Quarto de badulaques (XV) 

Sobre casamentos e cavalos: Tive uma companheira de olhos azuis tristes que, por muitos anos, esteve silenciosamente presente em minhas sessões de análise. Ela se chamava Angel. Era uma cadela Weimaraner. Jamais fez qualquer gesto hostil, jamais rosnou. Era como se não estivesse lá, deitada, cabeça apoiada entre as pernas. E eu tive um paciente que tinha um sentimento de desprezo em relação ao seu pai que, segundo julgamento seu, não passara de um pedreiro de segunda classe. Pois, numa bela manhã, ao entrar na sala, ele se deparou com a Angel deitada, que o olhava com seus olhos azuis. Ele se deitou no divã e disse: “Não gosto de cachorros. Não gosto de gatos. Não gosto de animais.” Aí ele fez uma pausa, como se uma nova idéia tivesse entrado na sua mente, e se corrigiu: “Não, eu gosto de cavalos.” E continuou: “Me contaram – eu não vi – que meu pai foi o maior domador de cavalos que jamais existiu.” Aí a sua fantasia voou solta e ele começou a falar sobre o seu pai – o pedreiro de segunda classe era agora um herói! - cavalgando cavalos selvagens e triunfando sobre eles. Parou e meditou num sussuro: “É assim. Os cavalos selvagens são domados. Transformam-se em cavalos mansos, bons para serem montados.” Pausa. “Acho que o casamento é assim. A gente é cavalo selvagem, indomável. Até o momento em que se apaixona por uma mulher. Fica manso de repente, vai até ela e lhe diz: ‘Pode me montar’... Ela aceita o convite, põe arreio, freio, rabicho, aperta a barrigueira, calça esporas e monta. E a gente vai marchando de mansinho, obediente às ordens, à rédea, à espora... Quando ela quer ela apeia, amarra o cabresto num poste, e a gente fica lá, paciente, trocando pernas, abanando as moscas com o rabo, esperando. Ele não vai nos abandonar nunca porque um cavalo manso marchador é coisa que não se joga fora. Vai cavalgar com o corpo. Mas a sua alma estará sempre voando a galope no cavalo selvagem..."

Sobre a criança na velhice: Um amigo que está sofrendo a tristeza de ir ficando velho me escreveu e me fez essa pergunta: “O que fazer para permanecer jovem? O que fazer para, na velhice, continuar a ter o desejo de viver?" Acho que essa é pergunta mais dolorosa que fazem aqueles que se vêem envelhecer. É o tema do filme Morte em Veneza, baseado num livro de Thomas Mann: um homem maduro, na fronteira da velhice - seus bigodes já estão grisalhos e as rugas marcam o seu rosto - num hotel de Veneza, vê um jovem adolescente que brinca na praia. Aquela imagem de juventude se apodera dele com uma força insuportável. A imagem do jovem o atormenta e ele dele se enamora. Não tem nada a ver com homossexualidade. Não é isso que está em jogo. Na imagem do jovem ele vê a sua própria juventude perdida. O espelho é um sofrimento. Especialmente quando o espelho são os olhos de uma jovem que se levanta e, com um sorriso, nos oferece o seu lugar no metrô... Continuar a ser jovem sendo velho? Eu acho que isso é possível. O apóstolo Paulo, sentindo a mesma coisa, disse: “Embora o nosso homem exterior se corrompa, o nosso homem interior se renova dia a dia.” Claro, há coisas que são perdidas, definitivamente. A pele, por exemplo: as rugas, a flacidez, a secura. Mas, com a perda, há ganhos. Na juventude a pele é a face exterior da musculatura. Ela nada revela, a não ser os músculos. Na velhice a pele deixa de ser a superfície exterior dos músculos e passa a ser a superfície exterior da alma. Os músculos podem ser obstáculos à manifestação da alma. Na velhice a pele é o meio através do qual a alma se torna visível. Especialmente o rosto. Livre das intermediações da musculatura a alma pode então realizar sua função artística de esculpir o rosto. Ela aparece no rosto. Acontece, então, a ocasião para que se realize o prometido pelo evangelista João: “... e o Poema se faz carne”. Tudo, então, vai depender dos poemas que estão guardados na alma. Pois a alma é apenas isso: o lugar onde os poemas estão guardados. E o rosto vai então revelar uma beleza que a juventude não deixava ver. Ou, quem sabe, o inverso, uma feiura que a juventude não deixava ver. Velhice é o tempo da verdade da alma. Os velhos terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles. E a criança, como disse Zaratustra, é “inocência e esquecimento, um novo início, uma brincadeira, um moto-contínuo, um primeiro movimento, um 'Sim' sagrado...” . As crianças jamais desejam ser aposentadas de ser crianças. O terrível e mortal é quando o homem se aposenta. Não estou me referindo simplesmente ao momento em que não é mais necessário comparecer ao trabalho. Estou me referindo àquele momento quando um homem ou uma mulher atracam o seu barco e sem entregam à tola ilusão de, finalmente, ter paz. Mas paz, precisamente, é o que a alma não deseja. A alma deseja o perigo, o desconhecido. A alma é uma águia que ama as alturas, as montanhas geladas, o mar desconhecido, os abismos. A alma é guerreira: Pugno, ergo sum – luto, logo existo. É preciso que haja sempre uma batalha a ser travada. A paz desejada (o sonho do “Sítio do Vovô”...) logo se transforma num charco de água parada. A segurança é a mãe do tédio. E no tédio as serpentes chocam seus ovos. “Homens velhos devem ser exploradores, não importa onde... Temos de estar sempre nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma união mais alta, de uma comunhão mais profunda... Nos movendo através de uma desolação escura, fria e vazia: o grito das ondas, o grito do vento, as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos: no meu fim está o meu início” (T. S. Eliot ) Nikos Kazantsakis é um autor que precisa ser lido. Dentre todos os seus livros, todos eles maravilhosos, o que fala mais perto do meu coração é Zorba, o Grego... Quem viu só o filme nada viu. Tentei ver o filme, pensando que seria igual ao livro, e não consegui chegar ao fim. Acontece que há certas sutilezas na escrita que não podem ser transformadas em imagens. Está relatado que Zorba, velho e doente, ao ver que a morte já estava dentro do seu quarto, levantou-se da cama, foi até a janela, e por longos minutos contemplou com sorriso e silêncio os cenários que se abriam à sua frente, o mundo maravilhoso, ao fundo as montanhas. De repente, pôs-se a relinchar como um cavalo, agarrou-se à janela e disse: “Um homem como eu deveria viver mil anos!” Ditas essas palavras ele caiu morto... Zorba morreu criança.

Sobre crianças e velhos: Albert Camus (pronuncia-se ‘camí’) diz que em Atenas havia um templo dedicado à velhice. A esse templo os pais levavam os seus filhos...

Sobre o sexo na velhice: Na adolescência e juventude o sexo é um vulcão incontrolável em constante erupção, sem precisar que alguma causa exterior o provoque. Ele explode porque explode, porque não consegue segurar o fogo que lhe queima as entranhas. Aí, num orgasmo de fogo e cinza ele ejacula lava incandescente que escorre e vai na direção do mar, na esperança de que a água fria o acalme. Assim é o sexo na adolescência e na juventude: o que os homens querem é que as mulheres esfriem o seu fogo. A função das mulheres é apagar o fogo. Aí o tempo passa. Vem a maturidade, vem a velhice. O vulcão fica tranquilo. Até parece que ficou inativo. Ficou não. É que os fogos dos vulcões velhos são fogos diferentes. Parecem-se mais com os fogos de artifício. Os foguetes: quietos, frios, sem cor, inertes. Mas o seu fogo não acabou. Está à espera de alguém que o acenda. Aceso por alguém, o foguete sobe falicamente numa erecção vertical na direção do céu, para explodir em milhões de estrelinhas coloridas. Na maturidade e na velhice o sexo dos homens está à espera de alguém que o acenda. E se, na juventude, a mulher apagava o fogo, na maturidade e na velhice ela tem o poder – se quiser – de acender o fogo. Claro, para que a mulher acenda o fogo é preciso que ela ame as estrelinhas coloridas...

Sobre a solidão na velhice: Na Europa, nos prédios velhos, era comum que os canos de água passassem a descoberto por dentro dos apartamentos. E, naquele tempo, não havia canos de pvc. Eram todos canos de ferro. A Tomiko, que estuda as coisas do ficar velho, me contou a linda estória do jardineiro japonês e da Fräulein, que eu transformei numa crônica. Faz algum tempo ela me contou outra estória. Duas velhinhas amigas moravam num mesmo prédio. O apartamento de uma ficava bem em cima do apartamento da outra. Ao lado de suas camas passava, na vertical, um cano de ferro. Elas tinham um acordo. Todas as manhãs aquela que acordasse primeiro bateria no cano de ferro e a outra responderia. Faziam isso porque tinham medo de morrer – e que ninguém descobrisse. Assim, quando a outra respondia às batidas da primeira elas sabiam que as duas continuavam vivas. A estória da Tomiko termina aqui. Mas eu imagino que deve ter havido um dia em que a velhinha bateu no cano e não houve resposta. Bateu mais uma vez, e outra e mais outra – e era só o silêncio...

(Correio Popular, 29/09/2002)