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| Quarto de badulaques (XLVIII) |
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ASSUSTEI-ME.
O homem, cabeleira branca, estava com os braços
levantados, como se estivesse sendo assaltado, no
aeroporto. Aproximei-me. De fato, era um velho. Devia
ter aproximadamente a minha idade. De fato, estava com
os braços levantados. Estavam apoiados no vidro que
separa os que partem dos que ficam. Ele era um dos que
ficavam. Lágrimas escorriam dos seus olhos. Alguém
partira. Seus braços levantados, encostados no vidro,
diziam da inutilidade das suas lágrimas. Há um momento
na vida em que cada separação anuncia a Grande Separação.
Olhei para o porteiro que verificava os cartões de
embarque. Ele entendeu a pergunta que estava no meu
olhar e só disse: “ O filho partiu...” Não chorei
mas fiquei com vontade... * * * ·
SOBRE
CEROULAS E A SALVAÇÃO DA ALMA: Um amigo, historiador,
contou-me sobre uma carta curiosa, se não me engano
datada do século dezessete, escrita por um zeloso
missionário aos seus superiores em Portugal. Ele estava
profundamente preocupado com o destino eterno das almas
dos índios que era
sua missão salvar. Acontecia que eles, sem as
luzes das doutrinas da Igreja, nada sabiam sobre o
pecado da nudez. Andavam por todos os lugares, homens,
mulheres, crianças, exibindo de forma despudorada as
partes do seu corpo que deveriam ficar ocultas. Como é
do conhecimento geral dos homens civilizados, a visão
das partes do sexo tem o poder de provocar pensamentos
libidinosos, pecaminosos, que colocam as almas em perigo
de irem para o inferno. Deus prefere os homens vestidos
aos homens nus. Ele
informava então os seus superiores que sua missão salvífica
só poderia ser realizada se a sua pregação da
doutrina fosse acompanhada por
uma distribuição de ceroulas. Solicitava, então,
que lhe fossem enviadas de Portugal, algumas centenas de
ceroulas para cobrir as vergonhas dos índios tornando
possível, assim, a salvação de suas almas. No céu
todos usam camisolas brancas... * * * ·
SOBRE
OS NOVOS CAMINHOS DA SANTÍSSIMA TRINDADE: Como é do
conhecimento geral, eu gastei grande parte da minha vida
estudando os mistérios da teologia. Aprendi sobre a
Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, em que estão
contidos todos
os segredos do universo. Sinto-me, portanto,
profundamente perturbado, quando leio afirmações públicas
que indicam que a Trindade já não é mais a mesma.
Fosse em tempos passados e a Igreja já teria ordenado
que se celebrassem Autos da Fé para que os ditos
escritores purgassem
suas heresias nas fogueiras da Inquisição. Como já não
existem os recursos purificadores das fogueiras ficam
eles soltos por aí escrevendo impunemente em lugares públicos
aquilo que seus pensamentos ímpios maquinam. Dou
exemplos. Vi um açougue com o nome “Açougue Bom
Jesus”. O que nos dizem os evangelhos é que Jesus é
o Bom Pastor. Um pastor cuida das ovelhas. Poder-se-ia
imagina um Bom Pastor pastoreando ovelhas para levá-las
ao açougue? Diz mais a teologia que sua missão cósmica
foi morrer na cruz para que a humanidade fosse salva.
Ora, o que esse nome “Açougue Bom Jesus” está
dizendo é que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade
abandonou sua missão divina e está se dedicando agora
ao negócio de carnes. Confesso que não posso imaginar
N.S. Jesus Cristo envolvido com linguiças, bifes,
costeletas, pernis
e hamburgers. Outros, ao contrário, afirmam que
ele entrou para o ramo dos veículos. Prova disso são
os inúmeros carros que circulam pela cidade com os
dizeres “Propriedade Exclusiva de Jesus”. Acho muito
estranho posto que Jesus, dentro dos limites do meu
conhecimento, sempre andou a pé, com uma única exceção:
quando foi a Jerusalém montado em um manso burrico.
Intriga-me o fato de os carros da dita frota divina serem sempre carros velhos.
Nem sequer pertencem à curiosa categoria dos
semi-novos.. Ainda não vi nenhum Mercedes ou BMW.
Certamente isso não se deve à falta de dinheiro. Se,
conforme a teologia da prosperidade afirma, Jesus dá
riqueza a todos aqueles que lhe são obedientes, é
claro que seus recursos financeiros são infinitos. Uma
frota de carros de propriedade de Jesus certamente conta
com sua proteção, o que significa que não dão
trombadas, não enguiçam e, melhor de tudo, não são
roubados. Quem se atreveria a roubar um carro da Segunda
Pessoa da Santíssima Trindade? Alguns veículos portam
a advertência aos ladrões: “Rastreado por satélite”:
roubou, será pego. Que dizer então de uma frota
de carros rastreada pelo olho divino? E
há ainda aqueles que dizem que Deus expandiu
seus negócios também para o ramo imobiliário. Prova
disto são os prédios que ostentam gigantescas afirmações
do tipo: “Este prédio está sendo construído com a bênção
divina.” O que me deixa assombrado. E isso porque,
segundo as narrativas bíblicas, a construção de
torres nunca teve a bênção divina. O caso mais famoso
é a Torre de Babel que, naqueles tempos, deveria
comparar-se ao World Trade Center. Deus foi lá e
confundiu a língua dos construtores. Deixaram de se
entender. O que ainda acontece freqüentemente em prédios
de apartamentos. O que se quer dizer quando se afirma
“Este prédio está sendo construído com a bênção
divina”? Que todos os que ali trabalham são felizes?
Que todos eles ganham salários dignos? Que se trata de
uma cooperativa, os lucros ao final sendo igualmente
divididos por todos? Ou será que Deus assinou um
contrato? Ah! Fico só pensando no mandamento que diz:
“ Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão...”
Quem faz isso não escapa ao castigo. Está escrito. É
preciso não esquecer que todos os terroristas fanáticos
afirmam agir com a bênção divina... çNLKn* * * ·
NÃO
VI E NÃO GOSTEI: Sou feito cachorro: não abocanho sem
antes cheirar. Cheirei e não gostei do cheiro. Cheiro
de sangue. O filme do Mel Gibson sobre a morte de
Cristo. Não fui assistir. Meu Deus não tem cheiro de
sangue. Tem cheiro de criança suada, quando volta dos
brinquedos, como o descreveu Alberto Caeiro. A psicanálise
ensina que tudo o que a gente faz tem a cara da alma da
gente. Conclui que o Mel Gibson é um poço de pecados
para causar tanto sofrimento e N.S. Jesus Cristo. Cristo
teve de sofrer aquilo tudo por causa dele. O filme, por
tudo o que li, é uma expressão moderna de uma
espiritualidade antiga que encontra os seus prazeres
sado-masoquistas na contemplação de feridas, sangue e
corações dilacerados por punhais. Os santos são
sempre uns sofredores. Não conheço nenhum santo
sorridente, alegre com a vida. Estão todos sofrendo
perfurados por flechas, punhas, afligidos por feridas,
etc. Um Deus que precisa que os homens sofram tanto para
se sentir apaziguado – eu não o chamaria de Deus. Eu
o chamaria do oposto... Quem gosta de ver os homens
sofrendo é o demônio. O filme do Gibson tem por
objetivo provocar sentimentos de dó e culpa naqueles
que o vêem. Para que? Para poder dominá-los. Os que se
sentem culpados são sempre fracos. Andam sempre de cabeça
baixa. Estão
sempre prontos a fazer
a vontade daqueles frente aos quais se sentem culpados.
Os judeus têm uma fina percepção do significado do
sentimento de culpa. Inventaram essa piadinha. Uma mãe
italiana, quando está furiosa com o filho, faz uma
gritaria, joga pratos, pega o rolo de macarrão, o filho
foge correndo pela porta enquanto ela diz: “Desgraçado,
eu te mato...” A mãe judia, quando está furiosa com
o filho, chega-se mansamente a ele, uma lágrima
escorrendo pelo rosto, e diz bem baixinho: “Meu filho,
eu me mato...” Há um hino protestante que diz o que
eu disse de maneira absolutamente clara: “ Morri,
morri na cruz, por ti. Que fazes tu por mim?” A cruz,
vista pelos olhos do Mel Gibson, não liberta. Escraviza. Por isso não gostei do filme. * * * ·
AOS
LÍDERES DE COMUNIDADES: O professor José Pacheco me
disse, sobre a Escola da Ponte: “O segredo de uma
escola é simples: É preciso que todos estejam
apaixonados pelo projeto. É preciso que todos sonhem o
mesmo sonho. Havendo isso fica fácil resolver o
resto...” Professor que é contratado para dar aulas
da sua disciplina e que só dá aulas da sua disciplina,
professor que não sonha o grande sonho, que é só
funcionário, esse é uma pedra no sapato. Toda diretora
ou diretor de escola deveria entender isso: sua tarefa
fundamental não é cuidar do patrimônio e fazer relatórios.
Isso, qualquer funcionário faz. É tarefa mecânica.
Sua tarefa é abrir um espaço para os sonhos, pastorear
os sonhos, como se fossem ovelhas... E conversando com o
Gilberto Dimenstein sobre a comunidade que faz o projeto
“Bairro Escola Aprendiz” funcionar, um grupo
maravilhoso de amigos apaixonados pela idéia, ele me
disse: “Fiz um acordo com eles: os erros são meus; os
acertos são nossos...”
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