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| Quarto de badulaques (XXIX) |
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Pessoas
religiosas fazem longas e penosas viagens, peregrinações,
para visitar lugares santos. Não há lugares santos.
Dizer que um lugar é santo, que ali o sagrado está
mais presente do que em outros, é dizer que há lugares
em que Deus está menos presente, como se ele os tivesse
abandonado. E isso, a se acreditar nos teólogos, é
negar a onipresença de Deus – o que é heresia. O
universo inteiro é hóstia. O místico não é o
milagre grosseiro: o paralítico que volta a andar, o
cego que volta a ver, o ladrão que pára de roubar,
seres do outro mundo que aparecem em cavernas ou são
pescados do fundo de rios. Milagre é o arabesco da asa
de uma borboleta; o vôo do beija-flor; o perfume da
magnólia; a flor do trevo; a cachoeira; o arco-íris;
uma noite estrelada; o pasto rosa com as flores do capim
gordura; a chuva; o canto do sabiá; um caramujo; uma
teia de aranha; a amizade.... Milagre são meus olhos,
os meus ouvidos, as minhas mãos. Não é preciso fazer
peregrinações. Tudo é milagre. O universo é um
milagre. Mas aqueles que vendo nada vêem procuram
milagres em lugares esquisitos. Gandhi,
profundamente místico, se horrorizava com a sujeira dos
lugares sagrados. Senti o mesmo quando visitei
Aparecida. O que revelava a alma dos fiéis. Achavam que
a Santa estava dentro da Basílica mas não nos pátios.
No interior da Basílica silêncio, preces balbuciadas,
genuflexões, sinais da cruz. Fora da Basílica,
sujeira. Eles não sabem que a limpeza é um ato de
reverência. Porque, a se acreditar na iconografia católica,
a capa azul de Nossa Senhora cobre o mundo. E toda
sujeira que se faz é lixo depositado na sua capa. Você
não é bobo. Não acredita em qualquer coisa. Sabe
distinguir o possível daquilo que é mentira. Eu lhe
digo que no meu sítio há uma raça de gansos verdes de
três pernas que botam ovos quadrados. Você não
acredita. O seu filho lhe diz que no seu quarto há um
elefante cor de rosa soprando bolinhas de sabão verdes.
Você não acredita. Ou o menino está fazendo uma
brincadeira ou ficou louco. A inteligência “testa”
as idéias para saber se elas são dignas de crédito.
Agora me explique: por que é que, quando se entra no
campo da religião, as pessoas estão prontas a
acreditar em qualquer coisa que uma outra pessoa lhe
diz? Será que, para se ter sentimentos religiosas é
preciso abandonar a inteligência? Carlos
Rodrigues Brandão, antropólogo apaixonado pelo povo
simples, apaixonou-se pela Espanha e escreveu um livro
lindíssimo cheio de fotografias de lugares abandonados,
casas de pedra, aldeias quase vazias, campos, caminhos,
gente rústica: Aldeas: Escritos e Imaxes da Galicia Tradicional (Editorial
Toxosoutos). O povo espanhol é muito religioso e ligado
a milagres. Pois o Brandão me relatou que um velho
camponês lhe descreveu um milagre: o santo foi
decapitado. Mas mesmo decapitado ele se curvou, apanhou
sua cabeça e a beijou. “Mas como é isso possível”,
lhe perguntou o Brandão, “que um corpo sem cabeça, só
pescoço, beije a sua cabeça?” O camponês o olhou
espantado, certamente perplexo de que um professor
universitário fosse tão estúpido para coisas da fé,
e lhe deu a explicação definitiva: “Pero
Señor, en esto precisamente está el milagro!” “Manhã
de domingo. Jardim. A menininha chorava Queria chupar um
sorvete. A mãe dizia que ‘não’. As roupas e o
jeito diziam que eram pobres. Um senhor, compadecido da
dor da menininha, ofereceu-se para comprar-lhe o
sorvete. A menininha respondeu: ‘Não adianta. A
gente, além de ser pobre, é crente.’” Foi-me
contado pelo Jether Ramalho. Católicos
e Protestantes: quantas lutas, quantos ódios, quantas
perseguições, quanto sangue derramado. Há dias vi na
televisão um filme terrível sobre a Noite de São
Bartolomeu, montanhas de cadáveres ensanguentados,
assassinados em nome de Deus. Não devia. Porque eles,
Católicos e Protestantes, são primos tão próximos.
Moram no mesmo edifício de três andares, propriedade
do Senhor Invisível que ninguém jamais viu, à
semelhança do “Senhor” do “Castelo” de Kafka. O
andar térreo é esse mundo, lugar de transição, efêmero.
Os que ali estão, todos nós, estão à espera da residência
definitiva onde passaremos a eternidade. Nos porões estão
as câmaras de tortura, administradas pelo Diabo, lugar
de sofrimento. É claro que o Senhor Invisível, se
quisesse, poderia acabar com as câmaras de tortura.
Afinal ele é todo poderoso e foi ele mesmo quem as fez,
entregando ao Diabo a sua administração. Será que o
Diabo é um funcionário de Deus, da mesma forma como
eram funcionários do Presidente da República os
torturadores do tempo da ditadura? É um assunto a se
pensar. No andar de cima estão os céus, lugar de
prazeres e felicidade, para onde irão os inquilinos que
adoram o Senhor Invisível. Nesse edifício moram
Protestantes e Católicos. O que os distingue é a forma
como eles vêem o trânsito de influências dentro do prédio.
Os Protestantes afirmam que tudo se resolve diretamente
com o Senhor Invisível e que a chave para ter acesso ao
andar superior é semelhante à chave que Ali Babá
usava para abrir a porta da caverna dos tesouros: uma fórmula
mágica: Abre-te Sésamo! A fórmula protestante é
“Tenho Cristo no coração” ou “Creio em Cristo
como meu Salvador.” Os Católicos, ao contrário,
dizem que existe uma complexa rede burocrática
intermediária composta de duas classes de
representantes do Chefe: há aqueles que ainda se
encontram no andar térreo entre os vivos e milhares de
outros que já habitam o andar superior. O que é
crucial é que a pessoa seja devidamente cadastrada por
uma instância burocrática devidamente autorizada e que
possui a chave da porta do andar superior. Fora dessa
instância não há salvação. Oração
de uma criança: “Que os maus não sejam tão maus e
que os bons não sejam tão chatos. Amém.” Estória
que me contaram: “Havia certa vez um homem que dizia
nome de Deus. Quando o coração lhe doía por uma criança
que chorava, ou um pobre que mendigava, ele andava até
a floresta, acendia o fogo, entoava canções e dizia as
palavras. E Deus o ouvia... O tempo passou. Voltou à
mesma floresta. Mas não carregava fogo nas mãos. Só
lhe restou cantar as canções e dizer as palavras. E
Deus o atendeu ainda assim. Um tempo mais longo se foi.
Sem fogo nas mãos, sem força nas pernas, não alcançou
a floresta. Mas do seu quarto saíram as mesmas canções
e as mesmas palavras. E Deus lhe disse que sim. Chegou a
velhice. Nem floresta nem fogo ou canções. Restaram as
palavra. E o mesmo milagre ocorreu. Por fim, sem fogo ou
floresta, sem canções ou palavras. Só mesmo o
infinito desejo e o silêncio: e Deus atendeu...” Depois de 45 anos voltei a subir no Castelo. Quando aluno do Seminário Presbiteriano, na década de 50, eu e alguns colegas íamos lá para ver o põr-de-sol. As ruas eram de terra. Não havia casas. Apenas campos e eucaliptos. Em agosto o capim gordura florescia. Cor-de-rosa. Perfumado. O bonde “10” chegava até lá. Fiquei feliz por ter conseguido subir as escadas sem precisar de parar no meio da subida, para tomar fôlego... Lá do alto se vê uma Campinas que eu nunca vira. Vista do alto a cidade é muito bonita. Há uma ilusão de tranquilidade. Lembrei-me dos versos de Tomás Antônio Gonzaga: “São estes os sítios? São estes. Mas eu o mesmo não sou...” Não sou o mesmo. Envelheci. E fiquei diferente. Muito diferente. Parabéns à Prefeitura. E pelo projeto de mapas dos caminhos e lugares que merecem ser visitados. Não consigo não dar um palpite... Sugiro um mapa das árvores a serem visitadas: julho, ipês rosa. Agosto, ipês amarelos. Setembro, ipês brancos. Novembro, flamboyants. Acho que o Instituto Agronômico poderia ajudar. Poderia até, ele mesmo, conseguir patrocínio para os Mapas das Árvores, a serem distribuídos pelas escolas, clubes, igrejas. Amar as árvores faz parte da cidadania. (Correio Popular, 20/07/2003)
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