Quarto de badulaques (XLIX)

         ATLETISMO: Havia na UNICAMP um professor na Faculdade de Educação Física que muito se opunha ao atletismo. Dizia ele: “Você conhece algum atleta longevo? Os atletas morrem cedo. Quem vive muito são aquelas velhinhas que se reunem às 5 da tarde para tomar chá com bolo. O atletismo é contra a natureza. Nenhum animal o pratica. Isso, de levar o corpo até os limites extremos, é o mesmo que tomar uma baxiga e ir soprando, soprando, soprando... Há um momento em que ela estoura.  O que é certo é cultivar os movimentos: caminhar, dançar, por uma sinfonia para tocar e reger a orquestra...” Eu não são tão radical quanto o dito professor, embora partilhe da maioria das suas idéias. Acho que há certas práticas atléticas que são salutares. Um amigo acaba de me informar sobre uma nova modalidade de lançamento de peso ou de disco que despertou meu entusiasmo, e espero que ela venha a ser incorporada aos esportes olímpicos. Trata-se de “lançamento de telefones celulares”. O fato é que o mercado de celulares está produzindo uma quantidade cada vez maior de aparelhos que logo se transformam em velharias. Vocês se lembram dos primeiros celulares, enormes, que quase exigiam uma mochila para serem carregados? Onde estão. Nalgum lugar da sua casa. Espero que vocês não os tenham colocado no lixo, por razões ecológicas. Pois agora há um uso saudável para tais objetos inúteis: eles são transformados em material esportivo. Como psicanalista eu creio que o lançamento de celulares terá uma função terapêutica. Porque o fato é que frequentemente eu tenho vontade de lançar meu celular para bem longe. Mas não me atrevo a fazê-lo porque esses ímpetos por vezes acontecem em espaços públicos e seria inevitável que as pessoas, ao me ver fazendo tal tresloucado gesto, se apressassem a chamar o pronto socorro psiquiátrico. Já na pista de atletismo poderei lançar quantos celulares quiser, livrar-me-ei de minhas raivas e ainda serei aplaudido por minha técnica.

          NEGÓCIOS DE DEUS: Minhas reflexões, em minha última crônica, sobre os descaminhos da Santíssima Trindade  levaram-me a pensamentos mais perturbadores sobre o assunto. Notei que há alguns que chegam ao despudor de ligar o nome de Deus aos seus projetos capitalistas. Tal é ( ou foi ) a situação de um famoso banco, cujo nome não vou dizer para não sofrer retaliações no crédito, que tinha impressa, nos seus papeis, a seguinte frase: “ Nós confiamos em Deus.” ( Deveríam ter acrescentado: “ Mas não confiamos nos clientes”. ( Alguém definiu um banco como uma instituição que lhe empresta dinheiro se você provar que não precisa... ) Percebi logo que tal afirmação religiosa era inspirada nas notas de dolar americano que portam a declaração: “ In Gold we trust”. Perdão, perdão pelo lapso. Corrijo-me: “ In God we trust.” Ah! Confiam nada. Pois se confiassem iriam seguir os ensinamentos de Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra onde os ladrões minam e roubam... Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres.” Existirá algo mais contrário ao espírito bancário? Pode ser que o Deus deles seja diferente. E há os outros, mais despudorados ainda, que ligam Deus à política. Político invocou o nome de Deus eu exconjuro! É coisa do demônio. O presidente Bush, para justificar sua guerra contra o Iraque, dizia que conversava todas as manhãs com Jesus. Que comovente! Como o presidente Bush é bom e cristão! Foi essa sua reza diária que lhe permitiu apresentar-se como o grande campeão do Eixo do Bem. Faz muitos anos, eleição de Lula x Collor. Claro que eu votei no Lula e até escrevi um artigo que se tornou famoso! Aí uns petistas aqui de Campinas me telefonaram perguntando se eu assinaria um manifesto a favor do Lula. Mas é claro. Assino. Mas quero ler o manifesto primeiro. Não era um manifesto. Era um sermão com citações bíblicas do princípio ao fim. Refuguei imediatamente e disse: Se querem que eu assinem um manifesto dizendo que acho o Lula melhor que o Collor, contem comigo. Mas transformá-lo num personagem da história sagrada, num herói bíblico, isso não. Não assinei. Mas o PT parece ter uma vocação teológica. É explicavel, em virtude de suas conexões religiosas com setores da Igreja Católica. Ouvi que um líder teológico do PT disse que o Programa Fome Zero era a continuação da multiplicação dos pães. Se é, o PT é a continuação da encarnação de N. S. Jesus Cristo. E me lembro, faz muitos anos, do dito por um líder do PT,  que a cor vermelha da sua bandeira é o sangue de N.S. Jesus Cristo. Nesse caso o filme do Mel Gibson ganha, porque tem mais sangue. Político que invoca Deus não fica bom. Político que invoca Deus tem um ditador morando dentro dele. Como o Bush. Se eu converso diariamente com Jesus, por que dar ouvidos à comunidade mundial? Jesus vale mais e eu ouço a voz de Jesus. As maiores barbaridades têm sido perpetradas na história por homens que as fizeram invocando o nome de Deus. Seríamos mais fieis a Deus se o deixássemos fora das nossas confusões políticas. Assim teríamos de assumir a responsabilidade pelo que fazemos sem jogar a culpa em Deus em cujo nome falamos. Se não me engano as famosas marchas que antecederam a ditadura invocavam o nome de Deus. Marcha da Família com Deus... Não me lembro bem. E também o Salazarismo. E o Franquismo. Vejam o filme “A lingua da mariposas”. Vejam como os adversários políticos são eliminados pela acusação de impiedade e com a bênção da igreja. No Chile a mansa mãe de Deus foi promovida a generala do exército, comanda canhões,  metralhadoras e decreta mortes...

          DEIXAR MORRER: Haviam acabado de jantar. Pai velho e filho médico vão para a sala de estar, para conversar. Conversa mansa, gostosa... De repente o filho nota que o pai ficou silencioso, não mais reagia às suas palavras, a cabeça pendida para o lado... Médico, ele compreendeu imediatamente: seu pai morrera. Fez então aquilo que lhe haviam ensinado, que fazia parte dos seus automatismos médicos: deitou o pai no chão, fez respiração boca a boca, massagem cardíaca, lutou contra a morte, como é dever dos médicos fazer.  O coração recomeçou a bater. A respiração voltou. Seu pai voltou a viver. Mas houve sequelas. Ele perdeu o controle dos seus esfíncteres  ficou obrigado às humilhações e incômodos do fraldão. Assentado na sua cadeira ele olhava o filho e lhe dizia: “Por que você fez aquilo? Eu morri tão feliz, em meio à nossa... Mas você me trouxe de volta e agora estou aqui. Por que você fez aquilo, filho?

          ME AJUDA A MORRER: Foi-me relatado por um amigo médico. Ele estava ao lado de um menino, onze anos, segurava suas mãos. O menino estava morrendo. O menino olhou para ele, apertou sua mão  e disse: “Tio, como é difícil morrer! Me ajuda a morrer...”