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| Quarto de badulaques (XLVI) |
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Construo
os meus altares à beira do abismo escuro e frio. Os
fogos que neles acendo iluminam o meu rosto e me
aquecem. Mas o abismo continua o mesmo: escuro e frio. Peço
perdão aos meus leitores. Em minha última crônica me
referi ao “berra-boi”, instrumento que era usado na
quaresma, durante a noite, para transformar a noite de
uma coisa mansa numa coisa sinistra. Na quaresma era
preciso ter medo. Pois o berra-boi era formado de um
bambu em cuja ponta de amarrava um barbante com um pedaço
de madeira na ponta. O tocador do berra-boi girava o
bambu com força e o pedaço de madeira produzia um uivo
sinistro parecido com um gemido. As noites da quaresma
eram cheias de gemidos. Acho que eram os gemidos das
almas no inferno. Aos
poucos a Igreja Católica está ficando parecida com as
Igrejas protestantes do tempo da minha infância e
juventude. Tempos terríveis aqueles. O domingo era um
inferno. Não se podia fazer nada. O domingo era
santificado mesmo – o que significava que nada podia
ser feito que desse felicidade prá gente. Era o que
dizia o mandamento: “Lembra-te do dia de sábado para
o santificar. Não farás nesse dia obra alguma, nem tu,
nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a
tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas
portas para dentro.” Comprar alguma coisa, nem falar.
Já contei a história de uma menininha que, numa manhã
de domingo chorava, pedindo que a mãe lhe comprasse um
sorvete. A
mãe respondia firme: Não. Um senhor que contemplava a
cena teve dó da menina e quis dar-lhe um sorvete de
presente. Mas a menininha respondeu entre soluços: “
Num adianta. Nóis, além de ser pobre,
é crente” Domingo as crianças choravam. Não
podiam brincar. Brincar era pecado. Ir ao futebol, nem
falar. E
nem ouvir rádio. Os missionários protestantes vieram
para o Brasil na segunda metade do século XIX. O seu
programa era bonito: construir escolas, para salvar o povo da ignorância. Construir
hospitais, para salvar o povo das doenças.
Construir igrejas, para salvar o povo do inferno.
Porque, como se sabia, os católicos eram almas
perdidas. Um grupo veio para Campinas. Aí aconteceu a
epidemia de febre amarela, muita gente morreu. Os
missionários deixaram a cidade empesteada e se
transferiram para Minas, Patrocínio e Lavras. Em Lavras, quem os protegeu foram os meus parentes, que não
gostavam de padres. Eram espíritas, liberais,
republicanos, amantes das ciências. Meu bisavó, Dr.
Jorge, que tinha uma belíssima propriedade cheia de árvores
( ele era dendrófilo, e chegou a importar mudas para a
sua chácara ), vendeu-a aos missionários por dezoito
contos de réis para que lá fizessem uma escola, o
Instituto Gammon, que chegou a gozar fama pelo Brasl
inteiro, nos tempos em que os pais ricos enviavam seus
filhos para receberem educação em internatos. Os líderes
mais notáveis dessa instituição foram o Dr. Samuel
Gammon e a Da. Carlota Kemper. Há um incidente engraçado
ligado à Da. Carlota. Um dia, conversando com uma
empregada, notou
que a dita não tirava os olhos dos seus sapatos.
Perguntada da razão porque ela olhava tão fixamente
para os seus sapatos ela respondeu, muito encabulada,
que queria saber se aquilo que o
padre dissera era verdade, porque ele havia
afirmado, num sermão, que os protestantes tinham pé de
bode. O Dr. Gammon acrescentava às suas funções de
educador a função de pregador. Ia todos os domingos a
uma cidadezinha distante oito quilômetros, Ribeirão
Vermelho, celebrar o culto com uma meia dúzia de recém
convertidos. Para isso ele se valia de um tílburi
puxado a cavalo. Domingo, de manhã bem cedo, um
empregado pegava o cavalo no pasto e o atrelava ao tílburi.
Da. Carlota, rigorosa observadora do domingo (
diziam que se alguém lhe trouxesse uma carta, num
domingo, ela não abria...) repreendeu o Dr. Gammon: ele
estava transgredindo o mandamento fazendo com que o
empregado trabalhasse e fazendo com que o cavalo
trabalhasse. Não sei se por medo da Da. Carlota ou por
convicção, o fato é que daquele dia em diante o Dr.
Gammon fazia a viagem de ida e volta a Ribeirão
Vermelho a pé... O
que deve ter feito muito bem para a sua saúde física
e espiritual – porque caminhar em silêncio por
caminhos cheios de árvores e pássaros é um experiência
mística. Isso aconteceu no início do século passado.
Pois lá pela
década dos anos 50, era a mesma coisa. Eu havia me
mudado para o Rio de Janeiro. Manhãs luminosas de
domingo, as praias, o mar – proibidos. Rádio:
proibido. Leitura de jornais: proibida. Cinema: pecado
mortal. Fazer amor, nem se fala. Deus não mora no
mundo. Deus mora num lugarzinho apertado chamado igreja.
E, com muita vergonha, confesso: eu acreditava.
A grande revista daqueles tempos era O Cruzeiro.
Pois o pastor relatou que, depois do culto da noite,
voltando muito tarde para a sua casa, pôs pijama,
deitou-se e começou a ler O Cruzeiro. Sua mulher se
horrorizou com pecado tamanho: “Mas meu benzinho, hoje
é domingo...” Aí ele deu uma gargalhada e arrematou:
“ Então eu mostrei o relógio para ela: era meia
noite e um.” É verdade porque eu ouvi.
Assim os protestantes santificavam o domingo.
Escrevo essas coisas porque soube que o Papa escreveu um
documento espinafrando os católicos que não santificam
o domingo. Ele exorta os fiéis
a fazer do jeito preciso como os protestantes
o faziam. Será
esse um gesto de aproximação ecumênica? No passado não
era assim. Nós, protestantes, morríamos de inveja dos
católicos. Os
fiéis iam é missa e, com isso, seus deveres para com
Deus estavam cumpridos. Depois disso tudo era liberdade:
praia, piqueniques, rádio, futebol, sorvete,
cinema. Entendo a preocupação do Supremo Pontífice.
Os tempos são outros.
Os ritos sagrados, graves, não podem competir
com as deliciosas tentações do mundo. O Diabo é muito
sedutor. Com isso as igrejas ficam vazias.
Parece que os fiéis deixaram de ter medo de
Deus. Fez bem o Papa em determinar que os católicos
cumpram o mandamento de santificar do domingo. Domingo não
é dia de diversão. Domingo é dia de devoção.
Domingo é dia da Igreja. Eu só não entendo as
razões por que as seitas evangélicas não têm esse
problema. Parece que os seus templos estão sempre
cheios. Por que? Deve haver alguma razão. Talvez
porque, não
tendo dinheiro para viagens à praia, as reuniões nos
templos se tornem numa alternativa alegre. A condição
econômica muito contribui para a santidade. As goiabas...Ah! As goiabas... Ficam vendendo goiabas em caixa nos semáforos. Sou doido por goiabas e por isso não compro as goiabas que eles vendem. Porque aquelas frutas que estão vendendo não são goiabas. Acho que foram inventadas pelos japoneses, que são extraordinários pelo seu poder de mudar as coisas. Por que as inventaram? Não por que amassem as goiabas. Mas porque queriam ganhar dinheiro com as goiabas. Goiaba que é goiaba não se presta prá ganhar dinheiro. Goiaba de verdade é mole, não resiste ao transporte. Deteriora-se rapidamente, não se presta a ser guardada. É habitada por bichos brancos, que dão testemunho do seu gosto delicioso. Comprem uma dessas goiabas de semáforo. Tentem sentir o seu perfume. Não têm. Mordam e sintam como são duras. E vejam se há algum bicho lá dentro. Não tem. Por que? Por que as goiabas são melhores? Não. Porque não têm gosto. Até os bichos sabem que aquilo não é goiaba. Eu me lembro, lá em Minas... A gente viajava de jardineira. Abarrotada. O dono recebia o dinheiro das passagens e fazia fiado prá quem não tinha dinheiro. Eu me lembro, uma vez... A jardineira entrou num trecho da estrada de terra ( não havia outras) que passava por um enorme goiabal de goiabeiras nativas, carregadas de goiabas amarelas. Ele deu uma ordem para o motorista. O motorista parou a jardineira. E então ouviu-se o seu grito dirigido aos passageiros: “Pessoal, todo mundo catando goiaba...” Todo mundo desceu e foi uma felicidade. Tão grande que não me esqueci. Lembro-me da manhã ensolarada, do campo verde, do perfume das goiabas e da alegria dos passageiros, transformados em crianças. Sentido da vida? É catar goiaba madura, bichada, doce, em manhã ensolarada... ( Correio Popular, 18 de Abril de 2004 )
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