Se for por sorteio...

 

Não me lembro direito mas é mais ou menos assim um versinho que Mário Quintana escreveu sobre as utopias: “Utopias, dirão, são impossíveis... Mas isso não é razão para não tê-las. Que tristes seriam as noites sem a luz mágica das estrelas...” Na noite escura da estupidez dos vestibulares sugiro que, por um momento, brinquemos sob a luz mágica de uma estrela... Imaginemos que os vestibulares serão substituidos por um sorteio. Quais seriam as consequências?

1.A primeira conseqüência seria o imediato fechamento dos cursinhos. Não teriam mais razão para existir. As classes mais abastadas que podem pagar o preço não teriam como gastar o seu dinheiro. ( Uma curiosidade: Alguém já fez um cálculo de quanto dinheiro se gasta anualmente no preparo para esse ritual inútil? Quanto vale o mercado dos vestibulares? Sei que é muito dinheiro... )

2. O maior estrago que os vestibulares fazem sobre a educação está no fato de que são eles que estabelecem o modelo de inteligência a ser cultivado. Essa é a razão porque as escolas “fortes” se dedicam a treinar os seus alunos a responder as perguntas e a resolver os problemas que cairam em vestibulares anteriores: Ita ( 1997), USP ( 1985 ), UNICAMP ( 2001), etc. É irônico que os professores que preparam tais questões o façam na total ignorância de que suas escolhas irão determinar o destino da inteligência das crianças e adolescentes. E os pais, procurando o melhor para os seus filhos, optam pelas escolas “fortes” que “preparam para o vestibular”... Livres da guilhotina dos vestibulares as escolas poderiam então se dedicar a tarefa de educar. Literatura, por puro prazer, sem ter de ler dinamicamente resumos dos clássicos. Poderiam levar os alunos pelos caminhos da pintura, da poesia, da música, da história da ciência... Infinitamente mais importantes que as três leis de Kepler sobre o movimento dos planetas são os dezoitos anos de suas pesquisas. Haveria lugar para o sonho dos alunos. A importância dos sonhos? Todo conhecimento começa no sonho. Não é atoa que Polya, matemático polonês que ensinou na Universidade de Princeton, no seu curto livro sobre a arte de resolver problemas, tenha aconselhado: “Comece pelo fim”. A resolução do problema é a ponte que se constroi para chegar a esse fim – se é que o aprendiz o sonhou. Primeiro o sonho da casa; depois os conhecimentos práticos necessários para construir a casa. Primeiro o sonho das asas; depois a milenar investigação de como voar como as aves. Um amigo meu, Polycarp Kusch, prêmio Nobel de Física e então presidente da Universidade de Columbia, me confessou que, após ganhar o prêmio Nobel, abandonou a pesquisa e passou a se dedicar ao ensino, não dos pós-graduados, mas dos jovens. E os seus cursos começavam sempre com a mesma pergunta: “ O que é necessário pressupor para que se faça a ciência da física?” A resposta é simplíssima, embora seja necessária uma longa gravidez e um longo trabalho de parto para que ela surja dentro dos alunos. Dize-la, simplesmente, de mão beijada aos estudantes, não funciona. Porque nós só entendemos realmente quando o conhecimento é construído como ponte, passo a passo. Conhecer é construir pontes entre o sonho, estrela distante, e o lugar onde me encontro. A resposta é a seguinte: Para se fazer física é preciso pressupor que o universo seja ordenado e racional. Os grandes físicos estão em busca dessa ordem universal. O seu sonho é decifrar as regras desse xadrez fantástico que é o universo. As escolas como “sonhatórios” ( pois não há “escritórios”? ) de onde nasce o pensamento inteligente!

3. Muito embora haja raras exceções, a regra é que os cursinhos sejam o caminho para passar nos vestibulares e entrar na universidade. Mas os vestibulares e suas crias, os cursinhos, são uma porta estreita que tem uma clara “opção preferencial pelos ricos”. Entram nas universidades públicas gratuitas os que têm mais dinheiro. Os mais pobres ficam de fora. Têm de se contentar com universidades particulares pagas, se é que podem. O atual sistema é, assim, um jogo de cartas marcadas. Injusto socialmente. Com o sorteio todos, ricos e pobres, teriam oportunidades iguais. Já se fez a sugestão de cotas para os negros, que estão entre os mais seriamente discriminados pela porta estreita. Mas esse artifício não resolve os problemas educacionais que indiquei, produzidos pelos vestibulares. E é provável que crie uma séria conseqüência social. Seria impossível evitar que os “brancos” que “quase entraram” não desenvolvessem uma raiva surda contra “os negros que entraram por favor”, culpados de eles terem ficado de fora. ( continua )

Terminei meu último artigo com a palavra “continua”, para mostrar que ainda restavam estocadas as serem desferidas contra o dragão devorador de inteligências. Eu fizera uma proposta insólita e aparentemente absurda: de que os vestibulares fossem substituídos por um sorteio. Mostrei que, com o sorteio, os inuteis e caros cursinhos desapareceriam. Mostrei ainda que o sorteio libertaria as escolas de sua escravidão aos padrões de conhecimento impostos pelos vestibulares, ficando então livres para verdadeiramente educar. E, ao final, indiquei que o sorteio quebraria a “opção preferencial pelos ricos” que caracteriza o atual sistema, dando chances aos pobres. Agora, os argumentos finais.

4. Os ricos, vendo que a loteria é cega e ignora a riqueza, e vendo que os seus filhos não são sorteados, liberados que estão de todas as despesas que tinham anteriormente com os cursinhos, passariam a dispor desses recursos para criar excelentes universidades particulares, sem que o governo tivesse necessidade de fazer qualquer investimento.

5. Eu sou pai. Meus filhos tiveram que frequentar cursinhos e fazer vestibular. Sei do sofrimento dos pais. Dói muito ver o filho ser reprovado depois de ter passado um ano miserável estudando como um louco coisas que não fazem sentido e serão esquecidas. Tais como: 1. Calcule o logaritmo neperiano da enésima potência da própria base. 2. O fenômeno da trissomia é provocado pela: (a) simples deleção dos cromossomos; (b) não–disjunção das cromátides; (c ) não reversão que ocorre na diacinese; (d) translocação do cromossoma na mitose. 3. Nos peixes cartilaginosos encontramos a tiflósolis, dobra intestinal também encontrada em: (a) poríferos; (b) platelmintes; (c) asquelmintes; (d) anelídeos; (e) moluscos. 4. Vertebrados anamniotas, tetrápodes, poiquilotermos, de respiração branquial durante a vida larvária e pulmonar, na fase adulta são: (a) répteis; (b) mamíferos; (c) anfíbios; (d) aves; (e) peixes. 5. Quais os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas? Primeiro é o sentimento de injustiça, vendo o processo de tortura inútil a que o próprio filho é submetido. Depois é o sentimento de inveja... “Meu filho entrou na medicina da USP. E o seu? O meu não passou. Terá que fazer o cursinho de novo...” Dostoievski, se minha memória não falha, comentando sua experiência de prisão, disse que havia imaginado uma maneira de enlouquecer os presos: bastava submetê-los ao trabalho forçado de esvaziar uma piscina levando a água em baldes para uma outra. Depois de cheia a segunda piscina eles teriam de fazer a mesma coisa: esvaziá-la, para encher a primeira. Infinitamente. Fazer o cursinho de novo, a mesma coisa... É terrível ver o filho vivendo a maldição de Sísifo... Com o sorteio o pai, ao ver que o filho ficou de fora mais uma vez, dá-lhe um abraço e diz: “Vamos tomar um chopp?”

Estou consciente da objeção que paira no ar: sem o terror dos vestibulares o ensino fundamental e médio se deterioraria pois que o ensino seria apenas “pro-forma”, já que o aprendizado seria irrelevante para o ingresso nas universidades. Mas esse é um perigo facilmente evitado. O término do ensino médio seria marcado por uma exame nacional, preparado e aplicado pelo Ministério da Educação. O objetivo desse exame seria verificar se os alunos haviam atingido o nível mínimo de aprendizagem exigido. Não seria classificatório. Haveria apenas os conceitos “aprovado e “reprovado”. Todos os aprovados teriam atingido o patamar de conhecimento julgado suficiente. Poderiam entrar no sorteio. Os outros, não. Tal exame seria, ao mesmo tempo, um instrumento para se avaliar a qualidade de ensino nas escolas.

Já foi sugerido que, para se evitar o vestibular, o ingresso nas universidades deveria se basear no histórico escolar do aluno. Para mim seria um desastre. Eu não entraria. Como já confessei, fui mau aluno. E afirmo que, com honrosas exceções, os professores que tive não mereciam que eu aprendesse o que eles diziam estar ensinando. Curriculos escolares de que escolas seriam dignos de crédito? De todas? E as burlas? Como impedir que escolas inescrupulosas oferecessem históricos escolares fajutos, com entrada garantida na universidade? Para se evitar tal possibilidade seria necessário criar um clube de escolas de elite, cujos históricos escolares seriam dignos de crédito. Somente os históricos escolares de alunos de tais escolas seriam aceitos. Mas escolas de elite são caras... Só os ricos poderiam pagar. Tal sistema produziria uma brutal discriminação contra os pobres, pior que aquela que atualmente existe. A emenda seria pior que o soneto...