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A
Adélia Prado definiu a poesia como uma perturbação da
visão. Disse ela: ‘Deus de vez em quando me castiga.
Me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma
pedra.’ Mas o certo não é ver pedra quando pedra é
o que há? Se olho para uma pedra e vejo outra coisa é
porque meus olhos estão perturbados. Pois é isso mesmo
que a poesia faz: a gente olha para a pedra e vê uma
outra coisa que não está lá. Isso que a gente vê na
pedra e não está na pedra, está dentro da gente, na
alma. Para os poetas o mundo é um espelho de mil faces
em que a alma se contempla. Daí a felicidade narcísica
da poesia... A poesia é uma alteração da percepção
visual. Chego a temer que, algum dia, ela venha a ser
classificada como droga alucinógena...
Mas há coisas no mundo que, quando olho para elas, só
vejo elas mesmas. É o caso das casas novas, tão
modernas, tão certinhas. Olho para elas e o que vejo?
Vejo casas novas, tão modernas, tão certinhas... Com
as casas velhas é diferente. Basta que eu veja uma
delas para que meus olhos fiquem perturbados e eu comece
a ver coisas. Casas velhas me poetizam.
Amo as casas velhas mais que as novas. As casas velhas são
moradas de memórias e saudades. Mas, o que mora nas
casas novas? Nada. São vazias. Meu amor pelas casas
velhas se deve, talvez, ao fato de que passei parte da
minha infância no sobrado colonial do meu avô. Velho,
muito velho, estava cheio de quartos proibidos e espaços
misteriosos. Nele moravam ainda recordações de
escravos e senzalas. A nega Iáiá, escrava forra que
cuidou da minha mãe, lhe contava estórias de Angola
que depois minha mãe me contou. E não faltavam os
jasmins, a flor do imperador, os cravos, a malva, a
hortelã.... Não sei quantos anos terão sido necessários
para construí-lo, com suas paredes de pedra de um metro
de largura e seus vidros coloridos importados da Europa.
Contava estórias do sobrado de meu avô para minha
analista e ela me dizia, espantada: ‘Mas doutor, isso
é muito mais fascinante que \'Cem Anos de Solidão\'‘.
O sobrado do meu avô não existe mais. Queimou numa
imensa fogueira. Em poucas horas todo o mistério foi
reduzido a cinzas. Construir demora. Destruir é rápido.
Por vários dias os gigantescos barrotes de pau bálsamo
continuaram a queimar, exalando seu cheiro delicioso de
nunca-mais. Mas não foi acidente. Um homem, que alugava
uma loja no térreo, o incendiou. Lucílio, era o seu
nome. Não satisfeito, continuou a incendiar outras
casas antigas. Descoberto e preso justificou os seus
atos: ‘Detesto casas velhas. Gosto de casas novas,
modernas. O que eu desejava era criar condições para a
modernização da cidade.’ Ele foi bem sucedido. A
cidade se modernizou. No lugar onde estava o sobrado
hoje se encontra o Banco do Brasil. Só que, quando olho
para o prédio do banco eu só vejo o prédio do banco.
Sob um certo ângulo, seu Lucílio estava certo: as
coisas velhas atravancam o progresso. Seu Lucílio tinha
uma fina percepção das implicações do progresso:
‘Queimar o velho para dar lugar ao novo.’ O
progresso e a riqueza são incendiários.
Assim tem acontecido. Foram-se as florestas de pinheiros
araucária. Pinheiro cortado vale mais que pinheiro em pé.
Foi-se a Mata Atlântica. Vão-se as matas, avançam os
desertos. E os rios e riachos cristalinos? O Tietê,
caldo grosso de veneno. Nas suas águas nada vive.
Esgoto fedido. Fugiram os peixes. Os que não
conseguiram fugir - de vez em quando aparecem boiando
nos rios, cobertos de moscas. E também as praias estão
indo, transformadas em cimento e barulho.
Meditando sobre a filosofia do seu Lucílio compreendi o
que aconteceu com os espaços antigos do Brasil, as praças,
casas, quintais, ruas, chafarizes... Foi assim: as
cidades que, de repente, foram invadidas pela euforia do
dinheiro e do progresso destruíram seus inúteis espaços
antigos. Por que preservar casas velhas inúteis e feias
se é possível construir casas novas, úteis e modernas
em seu lugar? Já nas cidades que ficaram à margem da
riqueza e do progresso (que tristeza!) os lugares
antigos sobreviveram, arruinados. O antigo sobreviveu
por causa da pobreza...
Foi-se o sobrado mas permanecem os cenários antigos na
alma. O Vinícius disse que a alma dele era um círio
que ardia numa catedral em ruínas. Eu digo que a minha
alma é um manacá perfumado num jardim abandonado.
Lembrei-me de um texto de Guimarães Rosa sobre os
jardins abandonados, em que ele se refere ao ‘jasmim
do Imperador - de todos o mais querido’. E me lembrei
também de um hai-kai de Bashô: ‘Na velha casa que
abandonei as cerejeiras florescem...’
Vez por outra, diante das casas antigas e seus jardins,
eu me reencontro de novo comigo mesmo como fui, menino.
Foi o que me aconteceu quando visitei, faz poucos dias,
São Luís do Maranhão. São Luís: para mim, até
aquele momento, nada mais que um nome vazio, uma bolinha
no mapa. O nome não me fazia pensar em nada. Aí eu
cheguei lá, comecei a perambular pelas ruas do seu
centro antigo, e uma alegria começou a tomar conta de
mim. O menino que mora em mim, aquele que brincava no
sobrado do meu avô, acordou do seu sono. A poesia se
virou os meus olhos. Começaram a brincar. Olhavam para
as casas e não viam as casas. Viam o sobrado do meu avô.
Senti-me voltando para casa. Eliot disse que ‘ao final
de nossas longas explorações chegaremos finalmente ao
lugar de onde partimos e o conheceremos então pela
primeira vez.’ Estaria eu voltando? Retornando ao
lugar de onde parti? Será que eu, adulto, sou um
estranho, exilado, no mundo da modernidade e das casas
novas? O sobrado do meu avô, as casas antigas de São
Luís - tão distantes no espaço e no tempo! E, no
entanto, habitantes de um mesmo tempo, de um mesmo
mundo. As casas antigas de São Luís e o sobrado antigo
do meu avô não são casas desse mundo, são casas de
um mundo que não existe mais, que existe só na saudade
onde moram os sonhos. Mas, como a alma é feita de
saudade, esse mundo que não existe do lado de fora
continua a existir do lado de dentro. E lá estava eu,
menino, andando pelas ruas antigas. Dantes tristes de
abandono e pobreza agora estavam lá, as casas, diante
de mim, alegrinhas e coloridas, exibindo os seus
encantos.
Não eram peças de um museu. Estavam vivas. Faziam
parte do cotidiano das pessoas que enchiam as suas ruas.
Lindo, pela simplicidade e harmonia de suas linhas, o
Teatro. A meninada adolescente o enchia, para o grande
circo do ‘Bumba-meu-boi’. Me lembrei do Teatro
Municipal de Campinas, coitado. Não teve tanta sorte. Não
foi protegido pela pobreza. Foi destruído pela
modernidade, sem ter tempo de gritar. O povo, acho que
estava distraído...Foi destruído por homens
empreendedores e amantes da modernidade, feito o sobrado
do meu avô.
Fiquei grato pela pobreza. Foi por causa dela que o
passado sobreviveu, lá em São Luís. ‘Creio na
ressurreição dos mortos’ : assisti o passado morto
sendo trazido de volta à vida. O dinheiro, entregue à
sua própria fome, é monstro que devora tudo, praga de
gafanhotos. Mas quando domado pelos desejos de beleza,
ele pode fazer maravilhas. Esse era o sonho dos
pensadores utópicos do século XIX, que contemplavam a
marcha devastadora da riqueza. Sonhavam com uma economia
em que o dinheiro seria como aqueles gênios da garrafa,
poderosos mas sem vontade própria, obedientes às
ordens do coração.
As velhas casas de São Luís me deram olhos de poeta.
Quem sabe chegará um dia em que os administradores
pedirão conselho aos poetas. Parece que isso aconteceu
lá em São Luís do Maranhão... (Correio Popular,
Caderno C, 03/12/2000.)
As
velhas casas de São Luís me deram olhos de poeta. Quem
sabe chegará um dia em que os administradores pedirão
conselho aos poetas. Parece que isso aconteceu lá em São
Luís do Maranhão... (Correio Popular, Caderno C,
03/12/2000.)

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