Quarto de badulaques (XIX

      As crianças dizem coisas deliciosas. * O menininho viajava de avião pela primeira vez. O vôo partia à noite e ele nada viu. Logo dormiu. Quando acordou pela manhã, olhou para fora, o céu absolutamente azul para cima e, lá em baixo, nuvens brancas navegantes... Assustado, disse ao pai: “Papai, o céu  caiu lá em baixo...”  * A avó, que morava num sítio, estava recebendo a primeira visita da netinha que morava num apartamento. Levou-a à horta, coisa que a menina nunca vira. Agachou-se diante de um canteiro, retirou a terra fofa e arrancou algumas cenouras. Comentário da menininha: “ Você guarda suas cenouras num lugar esquisito. Em casa nos as guardamos na geladeira...”  * A menina, baseada em sólidos argumentos linguísticos, discordava: “Não, o nome não pode ser canteiro. Canteiro é um lugar de canto. Um lugar onde crescem as plantas deve se chamar planteiro...”  * Hora do jantar, o menininho de 5 anos tomava sopa. Fez então, ao pai, uma pergunta teológica: “Papai, onde está Deus?” O pai respondeu segundo o catecismo: “Está em todos os lugares meu filho”  Rápido o menino concluiu teologicamente: “Está então nessa colher de sopa que estou tomando? * O menino visitava a fazenda pela primeira vez. De manhã, todos ao lugar onde se fazia a ordenha das vacas, o leite jorrando espumante das exuberantes tetas do manso animal. Todos bebiam do leite quente. Chegada a vez do menino ele recusou o copo de leite e se pôs a chorar: “Não quero tomar leite de bicho. Quero tomar leite de saquinho...”

          Está em andamento um projeto de se produzir um livrinho com essas coisas interessantes que as crianças dizem. Se você tiver uma para contar, envie-a para Cristina Mattoso, e-mail  cmattoso@ieg.com.br. Ou, por carta, para o endereço  Alameda das Espatódias 219, CEP 13094-766, Campinas.

          Leonardo da Vinci foi uma dos maiores gênios da humanidade. Pintor, músico, construtor de instrumentos musicais, compunha, improvisava, arquiteto, escultor, imaginava máquinas de todos os tipos, inclusive voadoras, estudou os fósseis, a meteorologia, a anatomia, amava os cavalos. Pois fiquei sabendo que, além de tudo isso, ele se dedicava à culinária. No fiinal do século XV foi trabalhar na corte de  Ludovico Sforza, governante e protetor da cidade. Lá ele não só inventava utensílios culinários ( foi ele que inventou a tampa para as panelas ) como também coordenava eventos pantagruélicos. Aqui vão os nomes de alguns dos pratos que se serviam nos banquetes: crista de galo com miolo de pão, testículos de carneiro com creme e mel,  rabos de porco com polenta, pastelão de cabeça de cabra, sopa de rã, enguias cozidas, galinha recheada com uvas, sopa de caracóis, intestinos de truta. Quem quiser experimentar as receitas que compre o livro e depois me diga: Os Cadernos de Cozinha de Leonardo da Vinci, Rio de Janeiro, Editora Record, 2002.

          Ia eu dirigindo o meu carro, subindo a rua Sampainho, no Cambui, quando o meu caminho foi interrompido por um caminhão de coleta de lixo. A rua era estreita, não dava para ultrapassar por causa dos carros estacionados e fui então seguindo devagar, parando, enquanto os moços faziam o seu serviço. Não tive nenhuma impaciência e fiquei pensando na importância e humildade do que faziam, esses servidores anônimos. Ah! Se eles resolvessem fazer uma greve! A cidade logo compreenderia a sua importância. Mas, de repente a caminhão parou e um deles me disse alegremente: “Aqui vai demorar!” Respondi, rindo: “Pode demorar”. É que ali era um restaurante, restaurante chique, por sinal, e havia muito lixo. Aí eu me assombrei ao ouvir o barulho de garrafas de vidro batendo umas nas outras, dentro dos sacos plásticos negros: Perguntei: “O restaurante não separa os vidros,  os plásticos e as latas?”  “Não”, um deles respondeu. Pensei então que aquilo não estava direito. Falta de espírito ecológico, falta de espírito de cidadania, falta de respeito pela cidade. TODO RESTAURANTE DEVERIA SER OBRIGADO A SEPARAR O LIXO. Vieram-me, então, duas idéias. Primeiro, que a Câmara de Vereadores faça uma lei nesse sentido. Restaurante que misturar o lixo deve ser punido. Segundo, que aqueles que freqüentam  restaurantes façam uma greve contra aqueles que não têm esse gesto de cordialidade para com a cidade. E assim como há restaurantes que têm placas com o convite “Visite a nossa cozinha”, que haja placas também com o convite “Visite o nosso lixo”.

          E por falar em comida, há um Campinas um restaurante com um nome que me é querido: “Carro de boi...” Carro de boi está ligado à minha infância, me leva para o passado e para comidas rústicas – coisas de que gosto. Só há um probleminha – e o que vou dizer eu o digo com todo o carinho. Os donos do restaurante Carro de Boi mandaram um artista desenhar um carro de boi como seu símbolo. Mas o artista não se deu ao trabalho de procurar um retrato de carro de boi, para ver com é. Desenhou um carro de boi com quatro rodas... Carro de boi com quatro rodas não existe. Carro de boi só tem duas rodas. Veículos com quatro rodas são veículos para rodar em estradas planas, porque as quatro rodas precisam estar apoiadas no chão. Mas os carros de boi foram feitos para andar em pastos, trilhas, caminhos selvagens e esburacados. Um carro de boi com quatro rodas se partiria ao meio na primeira viagem! Assim, peço encarecidamente aos donos do restaurante que troquem o carro de boi de quatro rodas por um carro de boi verdadeiro, de duas rodas. Porque se assim não for, a comida vai sair errada...

          Fui ver o filme japonês Depois da Vida. Ele se passa num lugar de transição para onde vão as pessoas depois de morrer. É um lugar comum, pessoas comuns, vestidas com roupas comuns sem asas ou qualquer coisa que sugira o além. Imagine que você foi para um spa modesto. É isso. Os chegantes são cordialmente recebidos por um corpo de funcionários delicados e simpáticos que os informam que aquele é um lugar de passagem e que eles terão três dias para escolher a memória mais feliz da sua vida. Será essa memória escolhida que será levada para a eternidade. Tudo o mais será esquecido. Me fez pensar muito: minha memória mais feliz. Mas há tantas memórias felizes. Posso até imaginar que eu possa identificar a mais feliz de todas. Mas tantas pessoas queridas não estarão nela. Terei de me esquecer delas. Acho que eu não seria capaz de fazer a escolha. Há escolhas impossíveis, como no filme A escolha de Sofia, que me recusei a ver porque sabia a escolha horrenda que ela teria de fazer. Mas o filme me provocou a começar a viajar, pela memória,  pelas experiências felizes que tive.

          Linguagem, esse mentirosa: carros semi-novos, celulares semi-novos. Isso é uma mentira, enganação. Ou é novo ou não é. Há coisas que não podem ser “semi”:  semi-virgem, semi-grávida, semi-honesto, semi-bom...

          Apresentei-me á recepcionista da empresa e disse: Sou Rubem Alves. Tenho uma entrevista marcada... Ela me olhou e perguntou: De onde? Levantei o meu braço em curva e, com o indicador, apontei verticalmente para o cocuruto da minha cabeça e lhe disse: Daqui! Ela ficou espantada, achou que eu fosse louco. Essa pergunta, de onde?, que dizer: De que empresa? E traduzida em linguagem mais clara significa o seguinte: O senhor como indivíduo não existe. Mas o senhor passará a existir para a minha empresa quando disser o nome da empresa em que o senhor se encontra plugado.   Acho que  nunca  passara pela cabeça da recepcionista que houvesse pessoas que não estivessem plugadas a empresas, cuja identidade não dependesse do onde. Essa é a norma, ao telefone. Quando a inocente telefonista ( inocente porque esse procedimento lhes foi ensinado) me faz a pergunta de praxe eu lhes respondo: “De onde? Da rua Frei Antônio de Pádua 1521”. Ela se embaraça. E eu, de maldade, acrescento: “É no bairro Guanabara, Campinas...” Elas não são culpadas. Disseram a elas que fizessem assim. Mas essa simples pergunta revela um horror: vivemos no mundo em que as pessoas deixaram de existir como pessoas. Essa é a tragédia dos aposentados: estão desplugados de empresas. Portanto não existem.

          Outra, do telefone. Por favor, eu preciso falar com o delegado da Receita Federal... Pergunta a telefonista: Quem gostaria? Respondo: Gostaria? Eu não disse que gostaria. Na verdade, não gostaria. Eu preferiria não ter que falar sobre  imposto de renda... Eu só disse que preciso falar com o delegado, mesmo sem gostar.

          Terrível é quando nos deixam ao telefone enquanto, na espera, fica uma gravação falando sobre as maravilhas da empresa. Se demora, a gravação começa a se repetir. E eu não tenho alternativas. Tenho de ficar ouvindo, à espera de que o outro atenda. As empresas deveriam compreender que isso só causa irritação. Obrigar uma pessoa a ouvir o que ela não quer ouvir é grosseria.

          Fui informado de uma pesquisa que concluiu que gaúchos e paranaenses se suicidam mais que baianos. Não devia ser. Rio Grande do Sul e Paraná têm índices de qualidade de vida mais altos que os da Bahia. Alguém sugere uma explicação?

          Indo à feira de artesanato procure a barraca de um japonês que está lá a esculpir em madeira, o Hata Sama. Ele é o artista. A esposa é a “public relations”. Peça que lhe mostrem o sapo roncador e um curioso bastão roliço com um parafuso... Telefone 38698937.

Lendo  Murilo Mendes dou-me conta da minha indigência literária. Eu precisaria viver de novo para andar pelos mundos por onde ele andou. Mas infelizmente só descobri a literatura muito tarde. Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler a segunda porque já se sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para um mundo inteiro. Assim é o Transistor ( Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980 ),que me foi presenteado pelo Heládio Brito, um dos que me introduziram à literatura. Ler o Murilo Mendes é uma fonte inesgotável de felicidade.