Quarto de badulaques (XLVI) 


Quem experimentou o cheiro e a cor do capim gordura não esquece mais. Menino, lá em Boa Esperança, meu tio João Gordo, que era extremamente magro, me pegava antes das seis da manhã para ir até a fazenda, para a ordenha das vacas. Os cavalos caminhavam sem pressa. Conheciam o caminho. Passadas as ruas da cidade entrávamos na estrada de terra e tomávamos uma trilha à direita.  A trilha quase não se via, coberta que estava pelo gordo capim gordura que se derramava sobre ela. O silêncio, o cheiro dos cavalos, o barulho dos cascos no chão, o cri-cri dos grilos, a música da água de um riachinho que corria escondido sob o capim,  a neblina e o perfume do capim... Isso faz parte da terra das Minas Gerais, terra-saudade.  É pedaço de mim. Quem é mineiro sente dor só de lembrar.  Depois, quando eu era maior, da janela do meu quarto eu via um campo de capim gordura florido, ao longe. Cor de rosa. Quando o vento passava o rosa ondulava.  As vacas gostavam. Acho que ficavam felizes e da sua felicidade saia o leite mais saboroso, o queijo mais perfumado, como aqueles queijos da Serra da Canastra.  Mas depois veio o tal do progresso e disseram que havia um capim mais forte, o tal de Braquiária, africano. De fato, mais forte. Praga que uma vez plantada não há o que acabe com ela.  As vacas comem por não ter outro. Mas se vingam. Seu leite não tem o mesmo cheiro. Os queijos não têm o mesmo perfume. Andando pela Fazenda Santa Elisa a gente ainda encontra os capim-gordura floridos.  Quando o sol ilumina suas delicadíssimas flores a gente, sem querer, rende graças.

Construo os meus altares à beira do abismo escuro e frio. Os fogos que neles acendo iluminam o meu rosto e me aquecem. Mas o abismo continua o mesmo: escuro e frio.

Peço perdão aos meus leitores. Em minha última crônica me referi ao “berra-boi”, instrumento que era usado na quaresma, durante a noite, para transformar a noite de uma coisa mansa numa coisa sinistra. Na quaresma era preciso ter medo. Pois o berra-boi era formado de um bambu em cuja ponta de amarrava um barbante com um pedaço de madeira na ponta. O tocador do berra-boi girava o bambu com força e o pedaço de madeira produzia um uivo sinistro parecido com um gemido. As noites da quaresma eram cheias de gemidos. Acho que eram os gemidos das almas no inferno.

Aos poucos a Igreja Católica está ficando parecida com as Igrejas protestantes do tempo da minha infância e juventude. Tempos terríveis aqueles. O domingo era um inferno. Não se podia fazer nada. O domingo era santificado mesmo – o que significava que nada podia ser feito que desse felicidade prá gente. Era o que dizia o mandamento: “Lembra-te do dia de sábado para o santificar. Não farás nesse dia obra alguma, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro.” Comprar alguma coisa, nem falar. Já contei a história de uma menininha que, numa manhã de domingo chorava, pedindo que a mãe lhe comprasse um sorvete.  A mãe respondia firme: Não. Um senhor que contemplava a cena teve dó da menina e quis dar-lhe um sorvete de presente. Mas a menininha respondeu entre soluços: “ Num adianta. Nóis, além de ser pobre,  é crente” Domingo as crianças choravam. Não podiam brincar. Brincar era pecado. Ir ao futebol, nem falar.  E nem ouvir rádio. Os missionários protestantes vieram para o Brasil na segunda metade do século XIX. O seu programa era bonito: construir  escolas, para salvar o povo da ignorância. Construir hospitais, para salvar o povo das doenças.  Construir igrejas, para salvar o povo do inferno. Porque, como se sabia, os católicos eram almas perdidas. Um grupo veio para Campinas. Aí aconteceu a epidemia de febre amarela, muita gente morreu. Os missionários deixaram a cidade empesteada e se transferiram para Minas, Patrocínio e Lavras.  Em Lavras, quem os protegeu foram os meus parentes, que não gostavam de padres. Eram espíritas, liberais, republicanos, amantes das ciências. Meu bisavó, Dr. Jorge, que tinha uma belíssima propriedade cheia de árvores ( ele era dendrófilo, e chegou a importar mudas para a sua chácara ), vendeu-a aos missionários por dezoito contos de réis para que lá fizessem uma escola, o Instituto Gammon, que chegou a gozar fama pelo Brasl inteiro, nos tempos em que os pais ricos enviavam seus filhos para receberem educação em internatos. Os líderes mais notáveis dessa instituição foram o Dr. Samuel Gammon e a Da. Carlota Kemper. Há um incidente engraçado ligado à Da. Carlota. Um dia, conversando com uma empregada,  notou que a dita não tirava os olhos dos seus sapatos. Perguntada da razão porque ela olhava tão fixamente para os seus sapatos ela respondeu, muito encabulada, que queria saber se aquilo que o  padre dissera era verdade, porque ele havia afirmado, num sermão, que os protestantes tinham pé de bode. O Dr. Gammon acrescentava às suas funções de educador a função de pregador. Ia todos os domingos a uma cidadezinha distante oito quilômetros, Ribeirão Vermelho, celebrar o culto com uma meia dúzia de recém convertidos. Para isso ele se valia de um tílburi puxado a cavalo. Domingo, de manhã bem cedo, um empregado pegava o cavalo no pasto e o atrelava ao tílburi.  Da. Carlota, rigorosa observadora do domingo ( diziam que se alguém lhe trouxesse uma carta, num domingo, ela não abria...) repreendeu o Dr. Gammon: ele estava transgredindo o mandamento fazendo com que o empregado trabalhasse e fazendo com que o cavalo trabalhasse. Não sei se por medo da Da. Carlota ou por convicção, o fato é que daquele dia em diante o Dr. Gammon fazia a viagem de ida e volta a Ribeirão Vermelho a pé...  O que deve ter feito muito bem para a sua saúde física  e espiritual – porque caminhar em silêncio por caminhos cheios de árvores e pássaros é um experiência mística. Isso aconteceu no início do século passado. Pois lá  pela década dos anos 50, era a mesma coisa. Eu havia me mudado para o Rio de Janeiro. Manhãs luminosas de domingo, as praias, o mar – proibidos. Rádio: proibido. Leitura de jornais: proibida. Cinema: pecado mortal. Fazer amor, nem se fala. Deus não mora no mundo. Deus mora num lugarzinho apertado chamado igreja. E, com muita vergonha, confesso: eu acreditava.  A grande revista daqueles tempos era O Cruzeiro. Pois o pastor relatou que, depois do culto da noite, voltando muito tarde para a sua casa, pôs pijama, deitou-se e começou a ler O Cruzeiro. Sua mulher se horrorizou com pecado tamanho: “Mas meu benzinho, hoje é domingo...” Aí ele deu uma gargalhada e arrematou: “ Então eu mostrei o relógio para ela: era meia noite e um.” É verdade porque eu ouvi.  Assim os protestantes santificavam o domingo. Escrevo essas coisas porque soube que o Papa escreveu um documento espinafrando os católicos que não santificam o domingo. Ele exorta os fiéis  a fazer do jeito preciso como os protestantes  o faziam.  Será esse um gesto de aproximação ecumênica? No passado não era assim. Nós, protestantes, morríamos de inveja dos católicos.  Os fiéis iam é missa e, com isso, seus deveres para com Deus estavam cumpridos. Depois disso tudo era liberdade: praia, piqueniques, rádio, futebol, sorvete,  cinema. Entendo a preocupação do Supremo Pontífice. Os tempos são outros.  Os ritos sagrados, graves, não podem competir com as deliciosas tentações do mundo. O Diabo é muito sedutor. Com isso as igrejas ficam vazias.  Parece que os fiéis deixaram de ter medo de Deus. Fez bem o Papa em determinar que os católicos cumpram o mandamento de santificar do domingo. Domingo não é dia de diversão. Domingo é dia de devoção.  Domingo é dia da Igreja. Eu só não entendo as razões por que as seitas evangélicas não têm esse problema. Parece que os seus templos estão sempre cheios. Por que? Deve haver alguma razão. Talvez porque,  não tendo dinheiro para viagens à praia, as reuniões nos templos se tornem numa alternativa alegre. A condição econômica muito contribui para a santidade.

As goiabas...Ah! As goiabas... Ficam vendendo goiabas em caixa nos semáforos. Sou doido por goiabas e por isso não compro as goiabas que eles vendem. Porque aquelas frutas que estão vendendo não são goiabas. Acho que foram inventadas pelos japoneses, que são extraordinários pelo seu poder de mudar as coisas. Por que as inventaram? Não por que amassem as goiabas. Mas porque queriam ganhar dinheiro com as goiabas. Goiaba que é goiaba não se presta prá ganhar dinheiro. Goiaba de verdade é mole, não resiste ao transporte. Deteriora-se rapidamente, não se presta a ser guardada. É habitada por bichos brancos, que dão testemunho do seu gosto delicioso. Comprem uma dessas goiabas de semáforo. Tentem sentir o seu perfume. Não têm. Mordam e sintam como são duras. E vejam se há algum bicho lá dentro. Não tem. Por que? Por que as goiabas são melhores? Não. Porque não têm gosto. Até os bichos sabem que aquilo não é goiaba. Eu me lembro, lá em Minas... A gente viajava de jardineira. Abarrotada. O dono recebia o dinheiro das passagens e fazia fiado prá quem não tinha dinheiro. Eu me lembro, uma vez... A jardineira entrou num trecho da estrada de terra ( não havia outras)  que passava por um enorme goiabal de goiabeiras nativas, carregadas de goiabas amarelas. Ele deu uma ordem para o motorista. O motorista parou a jardineira. E então ouviu-se o seu grito dirigido aos passageiros: “Pessoal, todo mundo catando goiaba...” Todo mundo desceu e foi uma felicidade. Tão grande que não me esqueci. Lembro-me da manhã ensolarada, do campo verde, do perfume das goiabas e da alegria dos passageiros, transformados em crianças. Sentido da vida? É catar goiaba madura, bichada, doce, em manhã ensolarada...

( Correio Popular, 18 de Abril de 2004 )