Quarto de badulaques (XXXI) 


Acometido por uma crise de espirros enquanto caminhava pela  fazenda Santa Elisa lembrei-me de um estudante que me confessou espirrar sempre que se sentia excitado sexualmente. Nos livros sobre erótica que li nunca vi referência alguma a esses curioso fenômeno. É bem possível que os espirrantes, envergonhados dessa anomalia e com medo de serem catalogados psicanaliticamente como “perversos” tenham guardado o seu segredo. Para quem não sabe, ser “perverso”, em psicanaliguês não quer dizer “malvado”. Do Latim “perversus”, virado, ao contrário, feito contra o costume e a razão. Ter orgasmo com o nariz é uma perversão, não é normal. Quem sabe o Vaticano soltará uma encíclica condenando os espirros  da mesma forma como condena os homossexuais e a camisinha? O fato é que o espirro muito se assemelha ao orgasmo. Começa com uma discreta cócega, a cócega cresce até estourar numa explosão pneumática extremamente prazerosa seguida de alívio. O prazer sexual do espirro levou os antigos inventar uma forma de ter orgasmos nasais artificialmente. Inventaram o rapé. Do Francês “râper”, ralar, raspar. Rapé é fumo raspado, em pó. Houve tempos em que era elegante cheirar rapé, o pó preto. Vendiam-se caixinhas de prata, à semelhança das caixas de fósforo, verdadeiras joias. Dentro ia um pedaço de fumo. De um lado, um minúsculo ralador. Ralava-se o fumo na hora para se obter um  cheiro de qualidade superior ( da mesma forma como, para se obter um bom café, o grão tem de ser moido na hora). Qual era a maneira elegante para se cheirar rapé? Primeiro, fechava-se uma das mãos, na vertical. Depois esticava-se o dedão firmemente para cima. Ao fazer isso aparece, na junção da mão com o braço, um oco, produzido pelo tendão esticado do dedo. Nesse oco se coloca o pó. Aproxima-se então o pó de uma das narinas, tendo a outra tampada com o dedo indicador da outra mão. Respira-se com força, o pó entra pela narina e o espirro vem para o prazer do espirrante. O rapé, em tempos passados, foi o viagra do nariz. Ainda é possível comprar rapé nas tabacarias. Eu mesmo tenho uma latinha que me foi dada por um amigo. Quem sabe seria possível substituir o pó branco pelo pó negro?

      Os seres humanos me assombram. Andando pela feirinha de artesanato fico a pensar: Como é que eles inventam tantas coisas? Mas o que me assombra mais não são as coisas que os seres humanos fazem. São os pensamentos que eles pensam. Um amigo, estudioso do crescimento numérico e multiplicação qualitativa das seitas evangélicas, disse-me haver uma “Igreja do Cuspe de Cristo”. Achei que ele estivesse fazendo broma, gozação com a minha cara. Mas ele, sério, jurou que era verdade. Aí me pus a pensar. Está certo. Pois não existem seitas e ordens do sangue de Cristo? O sangue de Cristo é sagrado por ser o sangue do Filho de Deus. Tudo aquilo que sai do Filho de Deus tem de ser divino. Porque se houver algo que não é divino nele, a sua divindade está maculada. Agora, o cuspe... O evangelho nos relata que um cego procurou N.S.Jesus Cristo pedindo para ser curado. Jesus cuspiu na terra, fez um barrinho, passou nos olhos do cego e mandou que ele fosse se lavar no tanque de Siloé – se a minha memória não falha. Pois dito e feito: o cego ficou curado. Então o cuspe de Cristo é tão sagrado quanto o seu sangue. É divino. Daí a propriedade do nome da “Igreja do Cuspe de Cristo”. Eu não me espantaria se houvesse outros desdobramentos dessa tendência.

         Ainda falando sobre a imaginação teológica do povo, assombrei-me com um adesivo colado num carro: “ Deus é joia. O resto é bijoteria (sic!). Assim, quando alguém o cumprimentar dizendo “Joia!”, saiba que ele, com essa palavras,  está invocando sobre você as bênçãos do Criador.

            Nas proximidades do shopping Iguatemi há um outdoor enorme com essa mensagem: “Agradeço a Santo Expedito uma graça alcançada.” Santo Expedito deve ter ficado feliz ao ver o seu nome escrito com letras tão grandes num lugar como aquele. Porque os santos devem também ter suas vaidades, seus impulsos narcísicos. Santo Expedido não é “joia” mas é “bijoteria” de valor.

        A criatividade humana não se manifesta apenas no campo da teologia. Uma de suas expressões mais fascinantes se encontra nas técnicas desenvolvidas para se fazer leitura dinâmica. Ler rapidamente, com retenção total! Por que gastar um mês lendo Grande Sertão – Veredas, de Guimarães Rosa, se com as técnicas de leitura dinâmica você poderá lê-lo em uma hora? A vida moderna corre rápida, não há tempo para vagaresas. Ler dinamicamente é muito importante no preparo para o vestibular. Quem anda devagar fica para trás! Sugiro que a filosofia da leitura dinâmica seja também aplicada a outras áreas. Sexo dinâmico! Por que perder tempo gastando uma hora fazendo amor se com a técnica do sexo dinâmico tudo se realiza em dois minutos? Comer dinamicamente! Quanto tempo se perde nas refeições! Com a técnica da comida dinâmica um jantar termina em cinco minutos. E a gravidez dinâmica! Nove meses é muito tempo. Com a técnica da gravidez dinâmica o parto acontece depois de duas semanas! Música dinâmica! A Nona Sinfonia pode ser ouvida em dois minutos! Durma também dinamicamente! Você terá muito mais tempo para fazer outras coisas! Pessoalmente eu estaria interessado em pesquisas para se desenvolver técnicas de ver televisão dinamicamente. Ver o Faustão, o Gugu e o Big Brother em cinco minutos será, incontestavelmente, uma grande contribuição à inteligência e à cultura. O Pequeno Principe encontrou-se com um vendedor de pílulas para matar a sede. “ Para que servem essas pílulas?”, perguntou o princepezinho. Respondeu o vendedor: “Para economizar tempo. Já se fizeram pesquisas que mostram que, por semana, gastamos duas horas indo até o filtro para beber água. Se você tomar as pílulas contra a sede você não gastará esse tempo”, explicou o vendedor. “E o que é que eu faço com esse tempo?” “ Com esse tempo você faz o que você quiser...” O Pequeno Príncipe parou, pensou e concluiu: “Que bom! Se eu tiver duas horas livres eu quero ir vagarosamente, mãos nos bolsos, até a fonte para beber água...” Não me sai da cabeça uma frase que um professor meu amigo afixou na porta da sua sala: “ Havendo Deus colocado limites precisos à nossa inteligência é profundamente lamentável que ele não tenha estabelecido limites também para a nossa estupidez.”

            Quando eu ainda era professor universitário fui nomeado presidente de uma comissão que iria examinar os candidatos ao doutoramento. Uma longa lista de livros havia sido preparada com antecedência, livros que os candidatos deveriam estudar. Aí no dia do exame eu tive uma idéia que submeti aos meus colegas e eles concordaram. Ao invés de inquirir os candidatos sobre as idéias de outros escritas nos livros, idéias que nós já conhecíamos, por que não pedir que eles nos falassem sobre suas próprias idéias? Falando sobre suas idéias teríamos condições de conhecê-los melhor. Assim, quando o candidato entrava na sala, trêmulo, esperando as perguntas terríveis sobre a bibliografia, eu lhe pedia: “ Por favor, fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar...” Pensei que isso seria uma felicidade: falar sobre aquilo que pensavam! Foi não. Foi um choque. De tanto ler o que os outros pensavam eles se haviam esquecido daquilo que eles mesmos pensavam. Uma jovem entrou em surto, achando que se tratava de um truque. Poucos tiveram idéias sobre que falar. O que nos levou a pensar que talvez seja isso que aconteça: de tanto ler as idéias de outros os alunos se esquecem de que eles também podem pensar e que o seu pensamento é importante. Excesso de leitura pode fazer mal à inteligência. Com o que concorda Schopenhauer: “ É o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito...” E, em oposição àqueles que ensinam leitura dinâmica, Schopenhauer afirma que a leitura só é boa quando é bovina, quando leva à ruminação.

            Viajando pelo Brasil ouvi com frequência a queixa de que meus livros não eram encontrados nas livrarias. Para resolver esse problema criei no meu site www.rubemalves.com.br  uma loja virtual. Assim qualquer pessoa, de onde estiver, poderá pedir o livro que desejar.

        Há muitas pessoas de imaginação sensível que amam as crianças. Encontrei na revista pedagógica  Cem Modialitá que se publica na Itália ( Via Piamarta 9 – 25121 – Brescia – Itália ) um artigo com um título curioso: A pedagogia do caracol ( veja a ilustração ). O autor, Gianfranco Zavalloni ( www.scuolacreativa.it ) conta da mãe de uma menina que o procurou e lhe relatou o seguinte: “Outro dia minha filha me disse: mamãe, os professores dizem sempre: ‘Força, crianças! Não podemos perder tempo porque devemos andar para frente!’ Mas mamãe, para onde devemos ir? Para frente, onde?’” Essas perguntas da menina o levaram questionar o ritmo de pressa que as escolas impõem sobre as crianças. No seu lugar ele propõe a pedagogia do caracol. Os caracois não sabem o que é pressa. E ele conta de um curso de formação de professores do Gruppo Educhiamoci alla Pace di Bari sobre o tema “ Na companhia do ócio, da lentidão e da poesia.” Sugere que no cotidiano dos professores com as crianças deveria haver tempo para simplesmente jogar conversa fora, conversa que não quer ensinar coisa alguma. Simplesmente ouvir as crianças é coisa muito preciosa. Elas aprendem que são importantes e que é importante ouvir as outras. Caminhar, passear, andar a pé, observando as coisas ao redor. Contemplar as nuvens. Escrever cartas e cartões a lapis ou caneta; não usar os e-mails. Plantar um horta. Plantando uma  horta as crianças aprendem sobre os ritmos da natureza. Quem observa os ritmos da natureza acaba por ganhar equilíbrio pessoal. Plantar uma horta talvez seja uma terapia mais poderosa que a dos consultórios. A velocidade é o ritmo das máquinas. Mas nós não somos máquinas. Somos seres da natureza como os animais e as plantas. E a natureza é sempre vagarosa. É perigoso introduzir a pressa num corpo que tem suas raízes na lentidão da natureza. Lembro-me de um professor da Faculdade de Educação Física da UNICAMP que se dizia contrário ao atletismo. E ele perguntava: “Você conhece algum atleta longevo?  Vivem muito aquelas velhinhas que se reunem ao final das tardes para tomar chá com bolo... Nenhum animal se entrega a coisa semelhante ao atletismo, que tem por objetivo levar o corpo até os seus limites. Levar o corpo rotineiramente até os seus limites é perigoso. Os animais correm e saltam só quando precisam.”

            Sugestão aos pais nesse dia a eles dedicado: leiam a página de Gibran Khalil Gibran no seu livro  O Profeta com o título “Os Pais”. Infelizmente não tenho o livro nesse lugar onde estou escrevendo. Assim vou tentar reconstruir um parágrafo com o auxílio da memória:  “ Vossos filhos não são vossos. Vossos filhos são flechas. Vós sois apenas o arco que dispara a flecha. Uma vez disparada a flecha voa para longe do arco que fica, vazio...” A imagem é linda. Mas não me parece que seja totalmente verdadeira. E isso porque a flecha, ainda que não atinja o alvo, vai sempre na direção que lhe deu o arqueiro. Sugiro, então, uma alteração: “ Vossos filhos são flechas que, uma vez disparadas, se transformam em pássaros que voam para onde querem e não na direção apontada pelo pai-arqueiro.” Ser pai é alegrar-se com o vôo do pássaro, livre, para longe, numa direção não sonhada.” Se eu tivesse voado na direção apontada pelo o meu pai com o seu arco eu seria um engenheiro, talvez um médico. Pode até ser que eu tivesse atingido  sucesso profissional e tivesse me tornado um homem rico. Mas minhas asas me levaram para um lugar que nunca passou pelos seus sonhos, e nem mesmo pelos meus... Nunca imaginei que seria escritor. Parece que as asas sabem mais sobre as direções da alma que nossos pensamentos. E estou contente. E nesse dia abençôo meus filhos nos seus vôos.

            Em tempos passados o normal era que um jovem escolhesse uma carreira e permanecesse nela até morrer, ainda que ela não lhe desse felicidade, tal como acontecia com os casamentos. Para sempre, até que a morte os separe.  Uma coisa boa dos tempos em que vivemos, a despeito de todas as suas confusões, é que as pessoas descobriram que é possível mudar a direção do vôo. Nada as obriga a voar sempre na mesma direção até o fim. Eu mudei minhas direções várias vezes e não me arrependo. Meu amigo Jether era um próspero dentista na cidade do Rio de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza dá segurança. Segurança dá tranquilidade à família. Mas enquanto ele olhava para o mundo delimitado pelos dentes dos seus clientes a sua alma voava por outros mundos! E foi assim que, num belo dia, ele resolveu voar. Chegou em casa e comunicou à esposa Lucília: "Meu bem, vou vender o consultório”. E assim, com mais de quarenta anos, voltou para a estaca zero e foi se preparar para o vestibular... E ele seguiu um caminho feliz! Está com 82 anos, tem cara de 60,  a disposição de 40 e a leveza de criança! Cada profissão delimita um mundo: há o mundo dos advogados, dos dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos médicos, dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do teatro. O jovem estudante do filme “Sociedade dos poetas mortas” sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai havia mirado seu arco para a medicina... Dezoito ou dezenove anos é muito cedo para definir o que se vai fazer pelo resto da vida. Esse é um tempo de procuras, indefinições, sonhos confusos. É normal que, ao meio do curso universitário, o jovem descubra que tomou o trem errado e se disponha a saltar na próxima estação. É angústia para os pais. Claro, porque o que eles mais desejam é ver o filho formado, empregado, ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver e permissão para morrer... Mas não seria terrível para ele – ou ela – se, só para não “perder tempo”, “ só para não voltar ao início”, continuasse até o fim. Se não quero ir para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas? Pais, não fiquem angustiados. Sua angústia é inútil. E nem fiquem com a ilusão de que o diploma dará emprego ao filho. Não dará. Assim é melhor ir devagar seguindo a direção que o coração manda. O difícil, para os pais, será se o filho, no último ano de direito, lhe comunique: “Descobri que não gosto de Direito. Vou estudar para ser palhaço!” Aí posso imaginar o embaraço do pai e da mãe quando, em meio a uma reunião social, quando se fala sobre os filhos, alguém lhes dirija a palavra e diga: “ Meu filho está no Itamarati. Vai ser diplomata. E o seu?” Resposta: “ O nosso está no circo. Vai ser palhaço...” Cá entre nós: não sei qual profissão dá mais felicidade, se a de diplomata ou se a de palhaço...

        Como vocês já sabem, Albert Schweitzer é uma das pessoas que mais admiro. Teólogo, filósofo, prêmio Goethe de literatura, concertista de órgão, especialista em Bach, sobre quem escreveu uma obra clássica, aos 30 anos abandonou tudo. Mudou a direção do seu vôo. Profundamente místico, com grande compaixão pelos que sofriam, resolveu estudar medicina e passar o resto de sua vida num lugarejo miserável, no coração da África. Ele levava a sério as palavras de Jesus. “A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedirá”. E ele pensava: “Muito, muítissimo me foi dado; muito, muitíssimo eu tenho que dar. E deu a sua vida inteira. Jamais passaria pela sua cabeça imaginar que ele, em virtude do muito que havia recebido, deveria gozar de privilégios especiais. Recebeu o prémio Nobel da Paz. Lembrei-me dele ao ler sobre aqueles que, havendo recebido muito, se julgam com o direito de receber mais ainda. O Brasil é o país onde o que vale é o contrário do que diz Jesus, e isso a despeito dos crucifixos e benzeções: Vale um outro evangelho: “ A quem muito se lhe deu,  muito mais se lhe dará.” Se não é de Jesus, de quem será? Não me atrevo a sugerir.  É assim que aqueles que foram encarregados democraticamente de proteger os fracos fazem leis em benefício próprio, leis que acrescentam só a eles privilégios dos quais o povo comum está excluído. Acho sim, que se há um grupo que é merecedor de leis especiais que lhe garantam privilégios, esse grupo são as crianças. As crianças abandonadas são uma ferida horrível numa sociedade de classes privilegiadas que vivem em palácios. 

           Coração de criança + inteligência de ex-presidiário = beleza e alegria.

O sol estava se pondo. O por-de-sol a fez lembrar-se do seu pai. Ela começou a falar. Ele estava muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia disso. Ela abandonou o seu trabalho para estar com ele. E conversavam sobre a morte próxima. Tranquilamente. Disse-me que a hora que seu pai mais amava era o crepúsculo. Desde menina. Ele se assentava com ela e ia mostrando a beleza das nuvens incendiadas, a progressiva e rápida sucessão das cores, azul, verde, amarelo, abóbora, vermelho, roxo... À medida em que o tempo passava ele ficava cada  vez mais fraco. Fraco, queria sempre ver o por-de-sol. Um homem a morrer é um sol a se por.  Numa dessas tardes ela não conseguiu conter as lágrimas. Chorou. Ele a abraçou e colocou seu dedo sobre os seus lábios. “Não quero que você chore...” E apontando para o sol que se punha disse: “Eu estarei lá...” Sei que não  reproduzi com fidelidade o que ela me disse. O seu relato foi imensamente mais rico, cheio de detalhes, de saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peço perdão. Mas senti que ela era agradecida pelo tempo que passou com o pai. A morte cria uma intimidade que é impossível em outras situações. E contou-me também de uma orquídea que silenciosamente acompanhou esses momentos de despedida. A orquídea, depois que seu pai partiu para o por-de-sol, se recusou a parar de florir...Será que as pessoas queridas que partem continuam a morar no perfume das flores? É possível...