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| Quarto de badulaques (XLIV) |
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Aos jovens que
desejam ser médicos: Eu também desejei muito ser um médico.
Por que não fui, nem sei explicar direito. Mas na minha
juventude os médicos eram diferentes dos médicos de
hoje. Tinham de ser porque o mundo era diferente Os
hospitais eram raros e raros também eram os laboratórios.
Como um Sherlock Holmes, valendo-se de pistas mínimas,
o médico tinha de descobrir o criminoso que deixava
suas marcas no corpo do doente. Naqueles tempos a
inteligência era muito importante. Por esse Brasil
afora os médicos eram, frequentemente, heróis solitários
que atendiam unha encravada, cachumba, desidratação,
bronquite, pneumonia, parto, prisão de ventre,
resfriado, crupe, disenteria, gonorréia, berne,
conjuntivite, furúnculo, hemorróidas, lombriga,
dor de garganta, coqueluche, tosse de cachorro, verruga,
indigestão... E tinham de ser humildes porque as
derrotas na luta contra a morte e o sofrimento eram mais
frequentes.Vocês poderiam ler a estória do Jeca
Tatuzinho, do Monteiro Lobato, distribuidos mais de
oitenta milhões de exemplares. Com meus cinco anos eu
sabia a estória do Jeca Tatuzinho de cor e a “lia”,
compenetrado, para minha tia Noemia que estava doente...
Com frequência o
médico recebia como pagamento um frango, duas dúzias
de ovos, um leitão – mais a eterna gratidão de quem
tinha sido atendido e não podia pagar.
Deus no céu, o “doutor” na terra, eram as
valias dos pobres. O médico que me inspirou, que era o
meu modelo... E por falar em modelo, que médico é o
seu modelo? Há um médico que seja objeto da sua admiração,
alguém que você deseja ser como ele? Antigamente os
modelos eram de carne e osso. Hoje os modelos são mais
abstratos, tipos ideais, como se tivessem perdido o
rosto. Os modelos deixaram de ser pessoas e passaram a
ser uma especialização profissional. Mas, como eu
dizia, o meu modelo foi Albert Schweitzer, sobre quem já
escrevi uma crônica que está no livro “O médico”.
Hoje, quando se pensa num médico, pensa-se em alguém
portador de um conhecimento especializado:
a lista deles se encontra no catálogo da UNIMED
... Cada médico é uma unidade bio-psicológica móvel
portadora de conhecimentos especializados e que executa
atos sobre o corpo do paciente... Naqueles tempos era
diferente. Os médicos tinham sim, conhecimentos e
executavam atos sobre o corpo do paciente. Mas o que os
caracterizava, mesmo – pelo menos no imaginário
popular – era o fato de que eles eram seres movidos
por compaixão. Eles eram muito amados, tomavam café
com bolo de fubá depois das visitas nas casas. Compaixão,
nas suas origens etimológicas, quer dizer “sofrer com
um outro”. A compaixão é, talvez, a mais humana das
nossas características. Toda pessoa que procura um médico
está sofrendo. O “paciente” é aquele que sofre. Há
sofrimentos dos mais variados tipos, das hérnias de
disco e cálculos renais até a absoluta falta de
apetite e a tristeza. O médico, que pode não estar
sofrendo nada ( se ele estiver sofrendo
será um médico mais compassivo... ), sofre um
sofrimento que não é seu, é de um outro. E é só
porque ele sofre com os sofrimentos dos outros que ele
se impõe a disciplina de estudar, pesquisar e
desenvolver habilidades: para que o outro sofra menos ou
deixe de sofrer. A medicina nasceu da compaixão. Albert
Schweitzer era uma pessoa muito especial. Desde menino
sofria com o sofrimento de todas as coisas vivas,
os mínimos animais e até mesmo com o capim cortado
pela foice. Se disserem que ele deveria ter alguma
perturbação mental eu direi que vocês provavelmente
estão certos. Esse tipo de sensibilidade não se
encontra no normal das pessoas. Mas é precisamente essa
sensibilidade exacerbada que caracteriza os grandes
homens e as grandes mulheres. São Francisco, Chopin,
Cecília Meireles, Madre Tereza de Calcutá, Nietzsche,
Faure, Gandhi foram todos pessoas de sensibilidade
exacerbada. Por causa deles o mundo ficou melhor e mais
bonito. O
que faz um médico não são os seus conhecimentos de ciência
médica. A ciência médica é algo que lhe é exterior
e que ele leva consigo, como se fosse uma valise. Os
conhecimentos científicos, qualquer pessoa pode ter.
Mas a alma de um médico não se encontra
no lugar do saber mas no lugar do amor. O médico
é movido pela compaixão. Albert Schweitzer transformou
esse sentimento num princípio ético que todo médico
deveria ter afixado no seu consultório, para não se
esquecer: Reverência pela vida. Toda vida, a mais ínfima,
é sagrada. E foi movido por esse sentimento que aos
trinta anos começou os seus estudos de medicina e foi
exercê-la, pelo resto de sua vida, num lugar abandonado
do coração da Africa chamado Lambarene. Mas eu me
surpreendi com uma informação absurda, de que teria
havido trotes sem compaixão
a que os veteranos de uma escola de medicina de
Campinas teriam imposto aos seus novos companheiros.
Porque isso está em desacordo com tudo o que sempre
pensei sobre a alma de um médico. Em alguns lugares está
surgindo uma coisa bonita: o trote amigável. Cerca de
130 calouros foram trabalhar um dia inteiro na Fundação
Síndrome de Down, na maior alegria: esse foi o seu
trote. Mas o trote clássico, como já está sugerido
pelo nome, é
algo que revela um caráter cavalar. Mas, retiro o que
disse. Porque nunca pude observar entre os cavalos
qualquer comportamento que se assemelhe ao trote. O
trote revela a alma dos que o fazem: eles sentem prazer
em humilhar e fazer sofrer os seus novos colegas.
Trata-se de uma deformação de personalidade idêntica
àquela que se apresenta também nos torturadores e que
tem o nome de sadismo. É revelador que o trote não seja feito por um indivíduo
isolado, às claras. O indivíduo solitário não dá
trote, por medo. Ele se sente fraco. É covarde. Para
dar o trote ele se refugia no grupo – o que o faz
sentir-se forte - e
no anonimato – que lhe dá sentimentos de impunidade.
E assim, protegido pelo grupo e pela impunidade, ele
deixa aflorar seus impulsos bestiais. Corrijo-me de
novo. Não conheço nenhum animal que sinta prazer no
sofrimento dos outros... Fico então a pensar: esses
tipos estão no processo de se tornarem médicos. Mas é
óbvio que lhes falta o essencial do caráter médico.
É urgente, então, que sejam tomadas providências no
sentido de impedir que isso aconteça, e que tais jovens
sejam encaminhados para outras profissões mais em
harmonia com o seu carater como, por exemplo, as lutas
marciais e o box. E que não me venham com a desculpa de
que isso é coisa passageira, brincadeira de moços. Não
é. O que o trote revela é um componente sádico da
personalidade que não pode ser eliminado. O máximo que
pode acontecer é que esse prazer em produzir sofrimento
nos outros vá encontrar outras formas de expressão nas
relações de trabalho, conjugais e parentais. Espero
que vocês, calouros de uma vocação tão bonita, não
sejam movidos pela tentação de vingança contra os
calouros do ano que vem. Que o seu trote seja generoso,
amigo e se traduza em algo feito em pról da comunidade.
Espero que vocês sejam movidos pela reverência
pela vida. Os primeiros
colocados nos exames vestibulares: Já
faz anos que os cursinhos publicam as fotografias dos
seus alunos que foram colocados em primeiro lugar nos
exames vestibulares. Tais alunos bem que merecem pois se
trata de um feito extraordinário. Mas eu gostaria mesmo
é que alguém fizesse uma pesquisa sobre o destino
profissional desses gênios de memória. É preciso não
confundir memória com inteligência. Inteligência
emocional: Fez
e ainda faz muito sucesso um livro com esse título,
Inteligência Emocional. Mas o meu amigo, professor
Eduardo Chaves, fez uma observação muitíssimo
correta: “Não existe inteligência emocional. O que
existe é emoção inteligente.” É
a emoção que busca inteligência, para realizar os
seus sonhos. A inteligência é ferramenta da emoção.
A inteligência, em si mesma, não sente necessidade
alguma da emoção. Peixe Grande e suas
histórias maravilhosas: Um
filme delicioso! Leveza, humor, fantasia, realidade.
Somos a histórias que contamos para nós mesmos... “Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. ‘Serei sua’, disse ela, ‘quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela.’ Mas, na nongésima nona noite o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi” ( Barthes, Fragmentos do discurso amoroso, p. 96).
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