Quarto de badulaques (XVI) 

Sobre os vírus: Em tempos primitivos, quando ainda se usavam objetos obsoletos como lápis e canetas tinteiro, terminado o trabalho, eu podia deixar sobre a escrivaninha o texto que escrevera durante o dia, sabendo que, no dia seguinte, o texto estaria lá, exatamente da forma como o havia deixado. Eu dormia tranquilo. A idéia de um ladrão que, durante a noite, iria invadir meu escritório para destruir o meu texto era impensável. Que proveito o dito ladrão tiraria disso? E ainda havia o risco de ser pego e preso por nada. Mas os tempos são outros. Durmo agitado. Sei que destruidores de textos estão em atividade, e operam sob a proteção do anonimato, dia e noite. Invadem o lugar onde meus textos estão guardados: meu computador. Os terroristas do Bin Laden navegaram aviões para destruir as duas torres gigantes. Os terroristas de textos navegam a Internet, esse maravilhoso horrendo meio de transporte virtual, para destruir. Os terroristas dispararam aviões para explodir as torres. Os destruidores de textos disparam mísseis chamados vírus. Vírus de computador é igual a vírus de doença: invisível, ínfimo, sem peso, sem forma, sem matéria, totalmente espiritual: é informação pura. Ele entra computador, multiplica-se num segundo e toma posse de tudo. O computador adoece, perde a memória, fica irracional, não obedece ordens. Em resumo: enlouquece. Como é que os vírus aparecem? Eles não caem do céu. Eles são fabricados. Da mesma forma como as armas são fabricadas. Quem os fabrica? Pessoas dotadas de uma alta inteligência científica. Armas são objetos altamente científicos. Os vírus também. A ciência não é antídoto para a loucura. Ao contrário, ciência e loucura aparecem frequentemente aos pares, casadas, gerando muitos filhinhos... Uma arma e um vírus são filhos desse casamento. É aí que está o perigo. Um louco, simplesmente louco, oferece quase nenhum perigo. Mas quando a loucura se apropria da ciência, a loucura se torna eficaz. É aí que se iniciam as catástrofes. Pergunta: por que esses loucos-científicos fabricam vírus? Qual a sua psicologia? Acho que a sua psicologia é idêntica à psicologia dos “pichadores”. Não confundir com os “grafiteiros”, artistas, ligados ao movimento cultural Hip-Hop. Os pichadores não fazem nada de bonito. Os animais se valem de urina e de fezes para marcar seu território. Os garranchos das pichações são os excrementos dos pichadores. Ao pichar muros brancos e paredes lisas eles estão repetindo o comportamento dos bichos que vão urinando e defecando para marcar a sua presença. Desejam, antes de mais nada, que a sociedade note sua presença. E já que não podem ser notados por nada de belo, fazem-se sentir pelo seu mau cheiro. “Vejam-me, vejam-me!” É isso que seus garranchos estão dizendo. E sua felicidade se encontra ao imaginar a raiva da pessoa que vê sua casa recém-pintada pichada. Cada pichação é um estupro. Os pichadores se organizam em grupos ou gangues. Elas lutam entre si. Estabelecem campeonatos. Ganha aquela que conseguir fazer a pichação mais louca, mais impossível. É por isso que, frequentemente, a gente vê pichações no alto de prédios e torres. Um pichador que picha uma torre se sente como um alpinista que, havendo escalado o Everest, coloca lá em cima a sua bandeira: “Estuprei a torre!” É isso que seus garranchos proclamam. No caso nos destruidores de textos, produtores de vírus, cada um deles quer provar, perante os outros, ser o mais inteligente, o “demolidor do futuro”, Rambo... Quanto maior for a destruição produzida, mais cresce a sua auto-imagem. Por isso os computadores devem ser dotados de uma brigada “antivírus”. O desafio está em burlar o sistema de defesa do computador, da mesma forma como certos vírus burlam o sistema de defesa do organismo: os “guardas do organismo” não reconhecem os inimigos e permitem que os vírus levem a cabo sua ação mortífera. O nosso mundo está todo ele ligado pela Internet, talvez a mais fantástica expressão da globalização. Assim, via Internet, os “destruidores” podem infectar as redes de comunicação do mundo inteiro, produzindo a confusão e o caos. Antigamente o perigo se encontrava em coisas físicas: aviões, bombas, mísseis. Hoje o perigo está nessa coisa espiritual chamada vírus e que tem o poder para destruir o sistema nervoso do mundo. Pois o meu computador foi invadido por um vírus, um vírus terrível que minha guarda antivírus não foi capaz de destruir. Fez um estrago enorme. Felizmente tenho um amigo, especialista, o Wagner, que entende de vírus. Depois de alguns dias de trabalho ele conseguiu eliminar o invasor. Mas o estrago já tinha sido feito. Perdi todas as mensagens de e-mail que estavam à minha espera, mais de 200. E perdi a minha lista de endereços eletrônicos, mais de 1.000. Estou dizendo isso para explicar aos meus amigos cujos e-mails vão ficar sem resposta...

 Esperança: O filósofo Ernst Bloch, um marxista estranho que amava a religião, dizia que a essência do sentimento religioso não é acreditar em Deus (todos os demônios acreditam...) mas estar possuído pela esperança. Sentir Deus é sentir esperança! Quem tem esperança sorri, fica mais bonito, mais leve. Viajando pelo Brasil é isso que tenho visto: as pessoas sorrindo... Deixando de lado as análises políticas da situação em que vivemos, uma coisa é certa: pode-se ver a esperança brilhando no rosto das pessoas. Quem tem esperança fica leve, tem vontade de cantar, a vida ganha sentido e retorna a vontade de trabalhar e lutar para que ela se torne realidade.

 Jardins: Os poetas não concordam com os teólogos ortodoxos. Os teólogos ortodoxos descreveram Deus como um juiz com alma de banqueiro. Juiz, Deus tem uma balança nas suas mãos para julgar e condenar os homens pelos seus pecados. Banqueiro, ele não perdoa dívidas. Todas as dívidas devem ser pagas, ou por penitências ou no inferno.  E as igrejas endossaram. Não é de se espantar, portanto, que as pessoas, ao pensar em Deus, tenham medo... Os poetas, ao contrário, descrevem Deus como uma jardineiro: criou esse universo imenso só para fazer nele um lugar onde pudesse plantar um jardim. O jardim é o pensamento mais alto de Deus. Deus sonha jardins. Deus planta jardins. O universo é belo porque nele cresce um jardim. Um jardim é a face visível de Deus. E, como todo mundo sabe, árvores não têm balanças para julgar e flores não têm dívidas a cobrar. É Jesus que diz que Deus não habita em templos. Templos são lugares fechados. Alguns deles são escuros e sinistros. Nietzsche dizia que se pareciam com sepulcros. Outros se parecem com gaiolas – talvez viveiros – onde as pessoas se ajuntam. Mas Deus não construiu templos. Plantou um jardim. Não só plantou mas, segundo o poema de Gênesis, ficava a andar pelo meio das árvores e fontes, gozando a brisa fresca da tarde. O único templo verdadeiro é o jardim. Assim, para se aprender a paz de espírito, é preciso andar pelo jardim. Bem dizia Alberto Caeiro: “Ah! Como os mais simples dos homens são doentes e confusos e estúpidos ao pé da clara simplicidade e saúde em existir das árvores e das plantas!” Pensando nisso eu e alguns amigos resolvemos criar uma experiência de jardinagem aberta àqueles que gostariam de se tornar discípulos das árvores, das plantas, das fontes, a fim de encontrar beleza e tranquilidade. Aprender sobre as plantas, seus nomes, hábitos, cores, perfumes, ritmos, sobre a terra, a água, as pragas (as pragas estão para as plantas como os vírus estão para o computador: se não forem eliminadas, as plantas morrem...). E aprender sobre as muitas maneiras de se fazer um jardim. O curso vai acontecer na floricultura Floríssima, rua Dona Joana de Gusmão, 126, telefone 3243.9381. Subindo a avenida Brasil, contornar o balão do Timbó e seguir na direção do Bosque dos Alemães. Fica no fim do primeiro quarteirão. Sugiro que você experimente um aperitivo do que o espera, no curso. Vá lá...

 Rosário novo: O Papa resolveu mudar o rosário. Deve ser coisa muito importante porque o Papa não iria gastar tempo com coisas sem importância. Os jornais dizem que ele vai acrescentar mais alguns mistérios ao rosário. Vai ficar mais comprido do que já é. Isso veio a propósito: um amigo me disse que estava tão cansado, mas tão cansado, que suas idéias se recusavam a pensar. Era uma felicidade: ficar preguiçosamente, os pensamentos parados, dormindo.... A desgraça é quando o corpo está exausto, quer descansar, mas as idéias, malditas, endiabradas, não param, saltam, pulam, atormentam. Quando isso acontece na hora de dormir é um desastre. As idéias não deixam a gente dormir. Um jeito de parar de pensar para poder dormir é contar carneirinhos. Um, dois, três, todos iguais, um depois do outro. Enquanto a cabeça conta os carneirinhos a cabeça fica livre dos pensamentos ruins. O mesmo efeito se obtém com a reza do terço: a repetição mecânica das mesmas palavras faz parar os pensamentos e a gente dorme. Não sei se os deuses prestam atenção na reza do terço. E isso porque, tendo eles uma memória perfeita, não precisam ficar escutando as mesmas repetições. Eles já sabem... Um deus que gastasse o seu tempo ouvindo repetições não mereceria o meu respeito. Assim, acho que os deuses nem prestam atenção: há coisas mais interessantes e urgentes. Mas as ditas repetições fazem bem à pessoa com insônia. Seu poder hipnótico faz o pensamento parar. E a gente dorme. Se eu pudesse sugeriria ao Papa que, ao invés de acrescentar mistérios no rosário, variasse um pouco as rezas, de forma a sensibilizar o coração dos devotos. Sugeriria que se acrescentassem ao rosário orações pela preservação da natureza, pelos meninos de rua, pelas adolescentes grávidas, pelos desempregados, pelas crianças nas escolas, pelos professores, pelos velhos, pelos solitários, pelos que sofrem os horrores da guerra, pelos que têm fome, pelos que vão morrer. Acho que orações assim fariam um grande bem à alma daqueles que porventura as rezassem. Eles ficariam melhores. Será que o Papa vai aceitar a sugestão?

Dois novos livrinhos que lancei: Conversas sobre política, pela Verus Editora. E Retratos de Amor, pela Papirus Editora. Na capa desse último há um lugar para você colocar uma fotografia do seu amor. Assim, o seu livro será único...

(Correio Popular, 03/11/2002)