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As
coisas que tenho dito sobre Deus fizeram com que muitos
dos meus leitores ficassem temerosos sobre o futuro de
minha alma, no outro mundo. Acham que vou para o
inferno. Eles pensam que, se a gente não pensar certo,
Deus castiga. No inferno estão os pecadores que
roubaram, fornicaram e mataram, e aqueles que ousaram
pensar suas próprias idéias. Pensar certo, na cabeça
deles, é pensar do jeito como pensam os padres e os
pastores. Para tranquilizá-los vou me explicar.
Sobre a Bíblia. Eu a estudei muito e a amo. Para mim
ela é um poema cujas palavras me confortam e me fazem
mais sábio. Mas é preciso fazer uma distinção entre
as palavras do poema, escritas, e aquilo que as pessoas
pensam, ao lê-lo. Toda leitura é uma interpretação,
isto é, os pensamentos das pessoas que a lêem. Todo
sermão é pensamento de um homem e não pensamento de
Deus. A interpretação é diferente do poema. Cada
igreja, cada congregação, cada seita se organiza em
torno de uma interpretação particular, palavra de
homem. Mas cada uma delas tem a ilusão de que a sua
interpretação é a Palavra de Deus. Sendo a Palavra de
Deus, é única verdadeira. É muita presunção pensar
que somente a minha seita interpreta certo e todas as
outras interpretam errado. O que eu escrevo é a minha
interpretação, tão problemática quanto qualquer
outra. É preciso não se esquecer da sábia afirmação
do apóstolo Paulo: Nós não sabemos direito as coisas;
o que vemos são reflexos trêmulos e obscuros num
espelho mal polido. É preciso não confundir os
reflexos no espelho com o rosto verdadeiro que ninguém
jamais viu. De Deus, a única coisa absolutamente certa
que conhecemos é o amor (1 Cor. 13).
O que é a fé? É também uma questão de interpretação.
Pessoas há que pensam que fé é um recurso mágico que
garante que Deus vai nos atender. Para elas um Deus que
não atende pedidos é um Deus muito fraco. Elas desejam
garantias. Na minha interpretação fé é uma relação
de confiança com Deus: é flutuar num mar de amor, como
se flutua na água. Quem é que ama mais o pai? Aquele
que é fiel ao pai porque ele lhe dá os presentes
pedidos, ou aquele que ama o pai, mesmo que ele não lhe
dê presentes? A gente ama o pai é pelos presentes, bênçãos,
que ele dá, ou por ele mesmo? Amo a Deus mesmo que não
me dê presentes.
Acho que Cristo enche todos os espaços do universo.
Lutero falava da ubiquidade do corpo de Cristo e dizia
que ele está presente até na menor folha, muito embora
nas folhas o nome dele não esteja escrito. Quem ama uma
folha ama Cristo. Quem tem amor respira Cristo, mesmo
que não fale o nome dele. Tiago diz que os demônios
sabem tudo sobre Deus e, no entanto, são demônios. Os
reformadores falavam no Christo absconditus – isso é,
o Cristo escondido, invisível, sem nome, em toda a Criação.
Quem ama, mesmo que não cite as Escrituras e nem
saiba o nome de Cristo, está nele. Cristo não pode ser
engarrafado em nomes religiosos. Isso seria heresia,
negar a sua onipresença.
As Escrituras Sagradas são um livro enorme.
Muitos dizem que as Escrituras inteiras são inspiradas.
Se realmente acreditam nisso, então todos os textos têm
de ser objeto do nosso amor, são “palavras de
Deus“. Noto, entretanto, que eles se comportam como se
alguns textos fossem mais inspirados do que outros.
Fazem silêncio sobre muitos textos. Por exemplo, nunca
ouvi sermão católico ou evangélico sobre “Amada
minha, em tua língua há mel e leite. Teus seios são
como duas crias gêmeas de gazela...“ (Cânticos 4:11,
5); “Anda, come teu pão com alegria e bebe contente o
teu vinho... Goza a vida com a mulher que amas todos os
dias da tua vida...“ (Ecl. 9:7 e 9). Por que o silêncio?
Acho que, secretamente, eles acreditam que uns textos são
mais palavra de Deus do que outros...
E quanto ao destino de minha alma, não se preocupem.
Foi Jesus mesmo que disse aos fariseus, religiosos que
viviam citando as Escrituras e tentando converter os
outros, que as meretrizes entrariam no Reino dos Céus
antes deles. E notem: Jesus não disse: meretrizes
arrependidas. Entram as meretrizes mesmo. Depois delas,
então, entram os fariseus hipócritas e tudo o mais que
Deus criou. Deus criou tudo, não é? Se ele criou tudo,
vocês acham que ele ia entregar ao Diabo aquilo que
saiu das suas mãos? Um Deus que é todo amor não pode
ter, na eternidade, uma câmara de torturas sem fim em
que as almas sofrem por pecados cometidos no tempo. Dívidas
no tempo ficam dívidas eternas? Só se Deus for dono de
banco...Quem iria ficar feliz com isso é o Diabo. E vocês
acham que Deus está a fim de realizar os desejos do
Diabo? No fim, o amor de Deus triunfa! E nós todos, vocês,
eu, meretrizes, e tudo o mais, estaremos entrando...
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
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