as chamas se apagam. Mas, depois de
apagada a chama efêmera, uma outra chama se acende,
talvez de luz mais bonita que a anterior. Mas o
apaixonado, tolo, não sabe disso. E comete o crime,
fazendo a mais tola declaração de amor que se pode
fazer: “Não posso viver sem você...“ (Claro que
pode!) O apaixonado comete o crime a fim de tornar
eterno aquilo que é efêmero. “Morta, ela será
sempre minha;...“ Sempre existiram, sempre existirão.
Sofrimento passageiro. Amputação de dedo. Não ameaçam
a vida social. Mas há crimes por uma outra “maçã
dourada“ chamada “poder“. Esses são câncer.
Esses matam a sociedade. Como estão matando a nossa.
Dizem os poemas sagrados que Deus, ao criar, deu ao
homem um delicioso objeto de amor, um paraíso onde
todos os seus desejos podiam ser satisfeitos. Mas a
serpente, psicanalista astuta, conhecia melhor os
segredos do coração humano: no paraíso havia um
desejo, um único desejo que não podia ser satisfeito.
“Foi isso que Deus disse, que vocês não poderiam
comer dos frutos das árvores do jardim?“, e ela disse
serpentinamente, dando uma colher de chá aos seus
interlocutores. “Não, não foi isso que Deus disse.
Disse que poderíamos comer de todas as árvores, menos
uma: a árvore do conhecimento. Veja com os seus próprios
olhos: no seu tronco está escrito: ‘Comer dessa árvore
é crime. Quem comer vai morrer!‘“ “Vai nada“,
retrucou a serpente. “Conversa para intimidar vocês.
Deus proibiu que vocês comessem daquela árvore porque
ele sabe que, se vocês comerem, vocês serão como
Deus, iguais a ele...“ No paraíso todos os desejos de
amor estavam satisfeitos. Mas, para que os frutos do
amor fossem gozados era preciso que se renunciasse ao
uso do poder.
O poder é o verme que apodrece o fruto do amor. Todo
mundo sabe isso por experiência própria. Mas ninguém
acredita. Porque a promessa contida no fruto do poder é
mais forte que a promessa contida no fruto do amor. Pois
o que o Poder promete é que, quem o comer, poderá
comer todos os frutos do amor: “será como Deus...“
O Poder é o gênio que mora na garrafa. Quem não faria
tudo para ter um gênio engarrafado? As seduções do
Poder são mais fortes que as seduções do Amor. O
Poder é Deus forte. O Amor é Deus fraco. (Os pais
ficariam mais tranqüilos se a filha se casasse com um
homem rico, que ela não ama, que se ela casasse com um
homem pobre, que ela ama... Os pais – desiludidos –
sabem que o amor é coisa passageira; mas o dinheiro é
coisa permanente...)
Na última das suas tentações o Diabo leva Jesus a uma
montanha muito alta e lhe mostra todos os reinos da
terra. “Tudo isso te darei se, prostrado, me
adorares“, ele diz. Os poetas e místicos, ao invés
de falarem abstratamente sobre as coisas, falam por meio
de imagens. Tolos são aqueles que interpretam as
imagens literalmente: o Diabo, um ser com focinho de
porco, chifre, rabo e cheiro de enxofre... Mas
“Diabo“ é apenas uma imagem cujo sentido é o
desejo de poder. O desejo de poder mora dentro de cada
um e permanentemente nos tenta. Convida. O que ele
oferece é desejável. Os desejos que movem os
criminosos estão presentes na alma de todos. Quem não
gostaria de ter poder absoluto – ser como Deus? Ele é
o gênio da garrafa, que promete realizar nossos
desejos. Curioso: ele tenta Jesus com poder absoluto.
Mas, para ser tentado, era preciso que Jesus não
tivesse poder absoluto. Só somos tentados naquilo que não
possuímos. Sou tentado a me apossar de algo que não
possuo. Conclusão: O Diabo é “poder sem amor“.
Deus é “amor sem poder“.
Vá a uma locadora de vídeos. Procure o filme O
Advogado do Diabo. Se já o viu, veja de novo. Se não
o viu, veja pela primeira vez. Ele é a versão moderna
da última tentação de Cristo.
O dinheiro tenta porque nele se encontra o poder. Ama-se
o dinheiro pelo poder que nos dá.
O que leva os homens a invocarem os deuses? Os homens
invocam os deuses a fim de se apropriarem dos seus
poderes. Religiões são artifícios humanos que
supostamente têm o poder de fazer os deuses realizar os
nossos desejos. Os deuses são invocados, não por serem
amados, mas por serem poderosos. O que os homens desejam
não é Deus mas o milagre. O milagre é um atalho para
se chegar à “maçã dourada“. Jesus sabia disso e
acusou as multidões que o seguiam: “Vós me buscais não
porque vistes sinais mas porque comestes os pães e vos
fartastes“. Ai do Deus que não realiza milagres!
Deuses que não realizam milagres, isso é, que não
atendem os desejos dos seus adoradores, são logo
abandonados e trocados por outros. Um Deus apenas bom é
um Deus fraco. Um Deus fraco é um Deus que não tem
poder para realizar o meu desejo. De que me vale um Deus
que não realiza o meu desejo?
Sobre isso vale a pena gastar uns minutos e ligar a
televisão num desses programas religiosos que ficam no
ar 24 horas por dia. O que prometem eles? Prometem a
“bênção“. O que é a “bênção“? É a
realização do desejo de cada um. E o que dizem os
profetas desses deuses? Eles ensinam as “receitas“
que, se seguidas, farão com que Deus faça a vontade de
quem pede. É preciso esfregar a garrafa de maneira
correta para que o gênio acorde e saia. Esfregada a
garrafa segundo a receita o gênio sai e a bênção
acontece. Cada religião proclama ter o monopólio da
receita certa.
Infelizmente os deuses das religiões são imprevisíveis
e parecem só ter poder para pequenos milagres como
curar dor de cabeça e fazer com que o marido deixe de
bater. Milagres prá valer, como ter um carro importado,
fazer uma viagem à Europa ou parar a guerra – esses
milagres parecem ser grandes demais para o poder dos
deuses das religiões. Eles não atendem nem mesmo as
orações do Papa que, continuamente, ora pela paz. Ou
Deus não quer a paz (e nesse caso não é Deus) ou quer
a paz, mas não tem poder para realizá-la (caso em que
ele não é Deus também).
(Por favor: não me acusem de impiedade. Sou místico.
Para mim o sagrado está espalhado pelo universo
inteiro. Onde está a beleza, onde está a vida, ali está
o sagrado. Adoro o “Grande Mistério“ sem lhe pedir
coisa alguma. Basta-me ouvir a sua música – por vezes
de beleza trágica.)
Não é assim com o dinheiro. Dinheiro tem poder. Com o
dinheiro todas as coisas são possíveis. Não foi por
acaso que Shakespeare o chamou de “Deus Visível“.
Com o dinheiro não é preciso fazer invocações ou
promessas: ele realiza o desejo daquele que o possui
imediatamente. Pelo dinheiro, então, não valerá a
pena andar pelo caminho proibido? O caminho do crime? O
caminho permitido é muito difícil e lento e, na
maioria das vezes, não leva à maçã dourada... (a
aula continua...)
(Correio Popular, Caderno C, 28/10/2001.)

|