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Peço desculpas por ter escrito um livro assim tão
chato. Eu não queria, porque eu não sou assim. Se
escrevi deste jeito foi porque me obrigaram, em nome do
rigor acadêmico. Eles pensam que a verdade é coisa
fria e até inventaram um jeito engraçado de escrever,
tudo sempre no impessoal, como se o escritor não
existisse, e assim o texto parece que foi escrito por
todos e por ninguém. E foi por causa deste frio que se
interditou o aparecimento da beleza e do engraçado nos
textos de ciência. O saber deve ser coisa séria, sem
sabor.
O que me faz lembrar de um mural de Orozco, pintor
mexicano que passou anos ensinando a sua arte num
college norte-americano, e foi certamente em virtude
daquilo que ele via acontecendo com os moços que pintou
A Formatura’: o professor, alto, magro, cadavérico,
verde,/entrega ao seu discípulo,/ sua imagem,/ também
alto, magro, cadavérico, verde,/ a prova final do
saber,/ o diploma,/ um feto morto, dentro de um tubo de
ensaio.
As coisas mais bonitas que se escreveram em filosofia não
seriam aceitas nos círculos acadêmicos nem mesmo como
uma modesta tese de mestrado. Assim falava Zaratustra,
por exemplo. É um livro que transgride os interditos
acadêmicos de várias formas: é belo,/ poético,/
metafórico,/ reticente,/ uma coleção de fragmentos,/
e é escrito com sangue...
Mas se alguém se dispuser a fazer deste poema o objeto
de suas dissecções analíticas, então sim, a dissecção
virará dissertação, coisa de entrada permitida nos círculos
do saber. O que tem vida fica de fora; entram as peças
anatômicas, cheirando a formol.
Há aquele ditado Zen: ‘O dedo aponta para a lua,/ mas
ai daquele que confundir o dedo com a lua.’
Aqui é o contrário: mais vale o dedo que a lua...
Como Nietzsche observou, a condição para se passar num
exame de doutoramento é haver desenvolvido o gosto
pelas coisas chatas.
Assim escrevi feio, sem riso ou poesia, pois não me
restava outra alternativa: estudante brasileiro,
subdesenvolvido, em instituição estrangeira, tem mesmo
é de se submeter, se quiser passar...
Hoje faria tudo diferente.
Começaria por informar meus leitores de que teologia é
uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das
contas de vidro que Hermann Hesse descreveu, algo que se
faz por puro prazer, sabendo que Deus está muito além
de nossas tramas verbais.
Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em
suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não
se pode segurar...
Teologia é rede que tecemos para nós mesmos, para nela
deitar o nosso corpo.
Ela não vale pela verdade que possa dizer sobre Deus
(seria necessário que fôssemos deuses para verificar
tal verdade); ela vale pelo bem que faz à nossa carne.
Ah! Pensam que sou herege... Nada disto. Estou apenas
repetindo coisa muito velha, esquecida, da tradição
protestante, que diz que ‘conhecer a Cristo é
conhecer os seus benefícios’: de Deus, o único que
podemos saber é o bem que faz ao nosso corpo. Com o que
concorda o sábio Riobaldo: ‘Como não ter Deus? Com
Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve.
Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no
vai-vem, e a vida é burra. E o aberto perigo das
grandes e pequenas horas... Tendo Deus, é menos grave
se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas,
se não tem Deus, então, a gente não tem licença para
coisa nenhuma.’
Aqui se resume a teologia; o resto são floreios.
Há palavras que moram na cabeça e são boas para serem
pensadas. Com elas se faz a ciência.
Mas há palavras que moram no corpo, e são boas para
serem comidas. Chegam à carne sem passar pela reflexão.
Magia. Ou poesia, que é a mesma coisa.
Dito de forma clara, vi pela primeira vez na Emily
Dickinson: ‘Se leio um livro e ele torna/ o meu corpo/
tão frio que nenhum fogo seria jamais capaz/ de me
aquecer,/ eu sei que aquilo é poesia./ Se eu sinto,/
fisicamente,/ como se o topo de minha cabeça tivesse
sido/ arrancado,/ eu sei que aquilo é poesia.’
Por isto que, pra mim, poesia e magia são a mesma
coisa: a imagem é coisa bruxa que me possui,/ se
encarna em mim./ Teologia é um exercício de feitiçaria,
variações sobre o tema da encarnação.../ Deus se fez
Carne,/ Deus é a Carne em que se revelou,/ Deus
acontece quando o poema toma conta do Corpo.
Isto é o único que podemos dizer de Deus. Não que
saibamos coisa alguma a seu respeito.
Mas bem sabemos que aquilo que está acontecendo com o
nosso corpo é coisa divina, que deveria existir sempre,
eternamente, e bem mereceria que o nosso corpo
ressuscitasse, eterno retorno, para que o Poema fosse
eternamente repetido, gozo, orgasmo, ciclo que sempre
volta ao início, canon, contraponto, variações sobre
um mesmo tema.
Damos o nome de Deus a este êxtase do corpo (ou da
alma; não sei onde é que os dois se separam) possuído
pela beleza.
Não há mistérios fora disto sobre que possamos falar.
Cito, como autoridade, outro teólogo, Alberto Caeiro:
‘Pensar em Deus é desobedecer a Deus...’
A única coisa que temos é o tremor na carne quando
nela acontece a magia, e ela fica possuída pelo poema.
É então que as ausências se fazem presenças
(fugidias...). Aquilo que Nietzsche sugeriu: ‘Será
que não percebes que o que amam em ti é o brilho de
eternidade em teu olhar?’ O crpo vira altar - ou, como
diriam os teólogos, ‘locus revelationis’ - o lugar
onde se torna visível que somos habitantes de um outro
mundo. Não, não me entendam mal quando falo de
‘outro mundo’. Nada a ver com céu ou inferno...
De novo é a Poesia: ‘Todos os dias atravessamos a
mesma rua ou o mesmo jardim, todas as tardes nossos
olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos
e de tempo urbano. De repente, num dia qualquer, a rua dá
para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro
fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e
agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão
esmagadoramente reais. Sua própria realidade compacta
nos faz duvidar: são assim as coisas ou são de outro
modo? Não, isto que estamos vendo pela primeira vez, já
havíamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca
estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à
surpresa segue-se a nostalgia. Parece que nos recordamos
e queríamos voltar para lá, para esse lugar onde as
coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima
e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos
de lá. Um sopro nos golpeia a fronte. Adivinhamos que
somos de outro mundo...’ (Octávio Paz)
Se uso a palavra Deus é como metáfora poética, nada
que eu conheça, o significante que nada significa, a não
ser o espaço vazio onde aparecem as minhas nostalgias e
onde se coloca o dizer poético. De Deus só temos o
Verbo, Poema, coisa que se diz quando a saudade dói...
Isto não é jeito que eu tenha inventado.
Aprendi, lendo as Sagradas Escrituras, onde está
interditado o simples pronunciar do Nome Sagrado, que
sempre que aparecia no texto era substituído por um
outro - Tabu! - e, se o simples pronunciar do Nome
Sagrado era blasfêmia, que dizer das tentativas de se
escreverem anatomias e fisiologias do Mistério Divino,
isto a que se dá o nome de teologia?
Deus é símbolo que marca uma proibição de falar.
Onde ele se diz estabelece-se um grande silêncio. E
sobre ele surgem as metáforas, que é um jeito de dizer
o que não pode ser dito.
Não podemos falar sobre Deus, mas podemos falar sobre
as coisas humanas. Teologia são os poemas que tecemos
como redes sobre a saudade de algo cujo nome esquecemos.
Qual deles é verdadeiro? Poemas não podem ser
verdadeiros. Mas devem ser belos.
E é só por isto que eles têm o poder mágico de
possuir o corpo. A verdade é o que é; o que está
presente. Mas o corpo se inclina para o que não é -
Desejo! - o que ainda não nasceu, ou que já morreu,
contornos do ‘pedaço arrancado de mim’. E me veio
esta idéia insólita de que Deus é o nome que damos a
esta ausência que habita o corpo...
O que me leva a uma absurda conclusão: para fazer
teologia não é necessário acreditar que Deus exista.
A Cecília Meireles só escreveu sua ‘Elegia’ depois
da morte de sua avó. O poema descreve o mundo mágico
que ficou no espaço vazio deixado por um corpo que se
foi.
‘Teu como era um espelho pensante do universo...’
Teologia não é coisa de quem acredita em Deus mas de
quem tem saudades de Deus.
Acreditar: sei que Deus existe em algum lugar. Ah! Se não
existir, tudo estará perdido...
Ter saudade: mesmo que não exista lá fora, no meio das
nuvens ou no fundo do mar, eu o mantenho como ‘pedaço
arrancado de mim...’ ‘Oh! Pedaço arrancado de
mim.../ Oh! Metade arrancada de mim.../ A saudade é o
revés do parto/ A saudade é arrumar o quarto/ do filho
que já morreu...’ (Chico)
Teologia, celebração de um vazio que nada pode encher.
E só por isto que dizemos que Deus é Infinito. Não
porque o tivéssemos medido, mas porque sentimos o
Infinito do desejo que coisa alguma pode satisfazer. Daí
que estamos condenados a ser eternos pranteadores...
Mas teologia é coisa bela, um sonho...
Sonhamos com Deus e o sonho interpretado deixa ver os
cenários que existem nos vazios da nossa nostalgia
(ocultos pela bruma do esquecimento). E então nos
tornamos poetas...
Acontece que o mundo está cheio de loucos.
Muitos pensam que o que dizem sobre Deus tem conseqüências
cósmicas (mais próximos da verdade estariam se se
contentassem com as conseqüências cômicas)... O que
me faz lembrar a estória de um galo que acordava bem
cedo, todas as manhãs, ainda escuro, e anunciava solene
aos seus companheiros, bichos de galinheiro: ‘- Vou
cantar para fazer o sol nascer...’
E se empoleirava no alto do telhado, olhava para o
horizonte, e ordenava, categórico: ‘-Co-co-ri-co-có...’
Dali a pouco a bola vermelha mostrava o seu primeiro
pedaço e o galo comentava, confiante: ‘- Eu não
disse?...’
E os bichos ficavam boquiabertos e respeitosos ante
poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar pra
fazer o sol nascer. E nem havia sombra alguma de dúvida,
porque tinha sido sempre assim, com o galo-pai, com o
galo-avô...
Aconteceu, entretanto, que o galo certo dia perdeu a
hora, e quando ele acordou o sol já estava lá,
brilhando no meio do céu...
Há teólogos que se parecem com o galo. Acham que, se não
cantarem direito, o sol não nasce: como se Deus fosse
afetado por suas palavras. E até estabelecem inquisições
para perseguir galos de canto diferente e condenam
outros a fechar o bico, sob pena de excomunhões. Claro
que fazem isto por se levarem muito a sério e por
pensarem que Deus muda de idéia ou muda de ser ao sabor
das coisas que nós pensamos e dizemos. O que é, para
mim, a manifestação máxima de loucura, delírio maníaco
levado ao extremo, este de atribuir onipotência às
palavras que dizemos.
Teólogos são, freqüentemente, galos que discutem qual
a partitura certa: que canto cantar para que o sol
levante? Neste sentido, conservadores fundamentalistas não
se distinguem em nada dos teólogos científicos que se
valem de métodos críticos de investigação. Todos estão
de acordo em que existe uma partitura original,
revelada, autoritativa, e que a tarefa da teologia é
tocar sem desafinar. As brigas teológicas são discussões
sobre se a tonalidade é maior ou menor, ou se o sinal
é bemol ou sustenido. Uns querem que seja tocada com
orquestra de câmara e outros afirmam que o certo é
tocar com banda. Qualquer que seja a posição, todos
afirmam que existe um único jeito de tocar a música.
Usando palavras de Lutero, ‘unum simplicem solidum et
constantem sensum’ - o sentido uno, puro, sólido e
constante. Desafinações, variações ou modificações
trazem consigo o perigo de alguma grave conseqüência.
Eu penso, ao contrário, que não é nada disso.
O sol nasce sempre, do mesmo jeito, com galo ou sem
galo.
Assim, o galo pode dormir à noite, sem a angústia de
ter de acordar na hora certa. Se dormir demais, o sol
vai se levantar do mesmo jeito. O que, sem dúvida,
diminui seu senso de importância, mas tem a compensação
do sono tranqüilo, o que não é de se desprezar.
Mais do que isso: o galo pode inventar outros cantos,
sabendo que o sol não vai se zangar e vai nascer como
sempre, no mesmo lugar.
Traduzido em jargão teológico isto significa ‘graça’:
a bondade de Deus continua a mesma, sempre, independente
de nossas afinações ou desafinações. Ele nem nasce
melhor quando estamos afinados e nem nasce pior quando
estamos desafinados... Temos, portanto, a liberdade de
fazer o que quiser... Eu não suportaria pensar que o
meu pensamento é tão poderoso que, caso eu pense
errado, Deus vai ficar torto.
A partitura tem o nome de teologia, mas quem dança
somos nós...
Uma outra parábola.
Algumas pessoas discutem sobre uma casa, que todos vêem.
Para um grupo, ela é habitada por um nobre, de hábitos
aristocráticos e conservadores...
Outros afirmam o oposto: mora ali um operário, membro
de sindicato, revolucionário...
Alguns, por oposição, dizem que ela está vazia...
Eu me aproximo, apontam na direção da casa, pedem
minha opinião, e concluo que alguma coisa deve estar
errada com os meus olhos, pois não vejo casa alguma, só
nossos próprios reflexos, através dos vidros da vidraça.
Tive, no meu aquário, um peixe de cores banais. Mas era
um peixe guerreiro, que não suportava a presença de um
competidor. Se isto acontecia ele se transfigurava, e o
seu corpo era possuído por cores escondidas que ninguém
suspeitava morassem nele. Mas como ninguém desejava o
combate mortal, a magia podia se realizar com o auxílio
de um simples espelho.
Pobre peixe: incapaz de reconhecer sua própria imagem
no reflexo.
As batalhas teologais me fazem lembrar meu
peixe-de-briga. Por não saberem que tudo não passa de
um delicioso e divino jogo de espelhos - coisa própria
para o nosso prazer de brincar - os teólogos mudam as
suas cores e são possuídos por uma doença já
catalogada: odium theologicum. Assim se iniciam as
batalhas em nome de Deus. Seria tão mais honesto se
reconhecessem que ‘Deus’ é o nome que dão à sua
própria imagem...
Faço meus poemas sobre um vazio, o meu vazio. Não
conheço nenhum outro. Em obediência a um mandamento
sacramental: que o pão fosse comido e o vinho fosse
bebido na dor da ausência. A magia não está nem no pão,
nem no vinho, mas nas palavras que dizem a tristeza da
falta. O sacramento celebra a ausência de Deus, ele
enuncia os limites dos espaços de espera que se dilatam
dentro de mim, eroticamente.
É a ausência que me excita.
Ou, nas palavras desta teóloga ímpar, a Adélia Prado:
‘Entre as pernas geramos e sobre isso se falará até
o fim sem que muitos entendam: erótico é a alma.’
Será isto que é a alma, a ausência que mora em mim, e
faz o meu corpo tremer? Não me canso de repetir esta
coisa linda que disse Valéry: ‘Que seria de nós sem
o auxílio das coisas que não existem?’
Estranho isto, que o que não existe possa ajudar...
Deus nos ajuda, mesmo não existindo: este o segredo da
sua onipotência.
Teologia é um encantamento poético, um esforço enorme
para gerar deuses...
Que deuses?
Os meus, é claro.
São os únicos que me é permitido conhecer.
Lembro-me de Feuerbach. Compreendeu que estamos
destinados ao nosso corpo, especialmente os olhos.
Vemos. Mas em tudo o que vemos encontramos os contornos
da nossa própria nostalgia, o rosto da alma.
Como Narciso, que se enamorou de sua própria imagem,
refletida na superfície lisa da fonte. Também nós: o
universo sobre que falamos é a imagem dos nossos cenários
interiores. Com o que concorda a psicanálise, e antes
dela o Evangelho: a boca fala do que está cheio o coração.
Nossos deuses são nossos desejos projetados até os
confins do universo.
‘Se as plantas tivessem olhos, capacidade de sentir e
o poder de pensar, cada uma delas diria que a sua flor
é a mais bela’.
Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas
são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. E
os deuses dos tigres são tigres...
Tudo é sonho. Ou, como diz Guimarães Rosa: ‘Tudo é
real porque tudo é inventado.’
Também o real é uma invenção...
E o mágico é isto: que o corpo, desprendendo-se das
ligações que o prendem àquilo que é, possa ser possuído
por aquilo que não é. Aquela coisa pesada, que se
arrastava desajeitadamente pelo chão, repentinamente
fica leve, transparente, utópica, ao vento. E assim, as
coisas que são, é como se não fossem; e as coisas que
não são, é como se fossem. (1 Cor. 1:28-29).
Teologia é um brinquedo que faço.
É possível plantar jardins, pintar quadros, escrever
poemas, jogar xadrez, cozinhar, fazer teologia... Claro
que um jogo não exclui o outro. Alguns dirão que isto
não é coisa séria.
Eu os conheço muito bem e já havia advertido o leitor
contra eles.
Quem se leva a sério é, no fundo, um inquisidor. Está
só à espera de que a ocasião apareça.
As grandes atrocidades que se cometeram contra as
pessoas foram todas levadas a cabo com espírito grave,
com um senso de missão, de salvação do mundo.
O diabo está sempre vestido de paletó e gravata e, a
se acreditar em Nietzsche, ele nem sabe contar piadas e
nem sabe dançar: é o espírito da gravidade. Já com
Deus é o contrário, porque a oração começa com o
riso.
Jogo de contas de vidro. Não são lindas, as contas?
O vidro sempre me fascinou. Como é possível isto, que
haja algo tão duro e que seja transparente?
Em especial, os pesos de papel. Tenho vários.
A forma lisa, arredondada, me faz lembrar um seio
juvenil.
Já as bolhas que vejo, lá dentro, e que mudam seus
reflexos de acordo com a posição da luz, me fazem
lembrar luas e sóis. Galáxias, universos.
Tudo dentro de um seio. Não seria bom que fosse assim?
Elas não dizem nada, por isto podemos dizer tudo. Tudo
é inventado. Tudo é real. O corpo treme..
Sonho. Teológo: brinco com vidros coloridos sagrados, e
deixo que a luz passe por eles, e apareça
multicolorida, mostrando sua beleza escondida.
Também eu sou um vidro, transparente, peso de papel.
Há, de fora, a superfície do meu corpo e, de dentro,
universos que desejo iluminar.
Para isso é preciso luz...
É que é escuro.
Profundidades de fundo de mar.
‘Nosso olhar é submarino./ Nossos olhos olham para
cima/ e vêem a luz que se fratura através de águas
inquietas.’ (Eliot)
Com o que concorda a Cecília: ‘Mas, neste espelho, no
fundo/ desta fria luz marinha,/ como dois baços
peixes,/ nadam meus olhos à minha procura...’
‘Tudo é nebuloso,/ neblina misteriosa,/ como se tudo
víssemos na superfície embaçada de um espelho mal/
polido’. (São Paulo, 1 Cor. 13.12)
Ou sombra de mata encantada.
‘Os bosques são belos, sombrios, fundos...’ (Frost)
‘...seu mundo interior, caos selvagem, bosque antiqüíssimo
e adormecido, sobre cujo silencioso despertar verde-luz,
seu coração se erguia.’ (Rilke)
O brinquedo é este.
Não da luz total, que faz sempre mal aos olhos.
Coisa que me ensinou um poeta, o Heládio, que lia meus
textos com espanto e dizia: ‘Luz demais, estou
ofuscado, é preciso trazer um pouco de neblina...’
Achei que ele era doido.
Depois aprendi: Mallarmé, Debussy, Boulez.
E lembrei-me do mestre que lera tanto, mas nunca
entendera, justamente porque eu queria entender:
Kierkegaard. E preciso não dizer. Só a obscuridade
modorrenta... E não é justamente aí que se caçam
sacis e os faunos aparecem, lúbricos, para as ninfas
ardentes? O encanto da hora da modorra, quando o corpo não
está nem dormindo e nem acordado. Aí aparecem as visões...
Vocês, que leram O Saci, sabem que, para apanhá-lo, é
preciso jogar peneira de cruz trançada sobre o olho do
rodamoinho, pois é aí que o Saci fica pulando. Depois,
enfiar o gargalo de uma garrafa por uma fresta da
peneira, o Saci não resiste e passa. Arrolhar bem
arrolhada, com rolha com cruz cortada a faca. E, depois,
olhar... E vem o desapontamento. Não tem Saci nenhum
que se veja, dentro da garrafa. É que Saci é moleque mágico,
não se mostra à toa. É preciso ir para o mato, depois
do almoço, aquele calor de se fazer nada, as cigarras
zinindo no ar, e ficar debaixo de uma árvore, sem
pressa, o sono vai chegando, e o Saci começa a
aparecer. Acontece o mesmo com as ninfas e os faunos -
tanto assim que Mallarmé e Debussy fizeram seu poema erótico-onírico
acontecer neste mesmo tempo em que o corpo fica suspenso
entre dois mundos.
As contas de vidro: nelas se misturam lisuras eróticas
e funduras de sonhos, seios e galáxias, saudades de
paraísos. E a gente vai inventando o real, construindo
o mosaico, experimentando com as cores, costurando distâncias
com a luz, enchendo os espaços vazios com as criaturas
da fantasia, e o nosso avesso vai aparecendo, terrível
e maravilhoso.
A teologia que faço é o avesso da minha carne. Deus é
o meu avesso...
Não, não é que Deus seja o meu avesso. Ele é mistério
grande, proibido. É a metáfora, o ponto que dou, com
cor e luz, no jogo dos vidros. Digo o meu avesso com o
auxílio de um outro nome, que não o meu. Eu não sou
eu. Sou mais. Diferente. Mais bonito. Mais feio (porque
no avesso também mora o diabo...).
Por que faço este jogo?
Pelas mesmas razões por que se jogam todos os jogos.
Puro prazer.
Vejam que absurdo: para vir escrever estas coisas, neste
teclado de máquina de escrever, silenciei um outro
teclado, que se tocava no aparelho de som, sonata de
Mozart. Achei quase sacrilégio. Mas que posso fazer? Não
sei brincar com os sons como Mozart sabia, mas sei
brincar com palavras, imagens, contas de vidro. Recebi
um elogio tão grande, dias atrás, que até vou vencer
a modéstia que se deve ter, por educação, e dizê-lo.
Foi o Benito Juarez, regente, comentando uma coisinha
que escrevi, e ele disse: ‘- Tenho a impressão de que
você faz com as palavras o que Mozart fazia com as
notas. Pura brincadeira. Dá-se um tema e a sonata
aparece.’ Claro que fiquei feliz e quero que seja
assim. Fazer música. Teologia é uma música que faço
com palavras, um móbile de contas de vidro, uma tapeçaria
de luz. Faço por razões estéticas. E é por isto que
nem mesmo necessito crer. Para se amar as Variações
Goldberg não é preciso acreditar em nada. Basta ter
ouvidos na alma (por favor, nunca se esqueça de que
‘erótico é a alma’. Há excelentes ouvidos que só
percebem ruídos, barulhos, guinchos e colisões). Para
se amar Chagal também não é preciso acreditar em
nada, basta ter olhos na alma. Se os olhos estão
cegados por catarata, a leitura de Bachelard, sobre o
mundo de Chagal fará a devida magia. Não é preciso
acreditar em nada para se gozar um copo de vinho: basta
ter olhos para ver o vermelho que a luz atravessa,
olfato para deixar que parreirais maduros entrem nos
lugares mais primitivos da memória corporal, e gosto
para sentir a forma como o líquido agrada ao corpo.
Não é preciso acreditar em nada. Basta sentir.
Teologia é um morango que se colhe e que se come,
pendurado sobre o abismo - sem nenhuma promessa de que
ele nos fará flutuar...
Pode parecer coisa irresponsável, num mundo tão cheio
de graves problemas.
Mas eu me pergunto se a gravidade dos problemas não é
causada pela gravidade das pessoas que julgam que o
destino do mundo depende de sua ação.
Justificação pelas obras.
Se elas não se levassem tanto a sério talvez não
construíssem tantas armas e não fossem tão implacáveis
na cobrança dos seus juros e tão autoritárias na
imposição dos seus pensamentos.
Teologia é um exercício de beleza e de humildade.
Brincamos, como a própria Santíssima Trindade que, nos
jogos intelectuais do venerável Santo Agostinho, só
fazia uma coisa, nas transas intratrinitárias: brincar.
Auto-erotismo.
É preciso expulsar o espírito de gravidade que aparece
nas gravatas e nos rostos dos senhores constituintes,
nas roupas coloridas dos senhores cardeais, na eloqüência
estudada dos senhores pastores, nas fardas heróicas dos
generais, na fala científica de professores catedráticos,
nas contas implacáveis dos banqueiros, no rigor
educador das mães e dos pais...
Levar a vida a sério é compreender que ‘tudo é real
porque tudo é inventado’...O que não se pode dizer
sem que um riso enorme tome conta do corpo...
Escrevi para me dizer. Brincadeira comigo mesmo.
Se outros gostarem do jogo das contas de vidro, são
bem-vindos.
Só que não adianta e nem faz sentido tentar me
entender. Nem sei se eu mesmo me entendo. Quem é dono
dos próprios sonhos? No jogo o importante não é
compreender a conta de vidro. Ela não se oferece para
ser objeto de análise. Num jogo de palavras impossível
de ser dito em português: a questão não é to
understand it, mas antes to stand under it.
Não os meus pensamentos, supostamente escondidos
naquela conta de vidro, mas os seus pensamentos, que
aquela entidade mágica evocou. É preciso pensar os próprios
pensamentos.
Assim, é como se fosse um duelo de
improvisadores-repentistas: um vai dizendo seus temas, e
o outro vai contraponteando com os pedaços seus que vão
aparecendo.
Que ninguém me acuse de heresia, pois não tenho a
menor pretensão de dizer verdades sobre entidades do
outro mundo. Este mundo me basta. Prá dizer a verdade,
o outro mundo me provoca sempre profundo terror, acho
que deve ser chatíssimo - se por acaso existir. Sou um
ente deste mundo. Lembro-me da Cecília Meireles,
angustiada, indagando se depois de muito caminhar a
algum lugar enfim se chega. ‘O que será talvez até
mais triste. Nem barcos, nem gaivotas, apenas
sobre-humanas companhias...’ O que eu quero é esta
terra. Abro de novo a Suma Teológica da Adélia Prado:
‘Depois da morte...eu vou querer o prato e a fome, um
dia sem tomar banho, a gravata pro domingo de manhã...Quando
eu ressuscitar, o que quero é a vida repetida sem o
perigo da morte, os riscos todos, a garantia; de noite
estaremos juntos, a camisa no portal. Descansaremos
porque a sirene apita e temos que trabalhar, comer,
casar, passar dificuldades, com o temor de Deus, para
ganhar o céu.’
Minha teologia nada tem a ver com teologia. É vício. Há
muito que deveria ter abandonado este nome. E dizer só
poesia, ficção. Descansem os que têm certezas. Não
entro no seu mundo e nem desejo entrar. Jardins de
concreto me causam medo. Prefiro a sombra dos bosques e
o fundo dos mares, lugares onde se sonha... Ali moram os
mistérios e o meu corpo fica fascinado.
Era uma tarde comum, na cidade de Nova Iorque. Fim de um
ano de sofrimentos. Tinha deixado esposa e filhos no
Brasil para fazer um mestrado. Mas a saudade era grande
demais. Arrumei minhas malas várias vezes para voltar,
convencido de que nenhum grau acadêmico valia a dor da
separação. No meu quarto eu havia colocado um calendário
regressivo, com o número dos dias que ainda faltavam
para a volta. E, pela manhã, a primeira coisa que fazia
era riscar mais um. Agora eu estava feliz. Faltava só
um mês. Já terminara todos os meus compromissos acadêmicos,
inclusive a tese de mestrado. O seu título revelava o
que nadava pela minha cabeça. Aqueles eram anos de
fervilhamento político-social no Brasil, e a gente
sabia, com uma convicção escatológica, que era inevitável
que alguma transformação profunda acontecesse. E foi
com estes pensamentos que escrevi A Theo/ogical
interpretation of the meaning of the revolution in
Brazil. Agora, tudo terminado, eu podia me entregar aos
prazeres que aquela cidade oferecia: os museus, os
concertos, as livrarias e o simples andar pelas ruas.
Estava voltando para casa, contente e sonolento, num
trem de metrô. Preparava-me para um curto cochilo até
a rua 119, onde deveria saltar. À minha frente um homem
lia o seu jornal. E foi então que fiquei
instantaneamente congelado, o medo circulando pelo
corpo, o vidro liso estilhaçado por um golpe de pedra.
Lá estava, letras enormes, na primeira folha:
‘Revolution in Brazil’.
Era o dia 1o de abril de 1964.
Em um segundo fiquei sem saber se poderia regressar.
Pátria, este lugar que a saudade enche de coisas boas,
se transformou em terra invadida: gigantes verdes, dragões
amarelos. No seu lugar, uma noite permanente, as prisões,
as delações, o crime de se pensar, de ter idéias
diferentes.
Meu pensamento enlouquecia, na solidão do quarto, dando
voltas sobre si mesmo, amarrado e impotente.
O medo e o ódio se transformaram em diarréia, olhos
arregalados pelas noites, náuseas, claustrofobia.
E não era possível me comunicar com o Brasil. Falar e
escrever se tornaram coisas perigosas. Em 1984, um homem
foi preso porque falou enquanto sonhava. A ficção se
transformara em realidade. Era preciso cuidar para que
nenhuma palavra traísse o pensamento - hábito que veio
a se transformar num estilo, por muito tempo. Cartas e
telefonemas eram confissões de crimes...
Passou-se o mês mais longo de minha vida. O tempo se
esvaziou de qualquer coisa que nele pudesse ocorrer e se
transformou em espera, no seu estado puro, todos os
minutos sofridos no seu conteúdo de medo e raiva.
Eu conhecia a psicologia daquele momento que se vivia no
Brasil: ‘caça às bruxas’. Eu a aprendera no estudo
e na experiência das Inquisições, períodos em que
desaparece a inocência e a simples delação já
constitui veredicto. A política eclesiástica aparecia
como profecia da política secular. As duas são uma
mesma coisa. A diferença está em que se numa os deuses
aparecem com vestimentas sagradas e perfumes de incenso,
na outra as roupas são de outras cores e os rituais litúrgicos
seguem outros ritmos.
São momentos metafísicos, em que o sentimento do
absoluto é respirado, de forma embriagadora, pelos
inquisidores. Na verdade seria possível definir um
inquisidor como alguém que ‘cheirou’ o absoluto, e
ficou fora de si. A experiência é psicodélica: a
pessoa fica possuída pela certeza de estar pisando em
terra santa, no centro mesmo do universo, no lugar onde
se decide o futuro da história. Ali, naquele lugar,
naquele momento, está se travando a batalha pela salvação
do futuro. Ela e Deus - não importa o nome que se lhe dê
- se con-fundem numa mesma coisa.
Ocorre então uma fantástica transformação na imagem
que as pessoas fazem de si mesmas. As mais
insignificantes, perdidas no sem-sentido do dia-a-dia
que se repete, se descobrem participantes de uma coisa
enorme. Elas podem ser cúmplices daqueles que empunham
a bandeira divina, na luta contra o Mal. Os vitoriosos,
é claro. Porque os perdedores são sempre definidos
pelos nomes do Demônio: bruxas, hereges, subversivos,
comunistas, pequeno-burgueses. Tanto a direita quanto a
esquerda possuem os seus deuses, só que adoram em
altares diferentes e seus textos inspirados são outros.
Efetua-se uma operação algébrica: aparece um conjunto
daqueles que participam do triunfo do Bem contra o Mal -
uma nova Igreja. E, como na matemática, são essenciais
os símbolos que afirmam esta relação de pertinência.
Na religião são os atos sacramentais, as mesmas formas
litúrgicas repetidas, os gestos idênticos: assim os
‘irmãos’ se dão a conhecer. E assim também os que
não pertencem se deixam trair: não participam dos
mesmos sacramentos, não repetem as mesmas ladainhas e
nem fazem os mesmos gestos. A diferença é a prova da
cumplicidade com o demônio, porque quem não é igual a
nós só pode ser contra nós.
O mundo se divide entre Deus e o Diabo,/ Verdade e
Erro,/ Salvação e Perdição,/ Nós e os Inimigos.
Os momentos de ‘caça às bruxas’ são sempre
religiosos, apocalípticos. Confronto entre o Bem e o
Mal, no Armagedon. Tudo é absoluto. E com o Mal
absoluto não se pode ter nem complacência e nem escrúpulos
éticos. A ética é suspensa porque, para ser aplicada,
é preciso que haja, por parte das pessoas envolvidas, o
reconhecimento de uma qualidade comum, que liga todas
elas. A ética nasce da empatia, esta capacidade que
temos de sentir aquilo que está acontecendo com o
outro. Mas isto só é possível se se acreditar que
somos parecidos, moradores de um mundo comum, de alguma
forma irmanados.
A ‘caça às bruxas’ abole este elo de ligação. A
‘bruxa’ é uma emissária de um mundo infernal que não
tem direitos. Por isto a luta contra ela é semelhante
à luta contra a AIDS: algo contra o qual todos os métodos
são válidos. Contra o sujo não há ‘guerra suja’.
Contra os emissários do Inferno todas as torturas se
justificam. Assim, quando os torturadores se defendem,
alegando inocência, eles estão absolutamente certos.
No mundo em que viviam, e que agora se encontra retraído
provisoriamente aos seus espaços mentais, não podia
existir a ética, porque o inimigo era uma entidade de
um outro mundo, não-humano.
A ética só existe quando se aceita que todos oscilamos
entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo. Todos somos
tentáveis, seres divididos, misturados, permanentemente
se defrontando com a necessidade da decisão e da culpa.
Mas no mundo absoluto da ‘caça às bruxas’ tal
situação não mais existe, porque Bem e Mal se
separaram. Todas as decisões já foram tomadas e não
existe a possibilidade de culpa. Assim, é possível
torturar pela manhã e brincar com os filhos à tarde...
Voltar ao mundo anterior à culpa é, de certa forma,
recuperar o paraíso; a participação nesta comunidade
sagrada (que pode ser tanto uma igreja, um partido ou
uma organização de torturadores) é algo que produz
muito prazer: a sensação de poder, de verdade, de
estar ao lado do futuro...
É aí que a violência se transforma em ato
sacramental. Por meio dela se definem lealdades, se
delineiam conjuntos. Os que torturam são irmãos.
Recusar-se a torturar é afirmar-se como não
pertencendo ao conjunto. Como rejeitar o pão e o vinho.
Disseram-me que, num país da América Latina,
encontravam-se cadáveres perfurados por muitas dezenas
de balas. É evidente que a função de tantas balas não
era prática: para matar basta uma. Sua função era
outra: unir todos os participantes num mesmo ato
sacrificial. Cada bala no corpo da vítima era um elo
que ligava os participantes uns aos outros. Torturas,
massacres, linchamentos, mais que puros atos políticos,
são atos eclesiais: por meio deles se estabelecem laços
de conspiração entre os membros de uma comunidade que
se define como vivendo nos últimos tempos, além das
misturas entre o Bem e o Mal.
A delação é também parte desta liturgia de participação.
Delatar é dizer ao carrasco quem é que deve ser
sacrificado. E, com isto, uma nova operação matemática:
sou diferente dele, separo-me do inimigo, entrego-o ao
sacrifício, e assim afirmo-me como membro do corpo
sacerdotal. A delação faz isto: ela afirma a pertinência
a um grupo através do estabelecimento prático do ódio
a um outro. Delatar, portanto, não é transgredir a ética;
é enunciar uma metafísica e confessar uma lealdade.
E era disto que eu tinha medo.
Somente muito tempo depois compreendi os fundamentos
sociais dos meus temores. A Igreja Católica tem uma
eclesiologia forte - na verdade é uma eclesiologia
forte. Suas fronteiras institucionais e sua teologia
delimitam um espaço e um tempo imensos, transbordando
das limitações apertadas dos espaços e tempos políticos.
Ela aprendeu a arte da sobrevivência. E esta arte tem a
ver com a manutenção da integridade institucional,
sempre que algum perigo surge. Assim, em meio à ‘caça
às bruxas’, a Igreja Católica se constituiu numa
‘cidade refúgio’, ‘santuário’ onde os
perseguidos encontravam abrigo. O fato de pertencerem à
Igreja era mais forte que sua pertinência ao Estado.
Mas com as Igrejas Protestantes a situação era
diferente. Comunidades pequenas, marginais, sem
reconhecimento, desejosas de ‘pertencer’ a algo
maior: nada melhor que uma situação de ‘caça às
bruxas’ para afirmar, perante o Estado, a sua
lealdade, garantindo assim o seu direito de participar
do poder. E que melhor prova de lealdade pode existir
que entregar os seus próprios filhos ao sacrifício?
Voltei ao Brasil.
Comecei a aprender a conviver com o medo. Antes eram só
as fantasias. Agora, sua presença naquele homem que
examinava o meu passaporte e o comparava com uma lista
de nomes. Ali ficava eu, pendurado sobre o abismo,
fingindo tranqüilidade (qualquer emoção pode
denunciar), até que o passaporte me era devolvido. No
caminho do aeroporto para a minha casa, no carro de um
amigo, o início das confirmações: ‘Olha, Rubem, foi
enviado ao Supremo Concílio um documento de acusações
a seis pastores, e você é um deles. E circula também
o boato de que você foi denunciado à ID-IV, de Juiz de
Fora...’
Era o início de uma grande solidão.
Primeiro, eu tinha de voltar à paróquia da qual eu era
pastor, lá em Minas. E eu me lembro daquela noite, no
ônibus, a caminho de Lavras, a viagem interrompida
pelos militares que fiscalizavam a Fernão Dias, e eles,
pausadamente, indo de pessoa a pessoa, no escuro, eu não
podia ver os seus rostos, as lanternas iluminando a
lista dos procurados, que traziam nas mãos, iluminando
os documentos de cada um e, finalmente, o foco de luz
sobre o rosto. Eu já vira coisas assim no cinema: a
qualquer momento a possibilidade de ser arrastado para o
escuro, sem saber se voltaria.
Estas coincidências: justamente naquele dia a cidade
tinha sido tomada. Militares vindos de fora realizavam o
seu trabalho. O quartel da polícia já estava cheio de
presos. Como explicar, quando chegasse a minha vez, os
livros da minha biblioteca? Foi uma noite inteira
abrindo caixotes, separando livros, queimando, enfiando
outros em sacos para serem jogados no rio. Lembro-me que
um deles foi Communism and the theologians, de Charles
West, coisa perfeitamente inocente. Mas a capa era
vermelha, e havia a foice e o martelo. Lá se foi ele,
consumido pelas chamas - e em tudo o sentimento de um
grande e absurdo pesadelo. Cedo, de manhã, meus amigos
me aconselharam a sair da cidade. Só voltei um mês
depois. E havia aquelas acusações contra os seis
pastores junto ao Supremo Concílio da Igreja
Presbiteriana do Brasil. Dirigi-me à autoridade
competente, solicitando uma cópia do documento. Foi-me
dito que eu não podia ser informado das acusações que
pesavam sobre mim. Só obtive uma cópia do mesmo porque
um amigo a furtou. Eram mais de quarenta acusações:
que pregávamos que Jesus tinha relações sexuais com
uma prostituta, que nos deleitávamos quando nossos
filhos escreviam frases de ódio contra os americanos,
nas latas de leite em pó por eles doadas (eram os anos
do programa ‘Alimentos para a Paz’), que éramos
subvencionados com fundos vindos da União Soviética. O
bom do documento estava justamente na sua virulência:
nem os mais obtusos podiam crer que fôssemos culpados
de tantos crimes. Mas o trágico era precisamente isto:
que pessoas da igreja, irmãos, pastores e presbíteros,
não tivessem um mínimo de sentimentos éticos, e
estivessem assim tão prontos a nos delatar.
Depois foi a delação direta aos militares. Era uma
tarde bem fria, sábado. O Sílvio Menicucci, prefeito,
amigo, telefonou-me.
‘- Venha aqui ao Hotel Central. Há um advogado de
Juiz de Fora com documentos que são do seu
interesse.’
Não disse mais nada. Não precisava. Compreendi. E
gelei. Lá estava o dossiê, resultado da incursão
militar de meses antes. Eu era um dos indiciados. O que
mais doeu foi que uma das peças básicas da denúncia
era um documento da direção do Instituto Gammon,
escola protestante, que funcionava numa chácara que
pertencera ao meu bisavô, e que a vendera aos missionários
que fugiam da epidemia de febre amarela em Campinas, nos
fins do século passado. As acusações não eram
frontais. Sugestões. Nada temos a ver com este senhor.
Mãos lavadas. Vim a Campinas, para pedir que o Board
diretor me defendesse. Mas o que encontrei, de novo,
foram mãos bem lavadas. E foi sempre assim. Parecia-me
que os protestantes tinham horror absoluto a qualquer
pessoa que estivesse sendo acusada. ‘Quem não deve não
teme’: o temor já era prova suficiente da culpa. Além
do mais, é muito perigoso ser amigo de quem foi
delatado. Está lá no Cancioneiro da Inconfidência:
‘Quando a desgraça é profunda, que amigo se
compadece?’ Amigo de bruxa deve gostar de bruxaria.
Quem apareceu para ajudar, de forma absolutamente
gratuita, foi o Eugênio, maçon, que eu mal conhecia.
Enfermeiro, parteiro, destas pessoas que conhecem a
cidade inteira. Bateu à minha porta. Fui atender.
‘- Nós soubemos que o senhor está em dificuldades.
Queremos nos oferecer para ajudá-lo...’
E lá foi ele comigo, até Juiz de Fora, abrindo portas
com os mágicos sinais da maçonaria. Não o esqueci.
Mas não havia nada que pudesse ser feito.
Eu estava muito cansado. Compreendi a inutilidade da
luta. Queria ir embora, para longe do medo: poder amar e
brincar sem sobressaltos, recuperar o prazer perdido de
falar meus pensamentos sem virar a cabeça, à procura
de ouvidos, sem baixar minha voz...
Foi então que a United Presbyterian Church - USA
(Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América
do Norte), em combinação com o presidente do seminário
teológico de Princeton, convidou-me a fazer um
doutoramento. Não me esqueço nunca do momento preciso
quando o avião decolou. Respirei fundo e sorri,
descontraído, na deliciosa euforia da liberdade. Ainda
hoje, quando um avião decola, sinto de novo aquele
momento.
Mas, se na partida está a euforia da liberdade, na
chegada está a tristeza do exílio. Aquele não era o
meu mundo.
Olhava os meus colegas, passeando pelos gramados, sólidos,
claras definições profissionais à sua frente, a luta
por credenciais que lhes permitiriam ingressar na
hierarquia do saber. Mas o meu desejo estava longe.
Parodiando a Cecilia Meireles: O corpo naquelas salas,/
a alma por longe terra,/ em cada vida exilada,/ que
surda perdida guerra...
O que o doutoramento exigia de cada um de nós era o domínio
de um campo de saber: to dominate the field,
scholarship. Acontece que eu sonhava com um mundo que
perdera. E me assombrava com as questões que estudantes
haviam escolhido como aquelas a que dedicariam quatro ou
cinco anos de suas vidas. Para mim eram fantásticas
abstrações, que eu não conseguia ligar a coisa
alguma. Lembro-me dos famosos colóquios com os
estudantes doutorais de ética. As questões mais
dolorosas, de vida e morte, eram transformadas em trapézios
onde se executavam virtuosismos intelectuais. Porque o
que estava em jogo não era nem a vida e nem a política,
mas os exercícios analíticos em que se jogava uma
habilidade intelectual. Mas não me restavam
alternativas: ao exilado só resta obedecer às leis do
país que o acolhe. Teria de aprender a jogar o jogo que
todos jogavam.
O que eu desejava era pensar o meu destino.
E o pensamento é algo que acontece como na construção
de casas. Em São Tomé das Letras, as casas são feitas
de pedra, nas florestas elas são construídas com
madeira, e entre os esquimós se usa o gelo para fazer
iglus. É preciso usar os materiais à mão. O
pensamento faz assim também: busca os materiais de que
dispõe para com eles representar-se. Os materiais para
o pensamento são os símbolos. Cada época se pensa com
os símbolos que possui. E nem poderia ser de outra
forma, pois o pensar não pode acontecer no vazio.
Acontece que os símbolos de que eu dispunha eram, em
grande parte, religiosos, precipitados de uma vida, e se
eu iria sugerir um ‘jogo de contas de vidro’, os símbolos
religiosos, partes do meu próprio corpo, teriam de
aparecer.
Este livro é uma meditação rude sobre o meu próprio
corpo: o seu espaço, o seu tempo, seus valores, suas
esperanças, suas lutas. Se percorremos caminhos
aparentemente tão distantes da carne que ri e chora é
porque o rigor acadêmico proibiu que o corpo falasse. E
é por isto que, para falar, ele tem de se valer das
falas de outros, portadores de dignidade e
reconhecimento. Se eu simplesmente digo, isto não passa
de minha opinião. Mas se eu cito, já a fala adquire o
peso de evidência e comprovação.
Eu precisava encontrar palavras que ajudassem o meu
corpo a se gerar de novo, agora nesta triste condição
de exilado. Porque eu entendo que teologia é
basicamente isto - já o disse -, um exercício de feitiçaria
sobre este mistério, de que a Palavra se faz Carne, e
isto no sentido mais absolutamente literal.
Aprendi a repetir, como nunca o fizera, aquele salmo
terrível, o 137: ‘Sentados às margens dos rios de
Babilônia,/ ali chorávamos,/ com saudades de Sião./
Nossas harpas,/ já não as carregávamos em nossas mãos:/
nós as penduramos chorosos nos galhos dos chorões.../
Pois aqueles que nos haviam levado cativos/ exigiam/ que
cantássemos,/ ordenavam que estivéssemos alegres:/
‘Cantai-nos canções da sua terra!’/ Mas como poderíamos
cantar as canções do nosso Deus/ em terra de exílio?/
Babilônia,/ destruidora,/ feliz aquele que se vingar
por tudo o que nos fizeste!/ Feliz aquele que tomar os
teus filhos/ e os despedaçar sobre as rochas.’
Sei que não é edificante, mas é muito verdadeiro. A
nossa verdade nem sempre é bela; às vezes é terrível.
Pensar a espera.
Viver sobre a saudade.
Ser capaz de plantar árvores à cuja sombra nunca me
assentaria.
Jeremias o disse por mim. Havia, em Babilônia, um bando
de revolucionários que anunciavam para logo o fim do
cativeiro. E o profeta lhes escreveu aquela
linda-medonha carta, que deve ter sido amaldiçoada como
produto de uma mente derrotada e conservadora:
‘Plantai árvores,/ comei dos seus frutos./ Construí
casas/ e habitai nelas./ Gerai filhos,/ e dai vossos
filhos em casamento./ A demora será longa./ Enquanto se
espera é preciso viver.’
E então, aquele gesto maravilhoso, Jerusalém sitiada,
a invasão era certa. E o profeta toma os seus bens e
compra um campo. Seus amigos devem tê-lo julgado um
louco. É investimento suicida comprar terra que vai
virar morada de chacais, onde vai crescer o capim... Mas
ele diz: ‘Ainda se plantarão vinhas neste lugar.’
E me pareceu, então, que ‘Deus’ era um nome que se
pronunciava sempre que alguém queria indicar a teimosia
da esperança, quando não havia nenhuma razão para
esperar, o absurdo do sorriso, quando não havia nenhuma
razão para sorrir, Abraão construindo um berço, sendo
Sara já velha, de seios e ventre murchos.
‘Sei que não há brutos nas figueiras/ e nem frutos
nas parreiras./ Não se colhem azeitonas/ e nos pomares
não se encontram frutos./ Nos pastos não se vêem
rebanhos/ e nos currais não se vê o gado./ Todavia,/
eu me alegro...’
Não, Deus não é um substantivo.
É esta estranha conjunção, todavia, que enuncia a
absurda ligação entre a morte que se anuncia e a vida
que brota, a despeito de tudo.
Se fosse isto, eu poderia continuar a falar de Deus,
como fundamento misterioso de uma teimosia de ter
esperança. Foi então que encontrei Bloch como
precursor; ele já escrevera aquilo que naquele momento
eu estava me dizendo: ‘onde está a esperança ali está
a religião.’
Eu queria re-inventar as palavras.
Porque as palavras, de tantas repetições, vão ficando
gastas e, de repente, nada mais são que cascas de
cigarra, vazias, agarradas aos troncos rugosos das árvores,
testemunhos de um espaço onde esteve a vida. Era isto
que eu sentia, em relação aos símbolos da minha tradição:
contas de vidro, opacas e sem brilho. Mas eu as amava. E
imaginava que, quem sabe, tal como acontecia com a lâmpada
mágica do Aladim, elas voltariam a brilhar
transparentes, se fossem aquecidas com sofrimento e
esperança. Era esta minha doida-presunçosa esperança:
fazer viver uma coisa que, para mim, estava morta.
Este livro é isto: um exorcismo para a ressurreição
dos mortos. Quem sabe (eu pensava), estas coisas que vou
escrever serão capazes de ajuntar os conspiradores que
amo, mesmo sem ver... E não é este o segredo de
qualquer livro? Que ele seja capaz de dar nomes e de
criar imagens vivas para nossos sonhos de amor? Eu já
concordava com Bachelard: para se converter é preciso
restaurar às pessoas os caminhos para os sonhos
primordiais.
Sonhar Deus de novo, de um outro jeito. O pedaço
arrancado do nosso corpo, nome não dito da saudade,
satisfação fugaz (como a brisa que passa) do desejo
(inesquecível...) Conspiradores: companheiros a quem não
precisaria explicar coisa alguma, pois que respirávamos
o mesmo ar: con/spirar...
Pois não é assim?
Entendem não porque expliquemos com clareza, mas porque
já o sabiam muito bem, antes que tivéssemos dito
qualquer palavra. Dizem que há, permeando as coisas físicas
que fazem o corpo - músculos, Sangue, ossos - uma coisa
invisível, a que deram o nome de alma. Nunca a vi mas
acredito, porque sempre me dói com dor que nenhum remédio
pode curar. E ouço, lá no fundo, um grito sufocado
contra a solidão. Pois é, nos mistérios da alma mora
a nostalgia pelos amigos. Era isto: eu pensava naqueles
com quem poderia compartilhar, irmãos por termos comido
o mesmo pão amargo. Eles poderiam ser companheiros de
batalhas futuras. Numa linguagem teológica, eu buscava
os contornos de uma eclesiologia nova, que fosse fiel à
minha experiência. O venerável Santo Agostinho, que
tem estado a ler as sagradas escrituras por muitos anos,
silenciosamente às minhas costas, do poster em que o
pendurei na parede, já me havia dito que uma comunidade
se define em função de um amor comum. Com o que eu
concordo. Não é a origem, é o destino... E como eu me
sentia longe e distante daquela igreja que um dia fora
objeto do meu amor! Me lembro do primeiro dia quando
cheguei a Lavras e entrei na igreja vazia, com seus
vitrais coloridos e o órgão de tubos: pensei que seria
um bom lugar para passar a vida toda. Agora, que restava
da Igreja Presbiteriana do Brasil que eu amara?
Absolutamente nada. Meu desprezo era total, irremediável,
absoluto. A questão das notae ecclesiae - as marcas da
Igreja. Não é nada abstrato. É como quando se sai a
procurar um lugar onde se morar, e o coração diz que
deverá ter árvores, e a casa deverá ser velha, para
contar muitas estórias (casas novas pouco faIam, porque
nunca foram cúmplices de mistérios), e será bom se,
dela, se puder ouvir, de vez em quando, o sino de alguma
igreja, para que a gente não se esqueça nem da infância
perdida e nem da velhice que chega. Assim, a boca vai
falando das marcas da casa onde a gente gostaria de
morar. E a mesma coisa pode ser feita em relação às
pessoas com quem a gente gostaria de viver: terão que
saber brincar, os olhos com um brilho de eternidade, e
haverá tanta confiança que, àquilo que um disser,
todos dirão ‘amem’, sem que haja necessidade de uma
comissão de exame de contas. Igreja, aqui na minha
teologia, é apenas o nome da comunidade com que sonho.
O problema é que tanto Católicos quanto Protestantes
pensam que eles já a encontraram. E eu acho diferente:
a Igreja é uma ausência permanente, nome de um desejo,
horizonte que convida e se afasta...
No princípio este livro era para ser uma eclesiologia.
Traduzindo em linguagem que todos entendem: um exercício
em utopia, as marcas de uma comunidade que não existe
em lugar algum (é invisível) e que, por isto mesmo,
está em todos os lugares (é católica, universal), um
horizonte do desejo, algo que ainda não nasceu mas que,
se nascesse, o mundo todo sorriria. Como o Übermensch
de Nietzsche – traduzido como super-homem por uns
leitores obtusos e que eu traduzo por ‘Homem
Transbordante’- homem que ainda não existe, mas que
está em gestação dentro de mim.
A vantagem disto? Acho que, sobretudo, abrir o espaço
para o sonho. No cativeiro os presos sonham com a
liberdade e no exílio aparecem as canções do retorno.
Um horizonte de esperança.
E quando se espera, o futuro se torna um julgamento
sobre o presente.
Esta tem sido uma das grandes funções da utopia.
Mostrar que um mundo diferente é possível. E, com
isto, o absurdo do presente.
O presente se torna objeto de riso. Rir das igrejas, dos
partidos, dos estados.
Se a comunidade sagrada é uma ausência, futuro de que
se tem saudades, então todas as coisas presentes só
podem ser coisas humanas, para sempre.
Não se lhes é permitido erigirem-se como altares. Nada
é sagrado: nem torres, nem programas, nem bandeiras.
Sagrado é apenas o vazio do desejo.
Os altares têm de se abrir para os espaços livres do
futuro, onde moram as coisas ainda não chegadas.
Sobretudo, está vedado a qualquer poder o direito de
vida e morte sobre as pessoas.
‘Que as espadas sejam transformadas em arados,/ que as
fardas tintas de sangue sejam queimadas,/ que as prisões
sejam abertas,/ que os escravos sejam libertos...’
A eclesiologia se transforma em política: é política,
em sua forma onírica. Senti que a tarefa do teólogo é
a de ser o bobo da corte: quando todos proclamam a
beleza das vestes do rei, dos paramentos dos cardeais,
dos ternos dos banqueiros, das fardas dos generais, ele
proclama
a nudez universal.
Quando o Nome Sagrado é pronunciado, todas as fantasias
ficam invisíveis.
Só que eu não percebia o perigo da minha proposta:
quem se propõe a ser bobo da corte acaba sendo boi para
o corte. Lá mesmo o corte começou.
Disseram que eu não poderia escrever uma tese como
aquela que me propunha escrever. Tese de doutoramento,
alegavam, tem de ser um exercício analítico, pura
demonstração de mestria técnica. Trabalhar sobre o
pensamento de outros. Mas eu me propunha a pensar meus
próprios pensamentos. Minha tese era construtiva. E
isto estava interditado.
Acontece que eu vivia em exílio, aguardando a volta; e
era preciso pensar a vida. A minha dor não me permitia
outra coisa. É sempre assim: o pensamento aparece no
lugar do sofrimento. Se o meu coração vai pulsando sem
problemas, até me esqueço que ele existe. Mas basta
que dê uns tropeções para que se transforme no centro
do meu mundo. Ah! Como me torno consciente dele! O
pensamento mora no lugar onde o corpo me dói. E o meu
doía num lugar diferente: minha dor era a luta para
continuar a ter esperanças. Seria terrível se a vida
ficasse só tristeza.
Só pude dizer que a minha tristeza não me deixava
alternativas, que eu tinha de escrever com o meu sangue
os pensamentos nascidos no meu próprio corpo. Faria análise
sim, tomando a minha própria carne como texto.
E não é isto que dizem os textos sagrados, que somos
um verbo encarnado?
Só que à minha carne faltava a respeitabilidade acadêmica
de texto a ser investigado.
Para mim a verdade era bem outra: eu como o único texto
merecedor do meu trabalho intelectual.
Não há nenhuma arrogância nisto.
É que não é possível, a ninguém, estar fora de si
mesmo: somos nossos temas permanentes. Como dizia
Feuerbach: o homem é o seu próprio absoluto.
E assim aconteceu, contra a interdição acadêmica.
Eu sabia que, para se pensar uma comunidade, é preciso
pensar primeiro a linguagem. É nela que se encontram os
seus sonhos de amor. É somente isto que faz um povo. Os
homens e mulheres se dão as mãos quando possuem um
objeto comum de lealdade. Assim, dediquei-me a
investigar duas coisas apenas: os objetos do desejo (em
jargão psicanalítico) ou objetos de fruição (na fala
de Agostinho). Uma meditação sobre ‘o obscuro objeto
do desejo’. E, com isto, as vicissitudes do poder,
para chegar ao objeto do amor. Na verdade, parece que
este é o resumo de tudo o que existe: o poder e o amor.
A vida nada mais é do que uma tapeçaria que se tece
sobre estes dois deuses: Marte e Vênus. No meio deles
está a nossa bela Terra, onde a vida acontece...
Quando cheguei ao fim da investigação sobre a
linguagem, entretanto, já havia escrito mais de
trezentas páginas, e o tempo estava se tornando cada
vez mais curto. Como disse o sábio do Eclesiastes,
‘escrever livros e mais livros não tem limite, e o
muito estudo desgasta o corpo’. Pedi então ao meu
orientador que aceitasse a minha introdução a uma
eclesiologia futura como minha tese. Com o que ele
concordou. Já não se tratava então de eclesiologia.
Era outra coisa: uma meditação sobre a possibilidade
de libertação. E lhe dei, então, o título de Towards
a theology of liberation. Era o ano de 1968.
Por que escolhi este nome, que até aquele momento não
havia aparecido como título de teologia alguma?
Eu havia abandonado completamente a ilusão de que a
teologia pudesse ser um conhecimento de Deus. Deus é um
grande e inominável mistério e o que podemos dizer se
refere apenas àquilo que acontece em mim, ao me
confrontar com aquilo que Rudolf Otto chamou de ‘O
Totalmente Outro’, ‘Mysterium Tremendum’. Teologia
é antropologia; falar de Deus é falar de nós mesmos
(Feuerbach). Não, não estou transformando o homem em
Deus. Estou só dizendo que Deus é um nome que só é
pronunciado nas profundezas do corpo humano. Assim, não
me interessava absolutamente o esforço ‘científico’
de se escrever tratados de anatomia, fisiologia e
psicologia divinas, em moda nos seminários. Como é que
tal tarefa incrível podia sequer ser imaginada como
possível? Porque se acreditava que havia uma revelação
escrita, nas Sagradas Escrituras. Tanto teólogos
fundamentalistas quanto exegetas crítico-científicos
comungam nesta crença comum: se chegarmos à verdade
mesma do texto teremos chegado ao conhecimento de um
segredo de Deus.
Mas eu não podia pensar assim. As Escrituras me eram
Sagradas somente porque elas diziam em linguagem poética
aquilo que, dentro de mim, já era um gemido
inarticulado: revelação dos meus desejos, do Thánatos
que me habita, da vida que me faz brincar e lutar.
Somente eu podia dizer isto: são sagradas, divinas, por
serem um espelho de mim mesmo; experiência de revelação.
Assim, o nome da coisa que eu escrevera não poderia se
referir a Deus. Era coisa modesta, humana...
Mas também não poderia ser modesta demais. O amor está
sempre em busca de um mundo. A moda, naqueles dias, era
a teologia da esperança, de Jürgen Moltmann. Esperança
é coisa bela, que amo. Mas ela mora dentro da
subjetividade, é coisa interior. E isto não me
bastava. Eu não queria só continuar a ter esperança.
Queria ser capaz de perceber os sinais de sua possível
realização, na vida dos indivíduos e dos povos. Não
me bastavam sonhos de jardins: era preciso saber que
jardins poderiam e iriam ser plantados. O amor pelos
jardins tinha de se transformar em manual de jardinagem.
A esperança tinha de se exprimir como política.
Estranho isto: esta metamorfose da teologia em política,
este trazer dos céus à terra. Mas eu estava convencido
de que, naquele jogo de contas de vidro que estava
jogando, esta substituição era possível. Este é o
segredo da metáfora: isto é aquilo, este pão é o meu
corpo, coisas diferentes são iguais. Mas, de teologia
à política? Teologia é política? De que forma
executar este salto mortal sobre o abismo? Acontece que
a teologia cristã se constrói sobre a absurda afirmação
da encarnação: Deus se fez homem, eternamente. O que
significa que Deus desaparece, mergulha para todo o
sempre na invisibilidade, e a única coisa que resta
para ser vista é o rosto do homem e o jardim que lhe é
prometido. Não Deus, mas o Reino, não o Rosto impossível
de ser contemplado, mas a terra transfigurada. ‘Eis
que faço novas todas as coisas...’ Era isto: falar
sobre este fazer que traz um novo amanhã. A esperança
saía do interior da subjetividade e se derramava sobre
a terra: os desertos se transformam em jardins... E me
pareceu que uma bela imagem poética para descrever este
movimento era aquela de um povo que fora escravo,
caminhando pela esperança, através do deserto. Ou
Jeremias, na amargura de um longo cativeiro, comprando
um pedaço de terra na sua cidade, sitiada, afirmando a
teimosia da esperança. Eu sentia que estas eram metáforas
poéticas que reverberavam na minha experiência.
Esperança em movimento, lutando por um futuro, (a)feto
que deseja sair, mesmo que pela angústia de passagens
apertadas, parto: libertação. ‘A criação inteira
geme, em dores de parto...’ E assim eu batizei esta
tese/filha: Towards a theology of liberation, nome que
se encontra lá no original e no registro de direitos
autorais.
A defesa foi uma batalha. Compreendo. Por decisão própria
escrevi o que quis. Pecado de ‘superbia’. O texto
deve ter ofendido gostos acostumados a teologias mais
gentis. Alguma punição deveria ser imposta.
Desejava-se ou a reprovação ou que eu escrevesse tudo
de novo. Meu amigo R. Shaull, entretanto, deixou claro
que eu nunca faria isto. Não suportaria um ano a mais
nos jardins suspensos de Babilônia. Passaram-me com a
nota mais baixa possível. Não sabia que aquele era um
primeiro afluente, quase sem água e sem nome, de um
grande rio: teologia da libertação...
Um editor católico se interessou pelo meu texto. Ele
fez uma reserva apenas. O nome do livro era meio
esquisito: libertação, nome sem respeitabilidade teológica,
sobre que ninguém falava. O que estava na crista da
onda era a teologia da esperança. E ele me sugeriu
mudar o título, para entrar no debate. É sempre mais fácil
pegar um trem que já está correndo que fazer um outro
novo, a partir de nada... E assim ficou: A theology of
human hope (Washington, Corpus Books, 1969). E, com
isto, o nome ‘teologia da libertação’ me
escapou... Harvey Cox escreveu o prefácio. Generoso.
Nunca me havia visto. Nada sabia a meu respeito. E o
nome dele já era chave mágica que abria todas as
portas teológicas. E foi assim que ele abriu o que
outros quiseram trancar. Foi o início de uma amizade
profunda. Ontem, sexta-feira, 10 de julho de 1987,
celebrei a Páscoa judaica em sua casa. O sol estava se
pondo e sua esposa iniciou a liturgia acendendo as velas
e cantando uma canção cujas origens se perdem no
passado. Depois foi a vez dele, abençoando o vinho e
cantando uma outra canção, em hebraico. Estranho isto:
ver um teólogo batista dizendo palavras nesta língua
sagrada, numa tradição diferente... Mas ele logo
comentou: ‘Todos nós pertencemos a este passado...’
Senti os bons sentimentos de estar ali comendo e bebendo
com con/spiradores, celebrando memórias e esperanças.
Agora sinto-me em paz com algo que já se anunciava no
meu texto, mas eu não tinha coragem de dizer, nem mesmo
para mim mesmo: acho que consigo viver sem Deus.
Um caqui é um caqui: mágico, erótico. Efêmero.
Maravilhosamente divino. Um caqui eterno não poderia
ser comido: não seria objeto de gozo.
Gozo o caqui e, para isto, não necessito de provas
encontradas mais além das estrelas.
O caqui não tem porquês... Ele é vermelho porque é
vermelho. Assim é a vida, assim sou eu, caquis,
companheiros de ‘barcas e gaivotas’, e a sua tranqüila
simplicidade de existir. Tem uma tristeza, sim. Todos os
pores-de-sol, todos os abraços de amor, todas as coisas
belas são tristes. Somos pranteadores. Viver é
con-viver com a perda. É isto que nos torna belos: ‘o
olhar de eternidade...’
Não que tenhamos visto a eternidade, e que ela se
encontre morando em nós. É a eternidade do desejo, a
imensidão da nostalgia, os espaços sem fim. O Pai
nosso mora nos céus, onde voam as aves, espaço vazio,
pura permissão, ausência.
Presença de uma ausência.
Por que escrevo teologia, se não preciso acreditar em
Deus? Não deve, qualquer tratado de teologia, começar
com o capítulo ‘Provas da Existência de Deus’? Se
houvesse provas eu não precisaria fazer teologia.
Quando vou à praia não necessito munir-me de provas da
existência do mar e provas da existência do sol. Na
praia não penso nem sobre o sol e nem sobre o mar.
Simplesmente gozo, usufruo.
Quem precisa de provas da existência do mar e do sol são
os habitantes dos infernos, onde não existe nem sol e
nem mar.
Quem faz ciência de Deus não deve estar muito
confiante: carência de calor, carência do azul...
Na praia o que se faz não é provar: ciência. É
gozar: poesia. Poesia é o discurso da fruição, da união
mística. Faço teologia por isto. Porque é belo.
Teologia é como brinquedo: alegria sem metafísicas...
Gozo no próprio texto. Porque ele faz bem ao meu corpo.
Sacramento que distribuo aos conspiradores. Um jeito de
fazer amor universalmente, espalhar minhas sementes,
buscar a suprema alegria de ver, no rosto dos outros, a
alegria de se encontrarem no que escrevo. Sou-lhes, pelo
meu texto, um caqui. Tomai e comei: isto é o meu corpo.
E é só isto que eu peço, quase 20 anos depois: que
leiam este texto pensando no poema que poderia ter sido,
mas não foi.
Bem que quis ser poema, mas não sabia como, e nem pôde...
julho/1987
(O quarto do mistério, p. 137)

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