![]() |
![]() |
|
| Quarto de badulaques (XLIII) |
|
Prometi
que iria relatar o caso clínico do homem que confundiu
a sua esposa com um chapéu. Não se trata de ficção.
O que quero dizer com isso é que esse caso não é uma
estória inventada, como “A Terceira Margem do Rio”
ou “ O afogado mais lindo do mundo” Mas que tem uma
pitada de ficção, isso lá tem. Não conhecemos aquilo
a que damos o nome de “fatos”. Os ditos “fatos”
são apenas uma matéria prima bruta que a imaginação,
essa artista que mora em nós, usa para fazer suas
“artes”, no sentido duplo da palavra. Cada um conta
do seu jeito... Quem conta é Oliver Sacks, um famosíssimo
neurologista. Aconselharia a todos que lessem os seus
livros. São fascinantes, porque nos fazem entrar no
mundo bizarro da alma humana. Pois ele foi procurado por
um homem que a ele veio, empurrado por amigos, para
lidar com algo estranho em sua forma de ver as coisas.
Sacks relata a
primeira entrevista, ele e o homem conversando de
maneira normal, sem que fosse possível notar qualquer
coisa que sugerisse alguma perturbação mental. Mas
Sacks ficou intrigado com um sentimento estranho: ele
tinha a impressão de que aquele homem que o encarava de
frente não o estava vendo. Tinha os olhos perfeitos,
via tudo, mas não via... Até que ele, Sacks, atinou
com o mistério dos seus olhos: eles viam as partes
perfeitamente bem, mas não eram capazes de juntar as
partes num todo significativo. Via as orelhas, a boca, o
nariz, os cabelos – mas os viam soltos, sem que se
encaixassem para fazer um rosto. Sim, os olhos daquele
homem não eram capazes de ver um rosto.
Diante de uma fotografia do seu irmão que lhe
foi mostrada com a pergunta “Quem é essa pessoa?”
ele se pôs imediatamente a descrever as partes da
imagem com a maior precisão. A testa larga, os lábios
finos, o nariz ligeiramente achatado, o maxilar... Esse
maxilar, com esse ângulo me faz pensar... Sabe? Meu irmão
tem um maxilar com um ângulo exatamente igual a esse.
Será, por acaso, uma foto do meu irmão? “ Ele foi
incapaz de reconhecer o rosto do irmão. Chegou ao irmão
através da geometria: a igualdade dos ângulos do
maxilar. “O que é isso?”- Sacks lhe perguntou,
mostrando-lhe uma luva. “Bem, trata-se de um saco
maior do qual saem cinco sacos finos e compridos...” Isso
é precisamente uma luva. Mas ele era incapaz de
reconhecer, naquilo que via, uma luva. Seus olhos só
percebiam as partes. O interessante das patologias é
que elas frequentemente não passam de traços comuns
das pessoas ditas normais, aumentados por meio de uma
lupa. A patologia, assim, serve-nos como um espelho. As
grande bizarrices da patologia são nossas pequenas
bizarrices vistas através de um “zoom”... Como é o
caso do homem que assistiu a um concerto e dele o que
mais o impressionou foi a calva do clarinetista... Às
vezes eu tenho a impressão de que a especialização
científica pode produzir um efeito semelhante: os
cientistas se tornam especialistas nas partes e as
conhecem com grande precisão. Mas ficam perdidos quando
se trata de ver o “rosto” da realidade. Na verdade
nem mesmo reconhecem o seu próprio rosto quando
o vêem no espelho. Essas associações foram
provocadas pelo homem, desconhecido, que toma a sopa mas
só percebe o lascado na beirada do prato... Existe
uma grave falha na minha formação: não aprendi a
jogar xadrez, talvez o jogo mais fascinante jamais
inventado. Claro,
conheço as peças e sei movê-las. Mas, no xadrez, sou
como o dito homem descrito por Sacks: não consigo
perceber o “rosto” do jogo. Não me dediquei à
aprendizagem da totalidade. E na guerra quem não tem a
visão do todo, perde. Eu perco sempre e rápido. Xadrez
é um jogo de guerra. Ou de política. Porque política
e guerra são a mesma coisa. A guerra é a política
quando feita com o uso das armas. Claro que na política
se faz uso de armas também. Mas esse uso é
dissimulado. Xadrez: dois exércitos que se defrontam. O
confronto só é possível graças a um espaço vazio.
Se não houvesse esse espaço as peças ficariam imóveis,
sem sair do lugar. O objetivo é mover as peças de tal
forma que, ao final, o rei adversário fique sem saída
e abdique. O que se chama “xeque mate”. No tabuleiro
estão presentes as forças, cada uma delas com um
potencial de fogo diferente. Os bispos, se movendo
sempre na diagonal. Os cavalos, se movendo aos saltos.
As torres, nas horizontais e nas perpendiculares.
Os peões, infantaria, andam na frente, um passo
de cada vez. Serão as primeiras vítimas na batalha. E
a rainha, poder supremo, que desliza nas horizontais,
nas verticais e nas diagonais! Com certeza o inventor do
jogo morava num país em que quem mandava era a rainha,
o rei sendo nada mais que um fantoche, um símbolo, uma
simples bandeira, com pouquíssimo poder de ataque, e
que fica o tempo todo se escondendo por saber que o exército
inimigo está atrás dele. Há muitos estilos diferentes
no jogo. Mas, qualquer que seja o estilo, uma coisa é
certa: as regras são fixas. Os jogadores têm liberdade
para escolher o estilo, mas não têm liberdade para
escolher as regras.
Não é possível jogar o jogo do poder com ética.
Porque o poder não conhece limites. É insaciável.
Quer crescer cada vez mais. Deseja ser absoluto. E a ética
é um empecilho a essa pretensão. Não existe lugar
para ética no tabuleiro.
Há uma única pergunta: “Que movimento fazer
para derrotar o adversário?” Isso é verdadeiro para
o jogo de xadrez, o jogo econômico e o jogo político.
Maquiavel, Marx e Weber sabiam disso. A ética é sempre
invocada pelos que estão perdendo. Não conheço caso
de partido no poder que tenha invocado princípios éticos
para colocar limites ao seu uso de poder. Transparência!
Que lindo princípio ético! Somente um louco seria
transparente! Ser transparente
é ser vulnerável. E quem é vulnerável fica
fraco. Maquiavel, nos seus conselhos ao Príncipe, faz a seguinte
pergunta: “O que é mais importante? Que o príncipe
seja virtuoso ou que o príncipe pareça ser
virtuoso?” A ética responderia: “Que ele seja
virtuoso, transparentemente virtuoso!” A
esperteza política responde: “Que ele pareça ser
virtuoso. O que o príncipe é, na realidade, deve ser
protegido dos olhos por uma cortina opaca ..”
O jogo de xadrez pode muito bem nos ajudar a entender o
nosso momento político. Tudo se faz para “parecer
ser” e tudo se faz para evitar a transparência.
Compreende-se o esforço do governo para preservar a
“rainha”. Afinal de contas é a peça mais
importante para proteger o “rei”... É preciso
entender: ninguém é culpado. Os jogadores não têm
alternativas. Eles têm de se submeter às regras. Assim
é a política, sempre. Tive
um sonho: é o título de um livro
delicioso, escrito pela psicanalista Irene de la Puente.
Eu fico logo aflito quando alguém me dá um livro de
sua autoria. Pode ser que não me agrade... Pois o livro
da Irene me agarrou e não descansei enquanto não o li
de cabo a rabo. Juro que você vai gostar. Já se encontra nas
livrarias Liubliu ( Barão Geraldo),
Technart, do shopping D. Pedro, e da Unicamp. Canários da Terra: Moravam nas árvores da minha infância. Amarelos, cabeça vermelha, eram também conhecidos como “Cabecinhas de fogo.” Aos poucos foram sumindo. Pensei que haviam nos abandonado, definitivamente. De medo. Para sobreviver. Teriam ido para longe dos homens...Bachelard, falando sobre sua experiência com um pássaro que havia feito um ninho em seu jardim, nos descreve como aqueles que perderam a confiança dos pássaros. E com razão. Tantas coisas horríveis lhes fizemos. Nos meus dias de infância o esporte favorito dos meninos era matar passarinhos com estilingue, pelo puro prazer de matar. Ou engaiolá-los. Há uma canção do Chico sobre a passarada onde a alegria é sempre interrompida pelo refrão “...o homem vem aí, o homem vem aí.” Mas eles estão voltando. Sempre que passo no cruzamento da Maria Monteiro com a Sampainho, pelas manhãs, ouço o canto de um “Cabecinha de Fogo. Espero que o seu canto venha do alto de uma palmeira e não de dentro de uma gaiola! Pois nos dias de Carnaval, nas montanhas de Minas, vi um espetáculo maravilhoso que nunca imaginei que existisse: bandos de mais de 50 canários da terra, voando. Isso me deu alegria. E esperança. Pena que os nossos meninos não saibam o que são Canários da Terra e nem saibam identificar o seu canto. Deveriam aprender isso nas escolas. Versão pedagógica de um ditado velho: “Vale mais um pássaro voando que um dígrafo e uma mesóclise na prova.”
|