![]() |
![]() |
|
| Quarto de badulaques (XXXII) |
|
VELHOS: Sinto uma grande ternura pelos velhinhos.
Dentro daqueles corpos que os anos desgastaram –
enrugados, flácidos, fracos – moram crianças que
querem brincar. Eles não brincam porque não fica bem.
Seria um embaraço para os filhos... E moram também
jovens que querem amar. Querem amar e ser amados. Abraçar.
Beijar. Bom
seria que os velhos se sentissem livres para fazer o que
quisessem sem ter de prestar contas aos filhos. Há o
“Manifesto Comunista” que convida os operários,
classe oprimida, à revolução. Mas os velhos não serão
também uma classe oprimida? São. Então, que se
escreva um “Manifesto dos Velhos” que termine com um
grito: “Velhos do mundo! Uni-vos”!
DEUS:
Deus é o nome que dou a um vazio imenso que mora na
minha alma, vazio onde voam os meus desejos na esperança
de encontrar, no futuro, as coisas amadas que o tempo me
roubou.
ADULTOS EM EXCESSO: Guimarães Rosa, escrevendo
sobre a infância: “Não gosto de falar da infância.
É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas
grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os
prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá
um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais
queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em
pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário
permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém
sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de
geografia. Mas, tempo
bom de verdade, só começou com a conquista de algum
isolamento, com a segurança de poder fechar-me num
quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias,
poemas, romances, botando todo mundo conhecido como
personagem, misturando as melhores coisas vistas e
ouvidas.! ( Algumas de minhas distrações eram) armar
alçapões para pegar sanhaços – e depois tornar a
soltá-los. Que maravilha! Puxar sabugos de espigas de
milho, feito boizinhos de carro, brinquedo saudoso;
atrelar um sabugo branco com outro vermelho, e mais uma
junta de bois pretos – sabugos enegrecidos pelo fogo. Prender formiguinhas em ilhas, que eram pedras postas num
tanque raso, e unidas por pauzinhos, pontes para as
formiguinhas passar. Aproveitar um fiozinho dágua, que
vinha do posto das lavadeiras, e mudar-lhes duas vezes
por dia a curso, fazendo-o de Denúbio ou de São
Francisco, ou de Sapakral-lar ( velho nome inventado ),
com todas as curvas dos ditos, com as cidades marginais
marcadas por grupos de pedrinhas, tudo isso sob o vôo
matinal das maitacas de Nhô Augusto Matraca, no
quintal”.
VER: De tudo que João Guimarães Rosa escreveu
acho a estória do Miguilim a mais bonita.
Miguilim era um menininho que vivia num lugar perdido do
sertão, precisava andar um dia a cavalo prá se chegar
no mais próximo. Mas Miguilim via um mundo embaçado e
pensava que o mundo era assim. Não via o passarinho no
galho da árvore e nem os brotos do milho saidos do chão.
Pai de Miguilim, bruto, achava que ele era burro.
Desgostava. Batia. E no coração de Miguilim o ódio
crescia. Mas um dia chegou um doutor montado em cavalo
bonito e tratado. Estranhou que Miguilim fechasse os
olhos prá ver melhor. “ – Esse nosso rapazinho tem
a vista curta. Espera aí, Miguilim...” E o senhor
tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o
jeito. “ – Olha agora!” Miguilim olhou. Nem não
podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e
lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das
pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra,
as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão
de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus,
tanta coisa, tudo...” Leiam e comparem, e vejam se o
Miguilim não é o João. Os dois eram míopes sem
saber. O espanto do Miguilim deve ter sido o espanto do
João quando pôs os óculos pela primeira vez. E os
dois brincavam com os mesmos brinquedos, até os
boizinhos de sabugo, brancos, vermelhos e pretos, esses
pretejados no fogo do fogão de lenha... Lendo o
Miguilim aprendo sobre o João.
DE NOVO VER: Walt Whitman assim descreveu suas
primeiras experiências na escola “ Ao começar meus
estudos me agradou tanto o passo inicial, a simples
conscientização dos fatos, as formas, o poder de
movimento, o mais pequeno inseto ou animal, os sentidos,
o dom de ver, o amor – o passo inicial, torno a dizer,
me assustou tanto, e me agradou tanto, que não foi fácil
para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois
eu teria querido ficar ali flanando o tempo todo,
cantando aquilo em cânticos extasiados...”
ELOGIOS
QUE OFENDEM: “Puxa, como você está conservado!”
Tradução: Assombrei-me ao vê-lo. Porque, fazendo as
contas, imaginei que a imagem verdadeira para a sua
idade fosse outra: rugas, papada, olhos empapuçados,
barriga, bunda caída, passos trôpegos. Mas não. Você
está liso. Você dorme em formol? Fez plástica? Está
se tratando com algum geriatra?
EXPLICAÇÕES QUE OFENDEM: Assim como há elogios
que ofendem há explicações que ofendem. O rei estava
reunido com o seu ministério e tratava de dar explicações
duvidosas para uns gastos com banquetes gastronômicos.
Os ministros, sem acreditar, faziam de contas que
acreditavam. Mas o Bobo, um dos ministros do rei ( todo
governo deveria ter um Bobo da Corte...) deu uma
risadinha e comentou em voz alta: “ Majestade, há
explicações que são piores que uma ofensa...” O rei
ficou furioso, expulsou o Bobo e declarou que se ele não
explicasse essa declaração absurda até o fim do dia
ele iria passar uma semana no calabouço. O Bobo sumiu.
O rei, cansado, ao fim de um dia de explicações, ia
sozinho por um corredor do palácio, corredor esse
decorado com grandes colunas de mármore. Atrás de uma
delas estava o Bobo escondido, pronto a provar sua tese.
Quando o rei passou, o Bobo pulou e agarrou
as nádegas do rei. O rei deu um grito de susto e
raiva. E o Bobo se desculpou: “Perdão, Majestade, eu
pensei que fosse a rainha...” Estava provada a tese de
que há explicações que são piores que uma ofensa.
A
LINGUA DAS MARIPOSAS: Sugiro que você retire numa
locadora de vídeos o filme “A língua das
mariposas”. É só beleza, até quase o fim, quando os
brutos entram em cena. A ditadura de Franco, na Espanha.
Mas acontece o mesmo em todos os lugares. O que
impressiona não é a brutalidade dos brutos. É o que o
medo faz com as pessoas. Medo todo mundo tem. Mas os
fracos se agacham, escondem-se. Falam baixo, olhando
para os lados. Fecham portas aos amigos perseguidos,
fingem que não os conhecem. Os amigos viram perigo. Se
batem à porta logo perguntam: Será ele? É melhor não
abrir. Fazer de contas que não há ninguém em casa.
Mas há aqueles que se sentem em casa com os brutos.
Tornam-se delatores. Delatando, sentem-se participantes
do poder dos tiranos. Beijam-lhes as mãos. Adulam.
Lustram-lhes as botas. Aconteceu também no Brasil. Os
seres humanos são iguais em todas as partes do mundo. O
filme “A lingua das mariposas” mostra o que a
ditadura de Franco fez com as pessoas. Até com as crianças. É a estória da amizade entre um menino e um velho
professor, até que foi interrompida...
PAUL LEHMANN: Paul Lehmann foi meu professor nos
Estados Unidos, quando eu era jovem. Um homem sensível.
Lembro-me de um dia quando ele me disse: “Apronte-se
porque quero, hoje à noite, apresentá-lo a um
amigo.” Saimos, fomos a um bar elegante e ele me
introduziu ao Jack Daniel’s, razão porque esse
bourbon me é mais que uma bebida. Ele contém memórias
de amizade, alegria e sofrimento. É sacramento. Dele vi
um dos gestos mais delicados. Ano de 1971. Eu era
professor visitante no Union Theological Seminary, New
York, com a minha família. Recebemos a notícia de que meu sogro havia morrido num acidente automobilístico no
Brasil. A dor foi solitária e distante. Ao abrir a
porta da frente do apartamento lá estava um buquê de
flores com um cartão que dizia o seguinte: “ Não
quis perturbar a sua dor”. Só isso.
Acho que essa é uma delicadeza a ser aprendida
em relação aos que sofrem: gestos sem palavras.
PAI E FILHO: A escola organizou uma excursão de
alunos e pais por uma mata. O objetivo da excursão era
contemplar as árvores e os pássaros. Mas, para um
menininho, mais maravilhoso que todas as árvores
foi ver
o seu pai subir em uma delas. Ele nunca havia imaginado
que seu pai fosse capaz de fazer tal coisa! Não sabia
que seu pai era um super-heroi!
RUBEM COSTA: Palavra escrita com paletó e gravata
não serve para literatura. Manoel de Barros, poeta
matogrossense, tinha horror de palavras solenes: “Prá
limpar as palavras de solenidade eu uso bosta”..
Lingua solene é coisa de políticos e advogados. É
preciso ir ao encriançamento das palavras,
palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Rubem
Costa é assim. Menino de 84 anos. Escritor. Escreve
brinquedos. Lê-lo é alegria, leveza. Leiam o seu livro
3 contos de réis
e outras histórias... CIDADANIA: A primeira coisa da cidadania é saber conviver, mansamente, com os outros que moram na mesma cidade. A mansidão de uma população se mede especialmente no tráfego. O comportamento dos motoristas revela sua alma. Campo Mourão, Paraná, é cidade que me espantou. Os motoristas sabem que os pedestres têm prioridade, sempre. As ruas são, em primeiro lugar, dos pedestres. Carro trafega por permissão. Nas faixas para os pedestres, essas zebras pintadas no asfalto, os motoristas param sempre para os pedestres, com ou sem sinal vermelho. Eu estava em Genebra com uns amigos. O reverendo Gerson Meyer, morador de Genebra, era o guia. Uma avenida larga, carros passando em ambas as direções. O reverendo Gerson não teve dúvidas: esticou o seu braço para frente na horizontal e todos os carros obedeceram. Pararam. Lá os pedestres mandam. Lembrei-me de Moisés esticando o braço e fazendo as águas do mar se abrirem para o povo passar a seco. Campinas é tristeza. Tráfego selvagem. Pedestre atravessando, motorista acelera. Quando a gente para prá deixar um pedestre passar ele refuga, com olhar incrédulo. Não acredita. Carro tem prioridade, passa primeiro. Os pedestres que se cuidem!
|