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| Quarto de badulaques (XXII) |
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Dez e meia da noite. Cruzamento
da rua Benjamin Constant com a Avenida Júlio de
Mesquita. Duas crianças, um menino e uma menina. Entre
sete e oito anos de idade. Vendiam balas de goma com
olhos tristes. Minha vontade era levá-los para minha
casa, servir-lhes uma sopa, tomar conta deles. Não fiz
nada disso. O sinal ficou verde e acelerei o carro. Mas
as duas crianças dormiram comigo, acordaram comigo e
ainda estão comigo. Mas não é proibido o trabalho às
crianças? Como celebrar a páscoa, em meio a risos,
bacalhoadas e ovos de chocolate, quando há crianças
assim? Na páscoa
judaica as comidas eram servidas com ervas amargas.
Absinto, losna... Acho que deveríamos misturar losna
com nossas comidas e bebidas. É preciso beber o amargo
da vida para se ter noção da doçura, ausente,
distante... Paul Tillich, em um dos seus sermões,
contou a seguinte história: “Nos julgamentos por
crimes de guerra em Nurenberg, compareceu uma testemunha
que havia vivido por um tempo num túmulo num cemitério
judaico. Era o único lugar onde ele e muitos outros
podiam viver, escondidos, depois de haverem escapado das
câmaras de gás. Durante esse tempo, ele escreveu
poesia, e um dos seus poemas era a descrição de um
nascimento. Numa sepultura próxima, uma jovem mulher
deu à luz um menino. O coveiro, de oitenta anos,
envolto num lençol de linho, foi o parteiro. Quando o
menininho recém-nascido deu o seu primeiro grito, o
velho homem orou: ‘Grande Deus, será que Tu
finalmente nos enviaste o Messias? Pois quem, além do
Messias, poderia nascer numa sepultura?’” “O
que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de
ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais
alegre no meio da tristeza! Só assim, de repente, na
horinha em que se quer, de propósito – por
coragem.” Guimarães Rosa. Um
amigo querido do Rio de Janeiro está passando por
momentos doloridos. Contou-me do seu sofrimento. Seu irmão
está vivendo talvez os seus últimos dias numa cama de
hospital. Mas a tristeza do meu amigo e da família é
acrescida pela insensibilidade arrogante do médico que
cuida do seu irmão. Meu amigo, professor universitário,
quer ver os resultados dos exames de laboratório. Eu
também quereria. Pois o dito médico determinou que
somente ele, médico, pode ter acesso aos exames. A família
permanece na ignorância. Esse é um dos horrores possíveis
no caso de uma internação hospitalar: a perda dos
direitos sobre o próprio corpo. Fica à mercê de um
outro, desconhecido. Infelizmente ainda há médicos
que, possuídos de arrogância e onipotência, se julgam
donos do doente. Pois eu acho que quem é dono é o
doente, dono dos procedimentos médicos que ele pode
aceitar ou rejeitar, dono das informações que ele
passa ao médico, se assim o desejar. Esta é uma questão
muito séria e julgo que os médicos deveriam estudá-la,
como parte da ética médica. O doente, por ser doente,
não está reduzido à condição de um nabo cozido. Ele
continua a ser um ser humano, dono de si mesmo. E se ele
não está em condições, são os seus seres queridos
que administram os seus direitos e cuidam para que eles
não sejam transgredidos. Um comportamento assim seria
objeto de punição se acontecesse em qualquer outra
situação. Até os criminosos são protegidos pela lei.
Imagino que Kafka deve ter se inspirado numa situação
hospitalar para escrever O
Julgamento. É preciso que os médicos estejam
conscientes de que eles não são donos do doente, mas
servos do doente. Assim, uma das condições essenciais
para o exercício da medicina é a humildade.
Comportamentos como esse que denuncio não são a regra.
Mas existem. Por isso a classe médica tem de estar
atenta. Os médicos não estão imunes a deformações
de caráter. Como
é que uma coisa ruim vira coisa boa, e só é boa se
continuar a ser ruim? Não, não pensem que endoidei.
Vou contar o que aconteceu. Esses dias de outono, céu
muito azul, um friozinho gostoso, as cores mais
brilhantes... Me lembrei, com saudade, da minha infância
em Minas. Lembrei-me que, quando chegava o mês de
julho, mês de férias, era o tempo de tomar Emulsão de
Scott. Para quem não sabe, Emulsão de Scott é um
fortificante à base de óleo de fígado de bacalhau.
Branco, pastoso, difícil de engolir, malcheiroso, gosto
ruim. Vinha a minha mãe com a colher de Emulsão de
Scott numa mão e uma tampa de laranja na outra, prá
tirar gosto e cheiro. Pois não é que fiquei com
saudade da Emulsão de Scott! Pensei, então, que eu
gostaria de tomar Emulsão de Scott para voltar, na
imaginação, à minha infância. Fui à farmácia,
comprei um vidro e preparei-me. Mas, oh! decepção! Os
laboratórios estragaram a emulsão. Deixou de ser
branca. Está cor de rosa! E o que fizeram com o gosto
ruim de óleo de fígado de bacalhau? Estragaram-no com
sabor doce de morango! Fracassou minha programada volta
à infância! Porque Emulsão de Scott, para ser boa,
para ter poderes mágicos, tem de ser ruim... Os
evangelhos nos contam de um homem endemoninhado que
vivia entre os sepulcros, uivava noites a dentro,
cortava-se com pedras afiadas e era tão forte que
arrebentava todas as correntes com que tentavam prendê-lo.
Jesus se aproximou dele e lhe perguntou: “Qual é o
seu nome?” Ao que ele respondeu: “Meu nome é Legião,
porque somos muitos.” Possessão
demoníaca é o nome que se dá a essa coisa
horrenda, o poder de forma pura, poder pelo poder,
divorciado do amor, como era o caso daquele homem. Esse
fenômeno se torna mais visível quando, ao invés de um
homem, é um Estado que é possuído pela Legião de demônios,
tal como acontece no momento com o Estado
norte-americano. Não foram encontradas armas de destruição
em massa no Iraque. Agora o monstro se volta contra a Síria
com dentes arreganhados. Uma das características do
poder é que ele jamais se satisfaz. O poder tem sempre
uma fome de mais poder. Essa foi uma característica de
todos os Estados conquistadores na história da
humanidade. E foi essa fome sem fim pelo poder que
acabou por destruí-los. Usei
de propósito a expressão Estado
norte-americano para não falar simplesmente em Estados Unidos. E isso porque aquele país está cheio de pessoas
honestas e íntegras que lutam por ideais altos de
fraternidade e justiça. Conheci muitas delas nos anos
em que lá vivi. Tenho recebido correspondência de
amigos norte-americanos expressando o seu horror e
vergonha ante o que está acontecendo. Assim, é
importante não identificar Estado, representante dos
interesses militares e econômicos, com o povo. Tive
uma experiência de felicidade guiando meu carro em
Piracicaba, na avenida que acompanha o rio. Fim de tarde
de outono. À esquerda, um parque com gramados verdes e
árvores. De repente, um lago coberto com Ninféias!
Ninféias eram as flores favoritas de Monet e sobre suas
telas Bachelard escreveu um ensaio tão belo quanto as
telas do pintor. Pois lá estavam elas, inesperadas e
maravilhosas. Eu nunca havia visto tantas Ninféias
abertas e tão grandes! Um casal de frangos d’água
avermelhados andava sobre suas folhas que flutuavam
sobre a superfície da água. Parei o carro e fui me
assentar à beira do lago. Não havia ninguém mais lá.
Ao contrário, havia muita gente se divertindo nos
parquinhos a curta distância. Lembrei-me de que, no Admirável Mundo Novo, de Huxley, as crianças eram ensinadas a
odiar as belezas da natureza porque elas nos dão
prazeres gratuitos, o que é ruim para a economia. Mas
eram ensinadas a amar as coisas artificiais que se
constróem no campo, como clubes e parques aquáticos,
porque isso é bom para a economia. Pode um mar tranqüilo
competir com a adrenalina do jet-ski? Ou vacas pastantes competir com o barulho das motocicletas? “Me
dá o teu contente que eu te dou o meu”: foi isso que
disse um menininho à sua mãe, que estava brava. Agora
virou título de um livro só com tiradas de crianças.
Ah! As crianças, são muito mais inteligentes e poéticas
do que se imagina. O livro foi organizado pela Cristina
Mattoso, publicado pela Verus Editora e ilustrado com
desenhos de adolescentes da Fundação Síndrome de
Down. Obras
produzidas pelas crianças do Núcleo Educacional Pão
da Vida, do Centro Corsini vão estar na mostra O
Ser da Criança, na Oficina do Estudante, Av.
Brasil, 601. Coordenação de Egas Francisco e Maria
Casarin. Até o dia 17/05. (Correio Popular, 20/04/03)
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