Quarto de badulaques (XXXVI) 

          SEBASTIÃO GAMA, poeta português,  ( 1924-1952) “ Por que não me deixaram sempre agreste e criança? As minhas leituras seriam todas fora dos livros. Havia de olhar para tudo com uma alegria tão grande, com uma virgindade tão grande que até Deus sorriria, contente de ter feito o Mundo...”

           EXAME DE APTIDÃO: Para o estudo de certas profissões exige-se que o candidato passe por um exame de aptidão. É o caso da música. Não basta desejar ser músico. É preciso ter as qualificações necessárias para a profissão de músico. Eu acho que o mesmo deveria ser obrigatório para aqueles que querem ser professores. Um teste de aptidão para os candidatos ao magistério seria assim:  o candidato seria solto num pátio onde se encontram muitas crianças. Se ele se enturmasse com elas,  desse risadas  e participasse das brincadeiras e atividades  seria aceito. Caso contrário deveria procurar outra profissão, ainda que tivesse tirado dez em todas as provas teóricas.

            OS VESTIBULARES SE APROXIMAM!  Teste os seus conhecimentos! Avalie suas chances! Responda essas  questões: 1. Calcule o logaritmo neperiano da enésima potência da própria base. 2. O fenômeno da trissomia é provocado pela: (a) simples deleção dos cromossomos; (b) não–disjunção das cromátides; (c ) não reversão que ocorre na diacinese; (d) translocação do cromossoma na mitose. 3. Nos peixes cartilaginosos encontramos a tiflósolis, dobra intestinal também encontrada em: (a) poríferos; (b) platelmintes; (c) asquelmintes; (d) anelídeos; (e) moluscos. 4. Vertebrados anamniotas, tetrápodes, poiquilotermos, de respiração branquial durante a vida larvária e pulmonar, na fase adulta são:  (a) répteis; (b) mamíferos; (c) anfíbios; (d) aves; (e) peixes. 5. Quais os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas? Se você conseguiu dar respostas corretas a essas questões, cuide-se. Há alguma coisa profundamente errada com a sua cabeça.  Falta sabedoria à sua memória. Ela não sabe distinguir entre o digno de ser aprendido e o  indigno de ser aprendido. Acho melhor procurar um psiquiatra.

           OUTDOORS: Faculdades e universidades espalharam pela cidade outdoors anunciando os vestibulares. Fiquei realmente encantado com a imaginação de quem bolou os ditos outdoors. Porque em todos eles os pais, os filhos e os professores estão rindo de felicidade. Eu nunca vi ninguém, na vida real,  sorrir ao falar no vestibular, exceto os sádicos e os masoquistas. Marque com um “x” a opção correta: (   ) Quem bolou os outdoors do vestibular pensa que vestibular é um cruzeiro marítimo em transatlântico de luxo;  (   ) Quem bolou os outdoors do vestibular está querendo fazer de bobos os jovens e os seus pais.

           O PATO SELVAGEM: “ Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá de cima se via muito longe, campos verdes, lagos azuis, montanhas misteriosas e os pores-de-sol eram maravilhosos. Mas voar nas alturas era cansativo. Ao final do dia os patos estavam exaustos.  Aconteceu que um dos patos, quando voava nas alturas, olhou para baixo e viu um pequenos sítio, casinha com chaminé, vacas, cavalos, galinhas... e um bando de patos deitados debaixo de um árvore. Como pareciam felizes! Não precisavam trabalhar. Havia milho em abundância. O pato selvagem, cansado, teve inveja deles. Disse adeus aos companheiros, baixou seu vôo e juntou-se aos patos domésticos. Ah! Como era boa a vida, sem precisar fazer força. Ele gostou, fez amizades. O tempo passou. Primavera, verão, outono, inverno... Chegou de novo o tempo da migração dos patos selvagens. E eles passavam grasnando, nas alturas... De repente o pato que fora selvagem começou a sentir uma dor no seu coração, uma saudade daquele mundo selvagem e belo, as coisas que ele via e não via mais: os campos, os lagos, as montanhas, os pores-de-sol. Aqui em baixo a vida era fácil mas os horizontes eram tão curtos! Só se via perto. E a dor foi crescendo no seu peito até que não aguentou mais. Resolveu voltar a juntar-se aos patos selvagens. Abriu suas asas, bateu-as com força, como nos velhos tempos. Ele queria voar! Mas caiu e quase quebrou o pescoço. Estava pesado demais para o vôo. Havia engordado com a boa vida... E assim passou o resto de sua vida, gordo e pesado, olhando para os céus, com nostalgia das alturas...”

            Reforma Protestante: Eu sou de tradição protestante muito embora, para permanecer protestante, eu tenha me desligado das igrejas protestantes. É preciso esclarecer que a tradição protestante nada tem a ver, absolutamente nada, com esses movimentos religiosos que se denominam “evangélicos”. A tradição protestante não promete milagres, cultiva a razão, estimula a ciência, é profundamente ética, e a ela estão ligados nomes como Leibniz, Kant, Hegel, Kiekegaard, Albert Schweitzer, Martin Luther King Jr., Dag Hamarkjoeld,  Dietrich Bonhoeffer, Mondelaine. Em que consiste essa tradição? A Reforma, contrariamente ao nome,  não foi um movimento que visava “reformar” a Igreja Católica do século XVI: não se coloca remendo de pano novo em tecido podre. Não é um conjunto de doutrinas teológicas diferentes como justificação pela graça e sacerdócio universal das pessoas.  Não é uma nova organização da igreja. Quem só sabe essas coisas não viu o que é essencial. Para dizer o que foi o espirito da Reforma vou me valer de uma peça musical, a 2a  sinfonia de Gustav Mahler (1860 – 1911 ), chamada “Sinfonia da Ressurreição”.. Eis como ele mesmo descreve o último movimento da sinfonia: Chegou o dia do julgamento final. O terror cobre a terra. A terra estremece, as sepulturas se abrem, os mortos ressuscitam,  poderosos e  humildes,  reis e  mendigos,  justos e  injustos. Um grito terrível enche o universo com um pedido de perdão que enche o espaço. Ouvem-se as trombetas apocalípticas. É hora do ajuste de contas, débitos e créditos, céu e inferno, inferno tão bem pintado nas tela horrendas de Hieronimus Bosch. Então, em meio a um silêncio sinistro, ouve-se o canto de um rouxinol distante. Uma grande tranquilidade invade tudo. E eis, surpresa!  Não há julgamento, não há débitos e créditos, não há justos e pecadores, não há poderosos e humildes, não há vinganças e recompensas, não há condenações! Um sentimento de amor perfuma o mundo.” A Reforma foi o canto de um rouxinol nesse horror de culpa e medo. Não há julgamento. Deus é todo bondade.

            PARA CHEGAR AO PODIUM DO SUCESSO!  Entregaram-me num semáforo, um folheto colorido onde se dizia que um palestrista iria dar uma conferência sobre a forma de se chegar ao podium do sucesso, como os campeões das Olimpíadas. Ah! Quem não deseja isso? Todos nos olhando com admiração! “ O poder da solução”. “ Estratégia das vitórias”. Essas são as frases que escritas para seduzir as pessoas a comparecer à dita conferência. E, no alto do folheto, no canto esquerdo, havia a seguinte informação, em destaque: “Retorno médio sobre investimento: 543%”. Que investimento? O custo do curso? Quer dizer que, se eu pagar R$100,00 é provável que eu receba R$543,00? Como é que esse número foi obtido? Que pesquisa foi feita? E para selar tudo, o rosto sorridente de dentes brancos do famoso conferencista.  Acho propagandas desse tipo absolutamente desonestas. Se houvesse receitas para a sucesso... Mas o que é sucesso? Já se escreveu que O Sucesso é ser feliz. Pode-se medir a felicidade com índices percentuais? E aqui o sucesso prometido nada tem a ver com felicidade mas com subir ao podium... Se houvesse receitas para o sucesso bastaria segui-las... Mas não há. E ninguém sabe direito o que é sucesso.

            MEMÓRIA: Um dia eu estava andando de carro com meu amigo Carlos Rodrigues Brandão, em Pocinhos, por uma estrada de terra. Aí ele começou uma conversa mole sobre a memória. Disse-me: “ Rubem, estou agora seguindo a seguinte filosofia: eu não possuo aquilo de que me esqueci. O que é que você acha disso?” Pensei: Eu me esqueci da coisa que possuo. Se me esqueci dela é como se ela não existisse para mim. Não vou usá-la e nem sentirei a sua falta. E conclui: “ Está certo: eu não possuo aquilo de que me esqueci”. Aí a fala mole do Brandão ficou rápida e concluiu: “ Você se esqueceu de que eu lhe devo R$200,00. Portanto, você não os possui mais. Vou dá-los para a Soninha comprar tijolos...” Soninha era uma amiga comum que estava lutando para construir sua casa. E assim ele o fez. E eu não pude reclamar porque havia acabado de concordar em que eu não possuo aquilo de que me esqueci...Eu havia me esquecido da que o Brandão me devia R$200,00.

O ÚLTIMO JULGAMENTO: A ilustração dessa crônica é um detalhe da tela de Hieronimus Bosh (1453-1516) “O último julgamento”. Ela exprime, no seu surrealismo,  o horror e o medo que dominava o imaginário religioso.