Quarto de badulaques (XXX) 


Meus filhos, eu os abençôo: Aos pais eu faço a sugestão de que nesse dia a eles dedicado leiam a página de Gibran Khalil Gibran no seu livro O Profeta, com o título “Os filhos”. “Vossos filhos não são vossos filhos. Eles vêm através de vós mas não são de vós, e apesar de estarem convosco não vos pertencem. Sois os arcos dos quais seus filhos, como flechas vivas, são arremessados na direção do alvo que o arqueiro vê no infinito.” Uma vez disparada, a flecha voa para longe do arco que fica, vazio... A imagem é linda. Mas não me parece que seja totalmente verdadeira. E isso porque a flecha, ainda que não atinja o alvo, vai sempre na direção do alvo que o arqueiro viu. Sugiro, então, uma alteração: “Vossos filhos são flechas que, uma vez disparadas, se transformam em pássaros que voam para onde querem e não na direção do alvo que o arqueiro viu.” Ser pai é alegrar-se com o vôo do pássaro, livre, para longe, numa direção não sonhada. Se eu tivesse voado na direção do alvo que meu pai viu eu seria um engenheiro, talvez um médico. Pode até ser que eu tivesse atingido sucesso profissional e tivesse me tornado um homem rico. Mas minhas asas me levaram para um lugar que nunca passou pelos seus sonhos, e nem mesmo pelos meus... Nunca imaginei que seria escritor. Parece que as asas sabem mais sobre as direções da alma que nossos pensamentos. E estou contente. E nesse dia abençôo meus filhos nos seus vôos.

Sobre a coragem de mudar: Em tempos passados o normal era que um jovem escolhesse uma carreira e permanecesse nela até morrer, ainda que ela não lhe desse felicidade, tal como acontecia também com os casamentos. Para sempre, até que a morte os separe. Uma coisa boa dos tempos em que vivemos, a despeito de todas as suas confusões, é que as pessoas descobriram que é possível mudar a direção do vôo. Nada as obriga a voar sempre na mesma direção até o fim. Eu mudei minhas direções várias vezes e não me arrependo. Meu amigo Jether era um próspero dentista na cidade do Rio de Janeiro. Estava ficando rico. Riqueza dá segurança. Segurança dá tranqüilidade à família. Mas enquanto ele olhava para o mundo delimitado pelos dentes dos seus clientes, a sua alma voava por outros mundos! E foi assim que, num belo dia, ele resolveu voar. Chegou em casa e comunicou à esposa Lucília: "Meu bem, vou vender o consultório”. E assim, com mais de quarenta anos, voltou para a estaca zero e foi se preparar para o vestibular... E ele seguiu um caminho feliz! Está com 82 anos, tem cara de 60, disposição de 40 e leveza de criança! Cada profissão delimita um mundo: há o mundo dos advogados, dos dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos médicos, dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do teatro. O jovem estudante do filme Sociedade dos poetas mortos sonhava em ser artista de teatro. Mas seu pai havia mirado seu arco para a medicina... Dezoito ou dezenove anos é muito cedo para definir o que se vai fazer pelo resto da vida. Esse é um tempo de procuras, indefinições, sonhos confusos. É normal que, ao meio do curso universitário, o jovem descubra que tomou o trem errado e se disponha a saltar na próxima estação. É angústia para os pais. Claro, porque o que eles mais desejam é ver o filho formado, empregado, ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver e permissão para morrer... Mas não seria terrível para ele – ou ela – se, só para não “perder tempo”, “só para não voltar ao início”, continuasse até o fim? Se não quero ir para as montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas? Pais, não fiquem angustiados. Sua angústia é inútil. E nem fiquem com a ilusão de que o diploma dará emprego ao filho. Não dará. Assim é melhor ir devagar seguindo a direção que o coração manda. O difícil, para os pais, será se o filho, no último ano de direito, lhes comunique: “Descobri que não gosto de Direito. Vou estudar para ser palhaço!” Aí posso imaginar o embaraço do pai e da mãe quando, em meio a uma reunião social, quando se fala sobre os filhos, alguém lhes dirija a palavra e diga: “Meu filho está no Itamarati. Vai ser diplomata. E o seu?” Resposta: “O nosso está no circo. Vai ser palhaço...” Cá entre nós: não sei qual profissão dá mais felicidade, se a de diplomata ou se a de palhaço...

“A quem muito se lhe deu muito lhe se pedirá”: Como vocês já sabem, Albert Schweitzer é uma das pessoas que mais admiro. Teólogo, filósofo, prêmio Goethe de literatura, concertista de órgão, especialista em Bach, sobre quem escreveu uma obra clássica, prêmio Nobel da Paz, aos 30 anos abandonou tudo. Mudou a direção do seu vôo. Profundamente místico, com grande compaixão pelos que sofriam, resolveu estudar medicina e passar o resto de sua vida num lugarejo miserável, no coração da África. Ele levava a sério as palavras de Jesus. “A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedirá”. E ele pensava: “Muito, muitíssimo me foi dado; muito, muitíssimo eu tenho que dar”. E deu a sua vida inteira. Jamais passaria pela sua cabeça imaginar que ele, em virtude do muito que havia recebido, deveria gozar de privilégios especiais. Lembrei-me dele ao ler sobre aqueles que, havendo recebido muito, argumentam que, por haverem recebido muito têm o direito de receber mais ainda. O Brasil é o país onde o que vale é o contrário do que diz Jesus, e isso a despeito dos crucifixos e benzeções: Vale um outro evangelho: “A quem muito se lhe deu, muito mais se lhe dará.” Se não é de Jesus, de quem será? Não me atrevo a sugerir. É assim que aqueles que foram encarregados democraticamente de proteger os fracos fazem leis em benefício próprio, leis que acrescentam só a eles privilégios dos quais o povo comum está excluído. Isso não é coisa nova. Os profetas já denunciavam os pastores que engordavam com a carne das ovelhas que deveriam proteger. Acho sim, que se há um grupo que é merecedor de leis especiais que lhe garantam privilégios, esse grupo são as crianças. As crianças abandonadas são uma ferida horrível numa sociedade de classes privilegiadas e arrogantes que vivem em palácios... Como é bem sabido, “quem semeia ventos colhe tempestades...”

Coração de criança + inteligência de ex-presidiário = beleza e alegria. A manchete de primeira página dizia: “Carro-bomba em hotel mata 14 na capital da Indonésia”. Horror, a presença da Morte. Mas a última página contava do milagre da vida. Ri de alegria. Aconteceu assim: o Diego, menino de 6 anos perguntou ao seu pai Ideval Ribeiro dos Santos, o Boró, se era possível “transformar uma favela feia em coisa bonita.” A pergunta do menino pôs a cabeça do pai a funcionar, o coração move a inteligência. O Boró, ex-presidiário, começou a trabalhar para realizar o sonho do filho que passou a ser o seu próprio sonho. E hoje está lá, um depósito de lixo transformado num espaço comunitário bonito pelo trabalho de crianças, adolescentes e voluntários. As professoras se queixam da falta de disciplina dos alunos. Isso acontece quando eles são obrigados a fazer o que não está no seu coração. Mas o Boró sabe que as crianças e os adolescentes trabalham duro para realizar os seus sonhos. O Correio Popular está publicando, às 4as. feiras, reportagens sobre projetos semelhantes. O mundo está cheio de pessoas simples que lutam por ideais altos.

O poente e a orquídea: O sol estava se pondo. O pôr-de-sol a fez lembrar-se do seu pai. Ela começou a falar. Ele estava muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia disso. Ela abandonou o seu trabalho para estar com ele. E conversavam sobre a partida que se aproximava. Tranqüilamente. Aqueles que aceitam a chegada da morte ficam tranquilos. Disse-me que a hora que seu pai mais amava era o crepúsculo. Desde menina ele se assentava com ela e ia mostrando a beleza das nuvens incendiadas, a progressiva e rápida sucessão das cores, azul, verde, amarelo, abóbora, vermelho, roxo... À medida em que a morte se aproximava a fraqueza aumentava. Mas, mesmo fraco, queria ver o pôr-de-sol. Talvez pela irmandade de um homem que morre e um sol que se põe. Numa dessas tardes ela não conseguiu conter as lágrimas. Chorou. Ele a abraçou e colocou seu dedo sobre os seus lábios. “Não quero que você chore...” E apontando para o sol que se punha disse: “Eu estarei lá...” E contou-me também de uma orquídea que silenciosamente acompanhou esses momentos de despedida. A orquídea, depois que seu pai partiu para o pôr-de-sol, se recusou a parar de florir... Será que as pessoas queridas que partem continuam a morar no perfume das flores? É possível... Sei que não reproduzi com fidelidade o que ela me disse. Seu relato foi imensamente mais rico, cheio de detalhes, de saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peço perdão. Mas senti que os meses que passou com seu pai lhe deram uma profundidade e beleza que não tinha antes. A morte cria uma intimidade que é impossível em outras situações.

Os gatos: Gosto de ler o “Correio do Leitor”. É ali que se revela o coração do povo. Fiquei comovido com a solidariedade aos gatos do Bosque. Não me lembro de assunto algum que tenha provocado tantas cartas. Não sou apreciador de gatos porque gosto mais dos pássaros e os gatos comem pássaros. Mas não aprovo esse gatocídio generalizado. Antigamente Campinas era a cidade das andorinhas. Quem sabe, agora, poderá ser conhecida como a cidade que ama gatos. Só fiquei triste por me dar conta de que nunca a população foi comovida de forma semelhante pela condição das crianças abandonadas que perambulam pelas ruas.

(Correio Popular, 10/08/2003)