Sobre a interpretação...

 

“ – Hoje vamos interpretar um poema”, disse a professora de literatura. “Trata-se de um poema mínimo da extraordinária poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andressen” ela continuou. “O seu título é “Intacta Memória”. Por favor, prestem atenção.” E com essas palavras começou a leitura.

Intacta memória – se eu chamasse

Uma por uma as coisas que adorei

Talvez que a minha vida regressasse

Vencida pelo amor com que a sonhei.”

Ela tira os olhos do livro e fala: “O que é que o autor queria dizer ao escrever esse poema?”

Essa pergunta é muito importante. Ela é o início do processo de interpretação. Na vida estamos envolvidos o tempo todo em interpretar. Um amigo diz uma coisa que a gente não entende. A gente diz logo: “ O que é que você quer dizer com isso?” Aí ele diz de uma outra forma e a gente entende. E a interpretação, todo mundo sabe disso, é aquilo que se deve fazer com os textos que se lê. Para que sejam compreendidos. Razão por que os materiais escolares estão cheios de testes de compreensão. Interpretar é compreender.

É claro que a interpretação só se aplica textos obscuros. Se o meu amigo tivesse dito o que queria dizer de forma clara eu não lhe teria feito a pergunta. Interpretar é acender luzes na escuridão. Lembram-se do poema de Robert Frost, “Os bosques são belos, sombrios, fundos...?” Acesas as luzes da interpretação na escuridão dos bosques, suas sombras desaparecem. Tudo fica claro.

“O que é que o autor queria dizer?” Note: o autor queria dizer algo. Queria dizer mas não disse. Por que será que ele não disse o que queria dizer? Só existe uma resposta: “Por incompetência linguística”. Ele queria dizer algo mas o que saiu foi apenas um gaguejo, uma coisa que ele não queria dizer... A interpretação, assim, se revela necessária para salvar o texto da incompetência linguística do autor... Os poetas são incompetentes verbais. Felizmente com o uso dos recursos das ciências da linguagem salvamos o autor de sua confusão e o fazemos dizer o que ele realmente queria dizer. Mas, se o texto interpretado é aquilo que o autor queria dizer, por que não ficar com a interpretação e jogar o texto fora?

Claro que tudo o que eu disse é uma brincadeira verdadeira. É preciso compreender que o escritor nunca quer dizer alguma coisa. Ele simplesmente diz. O que está escrito é o que ele queria dizer. Se me perguntam: “O que é que você queria dizer etc” eu respondo: “ Eu queria dizer o que disse. Se eu quisesse dizer outra coisa eu teria dito outra coisa e não aquilo que eu disse.”

Estremeço quando me ameaçam com interpretações de textos meus. Escrevi uma estória com o título “ O Gambá que não sabia sorrir”. É a estória de um gambazinho chamado “Cheiroso” que ficava pendurado pelo rabo no galho de uma árvore. Uma escola me convidou para assistir à interpretação do texto que seria feita pelas crianças. Fui com a alegria. Iniciada a interpretação eu fiquei pasmo! A interpretação começava com o gambá. O que é que o Rubem Alves queria dizer com o gambá? Foram ao dicionário e lá encontraram: “Gambá: nome de animais marsupiais do gênero Didelphys, de hábitos noturnos que vivem em árvores e são fedorentos. São omnívoros, tendo predileção por ovos e galinhas.” Seguiam descrições científicas de todos os bichos que apareciam na estória. Fiquei a pensar: “O que é que fizeram com o meu gambá? Meu gambazinho não é um marsupial fedorento...”

Octávio Paz diz que a resposta a um texto nunca deve ser uma interpretação. Deve ser um outro texto. Assim, quando um professor lê um poema para os seus alunos, deve fazer-lhes uma provocação: “O que é que esse poema lhes sugere? O que é que vocês vêem? Que imagens? Que associações?” Assim o aluno, ao invés de se entregar à duvidosa tarefa de descobrir o que o autor queria dizer, entrega-se à criativa tarefa de produzir o seu próprio texto literário.

Mas há um tipo de interpretação que eu amo. É aquela que se inspira na interpretação musical. O pianista interpreta uma peça. Isso não quer dizer que ele esteja tentando dizer o que o compositor queria dizer. Ao contrário, possuído pela partitura, ele a torna viva, transforma-a em objeto musical, tal como ele a vive na sua possessão. Os poemas assim, podem ser interpretados, transformados em gestos, em dança, em teatro, em pintura. O meu amigo Laerte Asnis transformou a minha estória “A pipa e a flor” num maravilhoso espetáculo teatral. Pela arte do intérprete, o Laerte, palhaço, o texto que estava preso no livro fica livre, ganha vida, movimento, música, humor. E com isso a estória se apossa daqueles que assistem ao espetáculo. E o extraordinário é que todos entendem, crianças e adultos. Eu chorei a primeira vez que o vi.

O que é que a Sophia de Mello Breyner Andresen queria dizer com o seu poema? Não sei. Só sei que o seu poema faz amor comigo.