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O
nome não me era estranho. Eu já o vira de relance em
algum jornal ou revista. Mas não me interessei. Aquele
nome, para mim, não passava de um bolso vazio. Eu não
tinha a menor idéia do que havia dentro dele. Sou
seletivo em minhas leituras. Leio gastronomicamente.
Diante de jornais e revistas eu me comporto da mesma
forma como me comporto diante de uma mesa de bufê:
provo, rejeito muito, escolho poucas coisas. Concordo
com Zaratustra: “Mastigar e digerir tudo - essa é uma
maneira suína.“
Aquele bolso devia estar cheio de coisas dignas de serem
comidas – caso contrário não teria sido oferecido
como banquete nas páginas amarelas da VEJA. Mas eu não
comi. Aí um amigo me enviou via e-mail cópia de uma crônica
do Arnaldo Jabor, a propósito do dito nome – crônica
que eu li e gostei: sou amante de pimentas e jilós.
Senti-me parecido com o Mr. Gardner, do filme “Muito
além do jardim“, com Peter Sellers. Mr. Gardner
jamais lia jornais e revistas. Aproximei-me então da
minha assessora e lhe perguntei, envergonhado, temeroso
de que ela tivesse visto o dito filme, e me
identificasse com o Mr. Gardner. “Natália, quem é
Adriane Galisteu?“ Esse era o nome do bolso vazio. Ela
deu uma risadinha e me explicou. À medida em que ela
explicava, as coisas que eu havia lido começaram a
fazer sentido, e eu me lembrei de uma estória que minha
mãe me contava: uma princesinha linda que, quando
falava, de sua boca saltavam rãs, sapos, minhocas,
cobras e lagartos... Terminada a explicação, fiquei
feliz por não ter lido. Lembrei-me de uma advertência
de Schopenhauer: “No que se refere a nossas leituras,
a arte de não ler é sumamente importante. Essa arte
consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público.
Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque
a vida é curta e o tempo e a energia escassos... Muitos
eruditos leram até ficar estúpidos.“ Existirá
possibilidade de que a leitura dos jornais nos torne estúpidos?
O que está em jogo não é a dita senhora, que pode
pensar o que lhe for possível pensar. O que está em
jogo é o papel da imprensa. Qual a filosofia que a move
ao selecionar comida como essa para ser servida ao povo?
A resposta é a tradicional: “A missão da imprensa é
informar“. Pensa-se que, ao informar, a imprensa
educa. Falso. Há milhares de coisas acontecendo e seria
impossível informar tudo. É preciso escolher. As
escolhas que a imprensa faz revelam o que ela pensa do
gosto gastronômico dos seus leitores.
Jornais são refeições, bufês de notícias
selecionadas segundo um gosto preciso. Se o filósofo
alemão Ludwig Feuerbach estava certo ao afirmar que
“somos o que comemos“, será forçoso concluir que,
ao servir refeições de notícias ao povo os jornais
estão realizando uma magia perversa sobre os seus
leitores: depois de comer eles serão iguais àquilo que
leram.
Faz tempo que parei de ler jornais. Leio, sim, movido
pelo espírito da leitura dinâmica, apressadamente,
deslizando meus olhos pelas manchetes para saber não o
que está acontecendo, mas para ficar a par do menu de
conversas estabelecido pelos jornais. Muita coisa
importante e deliciosa acontece sem virar notícia, por
não combinar com o gosto gastronômico dos leitores. Se
não fizer isto ficarei excluído das rodas de conversa,
por falta de informações. Parei de ler os jornais, não
por não gostar de ler mas precisamente porque gosto de
ler. As notícias dos jornais são incompatíveis com
meus hábitos gastronômicos: leio bovinamente,
vagarosamente, como quem pasta... ruminando. O prazer da
leitura, para mim, está não naquilo que leio mas
naquilo que faço com aquilo que leio. Ler, só ler, é
parar de pensar. É pensar os pensamentos de outros. E
quem fica o tempo todo pensando o pensamento de outros
acaba por desaprender a arte de pensar seus próprios
pensamentos: outra lição de Schopenhauer. Pensar não
é ter as informações. Pensar é o que se faz com as
informações. É dançar com o pensamento, apoiando os
pés no texto lido: é isso que me dá prazer. Suspeito
que a leitura meticulosa e detalhada das informações
tenha, freqüentemente, a função de tornar desnecessário
o pensamento. Pensar os próprios pensamentos pode ser
dolorido. Quem não sabe dançar corre sempre o perigo
de escorregar e cair... Assim, ao se entupir de notícias
– como o comilão grosseiro que se entope de comida
– o leitor se livra do trabalho de pensar.
Confesso que não sei o que fazer com a maioria das notícias
dos jornais: entendo as palavras mas não entendo a notícia.
Penso: se eu não entendo a notícia que leio, o que
acontecerá com o “povão“? Outras notícias só
fazem explicitar o que já se sabe. Detalhes, cada vez
mais minuciosos, das tramóias políticas e econômicas
de um Maluf, de um Jader, nada acrescentam ao já
sabido. Esse gosto pela minúcia escabrosa se deriva da
pornografia, que encontra seus prazeres na contemplação
dos detalhes sórdidos, que são sempre os mesmos, como
o comprovam as salas de “imagens eróticas“ da
Internet. A dita reportagem sobre a tal senhora e as notícias
sobre Jader e Maluf atendem às mesmas preferências
gastronômicas. Será que as notícias são selecionadas
para dar prazer aos gostos suinos da alma? Por outro
lado, há os suplementos culturais que, para serem
entendidos, é preciso ter doutoramento. Para o povão,
o futebol...
Ao final de sua crônica o Arnaldo Jabor dá um grito:
“Os órgãos de imprensa devem ter um papel
transformador na sociedade...“ Dizendo do meu jeito:
os órgãos de imprensa têm de contribuir para a educação
do povo. Mas educar não é informar. Educar é ensinar
a pensar. Os jornais ensinam a pensar? Repito a
pergunta: Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?
(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 02/09/2001.)

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