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| Quarto de badulaques (XXXVIII) |
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Sociedades se constroem quando os homens concordam
sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os
homens concordam sobre coisas
pequenas. Faz tempo escrevi um artigo longo sobre
um tema que esqueci. O dito artigo provocou, num dos
meus leitores do sul de Minas, um carta. Escreveu-me não
para comentar o artigo – irrelevante – mas para
dizer que ficara comovido porque, num certo lugar, eu
falara sobre “ o cheiro bom do capim gordura”. A
partir dessa imagem a um tempo visual e nasal - pois
havia a visão do campo de capim gordura e o cheiro do
capim gordura - ele se pôs a descrever sua experiência
diária: passava, de manhãzinha, sol ainda não
nascido, por um campo coberto de capim gordura. “ O silêncio verde dos campos...” E havia a névoa misteriosa que
tudo envolvia. De vez em quando, o barulhinho de algum
regato que corria invisível, coberto pela vegetação..
E, saindo dele, como se fosse sua respiração, seu mais
profundo segredo, o perfume. Mistério. Mistério, essa
palavra misteriosa. Em inglês a palavra mistério se
escreve “mystery”. Pois um dia, por inspiração
imediata, passei a escrevê-la de uma forma diferente:
misteerie. “Mist” é neblina. E “eerie” quer
dizer assombroso, que provoca medo. Acho que minha
grafia, inspirada na poesia, é melhor que a grafia do
dicionário, derivada da etimologia. Essa é a minha
contribuição para a língua inglesa. É isso que se
sente de manhãzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos
de capim gordura. Não há igreja, templo ou santuário
que se lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que
os empresários da religião constroem para engaiolar o
sagrado, na maior parte das vezes provocam-me o
sentimento oposto, de horror estético. Deus deve ter
muito mau gosto... Pois é: quando li aquela carta
imediatamente me descobri amigo daquele homem distante.
Se não me equivoco o seu nome era Gerson, e vive em Poços
de Caldas. Sempre que vejo capim gordura me lembro dele.
De todo o palavrório que escrevi naquele artigo, o que
sobrou, o que valeu, foi uma imagem imobilizada num
momento eterno: o capim gordura, com o seu cheiro bom...
( Desgraça: os criadores de gado, para terem mais
lucro, acabaram com o capim gordura e o substituiram por
uma praga africana chamada braquiária, que é um câncer
nos pastos que nem a quimioterapia mais violenta pode
com ele... ). Como
aconteceu com o Pequeno Príncipe e a raposa. O Pequeno
Príncipe, contra vontade, cativara a raposa, a pedido
dela. Mas chegou a hora da despedida e a raposa disse:
“Vou chorar”. O Pequeno Príncipe retrucou: “ Não
é culpa minha. Eu não queria te cativar. Agora você
vai chorar. Qual foi a vantagem?” Respondeu a raposa:
“ A vantagem? Os campos de trigo. Eu sou uma raposa.
Como galinhas. O trigo me é indiferente. Mas você me
cativou. Seu cabelo é louro. Os campos de trigo são
dourados. Porque você me cativou sempre que o vento
balançar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei
de você. E sorrirei...” É isso que é um sacramento:
uma imagem carregada de emoções. O sacramentos são símbolos
que têm o poder de invocar ausências.
Poesia é isso: imagens carregadas de emoções...
Quem não tem poesia é pobre nas emoções. E,
necessariamente, pobre no amor. Escrevi uma crônica em
elogio à calvície. Eu nunca imaginei que uma calva
fosse um objeto poético. Nunca li poema algum sobre a
calvície... Só se fosse um poema cômico, de fazer
rir. Foi isso que aconteceu com a coleguinha da minha
neta que caiu na risada ao ver-me careca, numa foto?.
Pois o Artur da Távola me enviou um e-mail... Já
escrevi sobre ele várias vezes. Ele apresenta o
programa “Quem tem medo de música clássica?” na TV
Senado e não se cansa de repetir: “Música
é vida interior. E quem tem vida interior nunca está
sozinho.” Emociona-me
a seu amor pelas crianças. Está sempre pedindo aos
pais que chamem os seus filhos para ver e ouvir música
clássica. Uma amiga, separada, segredou a outra amiga
que nunca mais se casaria, a não ser que fosse com o
Artur da Távola... Ele me enviou um e-mail a propósito
da minha crônica e fez uma confissão que me comoveu.
Achei tão humana a sua confissão que lhe pedi licença
para transcrevê-la. “Quando eu era criança, anos 40, não estava em moda usar barba. Meu
pai, exceção, mantinha uma, a nazareno, como se
chamava então. Tímido que sempre fui, morria de
encabulamento. Uma tarde ele é que foi buscar-me no colégio.
A garotada riu daquele homem de barba e eu, assustado,
disse que era meu avô. Minha mãe, à noite achou a
desculpa criativa. Mas meu pai ficou triste por rirem
dele e por me haver causado o envergonhar-me. Até hoje
essa mentirinha me persegue. Ele morreu quanto eu tinha
onze anos e nunca pude excusar-me com ele. Aceite o abraço
de outro vasto careca e parabéns pela defesa.” Parece
que isso é algo universal. As crianças têm medo que
os outros riam dos seus pais e, consequentemente, riam
deles. Todas as crianças querem ter pais bonitos e
admirados. Lembro-me de que quando vivi nos Estados
Unidos o diretor da “Cathedral School”
onde meus filhos pequenos estudavam convidou-me a
falar para as crianças. Aceitei. Anunciou-se minha ida.
Aí notei que o Sérgio e o Marcos começaram a ter um
comportamento incomum, cheios de conversinhas pelos
cantos. Até que eu os encantoei e pedi explicações. Aí
eles me disseram, meio encabulados: “Please,
Daddy, don’t say anything which will embarrass
us...” que,
traduzido livremente em linguagem de hoje seria, “Papai, não nos faça pagar mico...” Quem suspeitaria
que o cheiro bom do capim gordura pudesse ser um
sacramento de amizade? Quem suspeitaria que uma careca
poderia ser um tema poético, início de uma amizade?
Gostava do Artur da Távola pela música. Gostava pelo
amor às crianças. Agora gosto mais, porque a careca
nos faz entrar em devaneios. Como disse, a amizade
cresce a partir de coisas pequenas. Quem suspeitaria que
das carecas pudesse surgir a amizade? Garanto, Artur,
que o seu pai ficou feliz por sua revelação afetuosa.
Não precisa mais sentir-se perseguido pela
mentirinha...
Estamos lendo e discutindo, nas sessões de poesia
às 3as. feiras, o livro Livro sem fim, que
escrevi Chama-se livro sem fim porque não consegui
terminá-lo. Fiquei cansado no meio do caminho. Parei e
disse aos meus leitores: “Lamento
muito mas fico por aqui. Não vou subir até o alto do
pico. Deixei lá na planície um jardim que precisa dos
meus cuidados. Mas vou lhes indicar as trilhas que eu
havia planejado seguir.
Dou-lhes a rota que iria seguir. Sigam por conta
própria, se o desejarem.” E
publiquei um livro que não terminei, sem fim. Não me
apoquento porque Schubert não conseguiu terminar uma de
suas sinfonias e Bach não chegou ao fim da “Arte de
Fuga”. Pois é, estamos começando a escalada e estávamos
numa parte que fala de aforismos.
Nietzsche tinha paixão por eles:” Quem
quer que escreva com sangue e aforismos não deseja ser
lido mas ser sabido de cor. Nas montanhas o caminho mais
curto é de pico a pico: mas, para isso, é preciso ter
pernas longas. Aforismos deveriam ser picos – e
aqueles a quem são dirigidos também deveriam ser altos
e elevados. O ar é puro, o perigo está próximo e o
espírito está cheio de um sarcasmo jovial: esses dois
vão bem, juntos...” Aforismos são relâmpagos:
caem do céu com um estampido e racham pedras. Suas
origens são irrelevantes. Dispensam razões. Se riem
dos que tentam explicá-los. Valem por eles mesmos, como
se fosse estrelas. “Um
bom aforismo não é consumido pelos milênios, muito
embora ele seja alimento a cada momento: esse é o
grande paradoxo da literatura, o permanente no meio das
mudanças, a comida que permanece sempre gostosa, como
sal, ela não perde o sabor... “ Aí, para
ilustrar , pus-me a ler alguns das centenas de aforismos
que Oscar Wilde escreveu. Esse, em especial, de aparência
inocente, produziu uma infinidade de faíscas. “É
triste mas é verdade: perdemos a capacidade de dar
nomes suaves às coisas. Os nomes são tudo. Eu nunca me
queixo das coisas. Queixo-me das palavras. É por este
motivo que odeio o vulgar naturalismo na literatura. O
homem que chama a enxada de enxada deveria ser forçado
a usá-la. É
a única coisa que ele sabe fazer.” Lido o
aforismo há um momento de silêncio. É preciso pensar,
observar o que o aforismo faz conosco, que associações
ele provoca. Aí
o pensamento da Lenir deu um pulo. Lembrou-se de algo
que o Guido lhe dissera, rindo: “O
fim de uma possível noite de amor acontece quanto a
mulher diz ao namorado: Dá licença, benzinho, preciso
mijar...” Ah! Palavra terrível essa! Destruidora
de romances! Tudo teria sido diferente se ela tivesse
dito: “Benzinho,
licença, preciso fazer um xixizinho...”
Xixizinho, que bonitinho, poético, as menininhas fazem
xixizinho, a
fantasia da mulher amada fazendo xixizinho, tão íntimo,
tão excitante...” Mas alto lá! O dicionário diz que fazer
xixi, mijar e urinar
são sinônimos. Se são sinônimos referem-se à
mesma coisa. São nada. As coisas são os nomes que
pomos nelas. Por isso que Oscar Wilde disse que não se
queixava das coisas. Queixava-se dos nomes. É preciso
dar nomes suaves às coisas para que elas, as coisas,
fiquem suaves. Urinar não é um nome suave para a dita
coisa. Urinar era aquilo que se fazia no penico, com
todos os seus ruidos metálico-espumantes. Lembro-me, em
Minas, eu tinha uns 7 anos. Estavam hospedados em nossa
casa o Sigismundo e a Leonina. Haviam vindo da roça
para consultas médicas. Fazia parte das gentilezas da
hospitalidade que os hóspedes fossem providos de
penicos. Pois estou vendo a cena: a Leonina, saindo do
quarto pela manhã portando, um penico cheio do líquido
amarelo, e explicando a todos: “ O
Sigismundo urinou muito de noite...” Urinar é
também aquilo que se faz no laboratório de análises.
“Despreze o
primeiro jato da urina”, diz
a enfermeira. A palavra mijar, por sua vez, é moradora
dos mictórios ou, como dizem os portugueses, dos
urinois. Xixi, como a palavra está onomatopaicamente
indicando, é parente dos sons musicais dos violinos.
Quem faz xixi está tocando violino. Aprendam então a
usar a palavra certa. Sinônimos não dão certo. Muitas
promissoras relações amorosas acabam por causa de um
nome aparentemente inocente. Cuidado com os nomes!
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assinatura@almanaquebrasil.com.br Dei o nome de amizade à ilustração dessa crônica – Calendário da Unicef 1997
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