Quarto de badulaques (XXVII

O professor estava furioso com o que acontecera. Procurou a diretora e lhe relatou o seguinte. Preparava-se para iniciar sua aula de química quando notou que algo estranho estava acontecendo: todos os alunos tampavam os seus narizes com os polegares e indicadores e riam. Ele não entendeu até que respirou fundo. Então entendeu. Um aluno, ele não sabia quem, havia enchido o ambiente com uma ventilação intestinal malcheirosa. Considerava esse ato uma ofensa pessoal à sua dignidade. Pedia providências disciplinares. A diretora movida por inexplicável inspiração lhe perguntou: E qual seria o assunto da sua aula? Ele respondeu: Os gases. A diretora o encarou com espanto e lhe disse: Mas o senhor perdeu uma maravilhosa ocasião de falar sobre os gases... A matéria prima estava no ar...

As praias, no inverno, são mais bonitas. Vocês já viram uma vaca coberta de carrapatos? É algo de dar dó... Pois assim são as praias no verão: os milhares de pessoas são carrapatos que infestam as areias brancas. No inverno, as praias são lisas, solitárias. Quase ninguém. Parece que os homens têm medo da solidão. Gostam mesmo é do falatório, do agito, do som... Prefiro a música do mar e do vento porque ela faz eco na minha alma. Não se ouvem vozes humanas. Apenas o pio dos pássaros. E os pensamentos vêm mansamente. Águas vivas mortas – seria inútil jogá-las no mar novamente. Eram bonitas vivas, flutuando transparentes... Caranguejos de olhos saltados, andando de lado, fugindo para os buracos na areia. Parecem-se com certas pessoas que não conseguem andar para frente... Catar conchinhas... Eis aí uma deliciosa brincadeira para quem deseja ser escritor. A alma é um grande mar que vai depositando conchinhas no pensamento. É preciso guardá-las. Quem deseja ser escritor há de aprender com as crianças a catar conchinhas, pensamentos avulsos como esses com que estou brincando, e guardá-los num caderninho. De Camus, o livro que mais amo - e por isso mesmo releio sempre - são os seus Cadernos da juventude. Ali, ele anotava o vôo dos pássaros, uma trovoada, uma nesga azul no céu de tempestade, uma citação que lhe vinha à cabeça, um diálogo entre marido e mulher. Nietzsche também colecionava conchinhas que ele transformava em aforismos. O problema com os aprendizes é que eles pensam que literatura se faz com coisas importantes. O que torna a conchinha importante não é o seu tamanho mas o fato de que alguém a cata da areia e a mostra para quem não a viu: “Veja...” Literatura é mostrar conchinhas...

Por favor, o senhor não me leve a mal, sei que suas intenções são as melhores, mas acontece que sou mineiro, prezo muito as coisas de antigamente, quero que elas sobrevivam, fazem parte do meu corpo, e esse é o caso do carro de bois, sobre que já escrevi várias coisas; menino, era uma felicidade ver o carro de bois chegando, a gente corria atrás e se aboletava, na frente o carreiro conduzindo os bois com o seu ferrão, atrás os bois caminhando pachorrentamente, humilhados de cabeça baixa, conformados com o seu triste destino, e o eixo gemendo música dolorida... Eu disse “o” eixo, no singular, porque carro de bois, por razões da geometria e da física, só pode ter um eixo com duas rodas. Carro de bois com dois eixos e quatro rodas quebra. Por que é assim? Eu lhe pergunto: Para garantir que todos os pés de um tamborete estejam assentados no chão, quantos pés ele deve ter? A resposta é fácil: três. Geometria: três pontos definem um plano. Tamborete de três pés está sempre assentado. Tamborete de quatro pés pode ficar manco. Basta um desnível no chão... Veículo de quatro rodas precisa de estrada boa, plana. Acontece que carro de bois foi feito para caminhos que nem são estradas, esburacados. Por isso, para não mancar, só tem três pontos de apoio: as duas rodas e os bois. Os artesãos de antigamente não eram bobos... Sabiam ciência e geometria. Mas o senhor, com a melhor das intenção, para ilustrar seu restaurante de nome tão bonito, Carro de bois, pediu que um artista fizesse um desenho... Mas ele era um homem de cidade... Nunca viu um carro de bois e, pior, não se deu ao trabalho de procurar uma fotografia. E ele desenhou um carro de bois de quatro rodas. Não existe. Não custa muito corrigir. E, por isso, até lhe ofereço um modelo... Não me leve a mal. Eu só quis ajudar. É que amo os carros de boi porque eles fazem parte da minha alma. Olhando para um carro de bois de quatro rodas, eu começo a mancar...

O apelido carinhoso era “Vozão”. Assim o chamavam meus filhos meninos. Nome verdadeiro: Clibas Leite de Barros. Tinha medo dos 60 anos não por causa do número de anos mas por causa dos jornais. Dizia: “Se eu for atropelado vão noticiar ‘Sexagenário atropelado’ ...” Ele nunca foi atropelado. A notícia não aconteceu. Mas eu li uma mais divertida: “Ancião de cinqüenta anos atropelado”. Era um concurso importante, Livre Docência. O candidato, um dentista-professor competentíssimo, meu amigo, já falecido. A imprensa compareceu e noticiou: “Ao final a Banca Examinadora concedeu-lhe o título de Livre Docente. E, além deste, deram-lhe também o título de Ad referendum da Congregação”. Numa matéria sobre a sinfônica, o repórter escreveu: “Será tocado o Concerto n. 5, em si bemol, Imperador, com os movimentos Allegro, Adagio un poco mosso e Rondó-Allegro, todos eles compostos por Beethoven.”

A cidade de São Paulo nunca me provocou sentimentos bons. Ela sempre me foi – e ainda é – uma coisa enorme, ameaçadora, onde me encontro perdido e sem rumo. Fujo dela o mais que posso e nunca me interessei por conhecê-la. A língua alemã tem uma palavra para isso que sinto: unheimlich que, via de regra, é traduzida como “sinistro”. Ela é formada por un, que é uma negação e heim, que quer dizer casa, lar. O lar é o espaço amigo, acolhedor, protetor. No lar não se sente medo. Unheimlich é o contrário, sentir-se fora de casa, num espaço estranho e ameaçador. Sente-se medo. Acho que esse sentimento tem suas raízes nos tempos da minha juventude, quando fazia o CPOR e morava numa pensão horrível no largo Pe. Péricles. As pulgas eram tão grandes que eu as pegava no escuro. Iguais, nunca vi. Lembro-me das manhãs frias e garoentas, a caminho do quartel. Eu não conhecia ninguém. Não havia nenhum amigo que eu pudesse visitar para variar da mediocridade da pensão. Mas agora o Gilberto Dimenstein, com quem escrevi o livro Fomos maus alunos, está me ensinando a olhar para São Paulo com olhos diferentes. Ele me disse que para se gostar de São Paulo, é preciso ter consciência das coisas e pessoas maravilhosas que vivem e acontecem por dentro do cimento. Era isso que eu dizia aos amigos brasileiros que visitavam New York, nos anos que lá vivi. Por fora cimento e frio. Por dentro, o calor, os rostos, o pensamento, a beleza, os sonhos. Ainda tenho boas recordações – e saudade... Quem sabe, eu chegarei a sentir o mesmo por São Paulo, depois de descobrir as rotas secretas que não se encontram nos mapas de ruas e nos guias turísticos. Esse é um dos problemas do turismo: ficar só do lado de fora. Creio que coisa parecida deve haver também em Campinas. Mas é preciso procurar.

Respeito as descobertas provisórias da ciência médica. Sem elas, eu já estaria morto. Mas não desprezo intuições de outras tradições que nos ajudam a compreender o mistério humano. Porque nós, humanos, não somos apenas matéria. Somos poesia. A poesia nos move. Se você duvida, é porque nunca amou. O corpo humano é tocado (no mesmo sentido em que um violino é tocado, um piano é tocado: o corpo é um instrumento musical...) por coisas que não existem. O Manoel de Barros diz algo mais ou menos assim: “Tem mais presença em mim o que me falta...” Pois um médico amigo que combina razão e coração, ciência e poesia, ocidente e oriente, comentou que é possível que a psicologia das mulheres, tão mais sensíveis à solidão que os homens, se deva ao destino triste ou alegre do óvulo: arrancado do seu ninho, é empurrado por um canal apertado que o leva a um vazio... E não lhe resta nada mais que a solidão da espera. Foi um óvulo neste estado de espera angustiosa que disse pela primeira vez: “To be or not to be, that is the question!” O óvulo, produto das mulheres, tem sua origem na solidão. Já os homens têm suas origens na maratona, milhões de espermatozóides sendo lançados no mundo ao mesmo tempo (acho que Heidegger gostaria da metáfora...). São corredores, muitos, e é preciso chegar primeiro... O prêmio para o segundo colocado é a morte. Não seria por acaso que os homens gostam tanto de futebol, metáfora do grande evento inicial, todos os jogadores lutando por uma bola! Os espermatozóides também lutam por bola minúscula! Mas um só entra, só um. Aí a solidão e a multidão são transformadas em comunhão...

“Quem já viajou num carro de boiss sabe bem disso: nossa música mais legítima é o som arrastado e tristonho dos carros de bois. É a nossa mais doce canção de ninar. Não tem letra e nem música, é só um gemido alto e longo a nos invadir a alma, mas esse é um assunto para ser discutido somente por quem já freqüentou uma dessas estradas velhas e perdidas bem no meio de Minas.” Vanessa Netto

(Correio Popular, 08/06/2003)