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Para
escrever esta crônica eu preciso de dois fios que
deixei soltos. Porque eu escrevo como os tecelões que
tecem seus tapetes trançando fios de linha. Também eu
tranço fios. Só que de palavras.
O primeiro fio saiu do corpo de uma aranha de nome
Alberto Caeiro. (Aranha, sim. Tecemos teias de palavras
como casas de morar sobre o abismo). Disse: “O
essencial é saber ver. Mas isso exige um estudo
profundo, uma aprendizagem de desaprender. Procuro
despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de
lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me
pintaram os sentidos...” Volta-me à memória o meu
amigo raspando a tinta das paredes da casa centenária
que comprara, tantas tinham sido as demãos, cada
morador a pintara de uma cor nova sobre a cor antiga.
Mas ele a amou como uma namorada. Não queria pôr
vestido novo sobre vestido velho. Queria vê-la nua. Foi
necessário um longo strip tease, raspagens sucessivas,
até que ela, nua, mostrasse seu corpo original: pinho
de riga marfim com sinuosas listras marrom.
Nós. Casas. Vão-nos pintando pela vida afora até que
memória não mais existe do nosso corpo original. O
rosto? Perdido. Máscara de palavras. Quem somos? Não
sabemos. Para saber é preciso esquecer, desaprender.
Segunda aranha, segundo fio, Bernardo Soares: nós só
vemos aquilo que somos. Ingênuos, pensamos que os olhos
são puros, dignos de confiança, que eles realmente vêem
as coisas tais como elas são. Puro engano. Os olhos são
pintores: eles pintam o mundo de fora com as cores que
moram dentro deles. Olho luminoso vê mundo colorido;
olho trevoso vê mundo negro.
Nem Deus escapou. Mistério tão grande que ninguém
jamais viu, e até se interditou aos homens fazer sobre
ele qualquer exercício de pintura, segundo mandamento,
“não farás para ti imagem“, tendo sido proibido até,
com pena de morte, que o seu próprio nome fosse
pronunciado. Mas os homens desobedeceram. Desandaram a
pintar o grande mistério como quem pinta casa. E a cada
nova demão de tinta mais o mistério se parecia com as
caras daqueles que o pintavam. Até que o mistério
desapareceu, sumiu, foi esquecido, enterrado sob as
montanhas de palavras que os homens empilharam sobre o
seu vazio. Cada um pintou Deus do seu jeito. Disse Ângelus
Silésius: o olho através do qual Deus me vê é o
mesmo olho através do qual eu vejo Deus. E assim Deus
virou vingador que administra um inferno, inimigo da
vida que ordena a morte, eunuco que ordena a abstinência,
juiz que condena, carrasco que mata, banqueiro que
executa débitos, inquisidor que acende fogueiras,
guerreiro que mata os inimigos, igualzinho aos pintores
que o pintaram.
E aqui estamos nós diante desse mural milenar
gigantesco onde foram pintados rostos que os religiosos
dizem ser rostos de Deus. Cruz credo! Exorcizo. Deus não
pode ser assim tão feio. Deus tem de ser bonito. Feio
é o cremulhão, o cão, o coisa-ruim, o demo. Retratos
de quem pintou, isso sim. Menos que caricatura.
Caricatura tem parescença. Máscaras. Ídolos. Para se
voltar a Deus é preciso esquecer, esquecer muito,
desaprender o aprendido, raspar a tinta...
Os que não perderam a memória do mistério se
horrorizaram diante dessa ousadia humana. Denunciaram.
Houve um que gritou que Deus estava morto. Claro. Ele não
conseguia encontrá-lo naquele quarto de horrores.
Gritou que nós éramos os assassinos de Deus. Foi
acusado de ateu. Mas o que ele queria, de verdade, era
quebrar todas aquelas máscaras para poder de novo
contemplar o mistério infinito. Outro que fez isso foi
Jesus. “Ouvistes o que foi dito aos antigos; eu porém
vos digo...“ O deus pintado nas paredes do templo não
combinava com o deus que Jesus via. O deus sobre que ele
falava era horrível às pessoas boas e defensoras dos
bons costumes. Dizia que as meretrizes entrariam no
Reino à frente dos religiosos. Que os beatos eram
sepulcros caiados: por fora brancura, por dentro fedor.
Que o amor valia mais do que a lei. Que as crianças são
mais divinas que os adultos. Que Deus não precisa de
lugares sagrados - cada ser humano é um altar, onde
quer que esteja.
E ele fazia isso de forma mansa. Contava estórias. Uma
delas, os pintores de parede lhe deram o nome de “parábola
do filho pródigo”. É sobre um pai e dois filhos. Um
deles, o mais velho, todo certo, de acordo com o
figurino, cumpridor de todos os deveres, trabalhador. O
outro, mais novo, malandro, gastador irresponsável.
Pegou a sua parte da herança adiantado, e se mandou
pelo mundo, caindo na farra e gastando tudo. Acabou o
dinheiro, veio a fome, foi tomar conta de porcos. Aí se
lembrou da casa paterna e pensou que lá os
trabalhadores passavam melhor do que ele. Imaginou que o
seu pai bem que poderia aceitá-lo como trabalhador, já
que não merecia mais ser tido como filho. Voltou. O pai
o viu de longe. Saiu correndo ao seu encontro, abraçou-o
e ordenou uma grande festa com música e churrasco. Para
os pintores de parede a estória poderia ter terminado
aqui. Boa estória para exortar os pecadores a se
arrepender. Deus perdoa sempre. Mas não é nada disso.
Tem a parte do irmão mais velho. Voltou do trabalho,
ouviu a música, sentiu o cheiro de churrasco, ficou
sabendo do que acontecia, ficou furioso com o pai,
ofendido, e com razão. Seu pai não fazia distinção
entre credores e devedores. Fosse o pai como um
confessor e o filho gastador teria, pelo menos, de
cumprir uma penitência. A parábola termina num diálogo
suspenso entre o pai e o filho justo. Mas o suspense se
resolve se entendermos as conversas havidas entre eles.
Disse o filho mais moço ao pai: “Pai, peguei o
dinheiro adiantado e gastei tudo. Eu sou devedor. Tu és
credor.“ Responde-lhe o pai: “Meu filho, eu não
somo débitos.“ Disse o filho mais velho ao pai:
“Pai, trabalhei duro, não recebi meus salários, não
recebi minhas férias e jamais me deste um cabrito para
me alegrar com os meus amigos. Eu sou credor, tu és
devedor.“ Responde-lhe o seu pai: “Meu filho: eu não
somo créditos.“ Os dois filhos eram iguais um ao
outro, iguais a nós: somavam débitos e créditos. O
pai era diferente. Jesus pinta um rosto de Deus que a
sabedoria humana não pode entender. Ele não faz
contabilidade. Não soma nem virtudes e nem pecados.
Assim é o amor. Não tem “porquês“. Sem-razões.
Ama porque ama. Não faz contabilidade nem do mal e nem
do bem. Com um Deus assim o universo fica mais manso. E
os medos se vão. Nome certo para a parábola: “Um pai
que não sabe somar.“ Ou “Um pai que não tem memória“...
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
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