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| Quarto de badulaques (XL) |
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Para se chegar lá é preciso atravessar um braço
de mar azul. Automóveis não há. Em compensação há
as charretes puxadas pelos mansos jegues. Mas prá que
charrete, se as praias são limpas, não há som para
perturbar o barulho do vento e do mar, e não há horário
para se chegar! Caminhar, caminhar... Caminhando
naquelas praias ainda não descobertas pelos turistas a
gente se sente sozinho no mundo – uma solidão bonita
– não quereríamos companhias que estragassem a música
da natureza com o seu tagarelar. Por que é que as
pessoas gostam tanto de falar? Por que não têm prazer
no silêncio? Parece que, estando na companhia de um
outro, o silêncio é descortesia. O outro me obriga a
falar, ainda que banalidades. Mas, por que? O amigo é
aquela pessoa em cuja presença o silêncio tem música.
Só deveríamos falar quando a nossa fala fosse
mais bonita que o silêncio. Era lua nova. Lua nova é
tempo de maré alta. Vocês sabem por que? Pois
deveriam., O bom da maré é que ela apaga da areia as
marcas humanas. Depois da maré a praia é lisa como o
corpo de uma mulher. As mulheres varrem as ruas. E com
que orgulho! A varreção é uma hora de socialização.
As vizinhas conversam. No fim da tarde colocam cadeiras
na calçada e gozam da brisa e da vagabundagem, enquanto
jogam conversa fora. As crianças fogem da televisão.
É muito melhor estar nas ruas e nas praças, jogando
futebol e brincando de pique. Pena que uma empresa de
salinas esteja a destruir a flora e a fauna. O dinheiro
vale mais que a preservação da natureza. Esse
lugarzinho se chama Galinhos, no Rio Grande de Norte.
Nada tem a ver com galinhos, maridos das galinhas. É
que o lugar era uma ensada onde se abrigavam os filhotes
do peixe galo.
Há pessoas cuja simples lembrança do seu rosto
nos faz sorrir. É o caso da Lucília, esposa do Jether.
Jether é aquele amigo que se recusou a comprar o blazer
vermelho para fazer dupla comigo. Achou que vermelho não
combinava com a sua idade, velho demais. Ele não
entendeu que era prá isso mesmo, prá não combinar, prá
dizer a todos que a cor da alma, vermelha, não era o
mesma cor da idade. Quem usa vermelho está pronto a
brincar... Pois a lembrança do rosto da Lucília me faz
sorrir. Eu a defino: A Lucília é um prazer de viver
cercado de carne por todos os lados. Além do seu riso,
uma de suas maiores virtudes é a de cozinheira
maravilhosa! Mas ela tem uma outra qualidade: tem uma
compulsão por ajudar os outros. Basta que ela veja alguém
numa situação difícil que ela se movimenta. O que lhe
tem dado muito prazer e muito riso. Pois ela e o Jether,
amantes de viagens, estavam atravessando de Copenhague
para Estocolmo, de navio. Pela manhã o navio chegou e
atracou. Foi encostada no navio uma longa escada rolante
para o desembarque confortável dos passageiros. À
frente da Lucília uma jovem mãe com um nenezinho no
colo e um carrinho cheio de coisas. Lucília pensou
logo: “Como é que essa mãezinha vai
dar conta de bebê e carrinho? É muito difícil...” Dirigiu-se
então à mãe ofereceu-se para ajudar. A mãe ficou
feliz mas fez-lhe uma pergunta: “A
senhora sabe o que fazer para tirar o carrinho da escada
rolante, lá em baixo, na chegada?” A Lucília não
sabia mas respondeu que sim. Assim, mão á frente, Lucília
atrás, a seguir alguns elegantes homens de negócio
impecavelmente vestidos, finalmente o
Jether. Tudo transcorreu normalmente até o
momento crucial quando a escada rolante chega ao fim e
é preciso tirar o carrinho. Para isso é necessário
que se levantem as rodas da frente para que entrem no
solo firme. A Lucília, que não sabia desse truque, não
levantou as rodas do carrinho. O carrinho empacou. Mas a
escada não parou. Ela caiu em cima do carrinho. Os
elegantes homens de negócio que vinham atrás cairam
sobre ela. Formou-se um bolo. O Jether, apavorado, teve
uma ideía brilhante: apoiou-se atleticamente nos corrimões
deslizantes, levantou as pernas e passou por cima do
bolo, saindo lampeiro em terra firme. Nesse momento foi
dado o alarme. A escada parou. Os funcionários
destravaram o carrinho e socorreram a . Lucília que se
levantou cheia de desculpas e os elegantes homens de negócio,
indignados, trataram
de se recompor de suas ridículas posições, catando os
chapéus espalhados pelo chão e alisando seus ternos
amarrotados. Infelizmente não havia ninguém com câmera
de vídeo para filmar. Até hoje morremos de rir quando
nos lembramos do acontecido. Parabéns, Lucília, pelo
seu aniversário.
Contarei o milagre mas não contarei os santos. Não
lhes pedi permissão. Eram um lindo casal de brasileiros
que faziam estudos avançados na Universidade de
Louvaina, Bélgica. Foram convidados para uma recepção
e lá foram eles elegantemente vestidos. Música. Danças.
Dançavam eles no salão quando notaram que os outros
casais paravam de dançar e formavam uma roda ao seu
redor, todos a olhar para eles. Pensaram: devemos estar
dançando muito bem. Aí capricharam nos passos para não
desapontar a platéia até que a música terminou. Ao se
aproximarem de um professor amigo ele lhes disse com um
divertido sorriso: “É
a primeira vez que vejo um casal dançando o hino
nacional da Bélgica...”
Essa coisa de ajudar as pessoas me faz lembrar a
estória dos dois escoteiros que se apresentaram ao
chefe para relatar sua boa ação do dia. “Ajudamos
uma velhinha a atravessar a rua”, disseram.
“Muito bem”,
lhes disse o chefe. “Mas
não entendo por que foram necessários dois escoteiros
para uma coisa tão simples como ajudar uma velhinha a
atravessar uma rua...” “Ah”, responderam os
escoteiros. “É
que ela não queria travessar a rua de jeito nenhum...
Uma jornalista me perguntou se eu era
“saudosista”. Não gosto dessa palavra porque ela
contém uma pitada de desdém. “Ele
é um saudosista” -
quer dizer que ele está fora do mundo, vive no passado.
Saudade eu tenho, é muita. Toda poesia tem uma pitada
de saudade. Saudade é a presença de um ausência. Na
saudade a alma deseja voltar a um momento de felicidade.
Todo mundo que teve uma vida emocionalmente rica
tem saudade. Quanto mais rica, mais saudade. Definiu bem
o Chico: “Saudade
é o reve´s do parto. É arrumar o quarto para o filho
que já morreu.” O
filho morto pode ser um filho morto,
um por-de-sol, um momento de ternura, um perfume, um jardim. Quanto mais
rica foi a vida, tanto maior é a saudade. Bem disse o
Manoel de Barros: “Tem
mais presença em mim o que me falta”.Só não tem
saudade aquele que viveu uma vida pobre.
Para encerrar a entrevista ela me pediu: “Como
é que você se definiria?” Êta
pergunta impossível de ser respondida! Porque definir,
como o próprio nome está dizendo, vem do Latim
“finis”, fim. Definir é determinar os limites. Mas
sei eu lá quais são os meus limites! Para respondê-la
eu teria de encontrar uma frase que não fosse definição,
que apontasse para o sem limites. Aí eu me lembrei da
frase que Robert Frost escolheu para sua lápide e disse
que aquela era a definição de mim mesmo: “Ele
teve um caso de amor com a vida.” Quero que estas
sejam as palavras na minha lápide.
As crianças me entendem melhor. Sabem que não sou
para ser levado a sério. Quando faço caretas terríveis
e falo grosso e bravo elas sabem que estou brincando.
Sou um palhaço. E riem. Os adultos não entendem. Tomam
minhas máscaras de palhaço como realidade e ficam
bravos comigo.
Aprendi um novo verbo: navarandolhar, que significa
precisamente “ na varanda olhar”: assentar-se na
varanda, sem querer fazer nada, totalmente entregue à
contemplação. As crianças são maravilhosas na sua capacidade de perdoar. Lembro-me de que, quando fazia alguma injustiça com meus filhos pequenos, eu ia na sua cama confessar o meu erro e pedir perdão. Os abraços apertados que me davam são inesquecíveis
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