O galinheiro
estava em polvorosa. Cocorocós de galos, cacarejos
de galinha, tofracos de angolinhas, pios de pintinhos –
tudo se misturava num barulho infernal. É que todos
haviam sido convocados para uma assembléia para tratar
de um assunto de grande importância qual seja, o fato
de que vários ovos de um ninho terem sido comidos por
um ladrão. E as pegadas eram inconfundíveis:
o ladrão era uma raposa. Com um sonoro cocoricocó
o galo Chantecler, pediu silêncio, expôs o problema
e franqueou a palavra.
Encarapitado
no galho de uma goiabeira um galinho garnizé cantou
estridente, sacudiu a crista para um lado e a barbela para
o outro e se pôs a discursar. Era o Mundico, que viera
de uma cidade grande e era formado em sociologia. . Ele adorava
discursar. “Companheiros”, ele começou,
“peço a sua atenção para as ponderações
que vou fazer acerca da crise conjuntural em que nos encontramos.
Charles Darwin foi o primeiro a mostrar que a história
dos bichos é marcada pela luta de classes: os mais
fortes devoram os mais fracos. Os leões comem os veados,
os lobos comem os cordeiros, os gaviões comem as pombas,
as raposas comem as galinhas. Os mais aptos sobrevivem; os
outros morrem. Assim, a crise conjuntural em que nos encontramos
nada mais é que uma manifestação da realidade
estrutural que rege a história dos bichos. E o que
é que faz com que as raposas sejam mais aptas do que
nós? As raposas são mais aptas e nos devoram
porque elas detém o monopólio de um saber que
nós não temos. Somente nos libertaremos do jugo
das raposas quando nos apropriarmos dos saberes que elas têm.
E como se transmitem os saberes? Através da educação.
Sugiro então que empreendamos uma reforma em nossos
currículos e programas. Se, até hoje, nossos
currículos e programas ensinavam aos nossos filhos
saberes galináceos, de hoje em diante eles ensinarão
saberes de raposa.
Primeiro,
teremos de educar os nossos olhos para que eles passem a ver
como vêem as raposas. Onde é que as raposas tem
os seus olhos? Na frente do focinho. E os nossos olhos, onde
estão? Do lado. Educaremos os nossos olhos para que
eles aprendam a olhar para frente. Segundo: teremos de re-educar
o nosso andar. Raposas andam com quatro patas. Por isso valem
o dobro que nós, que só temos duas patas. Como
transformar duas patas em quatro? É simples. Por meio
de um processo de adição. Nós, galinhas
e galos, bípedes, passaremos a andar aos pares, um
na frente, outro atrás, o de trás segurando
o traseiro do que vai à frente, e assim seremos quadrúpedes.
Terceiro: as raposas têm pêlos enquanto nós
temos penas. Teremos de nos livrar de nossas penas para que
no seu lugar cresçam pêlos. E os nossos rabos,
ridículos uropígios, estimulados pelos pêlos,
se alongarão para trás e se transformarão
em rabos de raposa. Quarto: as raposas têm focinhos
e nós temos bicos. Mas, o que é um focinho?
Focinho é uma coisa sem bico. Ora, bastará então
que extraiamos os nossos bicos para termos focinhos como as
raposas. Assim, pela educação, nos apropriaremos
dos saberes das raposas, espécie que por tantos milênios
nos tem dominado. Será, então, o advento da
liberdade!”
Mundico
se calou. Todos estava biquiabertos com a sua eloquência.
Todos o aplaudiram. E todos concordaram com o seu projeto
educacional. Galos e galinhas arrancaram umas às outras
as suas penas e, peladas, aguardavam o crescimento dos pelos.
Por meio de exercícios apropriados movimentavam seus
olhos para que eles aprendessem a olhar para a frente. Desbicaram-se,
lixando seus bicos em pedras ásperas. E andavam, como
Mundico dissera, aos pares, um na frente e outro agarrado
atrás...
Mas parece
que o curriculo de raposa não deu resultado. A raposa
continuou a comer ovos dos ninhos e chegou mesmo a devorar
um pintinho distraido. Começaram, então, a imaginar
que ela tivesse também devorado o Sesfredo, um galo
velho de pescoço pelado, vermelho, e que cantava com
sotaque caipira e que desaparecera.
Convocou-se
então uma outra assembléia para discutir providências
a serem tomadas, ante o fracasso do curriculo proposto por
Mundico. Toda a população do galinheiro compareceu.
E, para surpresa de todos, até mesmo o Sesfredo, que
tomou lugar num galho de uma árvore muito alta, onde
nenhum galo ou galinha jamais fora. “A gente pensava
que você tinha sido devorado pela raposa”, cantou
o Godofredo, forte galo índio. “Que nada”,
disse Sesfredo. “É que me internei no spa do
Urubuzão prá fazer uma reciclagem de vôo.
Urubu é ave como nós. Mas raposa não
come urubu. Raposa não come urubu porque urubu sabe
voar. Raposa come galos e galinhas porque desaprendemos o
uso de nossas asas....”
Nesse
momento uma angolinha que ficara de sentinela deu o alarme:
“ Aí vem a raposa, aí vem a raposa, aí
vem a raposa...” Foi o pânico, correria, cada
um correndo para um lado. Mas ninguém sabia voar. A
raposa, valendo-se da confusão, abocanhou uma galinha
garnizé, já depenada e desbicada...
Todo mundo
entrou em pânico. Menos o o Sesfredo. Lá de cima
ele abriu as asas e voou alto, muito alto, até parecia
um urubu... Assim é: ave que sabe voar não há
raposa que consiga pegar...
***
Esta fábula
me apareceu quando ouvi uma pessoa justificando os currículos
de nossas escolas dizendo que eles contém os saberes
das classes dominantes a serem aprendidos pelas classes dominadas.
Rubem
Alves, educador, contador de estórias. Acaba de lançar
dois CDs de estórias para crianças e adultos,
musicadas: “Quatro Estórias” e “
Rubem Alves conta Estórias”. Informações
e pedidos a www.rubemalves.com.br e www.ivanvilela.com .