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1.’Melhor
é ter um único desejo que ter muitos’ (Nietzsche).
‘Pureza de coração é desejar uma só coisa’
(Kierkegaard). ‘Melhor é ter um único diamante que
ter uma coleção de bijuterias’ (Jesus Cristo, paráfrase
minha). ‘A vida é composta como uma partitura
musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza,
escolhe um tema que fará parte da partitura da sua
vida. Voltará ao tema, repetindo-o, modificando-o,
desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor
com os temas de uma sonata. O homem, inconscientemente,
compõe sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos
instante do mais profundo desespero’ (Milan Kundera).
Sem que o saibamos, estamos em busca do tema que dará
sentido à nossa vida. Se vocês não sabem disso, esse
é o objetivo da psicanálise, pelo menos da psicanálise
que pratico: temos de descobrir a música que se toca
dentro do nosso corpo, inaudivelmente, a despeito dos ruídos
da estática que enchem o nosso espaço.
2.Um amigo querido, Hugo Assmann, faz anos, me disse com
um sorriso: ‘Rubem, faz anos que você fala sempre
sobre a mesma coisa’. É verdade. Não importa sobre o
que eu esteja falando: eu falo sobre o tema que enche
minha alma de alegria.
3.Por vezes o tema é um sonho, impossível. Os homens
realistas, banqueiros, empresários, burocratas
(lembram-se da lógica dos macacos?), ao ver o nosso
sonho, dizem com um sorriso de desdém: ‘Sonhador romântico!
Os sonhos nunca se realizarão.’ Respondo com um
poeminha do Mário Quinatna: ‘Se as coisas são
inatingíveis...ora!/ Não é motivo para não querê-las.../
Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença
das estrelas!’
4.Meu único desejo, meu tema musical, meu diamante é a
educação. Não acredito que exista coisa mais bela que
ser um educador. Sabedoria de Nietzsche: ‘A única
felicidade está na razão. A mais alta razão se
encontra na obra do artista. Mas há algo que poderia
resultar numa felicidade ainda maior: gerar e educar um
ser humano.’
5. Minha estrela é a educação. Educar não é ensinar
matemática, física, química, geografia, português.
Essas coisas podem ser aprendidas nos livros e nos
computadores. Dispensam a presença o educador. Educar
é outra coisa. De um educador pode-se dizer o que Cecília
Meireles disse de sua avó - que foi quem a educou:
‘Teu corpo era um espelho pensante do universo.’ O
educador é um corpo cheio de mundos. A Cecília olhava
para o corpo de sua avó e via um universo refletido
nele. Lembram-se da estória do Gabriel Garcia Marques,
O afogado mais bonito do mundo? Por isso o educador e
seus discípulos estão ligados por laços de amor.
6.A primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O
mundo é maravilhoso, está cheio de coisas assombrosas.
A contemplação das coisas assombrosas que enchem o
mundo é um motivo de riso e felicidade. Zaratustra ria
vendo borboletas e bolhas de sabão. A Adélia ria vendo
tanajuras em vôo e um pé de mato que dava flor
amarela. Eu rio vendo conchas, teias de aranha e pipoca.
Quem vê bem nunca fica entediado com a vida. O educador
aponta e sorri - e contempla os olhos do discípulo.
Quando seus olhos sorriem, ele se sente feliz. Estão
vendo a mesma coisa. O fato de gastarmos horas na
contemplação das imagens banais e grosseiras da
televisão e de não gastarmos nenhum tempo comparável
na contemplação dos assombros da natureza é uma
indicação do ponto a que a nossa cegueira chegou. As
coisas não são assombrosas para todos. Só para
aqueles que aprenderam a ver. A visão tem de ser
aprendida. Os olhos precisam ser educados. Alberto
Caeiro disse que a primeira coisa que o Menino Jesus lhe
ensinou foi ‘a olhar para as coisas.’ O Menino Jesus
lhe ‘apontava todas as coisas que há nas flores’ e
lhe mostrava ‘como as pedras são engraçadas quando a
gente as tem na mão e olha devagar para elas.’ Ver
bem é uma experiência mística, sagrada. Quando digo
que minha paixão é a educação estou dizendo que
desejo ter a alegria de ver: os olhos dos meus discípulos,
especialmente os olhos das crianças.
7.Ver não é o bastante. O assombro das coisas vistas
provoca o pensamento. Queremos entender o que vemos. As
crianças não se cansam de perguntar: ‘Por quê?’
Os olhos buscam o entendimento, a razão. Aristóteles
estava certo ao iniciar a sua Metafísica dizendo que
‘todos nós temos, naturalmente, o desejo de
entender.’ Mas, é claro, o desejo de entender, que
freqüentemente tem o nome de curiosidade, só aparece
quando a inteligência é espicaçada pelo assombroso
das coisas. Se não houver essa experiência de assombro
a inteligência fica dormindo. O educador é um
mostrador de assombros. Tudo é assombroso. Por exemplo:
os flamboyants floridos pela cidade, fogo saindo das
flores, grande incêndio. Pergunto: Que professor levou
seus alunos a ver os flamboyants incendiados? Primeiro,
o prazer estético diante do assombroso. Depois, o
prazer de compreender. Mas, para compreender, é preciso
pensar. O pensamento é um filho do assombroso. Quando
passamos do assombro das coisas para o desejo de pensar,
passamos do visível para o invisível. Compreender é
ver o invisível. Foi assim que nasceram as ciências.
Copérnico: primeiro, o assombro dos céus estrelados;
depois a compreensão matemática (invisível!) dos
movimentos das estrelas. Darwin: primeiro, o assombro
diante da variedade das espécies vegetais e animais;
depois, a compreensão (invisível!) da sua origem.
8.Diz Manoel de Barros: ‘Deus deu a forma. Os artistas
desformam. É preciso desformar o mundo.’ Um jardim é
uma ‘desformação’ do mundo. Também uma moqueca.
Uma bicicleta. Um balanço. Um par de óculos. Um
sapato. Uma casa. Uma lâmpada. Um forno. Nenhuma dessas
coisas apareceu naturalmente, ao lado de pedras e árvores.
Coisa maravilhosa essa: que os seres humanos, vendo as
coisas assombrosas de que o mundo é feito e
compreendendo o seu assombro, não fiquem satisfeitos.
Querem fazer com as coisas assombrosas que estão no
mundo outras coisas assombrosas que não se encontram lá.
A educação, assim, além de implicar a aprendizagem da
arte de ver, a aprendizagem da arte de pensar, implica
também a aprendizagem da arte de inventar. Coisa
deliciosa é ver a alegria da criança que aprendeu a
dar um laço no sapato. Laço no sapato também é uma
invenção, desformação.
9.Ver, pensar, inventar: essas são ferramentas e
brincadeiras do corpo. O corpo vê, pensa e inventa em
função da necessidade de viver. Dizem que os esquimós
são capazes de identificar várias dezenas de nuances
do branco. No mundo em que vivem, de neve permanente, a
percepção das sutilezas do branco é vital. O branco
do urso adormecido, sua caça, comida e sobrevivência,
é diferente do branco do monte de neve em que ele se
esconde. A inteligência dos beduínos nômades dos
desertos jamais vai tentar entender as leis da navegação
e nem se ocupará da ciência da construção de barcos.
O conhecimento surge sempre em resposta a desafios
vitais práticos.
10.Metáfora: o corpo carrega sempre duas caixas. Numa mão,
uma caixa de ferramentas. Na outra mão, uma caixa de
brinquedos. Essas duas caixas definem os objetivos da
educação.
11.Caixa de ferramentas: nela se encontram os objetos
necessários para compreender e inventar. Úteis,
indispensáveis à sobrevivência. Na caixa de
ferramentas se encontram guardadas desde coisas
concretas como fogo, redes, facas, machados, hortas,
bicicletas, computadores, até coisas abstratas como
palavras, operações matemáticas, teorias científicas.
12.Caixa de brinquedos: nela se encontram objetos inúteis
que, sendo inúteis, são usados pelo prazer e alegria
que produzem: música, literatura, pintura, dança,
brinquedos, jardins, instrumentos musicais, poemas,
livros, pinturas, culinária, dança...
13.Com a caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos os
seres humanos não só sobrevivem, mas sobrevivem com
alegria. A caixa de ferramentas, sozinha, produz poder
sem alegria. Vida forte mas vida boba, sem sentido. Os
seres humanos ficam embrutecidos. O conhecimento,
sozinho, é embrutecedor. A caixa de brinquedos,
sozinha, está cheia de prazeres e alegrias. Mas os
prazeres e alegrias, sozinhos, são fracos. E a vida,
sem poder, é vida fraca, incapaz de responder aos
desafios práticos da sobrevivência. E vem a morte. Sábio
é aquele que possui as duas caixas... O homem sábio
planta hortas - coisas boas para comer e viver - e
planta jardins - coisas boas de se ver, cheirar,
degustar...
14. Tarefa do educador: ajudar os discípulos a
construir suas caixas de ferramentas e suas caixas de
brinquedos... Pergunto se as escolas fazem isso. Talvez
seja necessário ver, pensar e inventar - uma escola
diferente... Esse é o meu sonho! (Correio Popular,
Caderno C, 05/11/2000.)
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