Quarto de badulaques (XLVII) 

 

Nos seus devaneios sobre a infância Bachelard se reencontra com remédios que se tornaram obsoletos, remédios que tinham nomes poderosos, nomes que faziam parte de suas potências curativas. Bastava ouvir o nome para se sentir meio curado. A leitura de Bachelard me levou de volta aos remédios antigos... Lembrei-me da Emulsão de Scott. Quem teria sido esse senhor Scott? O rótulo da garrafa dizia que o senhor Scott era um homem que conhecia os segredos curativos dos peixes. Lá está a figura de um homem carregando às suas costas um peixe enorme, do seu tamanho, um bacalhau. Quem toma Emulsão de Scott ganha a saúde dos peixes. Fiquei com tanta saudade que fui à farmácia e comprei um vidro, pois ela ainda sobrevive,  a emulsão, para atender os devaneios dos velhos. Em casa abri o vidro e oh!, desapontamento. Seu horrível cheiro original havia sido substituído pelo cheiro infantil cor de rosa dos morangos! Mas que têm os morangos, delicadas frutinhas da horta, a ver com os mares profundos onde nadam os bacalhaus? Voltei à farmácia. Felizmente ainda há os originais. Vejo-me menino, é o mês de julho, mês do frio, mês de tomar Emulsão de Scott. Minha mãe chega com uma colher cheia do líquido pastoso branco de gosto e cheiros horríveis em uma mão, e a metade de uma laranja na outra. A laranja, para consertar o gosto e o cheiro... Resolvi fazer uma pesquisa. Fui à Farmácia Carcajon, minha vizinha, à procura dos remédios velhos. Os atendentes, meus amigos,  se juntaram à minha pesquisa. Rum Creosotado. Rum Creosotado é poesia. “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E no entretanto acredite: quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rum Creosotado.” A poesia torna eternas as lembranças... Essas rimas se encontravam em todo bonde. Prá passar o tempo enquanto viajava a gente ia lendo e decorando. Os bondes não mais existem, as rimas não mais se lêem. Limonada purgativa. Ah! Coisa terrível. Aplicada a quem estava com dor de barriga produzia uma limpeza apocalíptica no intestino. Muitos apêndices inflamados supuraram por causa da limonada! Nenhuma mulher podia prescindir do Regulador Xavier, números 1 e 2. De novo, o nome: Xavier. Os cientistas, inventores dos remédios, tratavam de perpetuar os seus nomes nos vidros das poções mágicas que inventavam. Mágicas? Isso mesmo! Até se usava a expressão: “Um santo remédio!” Naqueles tempos os remédios tinham qualidades teológicas, pertenciam ao mundos dos mistérios sagrados.  É o caso da palavra “elixir”. A etimologia muito me tem revelado sobre a arqueologia das palavras, o que significavam quando do seu nascimento. Na minha cabeça a palavra “elixir” me transporta para o mundo das estórias de encantamento. Elixir d’amore! Emulsão não se aplicaria. Emulsão de amor não soa bem. Por que? Não sei. A poesia tem razões que a prosa desconhece. O Dicionário Webster, meu amigo fiel,  me informou que a palavra elixir vem do árabe el iksir,  que significa “pedra filosofal”. Na alquimia os elixires eram líquidos que tinham o poder de transformar metais baratos em ouro. E tinham o poder de prolongar a vida indefinidamente... Elixir Dória. Para quem comeu demais. Umas gotas pretas, amargas. Na figura da propaganda, um homem de boca aberta da qual saia a cabeça de um boi, com chifre e tudo. O Elixir Dória digeria até cabeça de boi...Eu ainda faço uso de um elixir, o Elixir Paregórico. Potentíssimo. Ação rápida. Contra cólicas. Sempre carrego um vidrinho em minhas andanças. Outro elixir era o Elixir de Inhame Goulart. Quem diria que dos inhames se podem extrair maravilhas curativas.  E por falar nisso, tinha um remédio com o nome de “Maravilha Curativa”. Quem seria capaz de resistir ao poder do nome? Não sei o que curava, mas que curava, curava...E o Phimatosan, para tosse, com o qual se fazia a brincadeira “Cain matou Abel, Esper matou Zóide, Phi matou Zan...”. E que dizer das pílulas? Pílulas de vida do Dr. Ross, redondinhas, branquinhas, do tamanho de um caroço de uva. Dizia a propaganda: “pequeninas mas resolvem”. Resolvem o que? Constipação intestinal, prisão de ventre. Havia os novatos que não acreditavam, as pílulas eram muito pequenas, e resolviam tomar logo cinco de uma vez. Ah! Pobres coitados, condenados a passar uma noite inteira sem poder dormir, correndo entre a cama e a privada.... O Biotônico Fontoura. O nome está dizendo: bio = vida + tônico = que fortalece. Remédio que dá vida. Ficou famoso com a estória do Jeca Tatuzinho, que era um pobre caboclo que morava numa casinha coberta de sapé. Tomou o Biotônico, ficou forte, derrubou mato, ficou valente, deu murro em onça, ficou rico, os porcos e galinhas da sua fazenda todos usavam sapatos, para não terem verminose,  fumou charuto. Naqueles tempos o símbolo da riqueza não era ter BMW, era fumar charuto. Era comum se encontrar nos armazéns um quadro com duas metades. Na primeira metade, um magricela, esfarrapado, assentado no chão de um quarto vazio, cheio de teias de aranhas e ratos, com os dizeres: “ Eu vendi fiado.” Na outra metade, um homem gordo, papada redonda, assentado numa poltrona, numa loja rica,  cofre ( se dizia “burra”...) aberto com dinheiro derramando, fumando um charuto, com os dizeres: “ Eu vendi a dinheiro”. É, os tempos mudaram. Hoje só fica rico quem vende fiado. Prova disso são os cartões de crédito. Acho que vai chegar um tempo em que o dinheiro vai desaparecer. Apenas usaremos cartões e trabalharemos com números. Vai desaparecer o delicioso prazer de contar dinheiro com o dedo “pai-de-todos”... Os valores monetários serão valores virtuais. Nos Estados Unidos se você quiser bagunçar a cabeça de um caixa nas grandes lojas é só dizer que você vai pagar a dinheiro. Pagar a dinheiro lá é tão retrógrado quanto tomar Rum Creosotado. E tinha o Xarope de Limão Bravo, Xarope São João, Salicilato de Bismuto, Pilulas de Lussen, Pílulas de Erva de Bicho, Violeta de Genciana. Compare esses nome potentes com os nomes dos remédios de agora: Garasone, Lognox, Deiclogenon, Cetroloc, Flixotide, Vioxx ( com dois “x” mesmo...), Celebra, Clo, Efexor XR, Clob-X, Biscopan, Amaril.  Acho que outros nomes, mais poéticos, mais fantasiosos, teriam mais efeito..

O Carlos Rodrigues Brandão me deu um livro, faz tempo, que ainda não li. O título é: “ A linguagem dos pássaros”. Nunca levei o dito a sério porque era minha firme convicção que passarinho não tem linguagem. Pois mudei de idéia. Eles não só falam como também lêem os jornais. Tive prova disto, prova que não se pode contestar. Eu me queixei, numa de minhas crônicas,  da ausência dos pássaros no meu apartamento, a despeito do jardim que a Raquel minha filha pôs na varanda. Aventei a hipótese de que é porque moro no oitavo andar, talvez seja altura demais. Guimarães Rosa diz que, no sertão, só há duas alturas: altura de urubu ir e altura de urubu não ir. Fiquei pensando que, aqui no oitavo andar, só os urubus. A crônica saiu num domingo. Na segunda feira, ao chegar em casa do trabalho no final do dia, lá estava, na sala, atendendo à minha queixa, um beija flor empoleirado no lustre. O bichinho se assustou. Como se sabe, os homens são os seres que perderam a confiança dos pássaros. Ele se pôs a voar de um lado para outro, desorientado, sem saber onde estava a saída. Tentei pegá-lo. Inutilmente. Aí ele se refugiou no banheiro. Fechei a porta, subi numa cadeira e finalmente o segurei com palavras tranqüilizantes. Ele não acreditou e até deixou várias penas na minha mão. Desci da cadeira, fui até a varanda e o soltei. Ele partiu como uma flecha. Ah! Como me senti feliz! Pois, no dia seguinte, a coisa se repetiu: não com o beija-flor, mas com uma curruira. Ela não entrou no apartamento mas ficou saltitando no jardim. Peguei as peninhas do beija-flor, azuis, amarrei-as com um fio e as pendurei no bambu do jardim, como mensagem de paz. Quero que os pássaros confiem em mim. Vocês não concordam comigo que o fato de um beija-flor e uma curruira terem me visitado no meu apartamento é prova cabal de que lêem jornal? Por que é que foram aparecer justo no dia seguinte à minha queixa? E fiquei feliz por saber  que eles lêem o que eu escrevo...

E por falar em pássaros, sempre que passo no cruzamento da Barreto Leme com a Maria Monteiro ouço o canto de um Canário da Terra, conhecido também como Cabecinha de Fogo. Por muitos anos eles quase desapareceram. Agora estão voltando, aos bandos. O que atiça a ganância dos caçadores de pássaros que vão para os campos com seus alçapões. Um deles, de Bauru, apareceu em Pocinhos e armou suas armadilhas. Coitado! Não sabia que quem mora em Pocinhos odeia quem engaiola passarinho. Foi logo denunciado à Polícia Florestal que apreendeu as gaiolas e soltou os pássaros. Ele deveria ter passado uns dois dias na prisão para ver se lá ele canta melhor... Quando ouço o canto do Canário da Terra não sei se fico alegre ou triste. Porque há duas possibilidades. A primeira, possibilidade alegre, é que o Canário da Terra esteja morando por lá, em alguma árvore. Seu canto fala da alegria de viver.  A outra é que ele esteja preso em uma gaiola em algum apartamento. O seu canto fala sobre a tristeza de não poder voar...  

Sempre que vou falar em algum lugar o pessoal técnico me pergunta, com antecedência, se vou usar “data show”. Se você não sabe, data show é uma expressão americana. Falar em inglês é mais avançado tecnologicamente. “Show” que dizer “mostrar”. E “data” que dizer “dados”. Trata-se de um artifício para mostrar dados, que são projetados numa tela numa sala escura. Acho que o “data show” pode útil para mostrar dados. Mas o uso que dele se faz é horrível: os palestrantes o usam para projetar  na tela os itens ou esboço da sua fala, eliminando dela qualquer surpresa, pois é claro que os ouvintes, de saída, lêem o esboço até o fim. É como contar o fim da piada no início...Apagam-se as luzes, o palestrante e os ouvintes olham todos para a tela, e ele vai falando. Ninguém presta atenção. Mas todos acham que usar “data show” é prova de ser avançado, tecnologicamente. Quem não usa é atrasado. Quem leva suas notas num caderninho é como alguém que anda de carro de bois num mundo de Fórmula Um. Assim vão os palestrantes, todos com seus “lap-tops”, para a sessão de cineminha sem graça. Falando sobre isso uma mulher que trabalha numa firma promotora de eventos contou-me da maior vantagem dos “data show”, uma coisa em que eu não havia pensado: com as luzes apagadas, longe do olhar do palestrante, os ouvintes podem dormir à vontade. Contou-me de uma ocasião em que um homem dormiu e roncou tão alto que o seu ronco começou a perturbar e alegrar  a palestra. Ele perturbava por causa do barulho dos roncos. E alegrava porque todo mundo se pôs a rir. Barulho de ronco é muito divertido...Mas ela era obrigada a tomar providências. Tinha de fazer algo para por fim aos roncos. E o que ela fez, sádica e humoristicamente, foi colocar um microfone perto da boca do roncador. Aí ele acordou pelo barulho do seu próprio ronco multiplicado pelos altos-falantes...


(Correio Popular, Caderno C, 18/04/2004.)