Senhoras prefeitas, senhores prefeitos



Senhoras prefeitas, senhores prefeitos: eu não sou político. Nada entendo de administração. Não tenho conselhos técnicos a oferecer. Mas, ainda assim, ouso pedir que me leiam. O texto é curto. Não vai tomar muito do seu tempo. Ignorem minhas incompetências. Se o que vou dizer fizer sentido, ficarei feliz. Se não fizer sentido, é só esquecê-lo.

Jay W. Forrester, professor de administração do MIT, enunciou a seguinte lei das organizações: ‘Em situações complicadas esforços para melhorar as coisas freqüentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e, ocasionalmente, calamitosas.’ Essa mesma lei foi enunciada há quase 2.000 anos de forma mais simples e poética que todos podem compreender: ‘Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. Porque o remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes’ (Jesus).

As senhoras e os senhores estão diante de uma situação complicada. O impulso administrativo é fazer coisas para melhorá-la. A roupa que têm nas mãos está podre e esburacada. O impulso administrativo é costurar remendos de pano novo no tecido podre. Forrester e Jesus profetizam: ‘Não vai dar certo’.

O livro sagrado do Taoísmo, o Tao-Te-Ching, diz que estamos constantemente divididos: de um lado, a tentação de 10.000 coisas que demandam ação. Todas, não essenciais. Do outro lado está uma única coisa: o essencial, raiz das 10.000 perturbações. Sabedoria é deixar o sufoco das 10.000 coisas não essenciais e focalizar os olhos na única coisa que é essencial.

Pergunto: estão enrolados pelas 10.000 coisas não essenciais que demandam ação ou já conseguiram focar os olhos no coração do bicho de onde nascem as 10.000 coisas?

Faz algum tempo escrevi um artigo com o título Sobre Política e Jardinagem. Gosto de jardins, gosto de jardinagem. Os jardins são o mais antigo sonho da humanidade. As Sagradas Escrituras contam que Deus se cansou dos seus infinitos espaços celestiais e começou a sonhar. Qual foi o seu sonho? Um jardim: paraíso. E achou o jardim tão melhor que o seu céu anterior que resolveu mudar de casa: passou a morar no jardim e gostava de caminhar por ele quando a brisa da tarde era fresca.

Uma das necessidades mais profundas do corpo é o ‘espaço’. O corpo precisa do ‘seu’ espaço. Por isso os lobos e os cães urinam em certos lugares. A urina é a cerca que usam para marcar o ‘seu’ espaço. Os pássaros marcam o seu espaço cantando. Esse espaço é parte do corpo. Quando ele é invadido por um estranho o corpo estremece: ou com a fúria que leva à luta ou com o medo que faz fugir. Diferentemente dos lobos, cães e pássaros, não urinamos ou cantamos para marcar o nosso espaço. Criamos símbolos. Para os homens o símbolo que marca o seu espaço-corpo é o jardim. Quando esse espaço é destruído a vida social é destruída também.

‘Paraíso’ - jardim - é uma palavra que se deriva do grego paradeisos que, por sua vez, vem do antigo pérsico pairidaeza, que quer dizer ‘espaço fechado’. Jardim é um espaço fechado. Por que fechado? Para ser protegido. Para que seja nosso. Fora dos muros que fecham o jardim está o espaço selvagem, ainda não moldado pelo desejo de vida e beleza que mora nos seres humanos. Política é a arte de criar esse espaço. Política é a arte da jardinagem aplicada ao espaço público. Deixando de lado as 10.000 coisas a serem feitas, digo que a missão das prefeitas e dos prefeitos é criar esse espaço necessário para que a vida e a con-vivência humana possam acontecer. Tudo o mais é acessório.

Como se cria esse espaço? A resposta mais óbvia é: fazendo as 10.000 tarefas administrativas que a criação de um jardim exige. Perguntei, num dos meus artigos: ‘O que vem primeiro? O jardim ou o jardineiro?’ É o jardineiro. O que é um jardineiro? É alguém que sonha com um jardim antes que o jardim exista. Um jardim, assim, não começa com 10.000 atos. Começa com um único sonho. O jardim começa na cabeça das pessoas. Começa com o pensamento. Se o povo não sonhar com jardins os jardins não serão criados. E os que porventura existem logo se transformarão em lixo. Não há jardim que resista aos predadores. Predadores dos jardins são os seres humanos que não pensam jardins.

Digo, portanto, que a tarefa mais alta das prefeitas e prefeitos não são os 10.000 atos administrativos e as inaugurações que se lhes seguem. Sua missão mais importante é seduzir os habitantes das cidades a amar os jardins, a pensar jardins. Por favor, me entendam: uso a palavra jardim como metáfora para o espaço da cidade, que deve ser uma extensão do corpo das pessoas. Se as pessoas não sentirem que o espaço da cidade é uma extensão do seu corpo, então ele não será jardim, espaço protegido. Será o espaço selvagem de onde se deve fugir. E cada qual se esconderá atrás dos muros, atrás das grades, atrás dos cães, e viverão no espaço pequeno do seu medíocre apartamento, do seu medíocre condomínio, das suas medíocres mansões. E a cidade será um espaço morto, entregue à fúria dos carros e à violência das feras...

As senhoras e os senhores já pensaram que, mais importante que as 10.000 coisas administrativas que podem ser feitas, a sua tarefa essencial é fazer o povo pensar? Que o essencial é educar? O Diabo sugeriu que Jesus tomasse providências práticas imediatas para resolver o problema. Jesus respondeu que o que realmente importava era a palavra.

‘Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade’. (Raul Seixas). É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas para então se tornar realidade. Isso é o essencial. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 01/01/2001.)

‘Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade’. (Raul Seixas). É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas para então se tornar realidade. Isso é o essencial. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 01/01/2001.)