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| Quarto de badulaques (XXXIX) |
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Delicadeza:
Eu estava nos Estados Unidos com a família, como
Professor Visitante do Union Theological Seminary, New
York. Era novembro. Um telefonema do Brasil nos deu a
triste notícia: meu sogro havia morrido num acidente
automobilístico. A notícia correu, mas estávamos
mergulhados na dor e na solidão, no pequeno apartamento
onde vivíamos. Nada podíamos fazer. Aí, por alguma
razão, abrimos a porta de entrada. No chão se
encontrava um buquê de flores. Devia ter estado lá por
bastante tempo. A
pessoa que o trouxera não apertara o botão da
campainha. Simplesmente deixara o buquê ali,
silenciosamente e se fora. O envelope tinha o nome da
minha esposa. No cartão havia uma única frase, curtíssima:
“ Não quis perturbar a sua dor.” Já faz
32 anos. Mas não me esqueci e não me esquecerei
dessa frase. Mas delicada e sensível é impossível.
E pediram ao profeta: Fale-nos
sobre a Morte. E ele disse: “A
coruja, cujos olhos noturnos são cegos durante o dia, não
pode revelar o mistério da luz. Se quereis realmente
contemplar o espírito da morte, abri bem o vosso coração
para a vida. Pois a vida e a morte são um, assim como o
rio e o mar são um. Nas profundezas das vossas esperanças
e desejos está vosso conhecimento silencioso do além.
E como sementes sonhando embaixo da neve, vosso coração
sonha com a primavera. Confiai em vossos sonhos, pois
neles estão escondidas as portas para a eternidade.
Pois o que é o morrer além de estar nu ao vento e
derreter-se ao sol? E o que é cessar de respirar, senão
livrar a respiração de suas incansáveis marés, que
se elevam e expandem e buscam a Deus sem obstáculos? Só
cantareis de verdade quando beberdes do rio do silêncio.
E quando chegardes ao topo da montanha, só então começareis
a subir. E quando a terra pedir os vossos membros, só
então dançareis.” ( Khalil Gibran, O Profeta
).
Oração
pelos que vão morrer: “Ó
tu, Senhor da eternidade, nós que estamos condenados a
morrer elevamos nossas almas a ti à procura de forças,
porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e
nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso
caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão
e nos levar... não sabemos para onde. Nós te louvamos
porque para nós ela não é mais uma inimiga, e sim um
grande anjo teu, o único a poder abrir, para alguns de
nós, a prisão de dor e do sofrimento e nos levar para
os espaços imensos de uma nova vida. Mas nós somos
como crianças, com medo do escuro e do desconhecido, e
tememos deixar esta vida que é tão boa, e os nossos
amados, que nos são tão queridos. Dá-nos um coração
valente para que possamos caminhar por essa estrada com
a cabeça levantada e um sorriso no rosto. Que possamos
trabalhar alegremente até o fim, e amar os nossos
queridos com ternura ainda maior, porque os dias do amor
são curtos. Sobre
ti lançamos a carga mais pesada que paralisa nossa
alma: o medo que temos de deixar aqueles que amamos, os
quais teremos de deixar desabrigados num mundo egoista.
Nós te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da
vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por
tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmãos,
pela sabedoria que ganhamos e será sempre nossa. Se nos
sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a
tua companhia. Quando todas as vozes do amor
ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda
estarão conosco. Tu és o Pai dos nossos espíritos. De
ti viemos e para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas
horas das nossas visões mais puras, quando o pulsar da
tua eternidade é sentido forte dentro de nós, sabemos
que nenhuma agonia da mortalidade poderá atingir nossa
alma inconquistável e, para aqueles que em ti habitam,
a morte é apenas a passagem para a vida eterna. Nas
tuas mãos entregamos o nosso espírito"” (
Walter Rauschenbusch, Orações por um mundo melhor,
PAULUS )
O
que falar diante da Morte? As Sagradas Escrituras
sugerem que o silêncio é a palavra mais significativa
que se pode falar diante da morte. Porque no silêncio não
dizemos nada. O silêncio é como uma taça vazia que,
por ser vazia, permite que a pessoa que está sofrendo
recolha nela todas as suas lágrimas, que nós não
conhecemos.
Tristeza
e comunhão: Os que bebem juntos da mesma
fonte de tristeza descobrem,
surpresos, que a tristeza partilhada se transmuta
em comunhão.
Quem
leu O Pequeno Príncipe entenderá: “Naquela
noite não o vi partir. Saiu sem fazer barulho. Quando
consegui alcançá-lo ele caminhava decidido, num passo
rápido. Disse-me apenas: ‘Ah! aí estás...’ E
segurou a minha mão. Mas preocupou-se de novo:
‘Fizeste mal. Tu sofrerás. Eu parecerei estar morto e
isso não será verdade...’ Eu me calara. ‘Tu
compreendes. É muito longe. Eu não posso carregar este
corpo. É muito pesado.’ E continuava calado. ‘Mas
será como uma velha concha abandonada. Não tem nada de
triste numa velha concha... Será lindo, sabes? Eu também
olharei as estrelas. Todas as estrelas serão como poços
com um roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão
de beber...As pessoas vêem as estrelas de maneira
diferente. Para aqueles que viajam as estrelas são
guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes.
Para os sábios, elas são problemas... Mas todas essas
estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como
ninguém nunca as teve... Quando olhares o céu de
noite, eu estarei habitando uma delas, e de lá estarei
rindo ; então será, para ti, como se todas as estrelas
rissem! Dessa forma, tu, somente tu, terás estrelas que
sabem rir!”
Médicos
de antigamente: O quadro que ilustra essa crônica
tem o nome de “O Médico” e o artista foi Sir Samuel
Luke Fildes (1844-1927). Encontra-se na Tate Gallery, em
Londres. Assim eram os médicos de antigamente. Eles
visitavam os seus pacientes e se, por acaso, morriam,
sua presença amiga era certa no sepultamento. Porque o
médico era, a um tempo, um cientista, um xamã e um
amigo. Mas os tempos são outros. Quem tem tempo para
ficar contemplando, inutilmente, uma menina enferma ou
um ancião moribundo? Felizmente ainda há médicos que
poderiam estar dentro da cena do quadro.
Quebra-cabeças:
Pensei que a vida se parece com um quebra-cabeças. Quebra-cabeças: milhares de peças
espalhadas sobre a mesa, uma bagunça enorme, que não
faz sentido. Mas as caixas dos quebra-cabeças que se
compram nas lojas dizem que a bagunça pode se
transformar em beleza: elas trazem impresso o modelo,
que pode ser um lago, um castelo, um menina lendo um
livro, um jardim, um anjo tocando bandolim... Gastamos
então horas e horas ( eu já gastei meses...)
pacientemente trabalhando para transformar o caos em
sentido. Pois eu pensei que a vida é um quebra-cabeças
com milhares, milhões de peças. Mas acontece que o
quebra-cabeças da vida não vem acompanhado de um
modelo. Não sabemos o seu sentido. Não sabemos como é
a sua beleza. O modelo precisa ser inventado. E é
somente o coração, ajudado pela inteligência, que
pode fazer isto. Os dois se põem, então, a trabalhar.
Observam as peças, conferem as cores, examinam as
formas e, repentinamente, aparece um modelo, produzido
pela magia da imaginação. O modelo não foi visto,
porque ele não está em lugar algum. Ele é um sonho!
Mas, se é que não sabem, que aprendam: a vida é feita
com sonhos! Se o sonho nos parecer belo, começaremos a
organizar as peças fragmentárias da nossa vida para
que o sonho se torne realidade porque desejamos que a
vida seja bela. Certezas não há. Mas se o sonho nos
seduzir por sua beleza, teremos coragem para apostar
nele a nossa vida inteira. Apostar a nossa vida num
sonho, sem certeza alguma, é isso que se chama fé. A
essa beleza invisível, sonhada que nos seduz e chama,
eu dou o nome de Deus... Como disse Fernando Pessoa: “
Deus quer. O homem sonha. A obra nasce.” ·
Folhas
de outono: Achei bonito o que fez uma conhecida, nos Estados Unidos.
Mandou fazer, para o seu marido morto, a urna mortuária
mais simples e rústica,
de pinho. E a mandou cobrir com um lençol branco
onde fez costurar centenas de folhas de outono, aquelas
folhas vermelhas e amarelas... · Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo protestante enforcado por ordens diretas de Hitler. Seus escritos teológicos mais comoventes e perturbadores foram aqueles que escreveu do campo de concentração, sob a forma de cartas. Numa de suas cartas ele conta que o prisioneiro que antes dele ocupara a sua cela (que ele não chegou a conhecer) escrevera na parede: “ Daqui a cem anos tudo isso terá passado.” Bonhoeffer sugeriu uma estranha idéia, a de que Deus é fraco...Foi a maneira que ele encontrou de continuar a amar a Deus. Pois se Deus é forte como diz a teologia ortodoxa, e permite que milhões de pessoas inocentes sejam mortas em câmaras de gás e nos campos debatalha, como perdoá-lo? Mas se Deus é fraco, então poderemos dizer: “Que pena! Se fosses forte isso não teria acontecido...” Aí torna-se possível não só continuar a amar a Deus como também emprestar-lhe o pouco poder de que dispomos. O apóstolo Paulo, na epístola aos Romanos, diz que o universo é como uma mulher grávida, em dores de parto. Não será possível imaginar que Deus ainda não nasceu, que ele ( ou ela ) está nascendo?
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