Quarto de badulaques (XXXV) 

           Um amigo é uma pessoa com quem se tem prazer em compartilhar idéias de forma tranqüila e mansa. Não é preciso estar de acordo. O rosto do meu amigo não é igual ao meu rosto. E essa diferença me dá alegria. Se convivemos bem com nossos rostos diferentes, porque haveríamos de querer que nossas idéias fossem iguais? Experimentar a diferença de idéias mansamente é uma das evidências da amizade. Assim, se você deseja saber se uma pessoa é sua amiga, pergunte-se: Temos prazer e gastamos tempo compartilhando idéias? Acho que os casais – namorados ou casados de papel passado – deveriam se propor esse teste. Não existe amor que sobreviva só de sentimentos, sem a conversa mansa.

           Uma das alegrias da literatura está em que ela cria a possibilidade de estabelecer conversas mansas com pessoas ausentes e mesmo mortas. Muitos dos meus melhores amigos, pessoas com quem converso longamente, estão mortos há muito tempo. É o caso de Albert Camus. Ler Camus é um exercício de felicidade. Poderíamos até formar uma dupla... Seus pensamentos mais pessoais não se encontram em seus livros com princípio meio e fim. Encontram-se nos seus diários, onde registrava os pensamentos que lhe ocorriam sem imaginar que um dia seriam transformados em livros. Muitas das suas experiências batem com as minhas. Num certo lugar ele escreve notas para um romance: “Infância pobre. Eu tinha vergonha da minha pobreza e da minha família. Só conheci essa vergonha quando me puseram no liceu. Antes, toda a gente era como eu e a pobreza parecia-me o próprio ar desse mundo. No liceu foi-me dado comparar. “ Num outro lugar ele comenta: “Que pode um homem desejar de melhor do que a pobreza? Não disse miséria nem o trabalho sem esperança do proletário moderno. Mas não vejo o que pode desejar-se a mais do que a pobreza ligada a um ócio ativo.” Foi exatamente essa a minha experiência. Minha infância foi vivida na pobreza. A princípio, grande pobreza. Depois, pobreza simplesmente. Desses anos não tenho uma única memória infeliz. Tive dores, como toda criança tem: dor de dente, dor de tombo, dor de barriga, dor de queimadura. Mas não tive experiência de infelicidade. Minha infelicidade começou quanto a vida melhorou e nos mudamos de uma cidade do interior de Minas para o Rio de Janeiro. Meu pai me matriculou num colégio de cariocas ricos que falavam no “xis”, como a Malu Mader. E eu, menino de roça, falava no “erre”, o mesmo “erre” de Piracicaba e Tatuir... Foi então que, como Camus, senti vergonha da minha pobreza e da minha família: eu era diferente, não pertencia ao mundo elegante dos meus colegas.. Num outro lugar do seu Diário Camus registrou: “Atenção: Kierkegaard, a origem dos nossos males está na comparação.” Kierkegaard foi um solitário filósofo dinamarquês. Os desbravadores são sempre solitários. Vêem coisas que os outros não vêem. Como foi o caso de Nietzsche. Kierkegaard foi meu primeiro amigo filósofo. Com ele tive longas e mansas conversas.  Sua filosofia é construida em meio a uma teia de sutis percepções psicológicas. O sofrimento da pobreza, quando não é miséria, se encontra na comparação. A miséria é diferente da pobreza. A pobreza está muito próxima da simplicidade. Simplicidade tem a ver com as coisas que são essenciais. Por isso Jesus dizia que os pobres são bemaventurados. Simplicidade é caminhar com uma mochila leve. A riqueza, ao contrário, é caminhar arrastando muitas malas pesadas, sem alças... A pobreza simples é uma pobreza feliz. Feliz porque leve. É a comparação, origem da inveja, que a torna infeliz. Camus e eu experimentamos a infelicidade da comparação na escola. Mas hoje não é preciso ir à escola para sentir a sua maldição. Basta ligar a televisão. A televisão é uma máquina de infelicidade na medida em que ela nos obriga a comparar. Os pobres, nos lugares mais distantes, ligam as as novelas, e sentem a sua desgraça. A comparação é um exercício dos olhos: vejo-me; estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos do outro. Ele tem mais do que eu. Ele é mais do que eu. Vendo-me nos olhos dos outros eu me sinto humilhado. Tenho menos. Sou menos. Para me livrar da dor da comparação eu fujo dos seus olhos. Retiro-me do seu espaço. Como no mito da Queda. O homem e a mulher sentiram vergonha e coseram para si mesmos tangas. Para que o outro não visse.  O sofrimento das pessoas que são portadoras de diferenças, quaisquer que sejam, é idêntico. Foi a minha inclusão numa comunidade religiosa, com todos os seus absurdos, que me salvou. A experiência de sentir-se aceito por uma comunidade tem o poder de dissolver todos os absurdos. Outro período de sofrimento semelhante foram os anos em que fui professor do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas, na UNICAMP. Por razões semelhantes. Sobre isso escreverei numa outra ocasião.

           Outro dos meus amigos mortos é Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer foi um teólogo protestante  que, por ter participado num complô para assassinar Hitler, foi preso num campo de concentração e enforcado. As cartas que ele escreveu da prisão são um monumento de simplicidade e clarividência teológicas. Numa delas, datada de dezembro de 1943, ele diz o seguinte: “Estou certo de que devemos amar a Deus nas nossas vidas e nas bênção que ele nos envia. Falando francamente, ansiar pelo transcendente quando se está nos braços da pessoa amada é, para colocá-lo de forma delicada, uma falta de gosto e isso não é, certamente, aquilo que Deus espera de nós. Devemos encontrar Deus e amá-lo nas bênçãos que ele nos envia. Se ele tem prazer em nos dar uma maravilhosa felicidade terrena não devemos ser mais religiosos que o próprio Deus.”  Isso é tão óbvio! Quando dou um presente para uma de minhas netas o que desejo é ver o seu rosto de felicidade ao ver o presente. Ficarei frustrado se ela, ignorando o presente, ficar me olhando e dizendo: Como você é bom, como você é bom. Eu não quero que ela diga que eu sou bom. Quero mesmo é que ela brinque com o presente. A propósito da falta de gosto em se ansiar pelo transcendente quando se está nos braços da pessoa amada, lembrei-me de que num desses cursos religiosos de prepara para o casamento aconselhava-se os noivos a sempre rezar um “padre nosso” antes de transar. As pessoas que falam sobre Deus o tempo todo são como as crianças que não brincam com o brinquedo e ficam bajulando o avô...

           As igrejas cristãs são responsáveis por haverem estragado um dos mais deliciosos brinquedos que Deus nos deu; o sexo. Primeiro ela estragou o brinquedo afirmando que o sexo era um artifício do demônio para a perdição das nossas almas. O que explica o voto de castidade imposto aos religiosos. Quem é religioso, quem ama a Deus, não brinca com brinquedos do demônio.  Quem primeiro expressou essa teoria de forma sistemática foi Santo Agostinho. Foi através do prazer sexual que o pecado entrou no mundo. O desejo sexual, segundo ele, era uma das evidências da desordem que o pecado provocou no corpo. Explicando as razões por que o homem fez para si mesmo uma tanga de folhas para cobrir a sua nudez ele diz que foi por vergonha, para esconder um membro que se movimentava por vontade própria, contrariando os imperativos da razão. Sexo certo é sexo sem prazer, mas por dever. Para a reprodução. Para completar a população dos céus e dos infernos. Os órgão sexuais, em especial o órgão masculino, deveriam se comportar como o dedo que só se movimenta quando a razão manda, sem a interferência do desejo carnal e do prazer. Havendo fracassado essa tentativa de estragar os prazeres do brinquedo sexo, as igrejas inventaram um outro artifício: divinizaram-no. Sendo coisa divina, o sexo deixa de ser brinquedo para ser coisa séria. Transar, tudo bem. Desde que se cantem litanias enquanto se transa.

           Faz anos o TV Globo anunciou uma coisa extraordinária, através do rosto piedoso e a voz paternal do Cid Moreira: os moralistas da cúria romana haviam descoberto uma forma de tornar a inseminação artificial eticamente correta! Entenda-se, é claro, inseminação com o semen do marido. Anteriormente até com o semen do marido ela era considerada pecado. Porque o semen só podia ser obtido de forma imoral. A primeira das imoralidade é  masturbação. Que é pecado, por frustrar a natureza. A segunda das imoralidade é a relação sexual com camisinha – que frustra a natureza da mesma forma: os espermatozoides estão impedidos, fisicamente, de entrar no útero. Mas aí os ortodoxos teólogos moralistas pensaram: “Se se fizer um pequeno furo na camisinha a natureza não estará sendo frustrada porque existe sempre a possibilidade de que um espermatozoide passe pelo buraquinho... Assim, se o semen for colhido com uma camisinha furada a inseminação artificial pode ser realizada sem pecado... Aí eu fiquei imaginando um departamento, nos céus, encarregado de classificar as camisinhas. Camisinhas sem furo são pecado. Levam ao inferno. Camisinhas com furo revelam uma alma piedosa, obediente à sabedoria moral da igreja... Meu Deus: Eu gostaria de ter o humor do Macaco Simão para falar sobre essas coisas! Como é que Deus aguenta?

Não conheço nenhum santo feliz. Estão todos com uma cara de sofrimento, feridas, espadas, espinhos, punhais. Quero um santo que seja uma pessoa normal, exuberante, brincante, feliz nesse mundo onde Deus plantou o Paraíso! Deus sonhou com um lugar maravilhoso, de delícias e beleza, e o plantou. Tão bonito que ele deixou os céus ( lá não havia nem árvores, nem riachos, nem pássaros. Se houvesse ele não teria criado o Paraíso...) e ficou andando pelo jardim. Pelo menos é isso que dizem os textos sagrados.  Para mim um santo seria uma pessoa que planta jardins e vive neles. Mas os olhos dos  santos canonizados não sorriem para os jardins. Para eles esse mundo é um vale de lágrimas onde perambulam os degregados filhos de Eva, como diz uma reza do rosário. Por isso olham languidamente para os céus. Deus olha para baixo e sorri. Eles olham para cima, chorando. São mais espirituais do que Deus...