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| Quarto de badulaques (XXXI) |
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Os seres humanos me assombram. Andando pela
feirinha de artesanato fico a pensar: Como é que eles
inventam tantas coisas? Mas o que me assombra mais não
são as coisas que os seres humanos fazem. São os
pensamentos que eles pensam. Um amigo, estudioso do
crescimento numérico e multiplicação qualitativa das
seitas evangélicas, disse-me haver uma “Igreja do
Cuspe de Cristo”. Achei que ele estivesse fazendo
broma, gozação com a minha cara. Mas ele, sério,
jurou que era verdade. Aí me pus a pensar. Está certo.
Pois não existem seitas e ordens do sangue de Cristo? O
sangue de Cristo é sagrado por ser o sangue do Filho de
Deus. Tudo aquilo que sai do Filho de Deus tem de ser
divino. Porque se houver algo que não é divino nele, a
sua divindade está maculada. Agora, o cuspe... O
evangelho nos relata que um cego procurou N.S.Jesus
Cristo pedindo para ser curado. Jesus cuspiu na terra,
fez um barrinho, passou nos olhos do cego e mandou que
ele fosse se lavar no tanque de Siloé – se a minha
memória não falha. Pois dito e feito: o cego ficou
curado. Então o cuspe de Cristo é tão sagrado quanto
o seu sangue. É divino. Daí a propriedade do nome da
“Igreja do Cuspe de Cristo”. Eu não me espantaria
se houvesse outros desdobramentos dessa tendência.
Ainda falando sobre a imaginação teológica do
povo, assombrei-me com um adesivo colado num carro: “
Deus é joia. O resto é bijoteria (sic!). Assim, quando
alguém o cumprimentar dizendo “Joia!”, saiba que
ele, com essa palavras,
está invocando sobre você as bênçãos do
Criador.
Nas proximidades do shopping Iguatemi há um
outdoor enorme com essa mensagem: “Agradeço a Santo
Expedito uma graça alcançada.” Santo Expedito deve
ter ficado feliz ao ver o seu nome escrito com letras tão
grandes num lugar como aquele. Porque os santos devem
também ter suas vaidades, seus impulsos narcísicos.
Santo Expedido não é “joia” mas é “bijoteria”
de valor.
A criatividade humana não se manifesta apenas no
campo da teologia. Uma de suas expressões mais
fascinantes se encontra nas técnicas desenvolvidas para
se fazer leitura dinâmica. Ler rapidamente, com retenção
total! Por que gastar um mês lendo Grande Sertão –
Veredas, de Guimarães Rosa, se com as técnicas de
leitura dinâmica você poderá lê-lo em uma hora? A
vida moderna corre rápida, não há tempo para
vagaresas. Ler dinamicamente é muito importante no
preparo para o vestibular. Quem anda devagar fica para
trás! Sugiro que a filosofia da leitura dinâmica seja
também aplicada a outras áreas. Sexo dinâmico! Por
que perder tempo gastando uma hora fazendo amor se com a
técnica do sexo dinâmico tudo se realiza em dois
minutos? Comer dinamicamente! Quanto tempo se perde nas
refeições! Com a técnica da comida dinâmica um
jantar termina em cinco minutos. E a gravidez dinâmica!
Nove meses é muito tempo. Com a técnica da gravidez
dinâmica o parto acontece depois de duas semanas! Música
dinâmica! A Nona Sinfonia pode ser ouvida em dois
minutos! Durma também dinamicamente! Você terá muito
mais tempo para fazer outras coisas! Pessoalmente eu
estaria interessado em pesquisas para se desenvolver técnicas
de ver televisão dinamicamente. Ver o Faustão, o Gugu
e o Big Brother em cinco minutos será,
incontestavelmente, uma grande contribuição à inteligência
e à cultura. O Pequeno Principe encontrou-se com um
vendedor de pílulas para matar a sede. “ Para que
servem essas pílulas?”, perguntou o princepezinho.
Respondeu o vendedor: “Para economizar tempo. Já se
fizeram pesquisas que mostram que, por semana, gastamos
duas horas indo até o filtro para beber água. Se você
tomar as pílulas contra a sede você não gastará esse
tempo”, explicou o vendedor. “E o que é que eu faço
com esse tempo?” “ Com esse tempo você faz o que
você quiser...” O Pequeno Príncipe parou, pensou e
concluiu: “Que bom! Se eu tiver duas horas livres eu
quero ir vagarosamente, mãos nos bolsos, até a fonte
para beber água...” Não me sai da cabeça uma frase
que um professor meu amigo afixou na porta da sua sala:
“ Havendo Deus colocado limites precisos à nossa
inteligência é profundamente lamentável que ele não
tenha estabelecido limites também para a nossa
estupidez.”
Quando eu ainda era professor universitário fui
nomeado presidente de uma comissão que iria examinar os
candidatos ao doutoramento. Uma longa lista de livros
havia sido preparada com antecedência, livros que os
candidatos deveriam estudar. Aí no dia do exame eu tive
uma idéia que submeti aos meus colegas e eles
concordaram. Ao invés de inquirir os candidatos sobre
as idéias de outros escritas nos livros, idéias que nós
já conhecíamos, por que não pedir que eles nos
falassem sobre suas próprias idéias? Falando sobre
suas idéias teríamos condições de conhecê-los
melhor. Assim, quando o candidato entrava na sala, trêmulo,
esperando as perguntas terríveis sobre a bibliografia,
eu lhe pedia: “ Por favor, fale-nos sobre aquilo que
você gostaria de falar...” Pensei que isso seria uma
felicidade: falar sobre aquilo que pensavam! Foi não.
Foi um choque. De tanto ler o que os outros pensavam
eles se haviam esquecido daquilo que eles mesmos
pensavam. Uma jovem entrou em surto, achando que se
tratava de um truque. Poucos tiveram idéias sobre que
falar. O que nos levou a pensar que talvez seja isso que
aconteça: de tanto ler as idéias de outros os alunos
se esquecem de que eles também podem pensar e que o seu
pensamento é importante. Excesso de leitura pode fazer
mal à inteligência. Com o que concorda Schopenhauer:
“ É o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos.
Porque a leitura contínua, retomada a todo instante,
paralisa o espírito...” E, em oposição àqueles que
ensinam leitura dinâmica, Schopenhauer afirma que a
leitura só é boa quando é bovina, quando leva à
ruminação.
Viajando pelo Brasil ouvi com frequência a queixa
de que meus livros não eram encontrados nas livrarias.
Para resolver esse problema criei no meu site www.rubemalves.com.br
uma loja virtual. Assim
qualquer pessoa, de onde estiver, poderá pedir o livro
que desejar.
Há muitas pessoas de imaginação sensível que
amam as crianças. Encontrei na revista pedagógica
Cem
Modialitá que se publica na Itália ( Via Piamarta
9 – 25121 – Brescia – Itália ) um artigo com um título
curioso: A pedagogia do caracol ( veja a ilustração ).
O autor, Gianfranco Zavalloni ( www.scuolacreativa.it ) conta da mãe de
uma menina que o procurou e lhe relatou o seguinte:
“Outro dia minha filha me disse: mamãe, os
professores dizem sempre: ‘Força, crianças! Não
podemos perder tempo porque devemos andar para
frente!’ Mas mamãe, para onde devemos ir? Para
frente, onde?’” Essas perguntas da menina o levaram
questionar o ritmo de pressa que as escolas impõem
sobre as crianças. No seu lugar ele propõe a pedagogia
do caracol. Os caracois não sabem o que é pressa. E
ele conta de um curso de formação de professores do
Gruppo Educhiamoci alla Pace di Bari sobre o tema “ Na
companhia do ócio, da lentidão e da poesia.” Sugere
que no cotidiano dos professores com as crianças
deveria haver tempo para simplesmente jogar conversa
fora, conversa que não quer ensinar coisa alguma.
Simplesmente ouvir as crianças é coisa muito preciosa.
Elas aprendem que são importantes e que é importante
ouvir as outras. Caminhar, passear, andar a pé,
observando as coisas ao redor. Contemplar as nuvens.
Escrever cartas e cartões a lapis ou caneta; não usar
os e-mails. Plantar um horta. Plantando uma
horta as crianças aprendem sobre os ritmos da
natureza. Quem observa os ritmos da natureza acaba por
ganhar equilíbrio pessoal. Plantar uma horta talvez
seja uma terapia mais poderosa que a dos consultórios.
A velocidade é o ritmo das máquinas. Mas nós não
somos máquinas. Somos seres da natureza como os animais
e as plantas. E a natureza é sempre vagarosa. É
perigoso introduzir a pressa num corpo que tem suas raízes
na lentidão da natureza. Lembro-me de um professor da
Faculdade de Educação Física da UNICAMP que se dizia
contrário ao atletismo. E ele perguntava: “Você
conhece algum atleta longevo?
Vivem muito aquelas velhinhas que se reunem ao
final das tardes para tomar chá com bolo... Nenhum
animal se entrega a coisa semelhante ao atletismo, que
tem por objetivo levar o corpo até os seus limites.
Levar o corpo rotineiramente até os seus limites é
perigoso. Os animais correm e saltam só quando
precisam.”
Sugestão aos pais nesse dia a eles dedicado: leiam
a página de Gibran Khalil Gibran no seu livro
O Profeta com o título “Os Pais”.
Infelizmente não tenho o livro nesse lugar onde estou
escrevendo. Assim vou tentar reconstruir um parágrafo
com o auxílio da memória:
“ Vossos filhos não são vossos. Vossos filhos
são flechas. Vós sois apenas o arco que dispara a
flecha. Uma vez disparada a flecha voa para longe do
arco que fica, vazio...” A imagem é linda. Mas não
me parece que seja totalmente verdadeira. E isso porque
a flecha, ainda que não atinja o alvo, vai sempre na
direção que lhe deu o arqueiro. Sugiro, então, uma
alteração: “ Vossos filhos são flechas que, uma vez
disparadas, se transformam em pássaros que voam para
onde querem e não na direção apontada pelo
pai-arqueiro.” Ser pai é alegrar-se com o vôo do pássaro,
livre, para longe, numa direção não sonhada.” Se eu
tivesse voado na direção apontada pelo o meu pai com o
seu arco eu seria um engenheiro, talvez um médico. Pode
até ser que eu tivesse atingido
sucesso profissional e tivesse me tornado um
homem rico. Mas minhas asas me levaram para um lugar que
nunca passou pelos seus sonhos, e nem mesmo pelos
meus... Nunca imaginei que seria escritor. Parece que as
asas sabem mais sobre as direções da alma que nossos
pensamentos. E estou contente. E nesse dia abençôo
meus filhos nos seus vôos.
Em tempos passados o normal era que um jovem
escolhesse uma carreira e permanecesse nela até morrer,
ainda que ela não lhe desse felicidade, tal como
acontecia com os casamentos. Para sempre, até que a
morte os separe. Uma
coisa boa dos tempos em que vivemos, a despeito de todas
as suas confusões, é que as pessoas descobriram que é
possível mudar a direção do vôo. Nada as obriga a
voar sempre na mesma direção até o fim. Eu mudei
minhas direções várias vezes e não me arrependo. Meu
amigo Jether era um próspero dentista na cidade do Rio
de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza dá segurança.
Segurança dá tranquilidade à família. Mas enquanto
ele olhava para o mundo delimitado pelos dentes dos seus
clientes a sua alma voava por outros mundos! E foi assim
que, num belo dia, ele resolveu voar. Chegou em casa e
comunicou à esposa Lucília: "Meu bem, vou vender
o consultório”. E assim, com mais de quarenta anos,
voltou para a estaca zero e foi se preparar para o
vestibular... E ele seguiu um caminho feliz! Está com
82 anos, tem cara de 60,
a disposição de 40 e a leveza de criança! Cada
profissão delimita um mundo: há o mundo dos advogados,
dos dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos médicos,
dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do teatro. O
jovem estudante do filme “Sociedade dos poetas
mortas” sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai
havia mirado seu arco para a medicina... Dezoito ou
dezenove anos é muito cedo para definir o que se vai
fazer pelo resto da vida. Esse é um tempo de procuras,
indefinições, sonhos confusos. É normal que, ao meio
do curso universitário, o jovem descubra que tomou o
trem errado e se disponha a saltar na próxima estação.
É angústia para os pais. Claro, porque o que eles mais
desejam é ver o filho formado, empregado, ganhando
dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver e permissão
para morrer... Mas não seria terrível para ele – ou
ela – se, só para não “perder tempo”, “ só
para não voltar ao início”, continuasse até o fim.
Se não quero ir para as montanhas, se quero ir para a
praia, por que continuar a dirigir o carro pela estrada
que vai para as montanhas? Pais, não fiquem
angustiados. Sua angústia é inútil. E nem fiquem com
a ilusão de que o diploma dará emprego ao filho. Não
dará. Assim é melhor ir devagar seguindo a direção
que o coração manda. O difícil, para os pais, será
se o filho, no último ano de direito, lhe comunique:
“Descobri que não gosto de Direito. Vou estudar para
ser palhaço!” Aí posso imaginar o embaraço do pai e
da mãe quando, em meio a uma reunião social, quando se
fala sobre os filhos, alguém lhes dirija a palavra e
diga: “ Meu filho está no Itamarati. Vai ser
diplomata. E o seu?” Resposta: “ O nosso está no
circo. Vai ser palhaço...” Cá entre nós: não sei
qual profissão dá mais felicidade, se a de diplomata
ou se a de palhaço...
Como vocês já sabem, Albert Schweitzer é uma das
pessoas que mais admiro. Teólogo, filósofo, prêmio
Goethe de literatura, concertista de órgão,
especialista em Bach, sobre quem escreveu uma obra clássica,
aos 30 anos abandonou tudo. Mudou a direção do seu vôo.
Profundamente místico, com grande compaixão pelos que
sofriam, resolveu estudar medicina e passar o resto de
sua vida num lugarejo miserável, no coração da África.
Ele levava a sério as palavras de Jesus. “A quem
muito se lhe deu, muito se lhe pedirá”. E ele
pensava: “Muito, muítissimo me foi dado; muito, muitíssimo
eu tenho que dar. E deu a sua vida inteira. Jamais
passaria pela sua cabeça imaginar que ele, em virtude
do muito que havia recebido, deveria gozar de privilégios
especiais. Recebeu o prémio Nobel da Paz. Lembrei-me
dele ao ler sobre aqueles que, havendo recebido muito,
se julgam com o direito de receber mais ainda. O Brasil
é o país onde o que vale é o contrário do que diz
Jesus, e isso a despeito dos crucifixos e benzeções:
Vale um outro evangelho: “ A quem muito se lhe deu,
muito mais se lhe dará.” Se não é de Jesus,
de quem será? Não me atrevo a sugerir.
É assim que aqueles que foram encarregados
democraticamente de proteger os fracos fazem leis em
benefício próprio, leis que acrescentam só a eles
privilégios dos quais o povo comum está excluído.
Acho sim, que se há um grupo que é merecedor de leis
especiais que lhe garantam privilégios, esse grupo são
as crianças. As crianças abandonadas são uma ferida
horrível numa sociedade de classes privilegiadas que
vivem em palácios.
Coração de criança + inteligência de ex-presidiário
= beleza e alegria. O sol estava se pondo. O por-de-sol a fez lembrar-se do seu pai. Ela começou a falar. Ele estava muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia disso. Ela abandonou o seu trabalho para estar com ele. E conversavam sobre a morte próxima. Tranquilamente. Disse-me que a hora que seu pai mais amava era o crepúsculo. Desde menina. Ele se assentava com ela e ia mostrando a beleza das nuvens incendiadas, a progressiva e rápida sucessão das cores, azul, verde, amarelo, abóbora, vermelho, roxo... À medida em que o tempo passava ele ficava cada vez mais fraco. Fraco, queria sempre ver o por-de-sol. Um homem a morrer é um sol a se por. Numa dessas tardes ela não conseguiu conter as lágrimas. Chorou. Ele a abraçou e colocou seu dedo sobre os seus lábios. “Não quero que você chore...” E apontando para o sol que se punha disse: “Eu estarei lá...” Sei que não reproduzi com fidelidade o que ela me disse. O seu relato foi imensamente mais rico, cheio de detalhes, de saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peço perdão. Mas senti que ela era agradecida pelo tempo que passou com o pai. A morte cria uma intimidade que é impossível em outras situações. E contou-me também de uma orquídea que silenciosamente acompanhou esses momentos de despedida. A orquídea, depois que seu pai partiu para o por-de-sol, se recusou a parar de florir...Será que as pessoas queridas que partem continuam a morar no perfume das flores? É possível...
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