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| Quarto de badulaques (XXXIV) |
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DEUS NOS DEU ASAS.
As religiões inventaram as gaiolas. Nossas asas
são a imaginação. Pela imaginação voamos longe,
muito longe, pela terra do nunca mais, pela terra do
impossível, pela terra do impensado. Não entenderam?
Leiam Cem anos de solidão do Gabriel Garcia
Márquez que vocês entenderão. Eu até que entendo a
razão porque se fazem gaiolas e cercas. Vejam o caso
das galinhas. Se não vivessem em cercados, como colher
os seus ovos? Se os pássaros não estivessem nas
gaiolas, como possuir o seu canto? Cercas e gaiolas são
construidas para se possuir aquilo que, de outra forma
voaria livre, para longe... Faz tempo escrevi uma
estória para a minha filha, A menina e o pássaro encantado.
É sobre uma menina que tinha como seu melhor amigo um
pássaro. Mas o pássaro voava livre. Vinha quando tinha
saudades da menina. E depois ia embora e deixava a
menina a chorar.. Aí a menina comprou uma gaiola...
Essa estória eu a escrevi porque iria ficar muito tempo
longe, nos Estados Unidos, e ela, minha filha de 4 anos,
não queria que eu fosse. Fui e voltei. Depois de
publicada fui informado de que a estória estava sendo
usada por terapeutas como material para tratamento
homens que queriam engaiolar as mulheres e mulheres que
queriam engaiolar os
homens. Aí um amigo me disse. “Que linda estória
você escreveu sobre Deus...” Fiquei sem entender. Ele
perguntou então: “ Mas o Pássaro Encantado não é
Deus que as religiões tentam prender numa gaiola?”
Cada religião anuncia que o Pássaro Sagrado está na
sua gaiola, só na sua gaiola. Os outras pássaros, nas
gaiolas das outras religiões, não são o verdadeira
Pássaro Encantado... ·
CANTO OU OVOS?
Há pessoas que amam o Pássaro Encantado por
causa do seu canto. Outros, por causa dos seus ovos. Com
ovos se fazem deliciosas omeletas. Jesus disse a mesma
coisa de outra forma. Há os que amam a Deus por causa
dos seus poemas. Deus é poeta. No princípio era o
Verbo. Outros amam a Deus por causa dos pães. Deus é
um bom padeiro. Dito por Dostoievski: O povo não quer
Deus. O povo quer o milagre. ·
FOGUEIRA: Um amiga me advertiu de que, se eu
continuar a falar sobre os absurdos da religião eu vou
acabar como Huss, Savonarola, Giordano Bruno, Servetus:
amaldiçoado como herege e transformado em churrasco nas
fogueiras sempre acesas da eterna inquisição. Porque a
inquisição, caso não o saibam, não foi um acidente
histórico enterrado no passado. A inquisição é uma
eterna tentação que seduz o espírito humano. Mas
herege eu não sou. Pelo contrário. Sou místico,
vejo milagres nas mais absurdas insignificâncias
do cotidiano. O canto de um pássaro não é um milagre?
Uma teia de aranha não é um milagre?
Uma concha de caramujo não é um milagre? O
assombro mora no visível. Claro que há pessoas cegas
que não vêem o assombroso que está diante dos seus
narizes, e ficam em busca de acontecimentos
sobrenaturais. Pois, para mim, é o natural que é
sobrenatural. O sagrado é a tela sobre a qual a vida é
tecida. ·
PROMESSAS: É
bom dar presentes para pessoas amadas. Para uma pessoa
amada a gente pensa muito antes de comprar o presente.
Porque o que se deseja é que o presente lhe dê
felicidade. Quando eu dou um presente com esse presente
estou dizendo: “Acho que você vai se alegrar...”
Uma flor, um
CD, um brinquedo, um livro... Quando se fazem promessas
a Deus, para assim seduzi-lo a fazer o que queremos,
usamos do mesmo artifício. Assim: “Se tu me deres o
que peço eu te darei aquilo de que gostas...” O que
você prometer a Deus revela o que você acha do
caráter dele. Sendo assim, por favor, me expliquem, eu
só quero entender: Por que é que não fazemos
promessas do tipo: Vou ler poesia meia hora por dia? Vou
ouvir música ao acordar? Vou brincar uma hora com o meu
filho? As promessas que se fazem a Deus são sempre
promessas de sofrimento: fazer
caminhadas de joelhos, passar seis meses sem
beber refrigerante, fazer jejum... Então é o nosso
sofrimento que faz Deus feliz? Deus é sádico? Prestem
atenção: não sou eu que estou dizendo. Isso não é
blasfêmia minha. É blasfêmia de quem promete casca de
feridas a Deus. ·
RELIGIÃO É PODER: Alguns amigos me perguntaram:
“Por que é que você perde tempo com esses absurdos
de certos hábitos religiosos?”
Respondo: Primeiro, porque tenho profundos
sentimentos religiosos e creio que uma das marcas da
religião deve ser a libertação da inteligência. Não
posso respeitar qualquer religião que, para se impor,
amordace o pensamento.
Sou um educador e sinto que todos os mecanismos
de educação somados não se comparam, em eficácia,
aos hábitos mentais criados pelas religiões. As
religiões moldam mais o pensamento e o comportamento
que a educação. É frequente se ouvir, de pessoas
religiosas, que o uso da razão faz mal à fé. Fala-se
o nome “Deus” e as pessoas param de pensar e
começam a repetir. A repetição de estereótipos é o
que mais caracteriza a fala religiosa. Isso não tem
nada a ver com Deus. Tem a ver com um pássaro
engaiolado que não é o Pássaro Encantado, pássaro
que aprendeu a falar e só fala o que os donos da gaiola
lhe ensinaram. Louro. Segundo, pelo poder que têm os
hábitos religiosos para engaiolar o Pássaro. Na
experiência clínica uma grande parcela do sofrimento
das pessoas têm a ver com as idéias religiosas que
penetraram em sua carne. Terceiro, porque as ilusões
religiosas são fonte de intolerância. Muitas
pessoas religiosas acreditam ter acesso direto aos
pensamentos de Deus.
Chegam mesmo a anunciá-lo em adesivos que colam em
carros: “Conversei com Jesus esta manhã...” O
presidente Bush, para justificar a guerra do Iraque,
declarou na televisão que conversava diariamente com
Jesus. Parece que Jesus lhe deu maus conselhos... Essa
pretensão de ter acesso direto as pensamentos de Deus
é fonte de intolerância e fanatismo. Pessoas que
acreditam ter acesso direto a Deus aos pensamentos de
Deus passam a acreditar que os seus pensamentos são os
pensamentos de Deus e tornam-se, inevitavelmente,
fanáticas. E desse fanatismo surgiram muitas “guerras
santas”. Os homens-bomba, ao realizar sua missão, o
fazem num espírito de martírio religioso – são
santos que se
imolam pela verdade. ·
MORDOMIA: No linguajar comum a palavra “mordomia”
se tornou sinônima de luxo, prazer, conforto... “Que
mordomia, heim?” Os Protestantes ( não confundir com
evangélicos) já a usavam há muito tempo, com um
sentido completamente diferente. O mordomo é o
administrador supremo da casa. A casa não é dele.
Foi-lhe confiada. Mordomia é um conceito ético: somos
responsáveis pela administração dos bens que Deus nos
confiou. Um dos bens que Deus nos confiou é a inteligência.
Inteligência: capacidade de pensar, de duvidar, de
buscar alternativas. Quando uma pessoa tem uma
inteligência preguiçosa ela pára de pensar e se
prende a hábitos passados. Quem
se recusa a pensar está sendo um mau mordomo. Jesus
contou a parábola de um servo a quem o senhor confiara
um dinheiro para ser administrado na sua ausência. O
dito servo, não querendo fazer força, enterrou o
dinheiro para que não fosse roubado. Retornando o
senhor, ele pediu que o servo prestasse contas do
dinheiro. O servo lhe entregou o mesmo dinheiro que
havia recebido. O senhor, irritado com a preguiça do
servo, tirou-lhe o dinheiro e deu-o a um outro que tinha
muito. A inteligência é assim: quem a deixa enterrada
acaba ficando sem ela. Há uma mordomia da
inteligência: é nosso dever fazê-la
voar... Deus ama as inteligências audazes. Se não
fosse assim ele nos teria feito sem inteligência, como
os animais... Muitas pessoas gostariam de ser como os
animais. ACREDITA-SE EM TUDO: Meu irmão Ismael, lá de Lavras, envia-me recortes do jornal local onde aparecem publicadas as “Simpatias da Akemi”. Não tenho a menor idéia do que seja essa “akemi”. Mas as simpatias são uma prova do que a estupidez humana é capaz de inventar e acreditar. “Para curar diabetes: pegar um mamão macho, cortar uma tampa, urinar dentro dele ( o diabético ), tampar bem tampado e depois enterrar o mamão. Para atrair muito dinheiro: Na lua nova pegar uma nota, a maior que tiver em mão, chegar à janela, levantar a nota para a lua, dizendo três vezes: Lua nova, renova essa nota para mim em milhões, cem milhões. Rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.” Fiquei em dúvida sobre se deveria colocar essas simpatias no texto. Explico: a Bia, da Papirus, me disse que recebeu um texto com a afirmação: “ É impossível morder o cotovelo.” Pois ela duvidou e imediatamente tentou morder o cotovelo. Fracassou. O texto continuava: “Você não acreditou. Tentou morder...” Imaginei que o mesmo poderia acontecer com alguns leitores que gostariam de colocar as simpatias à prova e se dispusessem a urinar dentro do mamão e a mostrar cédulas de R$100,00 para a lua... Se der resultado me avisem...
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