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| Quarto de badulaques (XXX) |
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Sobre
a coragem de mudar: Em tempos passados o normal era que um jovem
escolhesse uma carreira e permanecesse nela até morrer,
ainda que ela não lhe desse felicidade, tal como
acontecia também com os casamentos. Para sempre, até
que a morte os separe. Uma coisa boa dos tempos em que
vivemos, a despeito de todas as suas confusões, é que
as pessoas descobriram que é possível mudar a direção
do vôo. Nada as obriga a voar sempre na mesma direção
até o fim. Eu mudei minhas direções várias vezes e não
me arrependo. Meu amigo Jether era um próspero dentista
na cidade do Rio de Janeiro. Estava ficando rico.
Riqueza dá segurança. Segurança dá tranqüilidade à
família. Mas enquanto ele olhava para o mundo
delimitado pelos dentes dos seus clientes, a sua alma
voava por outros mundos! E foi assim que, num belo dia,
ele resolveu voar. Chegou em casa e comunicou à esposa
Lucília: "Meu bem, vou vender o consultório”. E
assim, com mais de quarenta anos, voltou para a estaca
zero e foi se preparar para o vestibular... E ele seguiu
um caminho feliz! Está com 82 anos, tem cara de 60,
disposição de 40 e leveza de criança! Cada profissão
delimita um mundo: há o mundo dos advogados, dos
dentistas, dos engenheiros, dos professores, dos médicos,
dos músicos, dos artistas, dos palhaços, do teatro. O
jovem estudante do filme Sociedade
dos poetas mortos sonhava em ser artista de teatro.
Mas seu pai havia mirado seu arco para a medicina...
Dezoito ou dezenove anos é muito cedo para definir o
que se vai fazer pelo resto da vida. Esse é um tempo de
procuras, indefinições, sonhos confusos. É normal
que, ao meio do curso universitário, o jovem descubra
que tomou o trem errado e se disponha a saltar na próxima
estação. É angústia para os pais. Claro, porque o
que eles mais desejam é ver o filho formado, empregado,
ganhando dinheiro. Isso lhes daria liberdade para viver
e permissão para morrer... Mas não seria terrível
para ele – ou ela – se, só para não “perder
tempo”, “só para não voltar ao início”,
continuasse até o fim? Se não quero ir para as
montanhas, se quero ir para a praia, por que continuar a
dirigir o carro pela estrada que vai para as montanhas?
Pais, não fiquem angustiados. Sua angústia é inútil.
E nem fiquem com a ilusão de que o diploma dará
emprego ao filho. Não dará. Assim é melhor ir devagar
seguindo a direção que o coração manda. O difícil,
para os pais, será se o filho, no último ano de
direito, lhes comunique: “Descobri que não gosto de
Direito. Vou estudar para ser palhaço!” Aí posso
imaginar o embaraço do pai e da mãe quando, em meio a
uma reunião social, quando se fala sobre os filhos,
alguém lhes dirija a palavra e diga: “Meu filho está
no Itamarati. Vai ser diplomata. E o seu?” Resposta:
“O nosso está no circo. Vai ser palhaço...” Cá
entre nós: não sei qual profissão dá mais
felicidade, se a de diplomata ou se a de palhaço... “A
quem muito se lhe deu muito lhe se pedirá”: Como vocês já sabem,
Albert Schweitzer é uma das pessoas que mais admiro. Teólogo,
filósofo, prêmio Goethe de literatura, concertista de
órgão, especialista em Bach, sobre quem escreveu uma
obra clássica, prêmio Nobel da Paz, aos 30 anos
abandonou tudo. Mudou a direção do seu vôo.
Profundamente místico, com grande compaixão pelos que
sofriam, resolveu estudar medicina e passar o resto de
sua vida num lugarejo miserável, no coração da África.
Ele levava a sério as palavras de Jesus. “A quem
muito se lhe deu, muito se lhe pedirá”. E ele
pensava: “Muito, muitíssimo me foi dado; muito, muitíssimo
eu tenho que dar”. E deu a sua vida inteira. Jamais
passaria pela sua cabeça imaginar que ele, em virtude
do muito que havia recebido, deveria gozar de privilégios
especiais. Lembrei-me dele ao ler sobre aqueles que,
havendo recebido muito, argumentam que, por haverem
recebido muito têm o direito de receber mais ainda. O
Brasil é o país onde o que vale é o contrário do que
diz Jesus, e isso a despeito dos crucifixos e benzeções:
Vale um outro evangelho: “A quem muito se lhe deu,
muito mais se lhe dará.” Se não é de Jesus, de quem
será? Não me atrevo a sugerir. É assim que aqueles
que foram encarregados democraticamente de proteger os
fracos fazem leis em benefício próprio, leis que
acrescentam só a eles privilégios dos quais o povo
comum está excluído. Isso não é coisa nova. Os
profetas já denunciavam os pastores que engordavam com
a carne das ovelhas que deveriam proteger. Acho sim, que
se há um grupo que é merecedor de leis especiais que
lhe garantam privilégios, esse grupo são as crianças.
As crianças abandonadas são uma ferida horrível numa
sociedade de classes privilegiadas e arrogantes que
vivem em palácios... Como é bem sabido, “quem semeia
ventos colhe tempestades...” Coração
de criança + inteligência de ex-presidiário = beleza
e alegria.
A manchete de primeira página dizia: “Carro-bomba em
hotel mata 14 na capital da Indonésia”. Horror, a
presença da Morte. Mas a última página contava do
milagre da vida. Ri de alegria. Aconteceu assim: o
Diego, menino de 6 anos perguntou ao seu pai Ideval
Ribeiro dos Santos, o Boró, se era possível
“transformar uma favela feia em coisa bonita.” A
pergunta do menino pôs a cabeça do pai a funcionar, o
coração move a inteligência. O Boró, ex-presidiário,
começou a trabalhar para realizar o sonho do filho que
passou a ser o seu próprio sonho. E hoje está lá, um
depósito de lixo transformado num espaço comunitário
bonito pelo trabalho de crianças, adolescentes e voluntários.
As professoras se queixam da falta de disciplina dos
alunos. Isso acontece quando eles são obrigados a fazer
o que não está no seu coração. Mas o Boró sabe que
as crianças e os adolescentes trabalham duro para
realizar os seus sonhos. O Correio Popular está
publicando, às 4as. feiras, reportagens sobre projetos
semelhantes. O mundo está cheio de pessoas simples que
lutam por ideais altos. O
poente e a orquídea: O sol estava se pondo. O pôr-de-sol a fez
lembrar-se do seu pai. Ela começou a falar. Ele estava
muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia disso. Ela
abandonou o seu trabalho para estar com ele. E
conversavam sobre a partida que se aproximava. Tranqüilamente.
Aqueles que aceitam a chegada da morte ficam tranquilos.
Disse-me que a hora que seu pai mais amava era o crepúsculo.
Desde menina ele se assentava com ela e ia mostrando a
beleza das nuvens incendiadas, a progressiva e rápida
sucessão das cores, azul, verde, amarelo, abóbora,
vermelho, roxo... À medida em que a morte se aproximava
a fraqueza aumentava. Mas, mesmo fraco, queria ver o pôr-de-sol.
Talvez pela irmandade de um homem que morre e um sol que
se põe. Numa dessas tardes ela não conseguiu conter as
lágrimas. Chorou. Ele a abraçou e colocou seu dedo
sobre os seus lábios. “Não quero que você
chore...” E apontando para o sol que se punha disse:
“Eu estarei lá...” E contou-me também de uma orquídea
que silenciosamente acompanhou esses momentos de
despedida. A orquídea, depois que seu pai partiu para o
pôr-de-sol, se recusou a parar de florir... Será que
as pessoas queridas que partem continuam a morar no
perfume das flores? É possível... Sei que não
reproduzi com fidelidade o que ela me disse. Seu relato
foi imensamente mais rico, cheio de detalhes, de
saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peço
perdão. Mas senti que os meses que passou com seu pai
lhe deram uma profundidade e beleza que não tinha
antes. A morte cria uma intimidade que é impossível em
outras situações. Os
gatos: Gosto
de ler o “Correio do Leitor”. É ali que se revela o
coração do povo. Fiquei comovido com a solidariedade
aos gatos do Bosque. Não me lembro de assunto algum que
tenha provocado tantas cartas. Não sou apreciador de
gatos porque gosto mais dos pássaros e os gatos comem pássaros.
Mas não aprovo esse gatocídio generalizado.
Antigamente Campinas era a cidade das andorinhas. Quem
sabe, agora, poderá ser conhecida como a cidade que ama
gatos. Só fiquei triste por me dar conta de que nunca a
população foi comovida de forma semelhante pela condição
das crianças abandonadas que perambulam pelas ruas. (Correio Popular, 10/08/2003)
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