Muitas
pessoas não gostam do que escrevo. Dizem que o que
eu faço não é ciência; é
literatura. É verdade. Faz tempo que me mudei da caixa
de ferramentas para a caixa dos brinquedos. O que me aborrece
é que esses que não gostam do que escrevo pensam
que somente a ciência tem dignidade acadêmica.
Houve mesmo o caso de uma candidata ao mestrado que teve seu
projeto recusado por me citar demais e por propor um assunto
que não era científico. Psicóloga e pedagoga
ela sabia por experiência própria do poder do
olhar. Há tantos olhares diferentes! Há o olhar
de desprezo, de admiração, de ternura, de ódio,
de vergonha, de alegria... A mãe encosta o filhinho
na parede e, a um metro de distância, lhe estende os
braços e diz sorrindo: “Vem”. Encorajada
pelo olhar a criança, que ainda não sabe andar,
dá seus primeiros passos. Há olhares que dão
coragem. E há olhares que destroem. Aquele olhar terrível
da professora que olha para a criança de um certo jeito,
sem nada dizer. Mas a criança entende o que o seu olhar
está dizendo: “Como você é burra”...
Há olhares que emburrecem. Voltando à metáfora
do pênis, há olhares que o tornam impotente,
tanto no sentido literal quanto no sentido metafórico.
Acho que era isso que a Adélia tinha em mente quando
escreveu maliciosamente: “E o meu lábio zombeteiro
faz a lança dele refluir...”
O olhar
é real. É real porque produz efeitos reais.
O olho é também real. Sobre ele se pode ter
conhecimento científico. Há uma ciência
dos olhos. Há uma especialidade médica que se
dedica a eles: a oftalmologia. Mas, por mais que procuremos
nos tratados de oftalmologia referências ao olhar, não
encontraremos nada. O olhar não é objeto de
conhecimento científico. Nem tudo o que é real
pode ser pescado com as redes metodológicas da ciência.
Há objetos que escapam pelos buracos de suas malhas.
Será possível fazer uma ciência dos olhares?
Tratá-los estatisticamente? Não tem jeito. Aí
a proposta de uma tese sobre o olhar foi rejeitada sob a justa
alegação de que não era científica.
E não era mesmo. Mas o fato é que os olhares
são reais! O estudo dos olhos é tarefa da ciência.
E por isso eu sou agradecido. Nesse momento estou usando óculos
para escrever. Sem eles eu só veria borrões.
Mas eu me dedico ao olhar, para que meus olhos sejam sábios.
O olhar é uma musica que os olhos tocam. Coisa de poeta...
São os poetas que falam sobre os olhares. ( Eu escrevi
“ são os poetas que sabem sobre os olhares”
– mas logo corrigi. Todo mundo sabe sobre os olhares.
Todo mundo observa atentamente os olhares porque são
eles, e não os globos oculares, que sinalizam a vida
e especialmente o amor... Mas só os poetas sabem falar
sobre eles). Escrevo para mudar olhares. Isso não é
ciência. É arte. Há olhos perfeitos que
são armas mortíferas. Jesus se referiu a esses
olhos e sugeriu que deveriam ser arrancados. Os olhos, eles
mesmos, são estúpidos. Eles não têm
o poder para discriminar as coisas dignas de serem vistas
das coisas não dignas de serem vistas. Para eles tanto
faz ver um programa idiota de televisão quando uma
tela de Vermeer. A capacidade de discriminar não pertence
aos olhos. Pertence ao olhar. Mas isso exige uma luz interior.
Se os
olhos não serviram como metáforas, falarei sobre
pianos. Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais
perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto
do mundo. Os pianos Steinway são produzidos de forma
absolutamente rigorosa e científica. Tudo neles tem
de ter a medida exata. Todos têm de ser absolutamente
iguais, para que o pianista não estranhe. Mas um piano,
em si mesmo, é estúpido. Falta-lhes o poder
de discriminação. Os pianos obedecem tanto a
um toque de macaco, de um louco ou do Nelson Freire. Os pianos
não são fins em si mesmos. São ferramentas.
São construídos para tornar possível
a beleza da música. Mas a beleza não é
um objeto de conhecimento científico. Ninguém
pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocínios
científicos. Não me consta que nenhum dos especialistas
em construção de pianos da fábrica Steinway
jamais tenha dado um concerto. Ciência eles têm.
Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza há
os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre ciência
da construção dos pianos. O que eles sabem é
tocar piano, coisa que não é científica...
Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas. Os
pianistas moram na caixa de brinquedos.
A diferença
está entre “ciência” e “sapiência”.
Os teólogos medievais diziam que a ciência era
uma serva da teologia. Parodiando eu digo que a ciência
é uma serva da sapiência. A ciência é
fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência
usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida,
objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta.
Mas se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram
na caixa de ferramentas é possível que o excesso
de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio
cozinheiro...