Quarto de badulaques (XXIX) 


No Paraíso não havia nem templos e nem altares. Como o Paraíso foi o jardim plantado por Deus, jardim onde se encontravam todas as coisas boas sonhadas pelo Criador, concluímos que os templos e os altares não se encontravam entre os seus sonhos. Não eram objetos do seu desejo. Se ele tivesse sonhado um templo ou altar, é certo que ele os teria feito. Segundo o que os religiosos acreditam, templos e altares são a casa de Deus. Deus mora lá. Reza feita na igreja é mais poderosa. É por isso que os piedosos fazem o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja. No Paraíso não havia templos e altares porque Deus estava misturado com todas as coisas. Sua casa não era uma casa de quatro paredes. Eram as árvores, as flores, os frutos, as fontes, o vento... O poema bíblico da criação diz que Deus passeava pelo jardim ao vento fresco da tarde... Deus é uma palavra para ser calada, proibida de ser dita. Por isso os judeus eram proibidos de dize-lo. O nome Deus, para eles, era um grande silêncio. E de tanto fazer silêncio sobre ele, acabaram por esquecê-lo. Havia uma lenda de que, no dia mais sagrado do ano o Sumo Sacerdote entrava no Santos dos Santos, lembrava-se do nome de Deus e o pronunciava. E o universo inteiro o ouvia. Mas imediatamente todos o esqueciam. Quando se começa a falar o nome de Deus, é certo que se está falando sobre outra coisa que não Deus. Fala-se sobre Deus quando ele foi perdido. Para reencontrá-lo é fácil: basta caminhar em silêncio em um jardim.

Pessoas religiosas fazem longas e penosas viagens, peregrinações, para visitar lugares santos. Não há lugares santos. Dizer que um lugar é santo, que ali o sagrado está mais presente do que em outros, é dizer que há lugares em que Deus está menos presente, como se ele os tivesse abandonado. E isso, a se acreditar nos teólogos, é negar a onipresença de Deus – o que é heresia. O universo inteiro é hóstia. O místico não é o milagre grosseiro: o paralítico que volta a andar, o cego que volta a ver, o ladrão que pára de roubar, seres do outro mundo que aparecem em cavernas ou são pescados do fundo de rios. Milagre é o arabesco da asa de uma borboleta; o vôo do beija-flor; o perfume da magnólia; a flor do trevo; a cachoeira; o arco-íris; uma noite estrelada; o pasto rosa com as flores do capim gordura; a chuva; o canto do sabiá; um caramujo; uma teia de aranha; a amizade.... Milagre são meus olhos, os meus ouvidos, as minhas mãos. Não é preciso fazer peregrinações. Tudo é milagre. O universo é um milagre. Mas aqueles que vendo nada vêem procuram milagres em lugares esquisitos.

Gandhi, profundamente místico, se horrorizava com a sujeira dos lugares sagrados. Senti o mesmo quando visitei Aparecida. O que revelava a alma dos fiéis. Achavam que a Santa estava dentro da Basílica mas não nos pátios. No interior da Basílica silêncio, preces balbuciadas, genuflexões, sinais da cruz. Fora da Basílica, sujeira. Eles não sabem que a limpeza é um ato de reverência. Porque, a se acreditar na iconografia católica, a capa azul de Nossa Senhora cobre o mundo. E toda sujeira que se faz é lixo depositado na sua capa.

Você não é bobo. Não acredita em qualquer coisa. Sabe distinguir o possível daquilo que é mentira. Eu lhe digo que no meu sítio há uma raça de gansos verdes de três pernas que botam ovos quadrados. Você não acredita. O seu filho lhe diz que no seu quarto há um elefante cor de rosa soprando bolinhas de sabão verdes. Você não acredita. Ou o menino está fazendo uma brincadeira ou ficou louco. A inteligência “testa” as idéias para saber se elas são dignas de crédito. Agora me explique: por que é que, quando se entra no campo da religião, as pessoas estão prontas a acreditar em qualquer coisa que uma outra pessoa lhe diz? Será que, para se ter sentimentos religiosas é preciso abandonar a inteligência?

Carlos Rodrigues Brandão, antropólogo apaixonado pelo povo simples, apaixonou-se pela Espanha e escreveu um livro lindíssimo cheio de fotografias de lugares abandonados, casas de pedra, aldeias quase vazias, campos, caminhos, gente rústica: Aldeas: Escritos e Imaxes da Galicia Tradicional (Editorial Toxosoutos). O povo espanhol é muito religioso e ligado a milagres. Pois o Brandão me relatou que um velho camponês lhe descreveu um milagre: o santo foi decapitado. Mas mesmo decapitado ele se curvou, apanhou sua cabeça e a beijou. “Mas como é isso possível”, lhe perguntou o Brandão, “que um corpo sem cabeça, só pescoço, beije a sua cabeça?” O camponês o olhou espantado, certamente perplexo de que um professor universitário fosse tão estúpido para coisas da fé, e lhe deu a explicação definitiva: “Pero Señor, en esto precisamente está el milagro!”

“Manhã de domingo. Jardim. A menininha chorava Queria chupar um sorvete. A mãe dizia que ‘não’. As roupas e o jeito diziam que eram pobres. Um senhor, compadecido da dor da menininha, ofereceu-se para comprar-lhe o sorvete. A menininha respondeu: ‘Não adianta. A gente, além de ser pobre, é crente.’” Foi-me contado pelo Jether Ramalho.

Católicos e Protestantes: quantas lutas, quantos ódios, quantas perseguições, quanto sangue derramado. Há dias vi na televisão um filme terrível sobre a Noite de São Bartolomeu, montanhas de cadáveres ensanguentados, assassinados em nome de Deus. Não devia. Porque eles, Católicos e Protestantes, são primos tão próximos. Moram no mesmo edifício de três andares, propriedade do Senhor Invisível que ninguém jamais viu, à semelhança do “Senhor” do “Castelo” de Kafka. O andar térreo é esse mundo, lugar de transição, efêmero. Os que ali estão, todos nós, estão à espera da residência definitiva onde passaremos a eternidade. Nos porões estão as câmaras de tortura, administradas pelo Diabo, lugar de sofrimento. É claro que o Senhor Invisível, se quisesse, poderia acabar com as câmaras de tortura. Afinal ele é todo poderoso e foi ele mesmo quem as fez, entregando ao Diabo a sua administração. Será que o Diabo é um funcionário de Deus, da mesma forma como eram funcionários do Presidente da República os torturadores do tempo da ditadura? É um assunto a se pensar. No andar de cima estão os céus, lugar de prazeres e felicidade, para onde irão os inquilinos que adoram o Senhor Invisível. Nesse edifício moram Protestantes e Católicos. O que os distingue é a forma como eles vêem o trânsito de influências dentro do prédio. Os Protestantes afirmam que tudo se resolve diretamente com o Senhor Invisível e que a chave para ter acesso ao andar superior é semelhante à chave que Ali Babá usava para abrir a porta da caverna dos tesouros: uma fórmula mágica: Abre-te Sésamo! A fórmula protestante é “Tenho Cristo no coração” ou “Creio em Cristo como meu Salvador.” Os Católicos, ao contrário, dizem que existe uma complexa rede burocrática intermediária composta de duas classes de representantes do Chefe: há aqueles que ainda se encontram no andar térreo entre os vivos e milhares de outros que já habitam o andar superior. O que é crucial é que a pessoa seja devidamente cadastrada por uma instância burocrática devidamente autorizada e que possui a chave da porta do andar superior. Fora dessa instância não há salvação.

Oração de uma criança: “Que os maus não sejam tão maus e que os bons não sejam tão chatos. Amém.”

Estória que me contaram: “Havia certa vez um homem que dizia nome de Deus. Quando o coração lhe doía por uma criança que chorava, ou um pobre que mendigava, ele andava até a floresta, acendia o fogo, entoava canções e dizia as palavras. E Deus o ouvia... O tempo passou. Voltou à mesma floresta. Mas não carregava fogo nas mãos. Só lhe restou cantar as canções e dizer as palavras. E Deus o atendeu ainda assim. Um tempo mais longo se foi. Sem fogo nas mãos, sem força nas pernas, não alcançou a floresta. Mas do seu quarto saíram as mesmas canções e as mesmas palavras. E Deus lhe disse que sim. Chegou a velhice. Nem floresta nem fogo ou canções. Restaram as palavra. E o mesmo milagre ocorreu. Por fim, sem fogo ou floresta, sem canções ou palavras. Só mesmo o infinito desejo e o silêncio: e Deus atendeu...” 

Depois de 45 anos voltei a subir no Castelo. Quando aluno do Seminário Presbiteriano, na década de 50, eu e alguns colegas íamos lá para ver o põr-de-sol. As ruas eram de terra. Não havia casas. Apenas campos e eucaliptos. Em agosto o capim gordura florescia. Cor-de-rosa. Perfumado. O bonde “10” chegava até lá. Fiquei feliz por ter conseguido subir as escadas sem precisar de parar no meio da subida, para tomar fôlego... Lá do alto se vê uma Campinas que eu nunca vira. Vista do alto a cidade é muito bonita. Há uma ilusão de tranquilidade. Lembrei-me dos versos de Tomás Antônio Gonzaga: “São estes os sítios? São estes. Mas eu o mesmo não sou...” Não sou o mesmo. Envelheci. E fiquei diferente. Muito diferente. Parabéns à Prefeitura. E pelo projeto de mapas dos caminhos e lugares que merecem ser visitados. Não consigo não dar um palpite... Sugiro um mapa das árvores a serem visitadas: julho, ipês rosa. Agosto, ipês amarelos. Setembro, ipês brancos. Novembro, flamboyants. Acho que o Instituto Agronômico poderia ajudar. Poderia até, ele mesmo, conseguir patrocínio para os Mapas das Árvores, a serem distribuídos pelas escolas, clubes, igrejas. Amar as árvores faz parte da cidadania.

(Correio Popular, 20/07/2003)