Quarto de badulaques (XXVIII

Toda criança sonha com um espaço secreto, que seja só seu, longe do olhar controlador do pai e da mãe. Já contei sobre a menina que encontrou esse espaço debaixo de um taco solto do assoalho. Debaixo daquele taco – o único lugar que era só seu, em sua casa – ela sonhava guardar pedrinhas coloridas, seu tesouro. O importante não era o valor do tesouro. O importante era que aquele espaço era secreto. Nem seu pai e nem a sua mãe sabiam da sua existência. Só ela. Também a casa de madeira, no alto de uma árvore. Lá os adultos não podem chegar. Ou aquele livrinho chamado Diário... Uma terapeuta contou-me de um paciente seu, um menino esquizofrênico. Ele tinha uma caixa onde guardava os seus tesouros. Numa sessão de terapia ele e ela fizeram um jogo num papel. Ele achou o jogo maravilhoso. Guardou-o no seu cofre. Na sessão seguinte ela lhe perguntou sobre o jogo. Ele respondeu: “Jogou fora” e não soube dar maiores explicações. Como ele só falasse na terceira pessoa, ela entendeu o “Jogou fora” como “Joguei fora”. Conversando com a mãe do menino ela perguntou: “O que o Joãozinho (nome falso) fez com o jogo que fizemos?” Ela queria compreender as razões do comportamento do menino. A mãe não entendeu. A terapeuta explicou: “Ele havia guardado o jogo naquela caixa...” “Ah!”, sorriu a mãe, “aquela caixa de tranqueiras bobas e sujas? Limpei a caixa. Joguei tudo fora...” Pobre mãe! Ela não sabia que havia jogado fora pedaços preciosos da alma do seu filho. Isso não é só bobeira de criança. A psicanálise descobriu que todos nós temos um espaço secreto onde guardamos coisas que nos são preciosas. Guardamos o dito espaço a sete chaves porque sabemos que, se os outros virem o que está lá dentro, eles vão dizer como a mãe insensível: “Tranqueiras...” Talvez a nossa alma seja feita de tranqueiras que nos são preciosas. Na psicanálise esse lugar secreto tem o nome de inconsciente.

Amigos me têm perguntado sobre as razões da minha mudança de estilo. Eu só escrevia crônicas com princípio, meio e fim. De repente, comecei a escrever fragmentos, como esses. Acontece que a cabeça é uma caixa de segredos onde se ajuntam os mais diferentes tipos de pensamento. Alguns deles são tranqueiras mesmo e os jogo fora. (Mas já me arrependi muito de supostas tranqueiras que joguei fora para descobrir, muito mais tarde, que não eram tranqueiras...). Outros ficam lá dentro e vão ajuntando, enchendo minha canastra secreta. Não é possível transformá-los todos em peças literárias porque o tempo é curto e o espaço também. Mas não tenho coragem de me livrar deles. Esses fragmentos que escrevo com o nome de Quarto de badulaques foi a forma que encontrei de compartilhá-los com os meus leitores.

Hoje pela manhã, fui a Barão Geraldo. Hora do rush. Rush, palavra intraduzível. Os que amam a língua na sua pureza haverão de me amaldiçoar. Estou compactuando com uma invasão lingüística, usando palavra do inimigo. Que fazer? Humpty-Dumpty, personagem de Alice no país das maravilhas, sabia que o mais forte impõe as suas palavras... Mas não é a primeira vez que isso acontece. Os romanos impuseram o latim aos países conquistados e foi assim que nasceu o português, língua que me dá muita felicidade. Houve, na década dos anos vinte do século passado, um movimento cultural chamado Antropofagia. O movimento antropofágico dizia que, a invasão cultural sendo inevitável, resta-nos fazer o que fizeram os índios com os brancos invasores: eles os devoraram transformando assim sua estranheza em semelhança. Assim, que nos coloquemos à mesa para devorar os invasores, nesse caso representados por esse “rush”, que não passa de uma ponta de orelha frita... Mas isso foi apenas uma digressão, um outro fragmento esquecido que estava na minha caixa e se intrometeu. O que me chamou a atenção foi outra coisa: filas intermináveis de carros, todos eles velozes para chegar ao trabalho. Qualquer distração ou imprudência significaria desastre. Eu me encontrava na fila da esquerda. E, de repente, um ciclista solitário, pedalando numa estreita faixa de asfalto de não mais que cinqüenta centímetros, também na direção de Barão Geraldo. Imaginei o vento dos carros nos seus ouvidos. Bastaria uma pedra, um buraco, uma vacilação, para que ele fosse atingido. Pensei então que seria bom que as autoridades tratassem de dar aos ciclistas mordomias semelhantes às que dão aos automóveis. Por que não fazer ciclovias? Ciclovias são manifestações de civilidade e de preocupação ecológica. Pois bicicletas são veículos limpos e simples, não poluem e ainda fazem bem à saude. O contrário dos carros. Uma ciclovia de Campinas a Barão Geraldo. Os ciclistas agradeceriam...

Gosto de armar quebra-cabeças. Nome errado. Eles não quebram a minha cabeça. Ao contrário, põem a minha cabeça no lugar. Nome mais apropriado deveria ser “junta-cabeças”. Todas as atividades que implicam arrumar, armar, juntar, montar, tecer têm uma função terapêutica. Elas ativam processos organizatórios das emoções e das idéias. Juntando as peças do meu junta-cabeças sobre a mesa, eu vou juntando as peças do meu junta-cabeças interno. Pois eu comprei um de 1.000 peças. Lindo cenário: céu azul, montanhas cobertas de neve, florestas... Comecei a armar. Mas o tempo era curto. A construção progredia lentamente. Especialmente naquelas partes de uma cor só. Fui ficando desanimado. Deixei as peças espalhadas sobre mesa da sala por mais de um mês. Ai eu percebi que Deus esteva me ajudando. O junta-cabeças estava se formando sem a minha intervenção. Pensei logo: “Miracolo!” Algum anjo, talvez... Que nada. Era a Jai que me ajuda, dois dias por semana, arrumando as minhas bagunças. Aí começamos a fazer apostas: quem colocaria mais peças. Chegando ao final, não tive coragem de pôr a última peça. Deixei que ela gozasse o prazer do triunfo! O que me impressionou foi a inteligência da Jai. Porque as atividades necessárias para se armar um junta-cabeças colocam em ação uma série de potências intelectuais, que incluem a imaginação, a identificação gestáltica de padrões até a abstratíssima função lógica de identificar ângulos, linhas e tamanhos. Pensei que a Jai pode ser muito mais que uma faxineira. Ela só tem o segundo ano primário. Animei-a a continuar os estudos. Ela está se preparando para fazer o supletivo. Quanto ao junta-cabeças de 1.000 peças, está de novo na caixa, até que me disponha a medir forças com ele de novo.

Faz tempo, publiquei aqui no Correio Popular a minha versão da antiga e horrenda estória do Barba Azul, um homem monstruoso que matava as esposas curiosas que entravam no quarto proibido. Fiz com ela o que fiz com a estória dos Três Porquinhos: virei tudo de cabeça pra baixo e, modéstia a parte, ficou melhor que a original e seus preconceitos contra os artistas. Pois na estória original dos Três Porquinhos o Violinista e o Flautista são pintados como dois bobos, irresponsáveis, cabeça na lua. O sério é o pedreiro Prático. Pois na minha estória do Barbazul não há assassinatos. É uma estória de música, amor e... psicanálise. Pois tive a alegria de vê-la publicada pelas Edições Loyola, com ilustrações maravilhosas do artista Demóstenes Filho.

Guerra se faz com duas coisas: armas e informações. A função das armas é anular o inimigo. A função das informações é saber onde está o inimigo. Não se sabendo onde está o inimigo, as armas não podem ser usadas de forma eficaz, por modernas que sejam. Nas guerras tradicionais em que exércitos inteiros se confrontavam no campo, pesava mais o poder das armas. As guerrilhas, entretanto, alteraram o esquema clássico das guerras. Não mais touros enormes que batem cabeças e chifres. Enxames de minúsculas abelhas, escondidas em buracos de pau, ignoradas: atacam e desaparecem. Os vietcongs derrotaram o exército norte-americano. O crime organizado faz uso das táticas de guerrilha, não mais na selva mas nas cidades. Derrotam quase sempre a polícia por causa de sua invisibilidade e mobilidade: abelhas. O problema não se resolverá com a modernização do arsenal policial. A questão crucial é a informação. Quem serão os informantes? Policiais disfarçados? De forma alguma. O disque-denúncia é um instrumento de informação importantíssimo que tem ajudado a resolver vários crimes. Mas para que alguém faça uma denúncia é preciso que ela “torça” pelos supostos “mocinhos”, os homens da lei, os policiais. Mas será que as populações de bairros de violência consideram os policiais “mocinhos”? O que as levaria a admirar e amar os policiais? O que as levaria a confiar neles? O envolvimento de policiais em extorsão, seqüestros, intimidação, assassinatos pode levá-las a concluir que os bandidos são melhores que os mocinhos... Quem, nas populações de bairros de violência, estaria disposto a correr o risco de ser espião e informante? Só se amasse muito, só se acreditasse muito que os policiais são mocinhos de verdade... Mas, para isso, é preciso que a polícia mude de cara. Conheço policiais que estão lutando por isso. Um exemplo: o projeto Abraço.

(Correio Popular, 29/06/2003)