Quarto de badulaques (XLVIII) 

           ASSUSTEI-ME. O homem, cabeleira branca, estava com os braços levantados, como se estivesse sendo assaltado, no aeroporto. Aproximei-me. De fato, era um velho. Devia ter aproximadamente a minha idade. De fato, estava com os braços levantados. Estavam apoiados no vidro que separa os que partem dos que ficam. Ele era um dos que ficavam. Lágrimas escorriam dos seus olhos. Alguém partira. Seus braços levantados, encostados no vidro, diziam da inutilidade das suas lágrimas. Há um momento na vida em que cada separação anuncia a Grande Separação. Olhei para o porteiro que verificava os cartões de embarque. Ele entendeu a pergunta que estava no meu olhar e só disse: “ O filho partiu...” Não chorei mas fiquei com vontade...

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·         SOBRE CEROULAS E A SALVAÇÃO DA ALMA: Um amigo, historiador, contou-me sobre uma carta curiosa, se não me engano datada do século dezessete, escrita por um zeloso missionário aos seus superiores em Portugal. Ele estava profundamente preocupado com o destino eterno das almas dos índios que era  sua missão salvar. Acontecia que eles, sem as luzes das doutrinas da Igreja, nada sabiam sobre o pecado da nudez. Andavam por todos os lugares, homens, mulheres, crianças, exibindo de forma despudorada as partes do seu corpo que deveriam ficar ocultas. Como é do conhecimento geral dos homens civilizados, a visão das partes do sexo tem o poder de provocar pensamentos libidinosos, pecaminosos, que colocam as almas em perigo de irem para o inferno. Deus prefere os homens vestidos aos homens nus.  Ele informava então os seus superiores que sua missão salvífica só poderia ser realizada se a sua pregação da doutrina fosse acompanhada por  uma distribuição de ceroulas. Solicitava, então, que lhe fossem enviadas de Portugal, algumas centenas de ceroulas para cobrir as vergonhas dos índios tornando possível, assim, a salvação de suas almas. No céu todos usam camisolas brancas...

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·         SOBRE OS NOVOS CAMINHOS DA SANTÍSSIMA TRINDADE: Como é do conhecimento geral, eu gastei grande parte da minha vida estudando os mistérios da teologia. Aprendi sobre a Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, em que estão contidos  todos os segredos do universo. Sinto-me, portanto, profundamente perturbado, quando leio afirmações públicas que indicam que a Trindade já não é mais a mesma. Fosse em tempos passados e a Igreja já teria ordenado que se celebrassem Autos da Fé para que os ditos escritores  purgassem suas heresias nas fogueiras da Inquisição. Como já não existem os recursos purificadores das fogueiras ficam eles soltos por aí escrevendo impunemente em lugares públicos aquilo que seus pensamentos ímpios maquinam. Dou exemplos. Vi um açougue com o nome “Açougue Bom Jesus”. O que nos dizem os evangelhos é que Jesus é o Bom Pastor. Um pastor cuida das ovelhas. Poder-se-ia imagina um Bom Pastor pastoreando ovelhas para levá-las ao açougue? Diz mais a teologia que sua missão cósmica foi morrer na cruz para que a humanidade fosse salva. Ora, o que esse nome “Açougue Bom Jesus” está dizendo é que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade abandonou sua missão divina e está se dedicando agora ao negócio de carnes. Confesso que não posso imaginar N.S. Jesus Cristo envolvido com linguiças, bifes, costeletas, pernis  e hamburgers. Outros, ao contrário, afirmam que ele entrou para o ramo dos veículos. Prova disso são os inúmeros carros que circulam pela cidade com os dizeres “Propriedade Exclusiva de Jesus”. Acho muito estranho posto que Jesus, dentro dos limites do meu conhecimento, sempre andou a pé, com uma única exceção: quando foi a Jerusalém montado em um manso burrico. Intriga-me o fato de  os carros da dita frota divina serem sempre carros velhos. Nem sequer pertencem à curiosa categoria dos semi-novos.. Ainda não vi nenhum Mercedes ou BMW. Certamente isso não se deve à falta de dinheiro. Se, conforme a teologia da prosperidade afirma, Jesus dá riqueza a todos aqueles que lhe são obedientes, é claro que seus recursos financeiros são infinitos. Uma frota de carros de propriedade de Jesus certamente conta com sua proteção, o que significa que não dão trombadas, não enguiçam e, melhor de tudo, não são roubados. Quem se atreveria a roubar um carro da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Alguns veículos portam a advertência aos ladrões: “Rastreado por satélite”:  roubou, será pego. Que dizer então de uma frota de carros rastreada pelo olho divino? E  há ainda aqueles que dizem que Deus expandiu seus negócios também para o ramo imobiliário. Prova disto são os prédios que ostentam gigantescas afirmações do tipo: “Este prédio está sendo construído com a bênção divina.” O que me deixa assombrado. E isso porque, segundo as narrativas bíblicas, a construção de torres nunca teve a bênção divina. O caso mais famoso é a Torre de Babel que, naqueles tempos, deveria comparar-se ao World Trade Center. Deus foi lá e confundiu a língua dos construtores. Deixaram de se entender. O que ainda acontece freqüentemente em prédios de apartamentos. O que se quer dizer quando se afirma “Este prédio está sendo construído com a bênção divina”? Que todos os que ali trabalham são felizes? Que todos eles ganham salários dignos? Que se trata de uma cooperativa, os lucros ao final sendo igualmente divididos por todos? Ou será que Deus assinou um contrato? Ah! Fico só pensando no mandamento que diz: “ Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão...” Quem faz isso não escapa ao castigo. Está escrito. É preciso não esquecer que todos os terroristas fanáticos afirmam agir com a bênção divina...

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·         NÃO VI E NÃO GOSTEI: Sou feito cachorro: não abocanho sem antes cheirar. Cheirei e não gostei do cheiro. Cheiro de sangue. O filme do Mel Gibson sobre a morte de Cristo. Não fui assistir. Meu Deus não tem cheiro de sangue. Tem cheiro de criança suada, quando volta dos brinquedos, como o descreveu Alberto Caeiro. A psicanálise ensina que tudo o que a gente faz tem a cara da alma da gente. Conclui que o Mel Gibson é um poço de pecados para causar tanto sofrimento e N.S. Jesus Cristo. Cristo teve de sofrer aquilo tudo por causa dele. O filme, por tudo o que li, é uma expressão moderna de uma espiritualidade antiga que encontra os seus prazeres sado-masoquistas na contemplação de feridas, sangue e corações dilacerados por punhais. Os santos são sempre uns sofredores. Não conheço nenhum santo sorridente, alegre com a vida. Estão todos sofrendo perfurados por flechas, punhas, afligidos por feridas, etc. Um Deus que precisa que os homens sofram tanto para se sentir apaziguado – eu não o chamaria de Deus. Eu o chamaria do oposto... Quem gosta de ver os homens sofrendo é o demônio. O filme do Gibson tem por objetivo provocar sentimentos de dó e culpa naqueles que o vêem. Para que? Para poder dominá-los. Os que se sentem culpados são sempre fracos. Andam sempre de cabeça baixa.  Estão sempre prontos a  fazer a vontade daqueles frente aos quais se sentem culpados. Os judeus têm uma fina percepção do significado do sentimento de culpa. Inventaram essa piadinha. Uma mãe italiana, quando está furiosa com o filho, faz uma gritaria, joga pratos, pega o rolo de macarrão, o filho foge correndo pela porta enquanto ela diz: “Desgraçado, eu te mato...” A mãe judia, quando está furiosa com o filho, chega-se mansamente a ele, uma lágrima escorrendo pelo rosto, e diz bem baixinho: “Meu filho, eu me mato...” Há um hino protestante que diz o que eu disse de maneira absolutamente clara: “ Morri, morri na cruz, por ti. Que fazes tu por mim?” A cruz, vista pelos olhos do Mel Gibson,  não liberta. Escraviza. Por isso não gostei do filme.

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·         AOS LÍDERES DE COMUNIDADES: O professor José Pacheco me disse, sobre a Escola da Ponte: “O segredo de uma escola é simples: É preciso que todos estejam apaixonados pelo projeto. É preciso que todos sonhem o mesmo sonho. Havendo isso fica fácil resolver o resto...” Professor que é contratado para dar aulas da sua disciplina e que só dá aulas da sua disciplina, professor que não sonha o grande sonho, que é só funcionário, esse é uma pedra no sapato. Toda diretora ou diretor de escola deveria entender isso: sua tarefa fundamental não é cuidar do patrimônio e fazer relatórios. Isso, qualquer funcionário faz. É tarefa mecânica. Sua tarefa é abrir um espaço para os sonhos, pastorear os sonhos, como se fossem ovelhas... E conversando com o Gilberto Dimenstein sobre a comunidade que faz o projeto “Bairro Escola Aprendiz” funcionar, um grupo maravilhoso de amigos apaixonados pela idéia, ele me disse: “Fiz um acordo com eles: os erros são meus; os acertos são nossos...”