Quarto de badulaques (XVII) 

CRIANÇAS QUE VIVEM DEMAIS: Uma das alegrias que tenho como escritor é que através das coisas que escrevo eu me encontro com pessoas que, de outra forma, eu nunca conheceria. Foi assim que aconteceu com a Dina. Vocês devem se lembrar dela. Era uma anciã... Anciã? Não, ela não gostaria de ser chamada “anciã”. Digamos de uma outra forma: a Dina era uma menina que viveu demais... Pois a Dina era prisioneira de um asilo de velhos dirigido por uma igreja evangélica. Digo “prisioneira” e explico: a religião que controlava a instituição dizia que era preciso que aos velhinhos se impedisse qualquer contato com o “mundo”, pois o “mundo” é o lugar do Diabo, da tentação, da perdição. Nada do “mundo” entrava ali. Mas houve uma falha no seu sistema de segurança: aos domingos ali entrava uma coisa do mundo, um jornal... E a Dina o lia. E ela se ligou comigo através das crônicas que escrevia para minhas netas em que contava como tinha sido minha vida de menino pobre, na roça. Acho que minhas netas não ligaram – afinal de contas o meu mundo de menino lhes era completamente estranho. Mas, para a Dina, o meu mundo era o seu mundo – e essa comunhão se tornou o início de uma amizade. Sua primeira carta, lindíssima, eu a publiquei. No dia seguinte recebi um e-mail de um leitor: “Rubem, até ontem você era o número um. Agora você é o número dois. O número um é a Dina.” A partir desse momento a vigilância sobre a Dina foi redobrada e tentaram mesmo tirar-lhe o jornal de domingo. Nossa correspondência só continuou graças à cumplicidade criminosa da Isabel Ramirez que visitava a Dina e, burlando a vigilância, contrabandeava cartas... A Dina morreu três dias antes de uma festa de aniversário que lhe preparávamos. Pois agora sou surpreendido com cartas de uma senhora que ainda não conheço pessoalmente, tão jovem e tão menina quanto a Dina. Não me revelou a sua idade mas é hóspede de um pensionato para pessoas idosas, em S. Paulo. Convidou-me para um almoço mineiro com tutu e torresmo e até já marcou a data. Vivida, sabe muito bem fazer uso de artimanhas para dobrar-me: “Estou tão velhinha...”, ela diz. “Minhas idéías não são concatenadas. Percebe-se, não? A vida é tão curta que talvez nem haja tempo para eu ter o prazer de conhecê-lo. Estou em contagem regressiva...” E acrescenta uma observação marota: “Tenho certeza de que com esta chantagem sentimental o senhor virá.” E para que eu não me esquecesse. Escreveu num dos seus envelopes: “Há pessoas que são vencidas pelo cansaço”. Sim, da. Maria Aparecida, sua chantagem emocional funcionou. Fui vencido não pelo cansaço mas pelo seu charme! Conta-me coisas deliciosas: “O medo de dormir da criança, Freud explica: ‘Fica comigo que fica mais claro’. Sabe o que eu fazia para que meus filhos dormissem? Catarolava a Berceuse de Brahms. Mas tinha outros métodos para os meus netos. Certa vez, na praia, eles me pediram: ‘Conta a estória do macaco’. Eu começava com voz normal e logo passava para o ralentando e ia até eles dormirem. Há pouco o mais velho (28 anos) perguntou-me: Como termina a estória do macaco? Até hoje eu não sei.... (...) Meu marido vinha cansado, aborrecido, do hospital e na hora de dormirmos a Maria Callas cantarolava a Berceuse e ele dormia sorrindo...” Telefonei para ela. Deixei mensagem na secretária eletrônica. Resolvi, então, procurar a partitura da Berceuse de Brahms que fazia tempo eu não tocava. Achei, comecei a tocar, o telefone tocou, era ela, pedi que ela escutasse, pus o fone sobre o piano e toquei... Foi uma meia hora de conversa deliciosa. Aí ela me disse: “Sabe onde eu estava quando você me telefonou? No correio. Mandei-lhe um presente: uma Maria Fumaça. Comprei uma igual para o meu neto...” Eu disse para a Maria Aparecida que é preciso que ela escreva estas coisas. Que faça um “Diário” com suas memórias. Mas o fato é que ela já está escrevendo para um leitor que foi seduzido por sua matreirice...

 VELHO, ADOLESCENTE, CRIANÇA: Barretos, “Segura, peão...” É isso que a gente pensa ao ouvir o nome “Barretos”. Mas há outras coisas. Conversando com o prefeito, médico, homem da minha idade, contou-me de um projeto que desenvolveram: um espaço de convivência para velhos, crianças e adolescentes. Os velhos contam “causos” de outros tempos para as crianças, ensinam brincadeiras de outros tempos para os adolescentes. E as crianças e adolescentes fazem a mesma coisa com os velhos. Coisa terrível é a segregação: velhos, adolescentes e crianças em curraizinhos separados.

 O MENINO E A DA. IRAHY: Cheguei na floricultura Floríssima e lá encontrei uma senhora – já não era jovem, cabelos brancos, ereta, sorridente. Ela me olhou com uma interrogação curiosa no rosto: “O senhor, por acaso, é o Rubem Alves?” “Sou sim”, respondi. “Mas que coincidência feliz. Eu estava mesmo à sua procura...” Ditas estas palavras ela me mostrou uma folha de caderno. “Meu nome é Irahy. Por muitos anos eu preparei crianças para o exame de admissão, na minha casa. E agora – tenho 93 anos – estou organizando minhas coisas – álbuns de fotografia, coisas dos alunos. E encontrei, entre as coisas que guardei, essa redação de um menino de 10 anos. Acho que o senhor gostará de ler...” Peguei o pepel e comecei a ler: “Um amigo é alguém que gosta de você. Você pode ter muitos amigos... uns garotinhos ... umas garotinhas... um gato... um cão... ou até um ratinho branco. A árvore é uma amiga diferente. Não fala. Mas você sabe que é sua amiga pois lhe dá maçãs, cerejas, peras e até um galho para seu balanço. O riacho é um tipo especial de amigo. Gorgoleja e respinga água em você. Refresca seus pés e deixa você ficar ao seu lado, quando quer ficar sozinho. O vento canta-lhe doces canções à noite. Está em todo lugar, por isso está sempre com você. Quem são seus amigos? Às vezes você passa com pressa e pensa que não tem amigos mas você nem vê seus amigos. Mas você tem que esquecer a pressa e ver quando alguém lhe dá um sorriso, ou quando um cachorro abana-lhe o rabo com força. Todos têm amigos. Uns têm muitos, outros, só dois ou três. Mas todos têm pelo menos um amigo. Como encontrou o seu? Data: 27 de novembro de 1972. Assinado: Marcos Nopper Alves.” Minha alegria foi dupla. Primeiro, porque o menino de dez anos que escreveu sobre os amigos é meu filho. Aos dez anos aflorava nele uma alma de escritor. Tanto assim que a da. Irahy guardou sua redação. A segunda alegria é pela da. Irahy. Uma mulher que fez o que ela fez merece que dela se diga: “É uma educadora de verdade porque ama as crianças”. O fato é que há, espalhados pelo Brasil, uma infinidade de educadores anônimos que fazem o seu trabalho com competência e alegria. O que faz um educador não são as teorias pedagógicas que moram na cabeça mas o simples fato de amar as crianças. Veio-me agora uma definição de educador que nunca pensei: “Educador é qualquer pessoa que ama uma criança. Porque quem ama uma criança ensina-lhe o caminho (e vai junto...)”. Assim fez a Da. Irahy... Queria sugerir que aqueles que foram seus alunos lhe enviassem cartas contando das boas memórias do tempo que passaram juntos! Na verdade, penso que ela bem merece uma medalha – e fica aqui a sugestão à Câmara dos Vereadores. E, por favor, não se equivoquem com os seus 93 anos: ela está enxutíssima!

 DIÁRIOS: Os livros que mais me falam são os diários. Diários são registros de experiências comuns acontecidas na simplicidade do cotidiano, experiências que provavelmente nunca se transformariam em livros. Não foram registradas para serem dadas ao público. Quem as registrou, as registrou para si mesmo - como se desejasse capturar um momento efêmero que, se não fosse registrado, se perderia em meio à avalanche de banalidades que nos enrola e nos leva de roldão. Esse é o caso do Cadernos da Juventude, de Camus, um dos livros que mais amo, e que leio e releio sem nunca me cansar. Um “diário” é uma tentativa de preservar para a eternidade o que não passou de um momento. Álbuns de retratos da intimidade. Pois eu fiz um “Diário”: pensamentos breves que pensei ao correr da vida e dos quais não me esqueci. Pensamentos são como pássaros que vêm quando querem e pousam em nosso ombro. Não, eles não vêm quando os chamamos. Ele vêm quando desejam vir. E se não os registramos eles voam, para nunca mais. Isso acontece com todo mundo. Só que as pessoas, achando que a literatura se faz com pássaros grandes e extraordinários, tucanos e pavões, não ligam para as curruiras e tico-ticos... Mas é precisamente com curruiras e tico-ticos que a vida é feita. Assim, em cada página há também um espaço em branco para que o leitor registre também os seus seus tico-ticos e curruiras... Pensando num título escolhi O Poema nosso de cada dia..., em contraponto ao “pão nosso de cada dia” da oração de Jesus. Porque não vivemos só de pão; vivemos também de poemas. Quem se alimenta só de pão engorda e fica pesado. Quem se alimenta de poemas fica leve e ganha asas... O pré-lançamento do meu “Diário” vai ser parte da celebração dos 20 anos de existência do Estúdio Paulo Branco. Tinha de ser... Pois foi o Paulo Branco, artista maravilhoso, que colocou desenhos em cada página do “Diário”. Assim, eu com a palavra, o Paulo Branco com os desenhos, e a Papirus com a realização editorial, estamos todos juntos. Pré-lançamento hoje, dia 08 de dezembro, domingo, às 16 horas, rua Orlando Carpino, 149, Castelo, fone 3241.3823. Lançamento amanhã, às 19 horas, na FNAC, shopping center D. Pedro.

 QUATRO ESTÓRIAS: Faz muitos anos, meu filho Sérgio era anestesista no Hospital Boldrinni, de câncer infantil. Frequentemente ele chegava em casa e, à mesa do jantar, as lágrimas caíam no prato de sopa. Eu não sou médico, não há nada de médico que eu possa fazer pelas crianças e seus pais, mas pensei que poderia escrever uma estória. Foi assim que nasceu a estória A árvore e a aranha. O Ivan Vilela leu a estória, gostou e disse: “Vou pôr música na estória...” Pensei que ele fosse compor um gelengojengo – afinal, era apenas uma estória para crianças. Passado um tempo ele veio com a música: era absolutamente maravilhosa, uma obra de arte! Foi assim que surgiu a idéia de um CD com estórias para crianças. O Ivan foi rigoroso, cuidadoso, meticuloso. Levou tempo. Mas no CD só se encontram artistas consagrados. Quatro estórias é o nome do CD, cujo lançamento vai acontecer na FNAC, shopping Dom Pedro, no dia 13 de dezembro, 6a feira, às 19h00.