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| Quarto de badulaques (XXIII) |
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Assim
diz a Cecília Meireles: “Foi, desde sempre, o
Mar...” Diz a Cecília? O certo não seria
“disse”? Pois o poema foi escrito há muito tempo,
pertence ao passado... E a Cecília já não vive entre
nós. Vive, encantada, como peixe no fundo do Mar... Não.
O certo é “diz”. Porque as palavras dos poetas são
eternas. São ditas sempre no presente. O tempo não
pode com elas. Pode ser que minha memória me falhe –
amigos têm estado a me advertir de que estou repetindo
coisas que já disse. Os velhos vão ficando de memória
fraca – há, inclusive, uma triste e curiosa doença
da memória, ela guarda o que foi dito há muitos anos e
não guarda o que foi dito alguns segundos antes –
sobre isso leiam o livro de Oliver Sachs,
O homem que confundiu sua mulher com um chapéu;
tudo o que o Oliver Sachs escreve merece ser lido -
lembro-me de uma conversa com minha tia Cecília, já
velha, era uma conversa sem jeito porque ela ficava
repetindo perguntas que havia feito há menos de um
minuto, mas sua memória se esquecera não só da
pergunta como também da resposta, e era inútil
responder porque a mesma pergunta seria feito de novo -
até me esqueci do que queria dizer, o que talvez seja
uma prova de que meus amigos estão certos –
lembrei-me, remexendo a minha memória não me lembro de
que a Cecília tenha usado jamais a palavra Deus –
muito embora os seus poemas estejam perpassados do
sentimento de assombro ante o Grande Mistério que nos
cerca. E que metáfora mais bela para o Grande Mistério
pode existir que o Mar, que desde sempre foi? Lá está
ele, enorme, sem fim, sua superfície azul escondendo os
mistérios das profundezas! Silencioso, o Mar não
revela os seus segredos. Sem nada saber, só nos resta
ver e sonhar. E ficamos a imaginar o que estará lá no
fundo! E a nossa imaginação coloca nas profundezas do
Mar Sem Fim os seres que nadam em nosso pequeno mar
chamado alma! Toda alma é também um mar. Assim são
todas as palavras que se dizem sobre Deus. Tolos, os
homens acreditam que as palavras que se dizem sobre o
Mar Sem Fim revelam o seu mistério. Alguns há,
atrevidos, que chegam a dizer que um Peixe Dourado, saído
do fundo do mar, lhes contou os segredos... E andam por
aí a espalhar as fantasias das suas almas como se
fossem a verdade de Mar Sem Fim. (E por falar em Peixe
Dourado, você sabe a razão por que os cristãos
comem peixe na semana santa? Por favor, não repita a
bobagem de que é por que carne de vaca tem sangue, e é
como se estivéssemos bebendo o sangue e comendo a carne
de Cristo. Pois não foi o próprio Cristo que disse que
era necessário que comêssemos sua carne e bebêssemos
do seu sangue? Então, a razão deve ser outra... Ou será
que você come peixe sem saber por que?... ). Certo está
o Alberto Caeiro que diz: “Pensar em Deus é
desobedecer a Deus. Porque Deus quis que não o conhecêssemos.
Por isso se nos não mostrou. Se ele quisesse que eu
acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo e
entraria pela minha porta dentro dizendo-me: Aqui
estou!” Com o que concorda Walt Whitman: “Eu sou curioso sobre todas as
coisas e não sou curioso acerca de Deus. Não há
palavra capaz de dizer quanto eu me sinto em paz perante
Deus e a morte.” Emily Dickinson, mulher frágil
dotada de asas, tinha um delicado senso do Mistério.
Mas, por isso mesmo, por sentir-se assombrada pelo Mistério
que nos cerca, desprezava aquilo que sobre ele diziam os
religiosos. “Alguns guardam o Domingo indo à Igreja -
Eu o guardo ficando em casa - Tendo um Sabiá como
cantor - E um Pomar por Santuário. - Alguns guardam o
Domingo em vestes brancas - Mas eu só uso minhas Asas -
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja - Nosso pássaro
canta na palmeira./ - É Deus que está pregando,
pregador admirável - E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final - eu o
encontro o tempo todo no quintal.” Mas, afinal de
contas, o que é que o Sabiá diz com o seu canto? Nada.
Canto de Sabiá não é pra ser compreendido. É pra ser
amado. Bem disse o avô Celestino, lá das bandas do
Manoel de Barros, que “Deus é assunto delicado de
pensar; faz conta um ovo: se apertamos com força
parte-se; se não seguramos bem cai.” Tantas coisas
loucas os homens pensam sobre Deus. Esses tais se
parecem com um Tico-tico que me visita sempre. Pois ele
se assenta no parapeito da janela e fica a bicar o
vidro. Se lhe perguntássemos da razão por que bica o
vidro ele nos responderia: “O que é vidro? Não estou
bicando vidro. Bico esse Tico-tico à minha frente,
invasor do meu espaço. Mas o danado é esperto. Ele
sempre advinha onde vou bicar e se defende. O meu bico
sempre bate no bico dele. Ele parece nada sofrer. Mas o
meu bico está doendo...” Pobre Tico-tico. Ele não
sabe o que são espelhos. Assim são os homens: vêem o
seu rosto refletido nas águas do Mar Sem Fim e pensam
que a imagem que vêem é o rosto do Senhor do Mar,
olhando para eles. Como o Tico-tico, eles não se dão
conta de que estão vendo sua própria imagem,
refletida. Se você quiser saber como é a alma de uma
pessoa, peça-lhe falar sobre o seu Deus. Tudo o que ela
disser sobre o seu Deus ela estará falando sobre si
mesma. Pessoas vingativas têm um deus vingativo. Como
disse Bachelard, para se acreditar no inferno é preciso
ter muitas vinganças a realizar. Pessoas que se
deixariam comprar por bajulações e favores têm um
Deus que se deixa comprar por bajulações e favores...
Acham que isso é normal. Pessoas com alma policial têm
um Deus carrasco... Pessoas que amam a música têm um
Deus que é música... Pessoas que amam jardins têm um
Deus jardineiro... Cliquei
o botão do controle remoto da televisão e me vi dentro
de um enorme templo, completamente lotado. O programa se
chamava, se não me engano, O
culto em sua casa. O pregador dizia aos fiéis: “A
dúvida é a principal arma do diabo”. Ele não teve coragem de dizer tudo o que essa afirmação piedosa
contém. Se ele está no púlpito, lugar sagrado, deve
ser bispo ou missionário. Sendo bispo ou missionário,
tem acesso privilegiado a Jesus: o Peixe Dourado lhe
revelou pessoalmente os mistérios do Mar... Fala
diariamente com Jesus. Segue-se que aquilo que ele fala
são as palavras de Jesus. Assim, se alguém tem dúvidas
sobre o que ele diz, está duvidando de Jesus. Conclusão:
quem duvida do que ele diz está enredado nas artimanhas
do diabo... Penso o contrário: que as convicções são
as principais armas do diabo. As maiores atrocidades da
história da humanidade, religiosas e políticas, foram
cometidas por pessoas que não tinham dúvidas sobre a
verdade dos seus pensamentos. As pessoas que duvidam, ao
contrário, são tolerantes. Sabem que o que pensam não
é a verdade. Seus pensamentos não passam de
“palpites”. Por isso ouvem o que os outros têm a
dizer, pois pode ser que a verdade esteja com eles... As
religiões ocidentais, o Cristianismo e o Islamismo, se
construíram sobre certezas. Sempre tiveram medo da dúvida.
Sobre os que duvidavam, colocaram a ameaça das
fogueiras ou do inferno. E isso deixou marcas tão
profundas nas pessoas religiosas que, ainda hoje, elas têm
medo de duvidar. O que significa: elas têm medo de
pensar. Contentam-se em repetir o que lhes foi dito.
Porque é com a dúvida que o pensamento se inicia. Mas
eu não respeitaria um Deus que, havendo nos dado asas
nos proibisse de voar. Contra o autoritarismo das
certezas só há um remédio: o humor. Como o filme Deus
é brasileiro. Deus, cansado de ser Deus, resolveu
tirar umas férias. Viajaria por uma outra galáxia. Mas
teria de deixar uma outra pessoa no seu lugar, durante a
sua ausência. Lá de cima escolheu o homem que mais
competência teria para assumir suas funções. Assim,
baixou sobre essa terra e pôs-se a procurá-lo. Depois
de muitos desencontros, finalmente o encontrou. Sua
busca havia chegado ao fim! Poderia iniciar suas férias!
Que nada! O dito homem que ele escolhera era ateu.
Acontece conosco o que acontece com os galos. Quer o
galo cante, quer não cante, o sol sempre aparece...
Assim, podemos cantar ou não cantar, desafinar ou
inventar um canto dodecafônico, o Sol nem liga. Como
diz a Cecília: “Foi, desde sempre, o Mar”,
indiferente ao que pensamos... (Correio Popular, 04/05/2003)
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