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| Quarto de badulaques (XX) |
Sobre
política, paixão e casamento: Os apaixonados vivem num mundo
maravilhoso de fantasia amorosa.
Concordam com o Tom Jobim: “O
nosso amor vai ser assim, eu prá você,
você prá mim...” Eles acreditam firme e
honestamente que o casamento será a realização da sua paixão
em toda a pureza da fantasia. Mas todo mundo sabe, menos os
apaixonados, que na
vida não acontece assim. As rotinas do dia a dia não combinam
com fantasias amorosas. Casados os apaixonados
na casinha pequenina, eles terão agora de lidar com uma
porção de coisas banais e irritantes. Por exemplo,
o pingo de xixi na tampa da privada... Alguém me contou
que, na Alemanha, encontrou nos banheiros cartazes proibindo que
os homens fizessem xixi da maneira clássica, macha, de pé. A
ordem é fazer xixi assentado, como as mulheres. Fazer xixi
assentado pode ser um golpe na auto-imagem machistas dos homens
mas, sem dúvida, é uma solução para as tampas de privada
molhadas com urina. Milan Kundera, no seu maravilhoso livro Os
testamentos traídos, faz um comentário sobre Madame
Bovary, de Flaubert, indicando que naquele livro o autor fez
uma descoberta “por
assim dizer, ontológica: a descoberta da estrutura do momento
presente” que é feito pela “coexistência
perpétua do banal e do dramático sobre o qual nossas vidas estão
fundamentadas”. Muitos momentos terríveis nascem de
coisas absolutamente banais, como uma tampa de privada
respingada de xixi... Uma tampa de privada respingada de xixi é
um golpe definitivo na imagem do príncipe encantado pelo qual a
esposa estava
apaixonada... Outras coisas banais que acabam com o sonho romântico:
a mancha de pasta de dentes na pia do banheiro, os pratos sem
lavar na cozinha, os
programas favoritos de televisão, que revelam a inteligência e
a sensibilidade estética do espectador, marido ou mulher ( mais
terrível que o xixi na tampa da privada é gostar do “Big
Brother”...), a bagunça dos canhotos dos talões de cheque, o ronco ridículo,
os puns, a ironia... Pois
a paixão muito se parece com a política. Há partidos que, à
semelhança dos apaixonados, são feitos com lindas fantasias,
fantasias de integridade ética, de justiça social, de transparência,
de honestidade... É fácil ficar apaixonado por um partido
assim porque, na fantasia ele, o partido,
é o cavalo branco em que cavalga o herói salvador. E a
fantasia continua a ser apaixonante até a realização do
casamento, isso é, até que o partido ganhe o poder. Aí se
descobre que a política real não combina com ideais românticos.
Em um dos seus prefácios ao Capital Marx observa que o que ele
diz nada tem a ver com o caráter dos capitalistas. Os
capitalistas, como indivíduos, podem ser sensíveis, bondosos,
espirituais e, frequentemente, patrocinam a filantropia e
programas de carater social. O problema não está no caráter
moral do capitalista. O problema está no caráter lógico do
jogo que ele joga. Porque o jogo que ele joga é o jogo do
lucro, e no jogo do lucro não há lugar para a bondade. Quem,
no capitalismo, é movido por motivos éticos, perde o jogo e
sai da competição. Sim, sim, é preciso cuidar das questões
sociais, da fome, da miséria. Mas há dívidas pendentes,
acordos com bancos, com o FMI. Faz uns anos fez-se um
plebiscito, acho que patrocinado por setores da Igreja Católica(
me corrijam se estou errado ) sobre se devemos ou não pagar as
nossas dívidas com o capitalismo internacional. As razões éticas
respondem: “Já pagamos. Não devemos, portanto, pagar.” E
assim foi: o resultado esmagador do plebiscito foi que não
devemos pagar. Ah! Como seria maravilhoso comprar e não pagar!
Mas todo mundo sabe o que acontece com aqueles que compram e não
pagam... Muito bem! Decidimos que não vamos cumprir os
contratos assinados nos termos estabelecidos. O resultado? A
vida nacional entra em colapso. Graças à globalização não
vivemos mais na fazenda antiga auto-suficiente que produzia tudo
o de que necessitava. Precisamos importar para que a vida do país
não pare. Mas, porque não pagamos, não poderemos importar.
Ninguém é doido de dar crédito a maus pagadores... Não estou
dizendo que isso é bom ou
é mau. Estou dizendo que é assim. A alternativa que se
abre é juntarmo-nos a alguma tribo de índios...
É isso: enquanto os partidos éticos e idealistas não têm
poder, eles se comportam como os apaixonados. Mas depois que estão
no poder a realidade é outra... Para o casamento há três soluções.
Primeira: abandonar os belos ideais e aceitar as regras do jogo
da realidade. Marido e mulher permanecem juntos por razões práticas.
Segunda: o divórcio que permitirá que se reinicie a busca do
príncipe encantado em outro lugar. Mas com o novo príncipe
encantado vai acontecer a mesma coisa. Ele vai fazer xixi na
tampa da privada... Terceira:
abandonar a política e transformar-se em profeta. Os profetas
de Israel não eram homens de partido. Eram visionários solitários.
Solitários, não tinham poder. Por serem solitários, não
jogavam em nenhum time e eram detestados por todos, tanto os da
direita quanto as da esquerda
- o que, frequentemente, os levava à morte. Acho que
esse é o caso de Jesus. Muito embora certos teólogos insistam
em fazer de Jesus um precursor do socialismo,
como se socialismo e Reino de Deus fossem a mesma coisa,
o fato é que Jesus não tinha o menor interesse por política.
Ele sabia que política era um jogo com dados viciados. O poder
corrompe sempre, sempre... No poder todos os partidos jogam o
mesmo jogo – com diferenças de estilo, é claro.. A solidão
do profeta o torna fraco mas, em compensação, lhe dá
liberdade para dizer a verdade, sem atentar para os interesses estratégicos momentâneos do
partido e nem para sua segurança pessoal. Por isso os profetas
são seres puros. Um dos profetas que mais amo é Albert Camus:
“Cada vez que ouço
um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos
que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som
humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas
mentiras.” E
Guimarães Rosa: “Sou
escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em
minutos. Eu penso na ressurreição do homem.” Quem quiser
ficar casado ou permanecer no partido tem de se conformar: todos
os príncipes encantados fazem xixi na tampa da privada. A
alternativa é a solidão profética. Ou poética.
O sonho da natureza: Penso que a natureza sonha.
Montanhas, florestas, mares, ares, rios, lagos, nuvens,
cachoeiras, animais, flores – todos sonham um mesmo sonho.
Sonham que chegará o dia em que os seres humanos desaparecerão
da face da terra. Pois os dinossauros não desapareceram?
Quando isso acontecer será a felicidade! A natureza
estará, finalmente, livre dos demônios que a destroem. A
natureza, então, tranquilamente, sem pressa, se curará das
feridas que nós lhe causamos.
Sobre a recuperação dos criminosos:
Todos sabem que as penitenciárias são escolas do crime.
Não se sabe de um criminoso que tenha sido reformado pelo
sistema penitenciário. Juntando-se criminosos num mesmo lugar
é certo que pensarão maneiras mais eficientes de realizar o
crime. Da mesma forma como torcedores de um mesmo time, juntos,
vão falar sobre o seu time. Um sequestrador recém capturado
confessou que foi numa penitenciaria, onde se encontrava
cumprindo pena por crime pequeno, que aprendeu as vantagens e técnicas
do crime grande, os sequestros. É preciso notar que os
criminosos não são criminosos só por razões práticas, como
dinheiro e poder. Eles são criminosos também por razões estéticas.
Todos os homens desejam ser figuras lendárias, objetos de
admiração, espanto ou mesmo de horror. A felicidade do
criminoso quando a sua fotografia aparece na primeira página do
jornal! Há um
enorme prazer em se sentir temido e odiado. O horrendo pode ser
belo. Também os criminosos se alimentam de fantasias narcísicas!
Na Idade Média havia uma forma curiosa de punir os
criminosos. Eles eram colocados em pelourinhos com cabeças e mãos
presas numa peça de madeira. O pelourinho ficava numa praça pública.
Ali ficavam os infratores, expostos ao riso e zombaria do povo.
Essa situação de ridículo, imagino, se constituia num
poderoso antídoto a quaisquer imagens heróicas que os
criminosos pudessem ter de si mesmos. Não há narcisismo que
resista à zombaria. Aí fiquei pensando se não haveria uma
forma moderna de se aplicar
esse castigo pedagógico e inspirado na psicanálise. O medo do
ridículo é capaz de desencorajar muitas ações. Já
imaginaram? Poderia haver praças dedicadas aos políticos
corruptos, aos sequestradores, aos
pedófilos, aos assassinos, etc., etc. Lá ficariam eles
expostos ao riso público e, preferivelmente, com as partes
pudendas à mostra. Se essa proposta é inviavel, por razões práticas
( não há praças em número suficiente, o número dos
criminosos é muito grande ), as autoridades competentes
poderiam colocar na Internet um “site” com o nome de
“Pelourinho”. Alí poderíamos ver a cara dos criminosos nas
mais variadas versões, ao lado de suas partes pudendas e crimes
cometidos. Aí o povo começaria a rir deles. Quem sabe os
criminosos se regenerariam, por vergonha...
“Consulte sempre um advogado. Você tem direitos.
Consulte sempre um psicanalista. Você tem avessos...”
Esclerose
múltipla é uma
doença progressiva e incurável. As pessoas vão ficando cada
vez mais debilitadas fisicamente sem perder a consciência.
Cansaço, dormência nas pernas, braços, pés e mãos, distúrbios
de visão. Os planos de saúde não cobrem os medicamentos e
tratamento da E.M. No Brasil, a Associação Brasileira de
Esclerose Múltipla, dedica-se a oferecer aos portadores de E.M.
tratamento médico, fisioterápico e psicológico.
Entidade filantrópica, sem fins lucrativos e reconhecida
como de utilidade pública, não recebe desde 1995 qualquer subsídio
do governo. Se você quiser ajudar, o endereço é: Av. Indianópolis
2752, CEP 04062-003, São Paulo, tel. 11 – 55876050, www.abem.org.br
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