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| Quarto de badulaques (XXI) |
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As
grandes tragédias têm o poder de trazer os homens de
volta à razão. Assim aconteceu ao final da Segunda
Guerra Mundial. Aterrorizadas com o seu próprio poder
de destruição as nações resolveram se unir
democraticamente e criar um fórum mundial no qual os
conflitos entre elas seriam resolvidos de forma pacífica
e racional. Essa foi a origem da Organização das Nações
Unidas (ONU). Mas, para que uma organização democrática
exista, é preciso que haja equilíbrio de poder entre
os seus membros. Uma organização democrática entre
lobos e cordeiros jamais poderia existir ainda que os
cordeiros fossem em número maior que os lobos, sempre
ganhassem as votações e estivessem sempre com a razão.
É hora de recontar a fábula do lobo e do cordeiro
porque ela nos ajuda a compreender o momento. Estavam
o lobo e cordeiro a beber num riachinho, quando o lobo
assim falou ao cordeiro: “Por que sujas a água que
estou bebendo?” Retrucou o cordeiro: “Como posso eu
sujar a água que o senhor está bebendo se sou eu que
estou abaixo na correnteza? A água passa primeiro pelo
senhor e só depois chega a mim...” O lobo não se
alterou com as evidências. “Sim, de fato. Mas você
sujou a minha água no ano passado.” Respondeu o
cordeiro: “Isso não pode ser, senhor lobo, pois tenho
apenas seis meses. Não havia ainda nascido no ano
passado.” O lobo arreganhou os dentes e gritou: “Se
não foi você foi o seu pai.” E devorou o cordeiro...
Uma sociedade democrática entre lobos é possível,
porque existe equilíbrio de poder entre os lobos. Uma
sociedade democrática entre cordeiros é possível,
porque existe equilíbrio de poder entre os cordeiros.
Mas não é possível uma sociedade democrática onde
haja lobos e cordeiros. Os lobos sempre devorarão os
cordeiros... A fábula não se aplica bem à situação
que estamos vivendo porque Saddam não é um cordeiro. O
fim do cordeiro na fábula é trágico. Mas não existe
tragédia alguma no fim de Saddam. Saddam não é um
cordeiro inocente. É um ditador cruel e sanguinário.
Talvez um animal que o representasse melhor seria uma
hiena ou uma cascavel. Eu jamais participaria numa
demonstração pela paz em que houvesse fotografias
suas, como se ele fosse vítima ou mártir. A tragédia
não está na sua queda. A tragédia está no fato de
que a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e
Inglaterra representa o fim das Nações Unidas. Foi a
ONU que foi invadida e morta primeiro. Vivemos o fim da
esperança de uma ordem política mundial em que os
conflitos seriam resolvidos pela razão e os fracos não
seriam presa dos fortes. Porque o que Estados Unidos e
Inglaterra fizeram foi dizer: “Nós somos fortes. Não
nos submetemos à ONU. Ignoramos a Carta que nós mesmos
ajudamos a criar! Não há razões para nos submetermos
à vontade dos cordeiros.” Parece que a função da
ONU, daqui para frente, e se ela sobreviver, vai se
reduzir a uma função humanitária: tentar curar as
feridas causadas pelos lobos. Mas será totalmente
impotente para colocar limites à fome dos lobos. Talvez
chegue o momento em que os lobos se voltarão para a
Amazônia sob a alegação de ser ela um patrimônio da
humanidade. O
ofício de escritor me traz grande felicidade. Recebo
cartas e e-mails de crianças, jovens e adultos me
dizendo que as coisas que escrevo lhes dão prazer e os
ajudam a viver. Felicidade também encontro nas reações
das pessoas que, sem concordar comigo, manifestam a sua
discordância de maneira inteligente e delicada. Porque,
afinal de contas, não é possível que todos concordem
com tudo o que escrevo. Eu mesmo, ao ler coisas que
escrevi no passado, torço o nariz em desaprovação...
Da. Marly Amoroso Lima escreveu um lindo artigo
contestando aquilo que eu disse na minha crônica Fora
da beleza não há salvação. Ela escreveu como
resposta: Fora do amor não há salvação! Mas acho, Da. Marly, que estamos
de acordo... O amor nunca é simplesmente amor; é
sempre amor a alguma coisa. Segundo os poemas sagrados
Deus criou o universo para plantar nele um jardim. Por
que um jardim? Porque um jardim é belo. Eu amo uma
sonata de Mozart porque ela é bela. Mas confesso não
conseguir amar o rock pauleira. Eu amo um poema da Cecília
Meireles porque ele é belo. Mas não amo as descrições
de crimes que os jornais publicam. Quem ama tudo é
porque não ama nada. Quem ama tudo não sabe
discriminar entre as coisas que são dignas de serem
amadas e aquelas que não são. Santo Tomás de Aquino,
num dos seus textos, faz a seguinte afirmação, que é
totalmente ortodoxa: “Deus e os salvos, dos céus,
contemplam os condenados nos estertores do seu
sofrimento no Inferno, para que a sua alegria seja completa.” Não há mágica que me faça
amar um Deus que tem prazer em contemplar o sofrimento
dos homens. Para mim uma afirmação dessas é um sacrilégio,
uma blasfêmia! Deus não ama a feiura. Deus não ama o
sofrimento. O que Deus deseja é, precisamente,
transformar a feiura em beleza, transformar o sofrimento
em alegria. Há uma diferença crucial entre a maneira
clássica dos gregos de compreender o amor e a maneira bíblica
de compreender o amor. Eros,
o amor sobre que Sócrates falava, era amor pelo Belo,
simplesmente. Para ele era impossível amar o feio. O
Novo Testamento, entretanto, não usa a palavra eros
para se referir ao amor. Usa a palavra agape
(pronuncia-se agápe,
paroxítona). Agape é amor por algo que é feio, algo sem valor. “Então”,
concluirão, “isso contraria o que você, Rubem Alves,
disse!” Não contraria não. O escultor ama o bloco de
mármore bruto por causa da beleza da Pietà que está dentro dele. E o seu trabalho de escultor é uma
luta contra o mármore bruto para arrancar a beleza que
ele sepulta. Exoupèri dizia que “o deserto é belo
porque nele se esconde uma fonte”. E o educador – um
outro tipo de escultor - ama os adolescentes terríveis
e violentos por saber que em algum lugar da sua alma
vive uma beleza adormecida. Deus ama os homens feios
para torná-los belos! Assim, Amor e Beleza são irmãos.
No Amor a alma tem saudades da Beleza. E toda saudade é
doída. Mas na Beleza a alma abraça o objeto do seu
amor. E o Amor se realiza... O
ofício de escritor me traz grande infelicidade. E isso
porque há pessoas que, sem ter respeito pelo escritor e
por aquilo que ele escreveu, se dedicam não só a
destruir a beleza do texto literário como também a
destruir o próprio escritor. Foi o que fez o senhor
Euclides Teixeira, numa carta que escreveu para o Correio
do Leitor. Depois de elogiar o texto de Da. Marly
– merecedor de todos os elogios – ele, sem me
conhecer, diz: “Me causou pena ler o artigo de Rubem
Alves. Pena de um crente, agora descrente, de alguém
que perdeu a fé e, hoje, vive amargurado.” Ele tem
pena de mim... Pena é um sentimento feio. Para se ter
pena de alguma pessoa é preciso, primeiro, sentir-se
superior a ela. Quem tem pena olha de cima. Olha e vê o
outro como um infeliz, miserável, desgraçado. Ter pena não se encontra entre as virtudes teologais por ser um
sentimento destituído de amor e arrogante. E nem é
mencionado por Paulo no seu famoso poema ao amor, em I
Cor. 13. Ter pena é oposto ao amor. Não é eros
e também não é agape. Que sentimento é esse, senhor Euclides, que o senhor tem
para comigo? De uma coisa estou certo: amor não é. O
senhor honra o amor com as palavras e, ao mesmo tempo o
nega com a caricatura que faz de mim? Quando o senhor
escreveu o que escreveu o senhor estava me amando? O
senhor me classifica de descrente.
O apóstolo Paulo diz que houve um tempo em que ele
pensava como menino. Mas depois que cresceu, deixou as
coisas de menino. Cresci. Deixei as crenças de menino.
Outros ficam com elas a vida inteira. Se o senhor quiser
dizer que eu não acredito no que disseram os teólogos,
papas e concílios, de acordo. Sou um completo
descrente. Dar crédito ao que dizem os homens sobre
Deus é idolatria. Foram precisamente os crentes que
fizeram a Inquisição. No meu artigo eu digo que amo
aquilo que os artistas, músicos, poetas, pintores,
escultores, arquitetos, fizeram com os poemas sagrados,
mas não o que deles fizeram os Teólogos & Cia. O
senhor tem a crença dos artistas? O senhor diz que eu
perdi a fé. Não, senhor Euclides. A fé de alguns é
acreditar que Deus tem um inferno para o qual envia os descrentes
– eu! Nisso, de fato, eu não acredito. Essa crença
é uma violência à afirmação de que “Deus é
amor”. Eu creio que o universo é belo porque nele
existe um jardim. Se o senhor estranhar eu lhe lembrarei
que Deus criou o universo para plantar nele um jardim.
Para terminar, o senhor me descreve como amargurado. Ah!
Senhor Euclides, isso é que não existe em mim. Nenhuma
amargura. Acho a vida maravilhosa, gosto de brincar, de
amar, de música, de poesia, de escrever, de banho de
cachoeira, de banho de chuveiro, de café com leite pão
e manteiga, de balançar... Esses são meus alegres
sacramentos. É sobre eles que escrevo. Quais são os
seus? O
místico russo Nicolas Berdjaev disse que no Paraíso não
havia nem ética, nem ciência, nem política: só estética.
Deus nos criou para a Beleza. E foi por isso que nos
encheu de Amor. Para que dela não nos esquecêssemos.
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