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Desejo
dar-lhe um estranho conselho, um conselho que nunca
imaginei que um dia eu fosse dar. Esse é o conselho: Se
a sua cozinheira tiver o costume de cantar enquanto
cozinha, não permita. Cozinheiras que cantam em serviço
podem, um dia, se transformar num imenso problema para
você, com conseqüências financeiras inimagináveis...
Se você acha que perdi o juízo, espere um pouco e você
compreenderá.
As explicações, freqüentemente, começam muito
longe... Começo com uma conversa entre dois jagunços
do Grande Sertão - Veredas, do Guimarães Rosa. Um
deles confidencia ao seu companheiro: ‘Matar eu mato.
Mas nunca fico com raiva...’ O seu colega, duro de
entendimento por lhe faltarem sutilezas psicológicas, não
entende e pede explicação. O outro responde curto e
grosso: ‘Quem fica com raiva leva o outro para a
cama.’ Eu já disse que o ódio gruda mais que o amor.
Você está amando... O amor é feliz, cheio de memórias
bonitas. Você vai para a cama e dorme sorrindo. E
sonha... Mas aí acontece algo, alguém lhe faz uma
coisa que lhe dá muita raiva. A raiva toma conta de
tudo, sentimentos e pensamentos. Não o deixa. Sua
vontade é gritar, bater, destruir. É hora de dormir.
Seus olhos estão pesados. Você quer dormir. Mas a
raiva não o deixa. Você vai para a cama e ao seu lado
se deita... a pessoa de quem você está com raiva. Você
quer pensar coisas bonitas, quer pensar na pessoa amada.
Mas aquela pessoa, ao lado, não deixa...
Pois é isso que está acontecendo comigo. Estou com
muita raiva. E, por causa da raiva, estou levando para a
minha cama um garçom que se diz cantor. E, ao meu lado,
ele canta valsas do Sílvio Caldas...
Tive um restaurante, o Dali Restaurante-Bar. Quando
sonhei o Dali, tudo era alegria: as fontes, as árvores,
os jardins, os quadros, os drinks, a comida, os amigos
reunidos e a música. Sim, música. Sem a menor vergonha
digo que tínhamos ali os melhores músicos de Campinas.
Jamais aceitamos a idéia de ter música de segunda
classe, para economizar. Os sonhos são assim: neles só
o que é bom aparece. Os problemas surgem quando se
tenta transformar o sonho em realidade.
Antes de continuar preciso fazer uma confissão. Sou um
mau psicanalista. Talvez seja bom no consultório. Mas
quando estou solto na vida a virtude que marca a arte da
psicanálise me abandona. A psicanálise é uma arte
perversa. Ela se baseia na desconfiança. Não acredita
nas aparências. Vê um sorriso e logo pergunta: ‘Que
coisas sinistras esse sorriso está escondendo?’
Bachelard chegou a descrever um psicanalista como uma
pessoa que, quando se lhe dão uma flor, logo pergunta:
‘Mas onde está o estrume?’
Sou mau psicanalista porque tenho a tendência de
acreditar no rosto (me esquecendo de que um rosto é
sempre uma máscara...). Foi assim que fui me
relacionando com os funcionários do Dali, os garçons,
os bar-men, os músicos, os cozinheiros, os ajudantes de
cozinha. Eu achava que eram meus amigos. Todos sorriam
para mim. Paguei muito caro a minha ingenuidade. Há
rostos sorridentes onde se escondem cobras. Descobri, na
minha pele, que a realidade não é a amizade. É aquilo
a que Marx deu o nome de ‘luta de classes’. A lição
de política que não aprendi na universidade fui
aprender pelo sofrimento no Dali...
O fato era que eu me comportava como um ‘paizão’.
Quem me pôs esse apelido foi o Edemilson, pedreiro que
construiu o Dali e que sempre me foi leal. Queria ajudar
a todos. Nos apertos todos me procuravam. E eu sempre
dava um jeito.
Pois apareceu lá no Dali um garçom pedindo emprego.
Era um homem de meia idade, estatura mediana, fala
mansa, rosto triste, desempregado, pai de filhos. Fiquei
com pena dele. E não só isso: gostei dele. Suas
maneiras eram refinadas, o que revelava algo de suas
origens. De fato, nas suas origens estava algo
diferente. Ele não fora sempre um garçom. Um dia ele
me mostrou um disco de vinil. Na capa, uma fotografia
dele, jovem. Fora cantor. Fiquei com dó. Quem, um dia,
gravou um disco, sonhou em ser grande cantor. Sonhou com
palcos, shows, fama, dinheiro. Quem sabe, um dia, ele
seria como Roberto Carlos. E vou batizá-lo de Roberto
Carlos porque não posso dizer o seu nome verdadeiro.
ele apareceu com um daqueles discos antigos de vinil.
Mas ele não conseguiu ser cantor. Fracassou. Restou-lhe
ser garçom. Olhava para aquele homem triste de fala
mansa atendendo os clientes e me comovia, pensando que
dentro dele havia um cantor estrangulado. E até lhe
emprestei R$500,00 para fazer face a uma emergência,
uma cirurgia de hemorróidas, coisa muito doída. E foi
assim que, movido por compaixão, uma noite em que
estava alegre, disse aos meus músicos, profissionais de
primeira: ‘Se não for criar problema para vocês,
deixem o Roberto Carlos cantar alguma coisa. Ele vai
ficar feliz. Parece que ele canta músicas dos tempos do
Sílvio Caldas...’ E foi o que aconteceu. Para o
Roberto Carlos foi a glória. De vez em quando os músicos
lhe davam uma colher de chá. Fiquei com tanto dó dele
que pedi ao pessoal do Correio Popular que escrevesse
algo sobre ele. O que aconteceu. (Mal sabia que esse
gesto de generosidade seria usado por ele para me
apunhalar...)
Mas aí aconteceu o que sempre acontece em restaurantes:
invejas entre os funcionários, brigas,
desentendimentos. Havia um bar-man complicado, sistemático,
de difícil relacionamento. A equipe embirrou com ele.
‘Paizão’, entrei em cena para acalmar a família.
Reuni os funcionários, inclusive o dito bar-man.
Conversei com eles. Pedi diálogo e paciência.
Terminada minha curta fala dei oportunidade para que
quem quisesse falar falasse. E foi assim que eles,
timidamente, começaram a articular suas queixas com o
bar-man, que a tudo ouvia com absoluta elegância. Foi
então que, de repente, rompendo o clima existente,
houve uma explosão. O Roberto Carlos parecia possuído
por um demônio. Começou a gritar, a dizer palavrões
ao bar-man, terminando por ameaçá-lo de agressão física.
Levei um susto. Ordenei que o Roberto Carlos se calasse.
Foi como se eu não existisse. Repeti minha ordem uma,
duas, três vezes, inutilmente. Então, diante desse
desrespeito público à minha autoridade de patrão e da
possibilidade de agressão, eu lhe disse: ‘Levante-se,
recolha suas coisas e se vá. Você está despedido.’
Um caso claro de demissão por justa causa. Mas, para
isso, seria preciso que os funcionários testemunhassem
perante o juiz. Mas ninguém quis. Funcionários de
restaurante não testemunham contra colegas, a favor do
patrão. Antes da verdade e da justiça, os interesses
da classe. Conformei-me, então, em pagar os direitos
que a Justiça do Trabalho determina. Mas eu não estava
preparado para o que se seguiu. Ele, através do seu
advogado (sem quem não se faz justiça), além dos
direitos de garçom, pedia que ele fosse indenizado como
‘cantor do restaurante’. E uma das peças do
processo, prova contra mim, foi a tal reportagem que fiz
publicar no Correio Popular, porque tive pena dele.
Assim, estou me tornando um melhor psicanalista. Olhando
para os olhos de pomba, fico preparado porque sei que lá
dentro está aninhada uma cobra com bote armado. O juiz
já deu a sentença. Segundo a sentença eu fui injusto.
Não paguei ao artista Roberto Carlos aquilo que deveria
ter pago – cantor que ele era. Já fiz o depósito de
R$3.000,00, para ter direito a recorrer. Vocês não
imaginam a raiva que dá ter de tirar um dinheiro
ajuntado para pagar a mentira de um mentiroso. Por isso
não estou conseguindo dormir. Fico rolando com o
Roberto Carlos, ouvindo o Sílvio Caldas...
Compreendem, agora, porque não se deve deixar a
cozinheira cantar em serviço? Porque pode ser que,
ingressando em juízo, ela alegue que, além de
cozinhar, ela era ‘artista em residência’. O
Roberto Carlos fez isso comigo. O que é que vai impedir
que sua cozinheira faça o mesmo com você? Lembre-se de
que as coisas mais inocentes podem, em juízo, ser
invocadas como provas contra você. (Correio Popular,
Caderno C, 18/02/2001.)

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